Saia.

Conta a lenda que toda noite de lua cheia o articulista expõe para os viajantes incautos o seu medonho tique nervoso. Mas veja bem: não aquele tique que é socialmente mal visto, à maneira de você incrustar vogais após consoantes mudas. É pior ainda. Sabe quando as feministas roubam nosso sorvete de casquinha e então abrimos o berreiro reclamando que agora não dá nem pra alisar o casaco de couro dos nossos escritores favoritos em paz? Sou capaz de apostar que em cabecinhas mais obscurantistas a minha figura, a certa altura do texto, será vista de maneira parecida, com alguns chifres despontando da testa e o globo ocular revirando. (Não que eu me importe, claro.)

Vou quase que literalmente desenhar pra você. Abre-se um jornal para apreciar as badalações culturais da pós-modernidade quando se depara com... (Suspense, por favor.) Donna Tart, apresentada algumas vezes como Thomas Pynchon de saia (edição 2024), outras como um protótipo gauche de um Dostoiévski e Dickens de saia (2057). Emily Dickinson, por sua vez, ainda no meio de toda essa aventura, é Walt Whitman de saia (2180, 2115 e 2025), Shakespeare de saia (1892). Peggy Roche, Sartre de saia (2167). Shirley Hazzard, Henry James de saia (2166). Svetlana Aleksiévitch, Alexander Soljenítsin de saia (2133). Clarice Lispector, Machado de Assis de saia (2132). Virginia Woolf, Hemingway de saia (2070). P. D. James, Chandler de saia (2056). Alice Munro, Tchekhov de saia (2019). Joyce Carol Oates, Updike de saia (2009). Moema de Casto Silva Olival, Antonio Candido de saia (1991).

Não importa que a mulher tenha escrito uma obra brilhante. Não importa que ela tenha tido uma poética que é praticamente o oposto da do homenzarrão ali por trás. Não importa que ela tenha publicado seu primeiro livro quase dez anos antes. A regra na cabeça do articulista é muito clara: isso no meio das suas pernas é uma vagina? Porque se for, então você vai ser confrontada sim senhora, vai ser reduzida a um escarro masculino.

O motivo é uma coisa obscura. Você gasta um ano sabático todinho só deitado no divã tentando entender. Aprendeu em que ponto perdido da galáxia um truque de mágica tão mequetrefe desses? A expressão é popular, mas, como "macacos me mordam!" também é e como a expressão é usada num contexto específico de apresentação das fêmeas que adentram a sala de estar; então eu suponho que o articulista deva ter lido em algum lugar e achado bonito. Não quero crer que a glória de ter feito toda essa lambança seja só dele. Não é possível.

Ou às vezes ligou os pontos e pensou que seria bom que o leitor do jornal pudesse apalpar a silhueta feminina diante de si. Ele precisa se aclimatar, não pode pensar que o jornal fala um dialeto distante do nosso "macacos me mordam!" de cada dia. Faz todo sentido. Meu amado leitor precisa saber quem é a srta. Aleksiévitch. Nome difícil, nome difícil... Que fazer? Eu, ao invés de colocar "vencedora do Nobel ano passado", ao invés de colocar "esplêndida prosadora", "grande artista", "escritora notável", "mulherão", tenho a ideia genial de colocar Soljenítsin no meio. Só assim pro leitor dar um tapa na testa e exclamar: "Ora, mas é claro!"

Mas pode ser também que o articulista pretenda mostrar astúcia. Afinal de contas, quando se tem uma estante abarrotada de livros é normal que você queira mostrar pras visitas que já leu aquilo tudo, do Oiapoque ao Chuí, e, como forma de demonstrá-lo, estabelece uma conexão inesperada entre o cavaleiro de armas brancas do livro da prateleira de cima com o silogismo trancafiado na brochura marrom lá no rodapé do aposento. Supõe-se que deve ser uma experiência e tanto embarcar na locomotiva e gritar aos quatro ventos que, sabiam?, sabiam?, Alice Munro é uma autora muito parecida com Tchekhov!

Chega a ser comovente.

Mas, claro, estou espumando de bílis. Não quero condenar o trabalho do articulista, que no seu todo é louvável. Em muitos dos textos o que observamos é uma preocupação sincera em fornecer quitutes culturais saborosos para seus consumidores, sintonizando-os com algumas belezuras que o próprio articulista andou lendo, sempre de forma voraz, nos últimos dias. Todavia, não é nada que o isente de críticas, ainda mais quando notamos um cacoete tão odioso de maneira tão recorrente. E veja que eu nem estou considerando os respingos da presepada, por exemplo quando o articulista rodeia a expressão infeliz com palavras como "uma espécie de" ou "quase um".

Exagero se disser que se trata de uma maneira de suprimir a escrita feminina? Não acho. Joanna Russ, num livro divertido e inteligentíssimo, mostra pra gente que você nem sempre suprime a escrita feminina por meio da via enfática, negando, em público, que mulheres possam se sentar um pouquinho para colocar cesuras na quarta e oitava sílabas do verso. Do mesmo modo que o machismo nem sempre se manifesta no agressor com o punho erguido, maneiras enviesadas de ler a literatura feminina nem sempre surgem de forma tão grotesca assim. Às vezes é num simples detalhe que você percebe o como, para o articulista, nem mesmo o fato da moça ter sido ninguém menos que Emily Dickinson é o suficiente para que tenha direito a no mínimo um nome próprio sem o cinto de castidade dos epítetos.

Me parece sinceramente incompreensível que alguém pretenda ser levado a sério quando filia, na base da coleira mesmo, duas práticas poéticas tão distintas quanto:

        O Elísio é tão longe quanto
        O mais próximo Aposento
        Se ali um amigo aguarda
        A Queda ou Contentamento -

        Isso e tudo mais eram pra mim o mesmo que eram pra você,
        Eu amei demais essas cidades, amei demais o rio rápido e majestoso,
        Os homens e mulheres que vi estavam todos perto de mim,
        Outros o mesmo ― outros que se voltam e olham pra mim pois que olhei em frente e os vi
        (O tempo virá, muito embora eu pare aqui hoje de dia e de noite.)

Em voos mais altos, vincular mulheres a tradições que somente a muito custo elas são filiáveis é o mesmo problema crítico de querer interpretar um poema árcade com os cílios históricos de um modernista caçando os mais puros mitos indígenas do quadrante. O sintoma inicial é que as pernas ficam bambas e o articulista deixa de se importar com a conexão literária sólida para instigar, apenas, uma centelha de erudição a qualquer custo. Com muita facilidade, porém, nós podemos evoluir para estágios mais patológicos onde, de acordo com nossa amiga Joanna, o crítico julga que a obra produzida por uma mulher só é válida se acoplável a uma emérita tradição masculina ou qualquer coisa de abstrato que se inicie com maiúsculas. O desfecho é previsível: reduz-se corriqueiramente a obra da escritora a um apanhado de acertos que o crítico de maneira esquiva batiza de "pura sorte", "viram só, feministas?" ou "cometa Halley" (de saia). Há também o final alternativo: aquelas características que nos permitiriam traçar uma linha de força própria à literatura feminina; esse tipo de rastro é apagado em prol dos benefícios que alegadamente uma carteirinha no clube de pesca do cânone é capaz de oferecer.

Não creio que o articulista tenha chegado a tanto ou mesmo que algum dia venha a chegar. Os sintomas da febre vetusta não atuam apenas no sentido de desfigurar a obra daquelas escritoras que foram embalsamadas a ponto de não exalarem mais qualquer odor de terra molhada ou de suor humano. O problema é quando, de maneira sutil, as garrinhas de filiações errôneas e forçadas se infiltram e atrofiam a capacidade de encarar a obra dos outros, ou seja, quando nós fechamos o romance da Jane Austen, que já é conhecida nossa, e resolvemos abrir o livro de uma outra qualquer, que está no estágio mais seco de domesticação, quando sua realização artística, independente do alcance a que tenha chegado, é ofuscada pelo brilho maior da narrativa da dona de casa zelosa, da feiticeira dos quitutes ou da meretriz injustificável. Aquele tipo de pegada que apagamos quando deixamos de filiar, ainda que de maneira secundária, ainda que como uma opção ou simples exercício possível ao caminho da roça de sempre; aquele tipo de pegada e trilha, portanto, que deixamos de percorrer quando nos valemos das fórmulas esclerosadas do [Insira-um-Nome] + De-Saia, é esse tipo de vereda que muitas vezes nos impede de apreciar de maneiras novas e não raro mais adequadas a produção de mulheres que são ignoradas de forma olímpica apenas porque trataram a experiência feminina de maneira (alega-se) provinciana demais, sem uma técnica (alega-se) revolucionária (leia-se: viril) o bastante.

Novamente, não me preocupa apontar o dedo e denunciar que o coleguinha já chegou naquele estágio da doença em que se jorra uma lufada de pus pela garganta. Claro que nenhuma das ressalvas que eu fizer mudará o fato de que para alguns os chifres já se assentaram em minha testa. Porém, não creio que se trate de algum disparate. Não forço a barra de jeito nenhum. O tipo de formulação que o articulista faz é pobre. É o ponto mínimo de que parto. Pode ser simplesmente uma infelicidade repetida, mas, a partir do instante em que a interpreto como um nítido espasmo machista, então, considerando também que ela é recorrente e parece se revestir até mesmo de um tom triunfal durante a escrita do texto (especialmente quando notamos que a fórmula surge com frequência nas lides e nas chamadas), então acho realmente implausível que o convívio com construções textuais tão cancerígenas não cause nenhum mal à saúde crítica do indivíduo. Pelo jeito nós só podemos orar.

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