Cotas para a literatura?

Conceição Evaristo em entrevistas ano passado asseverava, olhando pra ninharia de negros a compor os quadros da Flip, que era como se lêssemos uma nação incompleta. Não foi a primeira a dizê-lo. Sua crítica, à maneira daquela para o Oscar em 2015, era epicentro de uma acusação mais grave: a arte criada por negros é sub-representada nas grandes premiações e festivais mundo afora. E é difícil dizer que a crítica é descabida: se no ano anterior a Flip contava com o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o como uma das atrações principais, a completa ausência de negros na edição de 2016 levou Giovana Xavier, professora da UFPR, a chamar a Flip de "arraiá de branquitude".

A polêmica surtiu efeito. Da curadoria do ano passado para a deste ano, sob a batuta de Joselia Aguiar, conseguiu-se estipular, para a Flip que começou esta semana, um total de 30% de autores negros, entre eles a própria Conceição Evaristo. E não pense que com isto a discussão acaba, afinal de contas ainda poderíamos muito bem computar por exemplo a presença de mulheres ou homossexuais, e prova disso é que o evento ano passado, mesmo rompendo com um histórico de poucas mulheres em suas atrações, ainda assim foi alvo de críticas no quesito racial.

Pouco a pouco caminhando para o melhor dos mundos. Pelo menos até que um andarilho nos pare no meio da estrada para perguntar se não seria mesquinho de nossa parte pretendermos um tipo de justiça social justo lá, nas ruas pavimentadas de Paraty, onde a excelência literária deveria ser a única preocupação na cabeça dos turistas.

Mais ou menos. Numa rápida troca de artigos para a Folha ano passado, Laura Erber, respondendo a um artigo de Felipe Fortuna a respeito da fraca realização artística da autora homenageada aquele ano, Ana Cristina César, menciona que "A Flip mobiliza fortemente a mídia brasileira que cria a ilusão de uma importância que o evento não tem." Interessante, não? Um pouco depois: "A Flip não irá alterar substancialmente a maneira de ler essa obra [do autor homenageado], mas divulgará seus livros e sua imagem." É por isso que, para Laura Erber, cabe entendermos que a Flip não propõe "um encontro com a literatura, mas com a figura dos autores em breves aparições performáticas", dando ensejo, portanto, a uma "glamourização da literatura" capaz de criar "um certo desejo de literatura, algo como a ideia de que literatura deve ser bacana e preciso estar perto dela."

Não é meu propósito rediscutir os pontos levantados pelo artigo de ambos, mesmo porque já o fiz no passado. Antes, quero simplesmente ressaltar que a Flip não possui como mola mestra a excelência artística tão somente. Existe um propósito maior que envolve a movimentação de uma economia local e a quitação de uma planilha de contas gorda. Quer dizer: falamos de algo que busca captar as demandas do público e dar as devidas respostas. Se o público pede por mais diversidade étnica na escolha de autores, então a Flip deve pelo menos espichar os ouvidos, caso contrário correrá o risco de abrir a janela um belo dia e não se deparar com a multidão de leitores esfaimados por autógrafos.

Mas penso que não acaba por aí. As demandas por representatividade existem até mesmo quando falamos de premiações literárias, onde é inequívoco que o ditame da excelência está estampado na testa. Eu mesmo já fiz este questionamento, pensando em específico sobre o caso da literatura feminina. O ponto é simples: quando se observa que de maneira recorrente (e "recorrência" é o termo central) as mulheres ou os negros não são premiados, cabe se perguntar se eles não produzem literatura ou se, da literatura que produzem, nada seria de qualidade. Existem por óbvio entraves de naturezas diversas, a exemplo de quando cogitamos uma premiação que requer dos participantes que inscrevam suas obras, enviem uma quantidade de exemplares e às vezes até paguem certa quantia para que tenham sua inscrição homologada ― ou seja: se este é o funcionamento da premiação, então é sim razoável supormos que exista uma poda em relação a toda a literatura de fato publicada e produzida, mas, apesar de ser razoável pensarmos nesta poda, ela, embora seja uma explicação, não pode ser uma desculpa. O número permanece recorrente e a dúvida, quando simplesmente olhamos para o lado e descobrimos que mulheres e negros, pelo menos hoje, produzem literatura com maior liberdade, a dúvida subsiste e nos espezinha.

Minha resposta quando pus reparo no baixo número de literatura feminina premiada foi a de que isto demonstra uma falha de percepção por parte dos concursos nacionais, no sentido de que podemos pressupor, a partir de um punhado de estatísticas em ambas as mãos, que não captam ou não leem, caso queiramos ir direto ao ponto, a literatura produzida por tais extratos marginais. E se é assim, ou seja, se passa a ser possível e plausível que atribuamos uma falha destas ao mecanismo crítico de tais concursos, então estamos falando de um belo de um dedo na ferida, afinal de contas a percepção do fenômeno literário é momento fundamentalíssimo para que a atividade crítica seja exercida.

Todavia, penso que a mesquinhez aludida pelo andarilho não se esgota. A princípio poderíamos formulá-la no sentido de: quanto espaço devemos dar às minorias? Mas, sabendo de antemão que uma formulação assim padeceria do mal óbvio e evidente de que assumiríamos uma espécie de postura de donos da bola, descontentes em "ceder espaço" para um bando de militantes desmiolados que querem furar fila; então, sabendo de antemão que uma resposta assim seria dada, sem que com isto ela se torne injusta, afinal de contas não é nem nunca foi uma questão de "ceder espaço" (e por isso as aspas), mesmo porque o espaço não precisa ser cedido e portanto reduzido mas sim conquistado; então, poderíamos reformulá-la e chegar a algo como: que índices ou que proporção é desejável alcançarmos a fim de que façamos justiça à produção literária? Ou, o que muda a questão: a fim de que façamos justiça à diversidade de nossa sociedade?

Pois bem. Existem alguns pontos a serem levantados logo aqui. Fazer justiça à produção literária não é necessariamente fazer justiça à diversidade que existe na sociedade. Disse anteriormente que hoje as mulheres e os negros possuem mais liberdade na hora de produzir literatura, mas, se isso é uma verdade hoje, basta nos lembrarmos que há meio século atrás o panorama era muito distinto. Há meio século atrás, pra se ter uma ideia, ainda era possível encontrar quem usasse um vocábulo inócuo como "poetisa" no sentido pejorativo. Sendo assim, se considerarmos que, do número de autores publicados num determinado período de tempo, um quarto apenas seja de mulheres, e se considerarmos, ainda, que a sociedade desse mesmo período é composta em sua metade por mulheres, então pensarmos uma espécie de razão áurea para a representatividade social com base na produção literária nos levaria a um valor distinto daquele advindo da diversidade social.

Ademais, devemos nos recordar que as demandas se entrecruzam. A Flip do ano passado, eu disse, possuía um número, digamos, satisfatório de mulheres. Sei que para alguns pode não parecer o suficiente mas suponhamos que sim, era um tanto bom. Ora: o número de negros, todavia, não foi. E, como sabemos quando o assunto lida com setores da militância social, nem isto quer dizer que as críticas tenham acabado, afinal de contas na Flip deste ano caberia nos questionarmos se é suficiente o número de homossexuais ou de autores vindos da periferia, ou mesmo de outras regiões geográficas do país ou do globo.

Parece impossível corresponder a tantas demandas e manter o número de cromossomos em dia. Afinal de contas fatalmente chegaria um momento onde poderíamos inventar uma figura fictícia que seria a última bolacha do pacote a ser representada em festividades literárias: por exemplo a menor mulher do mundo retratada pela Clarice naquele conto. Para o organizador do evento uma enxurrada de críticas a cada gesto é o inferno na terra. Mas, claro, isto não pode acarretar um ranger de dentes, mesmo porque é claro que um evento como a Flip, pelo simples fato de que tem os holofotes voltados para si, sofrerá críticas de todos os lados. Citei a militância social mas não se engane: conservadores, liberais, monarquistas e terraplanistas também fazem esse tipo de crítica debaixo dos panos. A diferença é ritualística, ou seja, ao invés de se pedir por mais cristãos pede-se por menos esquerdistas, e a diferença é que a militância, além de parecer mais organizada, insistente e em muitos casos mais barulhenta, também embrulha a "representatividade" num papel diáfano e abstrato e com isto se destina a ser um lobo infinitamente uivando para a lua.

Tentarei formular melhor este último ponto. A, confesso, reductio ad absurdum que propus há pouco dizia que se a Flip do ano passado representava bem as mulheres mas não os negros, e se a deste ano faz os dois, nada impede que críticas sejam feitas no sentido de que não representou os homossexuais. Se as demandas estivessem dispersas pura e simplesmente, então poderíamos ir completando as tarefas aos poucos até o momento em que pudéssemos por um sorriso na face zangada dos militantes. O problema é que, como a demanda é feita em prol da noção muitas vezes abstrata de "representatividade", parece que independente do que a gente faça sempre existe um lado da realidade pouco representado, no que, portanto, atenderíamos a uma demanda que não cessaria nunca. Ora: a razão de ser da representatividade é dar mais voz e espaço a minorias. O problema é que mesmo a noção de minoria carrega consigo a noção de coletividade, de modo que delimitar o que seria minoria e o que seria fenômeno ínfimo coletivamente falando não parece tão simples. O todo da sociedade sempre poderia ser fracionado em categorias cada vez mais minúsculas, em minorias cada vez mais minoritárias. Tivemos negros este ano, mas e quantas mulheres negras? E quantos homossexuais negros? E quantos homossexuais negros e judeus?

Não quero sugerir que a militância social realmente possa chegar ao ponto de algum dia defender uma minoria de autores espíritas, canhotos, míopes e albinos. Seria, mais uma vez, incorrer na falácia do reductio ad absurdum. No entanto, penso que ela pode mostrar como a demanda por representatividade não raro perde os pés do chão, imersa que está numa vertigem problematizadora infelizmente muito comum em setores da esquerda. E se for assim, então a pergunta do andarilho não possuiria uma resposta, pois, se tal vertigem realmente existir, então nós jamais estaremos contentes.

Mas não creio que devamos chegar a tanto. Há uma variação sutil que nem sempre as críticas à militância social, imersas numa vertigem problematizadora a seu modo, querem aceitar. Não é que pretendamos a construção de uma tabela ideal de representatividade a ser seguida anualmente pelas premiações literárias. O que se pede é muito mais que uma mudança de atitude seja feita, uma mostra, uma deixa, uma menção ou um reconhecimento de que os pontos levantados são relevantes e que a preocupação pela diversidade ou no mínimo uma desconfiança perante a recorrência de um padrão homogêneo é uma preocupação válida. Joselia Aguiar, em entrevista, ao ser perguntada a respeito da proporção de autores negros convidados para a Flip, negou que tenham havido "cotas": "Quando as pessoas pensam que houve cotas, fica parecendo que eu reservei um lugar, e não era o caso. O que eu fiz: comecei a pensar nos autores negros, nas autoras negras, e brancos e mulheres e homens..."

É meio vergonhoso pressupor que pelo fato de que temos 30% de autores negros nós, por conseguinte, tenhamos estabelecido cotas. Parte disso se dá graças a uma maledicência preconceituosa de quem cogita a questão, como se toda essa carreata de negros só pudesse chegar a Paraty graças a uma mãozinha institucional, mas parte, há que se reconhecer, também decorre do fato de que a política de cotas verteu um pouquinho desse veneno nos tímpanos da sociedade. De todo modo, a suposição não tem cabimento algum, afinal de contas não é que alguém na alta cúpula da Flip tenha colocado em pauta a estipulação de cotas, mas apenas que, digamos, a organização tenha folheado outras páginas do grande catálogo da literatura contemporânea. Algo como dar uma olhadela para o lado e descobrir que escritores negros têm produzido uma obra relevante que pode sim ser muito bom trazer para terras brasílicas.

Além disso, mesmo que pensássemos em cotas a coisa não resolveria. Já dei esse argumento há um bom tempo atrás, mas, para repeti-lo, significa dizer que a ideia das cotas para o cânone representaria apenas uma mudança capilar, como se, pregando o retrato de grandes bardos homossexuais no corredor da fama nós tivéssemos operado por conseguinte uma mudança nas estruturas mais profundas da crítica, o que nem sempre é verdade. Você pode continuar ignorante da literatura homossexual feita por seus contemporâneos e louvar, de maneira somática, um ou outro gay do passado. O resultado é previsível: ao ser indagado porque motivo poucos homossexuais dão as caras em suas resenhas, você comodamente responderá que não se preocupa em ler um autor apenas porque ele beija de língua outros homens, mas sim porque é bom ― o que implicitamente (e daí a comodidade do argumento) dá a entender que poucos homossexuais produzem boa literatura hoje, sem que jamais passe pela cabeça do amigão da vizinhança a hipótese de que na verdade seja ele mesmo que pouco se informa sobre literatura contemporânea, tão encabrestado está ao que as grandes editoras depositam na sua caixa postal.





Pensar a literatura é pensar uma dupla democracia. A primeira delas diz respeito a uma democracia de acesso à literatura. A expressão não se resume a uma propaganda partidária onde todo cidadão brasileiro, representado por um ator caucasiano com dor na coluna e uniforme de operário, tenha uma estante abarrotada de brochuras. Falo de algo mais amplo que envolve o tornar-se escritor e o divulgar sua literatura.

Pois, como sabemos, o trabalho de formação de um escritor é tão demorado quanto o trabalho de se formar um magistrado ou um neurocirurgião. Na verdade pode ser muito mais, se considerarmos que a paixão pela escrita comumente dá as caras na infância e só se livra do hospedeiro no leito de morte. Logo, democracia de acesso à literatura envolve a possibilidade de que a pessoa invista todo esse tempo e esforço e suor e lágrimas no processo de se tornar um romancista, um poeta, um dramaturgo, um ensaísta. Na prática, democratizá-lo é o mesmo que afastar empecilhos do caminho, fazendo com que devam ser erradicados aqueles subterfúgios violentos que nossos antepassados utilizavam para afastar as mulheres ou os negros da escrita, tanto com relação àqueles que chegavam à crueza de negar qualquer tipo de arte a minorias, quanto no daqueles que, mais sutis, negavam o uso de certas técnicas literárias ou a abordagem de alguns temas. Além disso, cabe trazermos à mente a imagem de nossa amiga Virginia Woolf lembrando que "a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction", o que, por óbvio, amplia e muito o âmbito de alcança da discussão, afinal de contas se considerarmos que uma mulher trans não consegue sequer fazer suas necessidades fisiológicas em paz sem que corra o sério risco de ser moída de pancadas, então é claro que não podemos exigir das mulheres trans que incubem uma nova Cecília Meireles. Existe uma bela duma escada que, invisível para muitos e apelidada de "privilégios", veda, obstrui e tapa a passagem para uma parcela da sociedade.

Depois nós temos o que eu falei a respeito da divulgação. Mas aqui cabe salientar que não se trata de desenvolvermos uma política pública que garanta uma porcentagem mínima de divulgação em festivais, premiações e rodoviárias. Mesmo que algo do tipo viesse a ser cogitado por algum deputado descartável, provavelmente seria concretizado não como um pedacinho celeste da utopia comunista, mas sim como uma lista ainda mais odiosa de editoras apadrinhadas pelo governo que, assim, adicionariam em letra caprichada mais um lindo capítulo para nosso imperecível compadrio. Quando falo de divulgação, por óbvio não estou me esquecendo que a circulação de mercadorias literárias, como de resto toda mercadoria, se dá na base do interesse que aquilo desperta nos consumidores, ou seja, no valor que aquilo ali representa para mim a ponto de me fazer meter a mão no bolso e ficar alguns reais mais pobre para adquiri-lo. Mais uma vez, falo simplesmente no ato de retirarmos empecilhos do caminho, sejam eles a própria máquina pública, sempre tão ineficiente quando o assunto é o mercado, sejam eles aquela utilíssima amnésia coletiva que faz com que os leitores se esqueçam que negros e homossexuais também produzem literatura.

Claro que aqui temos alguns pontos a serem feitos. Não se pode transformar a representatividade num imperativo categórico nem, pior ainda, achar que com o vocábulo em punho sairemos por aí canonizando pseudoromancistas intrépidos. A discussão dá muito pano pra manga e não sei se conseguiria abordá-la de maneira integral, mas, de todo modo, gosto muito de me lembrar de Alcir Pécora uma vez dizendo que uma literatura não pode se fazer de recém-nascida. Ela não pode fingir que existiu fora das contingências histórico-sociais e da tradição literária como um todo. Você pode sim estudar por exemplo uma tradição da literatura negra ou da literatura feminina, lendo e relacionando de maneiras quase sempre inovadoras e instigantes a obra dos autores envolvidos, mas não pode, a partir disso, se esquecer que essa tradição é um recorte e não pode se sustentar a todo instante e de todos os modos por conta própria.

Pelo simples fato de que garras preconceituosas infelizmente afastaram inúmeras mulheres de talento das sendas literárias, mulheres que produziriam obras de grande fôlego se possuíssem o espaço necessário para que com muito esforço abrissem as asas do gênio artístico; pelo fato de que garras preconceituosas abateram estas promessas espalhadas pela história, então não posso achar que o número de mulheres será sempre equivalente ao número de homens canonizados. O número não vai fechar: a atividade literária historicamente foi uma atividade masculina. Não será muito útil pincelar uma obscura romancista do século XIX que publicou uma obra de temática relativamente chocante e querer, com isto, transformá-la na grande injustiçada do quadrante, passando vista grossa no critério da excelência artística como algo além de uma simples corporificação temática. Se num domingo chuvoso eu decido reunir todos os escritores da literatura ocidental até, digamos, o século XVIII, e se numa folha escrevo os nomes de todos os autores homens devidamente canonizados e, numa segunda folha, os nomes de todas as autoras mulheres, mesmo aquelas francamente ruins, a forte impressão que me fica é a de que um esforço hercúleo e ingênuo de cabo a rabo em canonizar todos os nomes da segunda folha ainda assim não chegaria a estabelecer uma equivalência numérica com todos os nomes que constam na primeira.

Ponto. O que se pode fazer é não permitir que autoras relevantes sejam esquecidas e, no âmbito da literatura contemporânea, buscar romper o cômodo silêncio "imposto" à literatura feminina. Mas atenção às aspas. Mencionei anteriormente a ideia de uma utilíssima amnésia coletiva. Ou seja: leitores de todos os tipos, com estantes planejadas ou enferrujadas, leitores que usam marcadores de página ou que dobram a ponta da folha, que preferem brochuras com orelha ou sem, que compram ou não um livro pela capa; leitores de todos os tipos leem poucas mulheres, e de dois, três anos pra cá se tornou comum que se colocassem na frente das câmeras e gravassem vídeos chorando suas pitangas e prometendo daqui pra frente melhorar. Por que motivo? Amnésia. Esquecem-se de ler. Nunca deu na veneta procurar ou mesmo se aperceber disto. É uma prática naturalizada. O machismo entranhado, poder-se-ia dizer.

Será? Mais ou menos. Se de fato existe alguém que não lê mulheres de maneira deliberada, alguém que acha que lugar de mulher é fazendo torta de amêndoas, penso que é um tipo de caricatura a princípio existente só no atlas de animais fantásticos. Sim, as pessoas se esquecem, e o fato de que esquecem não quer dizer necessariamente que sejam uns machistas enrustidos. Ora: como dito há pouco, a história da literatura foi uma história masculina, branca, heterossexual and so on. As coisas só começaram a mudar recentemente, coisa de, digamos, meio século pra cá. Assim, tendo em vista que um leitor dificilmente lê só o que foi dado a lume de cinquenta anos atrás até hoje, é razoável sim que ele leia mais homens do que mulheres. É o que está disponível, ora essa. Elaine Showalter já dizia, referindo-se à literatura anglófona, que até o século XIX o que se entende por literatura feminina foi algo intermitente. Amontoe todos os livros publicados por homens até meados do século passado e aqueles por mulheres. É óbvio que a pilha masculina será maior, muitíssimo maior. O motivo? Os piores possíveis, eu já disse.

Hoje, de fato, as coisas mudaram. Logo, se falamos de literatura contemporânea, então já não faz mais sentido que a desproporção seja encarada com naturalidade. E esse é o ponto. Existe uma demanda sutilmente distinta quando pedimos para que se leia mais mulheres nos referindo ao todo da literatura ou à literatura contemporânea. Pois enquanto no primeiro caso nós leremos para esmiuçar e estudar melhor o que chamaríamos de uma literatura feminina, o que fatalmente envolve a consideração de nomes menores (sem que isto implique obtusidade na visão crítica, afinal de contas estudar autores menores é algo que eu também faria se tivesse de estudar a literatura árcade), ou então leremos para que não deixemos que nomes femininos relevantes sejam esquecidos, no segundo caso contamos com uma página em branco onde nós, enquanto agentes históricos capazes de arregaçar as mangas e mudar o curso das coisas, buscaremos escrever uma outra história.

Neste sentido é que não se pode concluir que o silêncio em torno à literatura feminina decorra apenas do machismo. Até concordo que a forma como o naturalizamos seja em decorrência, ou seja, a maneira como compramos o argumento da excelência e o atrelamos a um tipo de universalidade que parece muito natural quando a foto do autor na orelha do livro é a de um homenzarrão barbudo. Relega-se, assim procedendo e de maneira implícita, a escrita feminina a um tipo de exotismo que precisa de um longo depoimento e de um longo interrogatório antes que consiga fluir com a mesma naturalidade masculina, de modo que pitadas de erotismo num soneto petrarquiano são sempre cósmicas demais quando a amada é uma musa impassível qualquer, bem ao contrário de quando um homossexual resolve, com a mesma dosagem de erotismo, louvar o corpo do rapaz amado.

A partir daqui posso voltar os olhos para a segunda democracia que mencionei. É aquilo que Chesterton chamava de democracia dos mortos. Ou seja, não são apenas os vivos que despejam sua arenga; os mortos também possuem voz. Trocando em miúdos, a tradição continua viva e deve se manter viva, de modo que a democracia de acesso à literatura não pode se confundir com um otimismo exagerado e cego de achar que podemos laurear qualquer um apenas porque possui um fenótipo conveniente. A pessoa deve ter liberdade plena ao adentrar o terreno literário, ali, pelo menos ali vendo-se livre de qualquer tipo de empecilho que haja sido posto com o fito de desencorajá-lo a trilhar aquela senda. Contudo, isto não quer dizer que a noção de excelência haja sido democratizada. A excelência não é democrática quando consideramos o que Chesterton disse com a democracia dos mortos: ou seja, só conseguiremos realmente instituir uma democracia dos valores literários se calarmos a voz da tradição, o que, além de amputar de maneira fatal a literatura, redundaria numa fábula que, como disse Alcir Pécora, não existe.

Naturalmente que com a noção de excelência eu não quero dizer que a obra deva possuir tais e tais qualidades. Não pretendo estipular um conceito específico do que seja a excelência, embora julgue que a definição de Pound da literatura como linguagem carregada de sentido em seu mais alto grau seja uma definição que chegue perto do que genericamente entendemos a respeito do assunto. Preocupo-me, antes, com o que Paulo Franchetti uma vez chamou de demissão da crítica: a excelência é banida e não é mais buscada, seja lá que diabos a pessoa entende por excelência. Afinal de contas, não posso dizer que a crítica morreu porque as pessoas gostam de escritores que eu não gosto. Sei que é muito comum fazer esse tipo de reclamação quando estamos na adolescência ou quando não criamos o hábito de tomar banho de sol; todavia, a crítica e, mais amplamente falando, o edifício literário se vê em risco é quando a noção da excelência é banida ou é tida como secundária, prescindível a ponto de já não ser buscada. Posso julgar que uma obra boa é aquela que revoluciona a linguagem, ao passo que meu vizinho julga que é aquela que trata de temas universais. Enquanto nós dois mantivermos viva a noção de excelência presidindo nossa vida enquanto leitores, então ótimo, nossos embates envolverão sempre uma troca de socos, de farpas ou de opiniões, mas, pelo fato de que pelo menos envolvem uma troca, manterão a literatura devidamente oxigenada, afinal de contas é no ato de cada um buscar pela excelência que novas obras são lidas, outras são relidas e algumas descartadas. Agora se tanto eu quanto ele julgamos que o valor é secundário e que pode ser retirado como se fosse uma verruga que com o produto farmacêutico certo aniquila-se, então estamos com problemas graves, pois, com isto, a literatura perde um sustentáculo poderoso, e, ao contrário do que ingenuamente se supõe, não é que com esta demissão da crítica se tenha aberto espaço para que a paz universal adentre e as pessoas deixem de lado as brigas incômodas sobre livros e outras picuinhas, mas, porque não existe vácuo nas relações críticas, o que se abre é um espaço que será ocupado por instâncias de legitimação que não precisam dar um porquê para os leitores, fechando as comportas para que outras leituras habitem aquele setor, de modo que se antes possuíamos um ou outro crítico que estufava o peito e se achava o rei do pedaço, agora temos premiações literárias e editoras e pseudoresenhas lançadas na imprensa que também estufam o peito, com a diferença de que enquanto com o crítico de outrora bastava uma voz contrária para que seu castelinho de cartas desmoronasse, agora estamos falando de algo que ergue uma muralha de aço batido, afinal de contas com o crítico eu podia rebater o argumento no parágrafo sete do texto saído semana passada ― mas e com a banca de uma premiação, como indagar sobre a atribuição do cheque milionário para alguém se essa mesma banca é soberana e dá o cheque pra quem quiser?

Até entendo o raciocínio de quem queira banir a excelência da literatura. Podemos pensar nos leões-de-chácara de sempre, embora, como dito, quanto a estes o melhor remédio é justamente mais crítica e não menos crítica, afinal de contas tudo o que precisam é que os animais da floresta se calem para que assim rujam seus impropérios de alturas cada vez mais incríveis; todavia, podemos também imaginar que a excelência seria excludente ou, se quisermos um vocábulo mágico, que ela é elitista. Parece fazer sentido, pois se digo que alguém é excelente e que merece loas, o que fazer com o outro coleguinha, às vezes tão oprimido, às vezes tão esforçado, que não consegue escrever nem um só hemistíquio que preste?

Bem. O que podemos fazer é retirar todos os empecilhos que atravanquem sua carreira como escritor, tal como dito. Mas nada além disso, mesmo porque o mundo não é um eterno jardim de infância onde a cuidadora deixa todo mundo brincar com a marretinha de plástico. Dar oportunidades a todos não significa uma maneira forçada de bater palmas ou de enxergar na excelência literária um conluio entre machistas enrustidos. A tese do preconceito estrutural ou da doutrinação ideológica são muito mais frágeis do que seus entusiastas querem aceitar que são. Um livro ruim, escrito seja por um camarada esnobe, um camarada humilde, um negro, uma mulher ou um dragão-de-komodo, um livro ruim, mesmo se considerarmos a variedade de concepções do que seria "ruim" (se pouco revolucionário, se pouco elegante ou se pouco cativante), não se torna bom quando é acrisolado num longo texto que em momento algum realça seus méritos artísticos ou quando protagoniza um evento onde o mérito é medido pelo grau de obstáculos que o autor teve de vencer até assinar o contrato com a editora. Não me entendam mal: o exemplo pode ser lindo e estimulante, mas isso é só até onde a biografia toca. O máximo que podemos fazer é que o debate crítico seja utopicamente amplo e permita que qualquer um opine, nem tanto para que assim descubramos um ponto fora da curva que acha o livro bom (o que pode não significar muita coisa para a reputação literária do autor se a maioria, ou pelo menos a parcela abalizada desta maioria, ainda assim achar ruim), mas pura e simplesmente para que opiniões sejam trocadas, para que a literatura como uma noção e mesmo como um valor coletivo, um nó energizado pelos séculos, permaneça relevante, relevantíssima.





Não sei se tergiversei demais, mas são alguns apontamentos que rondavam minha cabeça. É maldoso e injusto pensar que a Flip deste ano estabeleceu cotas para negros. A representatividade em grandes eventos não é conversa furada e nem precisa atentar contra a torre de marfim do cânone artístico, pelo menos não se tivermos em mente um depoimento tão emocionado quanto o que Diva Guimarães deu nesta Flip, onde se nota de maneira mais do que clara a importância da literatura na vida de alguém. Nada, contudo, que justifique espasmos irracionalistas e menosprezos implícitos, confundindo a desconstrução de padrões (sim, meus caros, eu também sei imitar o jargão) com o transformar análise crítica em condescendência em estado larval. Varra os obstáculos do caminho, elogie quem deve ser elogiado e, pelo amor de Deus, desconfie do que for normal demais. Não pode ser tão difícil.

Já o disse: quem demanda mais representatividade na literatura nem sempre exige uma proporção áurea, mas sim que venhamos a dar mostras de estarmos mais atentos à realidade da literatura produzida hoje. Demanda-se, em suma, uma mudança de atitude. Se ela for feita, e se um diálogo puder ser estabelecido, o que é absolutamente desejável, então creio que ambas as partes ficam satisfeitas. Sei que existem setores da militância que não fazem a menor ideia do que seja a literatura produzida hoje, ou mesmo o que seria e como funciona a tal da literatura. A sensatez, que deveria guiar cada ato de nossa estadia terrestre, não parece ser um atributo de quem torce o nariz só porque se deparou com um narrador misógino. É como se essa galera não soubesse direito o que fazem com aquele paralelepípedo de celulose que comprou na livraria. Precisam de um manual de instruções mas tudo do que se lembram é de um arsenal de críticas sociais seladas a vácuo. Enfim. Como já dizia o velho Yeats, they do not like poetry; they like something else, but they like to think they like poetry.

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