Candido.

É até meio difícil iniciar isso daqui. Existe um jeito certo? Começo falando da infância, da juventude, da idade adulta? Mas não foi isso o que a Ana Luísa Escorel fez naquele livro tão bonito dela? Sim, foi isso mesmo. Ela conta aquele tipo de coisa incrível, inacreditável que foi ser filha de Antonio Candido e Gilda de Mello e Sousa. Consegue pensar? O livro tem uns mecanismos habilidosos. Leia isso daqui:

Entrava no escritório do pai quando bem lhe aprouvesse, e ele nunca disse que estava ocupado e nem pedia para ela ir embora. Parava o que estivesse fazendo e atendia. Fosse ensaio, artigo, estudo sobre caipira ou sobre a formação da nossa literatura, análise de tese ou correção de trabalho de aluno.

Não é um escritório qualquer. Não é um pai qualquer. Tudo está na terceira pessoa, e o fato de estar na terceira pessoa é que faz a magia. A autora sabe que a situação é incrível porque acompanhou os bastidores de seres humanos históricos. Por isso ela nos convida pra observar tudo da claraboia. Quer um exemplo? Note a maneira com que ela suprime o artigo na última frase. Isso é inócuo quanto a "ensaio" e "artigo", afinal de contas embora saibamos que o "pai" é o Candido, nós imaginamos ele escrevendo um ou outro artigo à maneira de um advogado que faz uma ou outra petição. Todavia, quando chega "estudo sobre caipira" ou "formação da nossa literatura", aí a coisa muda de figura, pois conseguimos ver de maneira súbita aqueles livros tão amados receberem um tratamento descompromissado, como se estivessem jogados (e a disposição da frase permite que sintamos isto) em meio a artigos e trabalhos de aluno quaisquer. Parece banal, parece simples, não fosse o fato de que reluz. Para sempre.





A última vez que me senti tão despreparado foi com a morte do Gullar. Mas, como também mencionei naquela passagem, é preciso escrever com as mãos trêmulas. Antonio Candido, aquele cara que as pessoas se referem como mestre e daí pra cima. Mas que fique claro: um mestre para todos os terrenos. Pois assim: quando a crítica nacional, em meados do século passado, se armava até os dentes na guerra da cátedra contra o rodapé, Candido passou por todos aqueles balaços incólume e, ainda por cima, exibiu uma técnica estupenda nas páginas jornalísticas e nas resmas acadêmicas.

E é pensando nessa versatilidade lendária que primeiro me vem à mente o Oswald chamando o pessoal do Clima de chato-boys, isso só pra, depois, perceber o como a lucidez crítica daquele pessoal possuía não apenas uma maturidade incongruente com sua forma corpórea, como, por vias insuspeitas, revelava uma juventude formidável. É só você fechar os olhos e imaginar um jovem Antonio Candido resenhando um João Cabral de 22 anos e uma Clarice Lispector de 23, já percebendo impressionante parcela do que tinha pra perceber na obra dos dois.

No texto intitulado Ouverture, que ele publicou na Folha da manhã em 43, Candido já dizia coisas preciosíssimas para o jovem crítico, já demonstrava um tipo de consciência tão embasbacante que eu, hoje na mesma idade que ele, me pergunto que tipo de leite de cabra essa criançada tomava pra chegar a tanto antes mesmo do bigode ter crescido (pense num Sergio Buarque de Hollanda, pense, sorrateiramente décadas depois, num Merquior). Veja:

Por estas e por outras é que prefiro o crítico partidário, que tem um credo ― político, religioso, filosófico ou literário ―, ao eterno disponível, que o é sob pretexto de não cair no sectarismo e permanecer aberto a todas as sugestões das obras.

É apenas uma citação pincelada um pouco ao acaso, mas que, de todo modo, acaba sendo a minha favorita por conseguir resumir dentro de si outros pontos admiráveis do texto, por exemplo quando fala da necessidade do crítico sair de sua pessoa ou de que o crítico deva variar sua atitude "conforme o gênero de obras que tem de criticar." É o tipo de coisa tão essencial pra atividade crítica que, se você não se apercebe disto o mais cedo possível, quando menos espera está querendo interpretar um livro que apenas cabriola nas várzeas de alguma livraria como se sua pretensão fosse rivalizar com o soneto 23 de Shxpr. Só assim, continua Candido no mesmo parágrafo, pode o crítico, a partir "das obras do pensamento e da sensibilidade", compreender melhor o seu próprio tempo, tarefa tão difícil e à qual o crítico, sendo um ser humano como qualquer um de nós (Antonio Candido, meus amigos, como qualquer um de nós), busca ascender valendo-se apenas de "cinco sentidos e mais um pobre cérebro."

Não lhe é dado realizar o milagre da perfeita objetividade e da pura compreensão, uma vez que não é possível escapar a essa humaníssima condição.

Eis o crítico.

A interpretação de uma obra devendo se basear na busca daquilo que, nela, representa a parte mais significativamente ligada ao espírito de sua época.

Eis o crítico.





Num outro texto, Candido diz que a arte serve para estimular o nosso desejo de sentir a vida em resumo. De todas as qualidades que um crítico pode ter, a impressão que eu tenho é de que Candido parece que possuiu todas. Essa capacidade de chegar a frases bem torneadas servindo de gargantilhas de pérolas é apenas uma delas, algo que consegue conectá-lo de pronto ao que um Otto Maria Carpeaux também fazia de melhor.

Na verdade, só pela deixa do nome do Carpeaux podemos ver quão incrível é o rol de nomes que algum dia passaram pela vida do Candido. O Davi Arrigucci Jr., por exemplo, em dedicatória conta que aquele livro dele sobre o Bandeira, estupendo, foi escrito como uma espécie de trabalho acadêmico hiper-atrasado de uma matéria do Candido. E quantos mais? Posso passar esta noite toda olhando pra estante e vendo o modo com que aqueles críticos que tanto aprecio irradiam de maneira a princípio trêmula a sua luz e formam uma procissão em torno da simples menção ao nome do Candido.

E não foi só elegância estilística não. Cite-se a fineza de análise que observamos ao abrir um livro tão singelo como Na sala de aula, onde a microscopia do poema se une a comentários de vasta erudição e sensibilidade. Pense na alegria incontrolável de ter uma aula com o Antonio Candido. Nós podemos vislumbrar o que era isso graças à leitura deste simpático livrinho ou dO estudo analítico do poema, onde o fino leitor de poesia abre as asas de maneira majestosa, abarcando a fina flor da poesia modernista. Existe um simpático vídeo na internet dele dando uma aula sobre romantismo e modernismo. É impressionante. Eu penso nessas coisas como quem suspira.

E por sua vez a este domínio analítico se une o propósito de interpretar nossa trajetória literária sem se esquecer que estamos manuseando obras de arte e não, digamos, cacos de flechas da civilização inca. São inúmeras as passagens em que o Candido expressa pro leitor a sua preocupação em não baratear objetos tão maravilhosos assim, objetos que guardam em seu bojo uma gaveta só para "Abriu-se majestosa e circunspecta". Ainda na Ourverture, por exemplo, ele dizia, das obras literárias: "Nascidas de exigências imperiosas do espírito humano, trazem em si a essência dos sonhos [e de repente nosso convidado especial Próspero complementa: such stuff as dreams are made on], das aspirações e das tentativas de uma época."

No início do Formação, ali naquela coisa chamada primeira linha do livro, somos informados que cada literatura requer um tratamento peculiar. Observe, aqui, a preocupação em respeitar as exigências que a obra proclama. Ela tem seus problemas específicos. A dificuldade do crítico, portanto, é a de "equilibrar os dois aspectos [historiográfico e crítico], sem valorizar indevidamente autores desprovidos de eficácia estética, nem menosprezar os que desempenharam papel apreciável, mesmo quando esteticamente secundário." Quem lê o diabo do livro (esse tipo de coisa é mais rara do que se pensa, ainda mais com toda essa carreata de encômios e depreciações oportunas propiciadas pela data) sabe muito bem que o Candido não desliga a agudeza crítica um momento sequer, bastando que se observe a repercussão que algumas de suas estocadas causaram depois: vide Odorico Mendes e Sousândrade.

Ora: o Formação foi publicado num período delicado e decisivo para a moderna formação crítica nacional. Saiu no final da década de 50, quando Afrânio Coutinho reunia o dream team da crítica literária nacional para um projeto de envergadura tão grande quanto. É um livro que estipulou um padrão de excelência. As pessoas depois dele não podem mais publicar coisas mequetrefes achando que está tudo bem. Estava inaugurada a época do A sátira e o engenho e do Mecenato pombalina e poesia neoclássica. Tivemos grandessíssimos críticos antes do Candido, por exemplo um Sílvio Romero, só pra citar um que estranhamente eu aprecio muito. Mas é como se até então jamais tivéssemos visto algo com esse grau de consciência e lucidez ser praticado no país. Agora as histórias precisavam ser algo além de grandes compêndios de homens ilustres e cultos despejando opiniões respeitáveis com maior ou menor grau de artesanato estrutural.

Sei que em algum lugar do país, se reproduzindo por geração espontânea, estarão aqueles que irão dar um jeito de conectar a obra do Candido a uma espécie de militarismo ou coisa do gênero, isto a partir das leituras mais inacreditáveis do vilarejo. Enfim. Não vou ficar passando pito em desmiolado a essa altura do campeonato nem muito menos numa hora tão triste. Nessas horas, por mais que toda uma leva de sábios liliputianos resolva balir em cima de algum barranco político, eu prefiro me reportar a Wilson Martins, que, sobre Antonio Candido, escrevia:

É a aguda e arguta capacidade de perceber a literariedade que dá, antes de mais nada, à crítica de Antonio Candido o caráter por assim dizer "profissional" que a distingue: ele é o homem que revela por que tal obra pertence à literatura, não enquanto história, mas enquanto invenção.

A isto se pode adicionar que a visão de história literária do Candido é uma visão que acrescentou ao caldeirão um tempero inesperado. Sabemos que, por exemplo, a exclusão do barroco do escopo do Formação gerou um debate em pelo menos três frentes: podemos, com João Adolfo Hansen, defender que o barroco já possuía um sistema literário pra chamar de seu e de decisivo principalmente; ou podemos, com Afrânio Coutinho e Haroldo de Campos, cada qual a seu modo, debater o assunto a partir da questão da origem. Todavia, me parece que esse quiproquó recebeu uma resposta inteligentíssima por parte de João Cezar de Castro Rocha, que, num artigo debatendo o conceito de formação em Candido, diz, numa passagem me parece especialmente esclarecedora:

Não há, então, nenhum momento em que a literatura portuguesa se tornou brasileira, em que deixou de veicular a cultura do colonizador e passou a exprimir o novo país; há um processo de crescimento e maturação em direcção a um estádio final que, uma vez atingido, se traduz em autonomia, independência, nova identidade. Daí que, para Candido, a questão do começo, tal como estava posta, não tenha sentido enquanto origem: a formação é a impossibilidade da origem.

Considerando que, para seguirmos o argumento de Paulo Henriques Britto a respeito da poesia contemporânea, a exigência de se construir um projeto nacional com base no pau a pique das obras literárias se deu por "terminado" (claro que nunca de forma absoluta), reportarmo-nos ao que a concepção do Candido de literatura brasileira pode nos fornecer é uma maneira curiosa de pensar a situação. Pois, de fato, se por um lado o escritor nacional já não se preocupa com aquele tipo de lamúria que o romântico vivia lançando aos ventos, aquela coisa de choramingar o fato de que a araponga talvez não tenha toda a nobreza da cotovia, muito embora seja necessário cantar a araponga pra que as pessoas não nos vejam como uma xilografia indianista dos nautas lusíadas; de fato, se hoje o que ocorre é assim, por outro a hipótese de partida do Candido (e de novo estou seguindo o professor João Cezar), de que "a feição nacional se revela na literatura" e que "o progresso nacional não prescinde da literatura", mostra como seu pensamento independente da "cor local" para que a literatura brasileira se constitua (muito ao contrário do que manadas de aluninhos saem aptos a reconhecer tão logo começam a encontrar índios e jagunços com certeza frequência nos textos): "sobretudo, fora dos programas, ou até contra eles, a 'formação' pressupõe sempre um laço de expressão da realidade local, pelo que a análise e interpretação orientadas nesse sentido beneficiam de antemão da garantia de pleno sucesso."

Não terminou, não termina. Construir uma consciência nacional a partir do encontro mais ou menos fortuito de temas que, diante da paleta de cores, mostrem uma predominância do verde e do amarelo, não é uma exigência, por certo; mas quando se retrata a realidade nacional, quando se alimenta um sistema literário e quando a literatura ainda que subterraneamente coloca algumas sementes no solo, então o trabalho de formação de nossa literatura ainda prossegue. João Cezar de Castro Rocha dedica uma parte especial e zelosa de sua leitura para analisar aquela célebre passagem do Formação quando o Candido fala da nossa literatura como galho de uma árvore maior. O leitor incauto pensa que com isto o crítico nos chama de escambo mequetrefe, sem se lembrar que o galho, aqui, é retirado da árvore maior para ser plantado em outro solo e servir, aos poucos, de "enxerto desviante, com o terreno da enxertia a substituir a finalidade original por outra", de "híbrido, algo que não existia antes nem podia existir sem o concurso de dois organismos diversos".





Mais do que preparar o instante em que gases coloridos darão o toque de mestre à cerimônia da literatura nacional pisando no palco, o pensamento do Candido nos permite pensar a coisa a partir de um contínuo, uma formação, um passado. A literatura brasileira como formação não rompe e joga ao léu a tradição portuguesa, a tradição europeia. Entende a literatura como um produto único e maravilhoso e complexo, por favor, complexo. Agora você já pode voltar às passagens mais populares do prefácio ao Formação e ler com mais carinho aquilo da literatura brasileira ser secundária, mas ser nossa. De falar dos nossos problemas. Aquilo do se não for a gente, quem mais, não é mesmo? Pois é. Existem golpes sutis que na ânsia de sentir um alegado mofo na mobília nós não temos a fineza de perceber. Podemos ler nisto a exigência de um leitor que desde a juventude alimentou os neurônios com o Fausto do Goethe, mas a ideia da formação exige mais.

O mestre passou a vida toda nos ensinando uma lição importante e difícil de ser equacionada. São tantos fatores atuando ao mesmo tempo que às vezes nem dá pra organizar direito as ideias. Poetas, amadas, lírios, estrelas, críticos, carrancas, editores, leitores, brochuras, carvalhos serrados, comerciantes, descontos, catástrofes nacionais, formas fixas. Candido foi um desses que nos nos permitiram contemplar o panorama com todas as pecinhas movendo, tudo muito vivo, tudo muito lúcido. O esforço de um povo em ter uma literatura. Descanse em paz.

Comentários