A respeito da paranomásia.

Antes de meu exílio das redes sociais, os textos mais comentados na semana, posteriores à novela mexicana Karnal & Moro: los vendavales de la pasión e ao banquete de carne de papelão, foram, no reino encantado da literatura, a resenha que a professora Regina Dalcastagnè fez daquele livro da Leyla Perrone-Moisés sobre literatura no século XXI, e o do Emmanuel Santiago a respeito do vício do trocadilho (paranomásia) na poesia contemporânea (aqui). Eu cheguei a trocar algumas ideias com meu amigo Hudson Rabelo a respeito do primeiro, mas como eu já estava de mala e cuia, peguei caminho da roça e não sei em que pé está. No geral esse tipo de discussão não costuma avançar muito, de modo que imagino que esteja do mesmíssimo jeito, com, no máximo, uma ou outra postagem bombástica dando mais uma afrouxada no parafuso. Já o segundo...

Vejam bem. Conheço o Emmanuel, ele é meu chapa. É um camarada capaz de ler com muita criatividade a poesia parnasiana (enxergando até sadomasoquismo no meio daqueles vasos gregos e chineses) e a de contemporâneos tão díspares quanto Adriano Scandolara e João Filho, para além de suas reflexões sobre o ensino brasileiro (terreno do qual me distancio ao máximo ― uma coisa é falar minhas asneiras de forma inócua e quando muito fazer com que alguém perca seu tempo, outra é falar de algo que envolve uma sala abarrotada de adolescentes entediados) e suas recentes incursões no terreno da tradução, que nos renderam paráfrases saborosas e traduções competentes.

O texto que ele publicou sobre o vício da paranomásia entre os contemporâneos, esse texto é o tipo de coisa que você publica e tem que ficar de quarentena, pronto pra soltar dezenas de notas públicas sempre em torno do "Gente, não foi isso o que eu quis dizer". Ou seja: teve quem correu os olhos na mancha gráfica na tela do computador e enxergou um decreto de banimento da paranomásia. Outros, um laudo de exame cadavérico da literatura contemporânea. Não duvido da existência de quem imprimiu a foto do articulista e a colocou do lado do santo casamenteiro.

É um texto bem escrito. Não tem cabimento algum ficar retificando o que está muito bem exposto. Por mais improvável que pareça, faz bem pra sanidade mental de quem escreve confiar que um hipotético de leitor virá a seu encontro guardando, na jaqueta, uma dosagem suficiente de boa vontade. Ele pode não entender aquela indireta no parágrafo quatro e nem conhecer bulhufas do poeta no sete, mas ainda assim será esperado de braços abertos se puder pelo menos terminar o texto e resumir as ideias quinze minutos depois. Como dito, o Emmanuel é um leitor finíssimo de poesia, e com isso eu quero dizer que ele tem sensibilidade o suficiente pra saber que poesia é uma coisa que você saboreia lambendo todos os dedos muito antes de fazer cara de nojo. Não, o Emmanuel não está banindo a paranomásia. Não, ele não está provando que a poesia brasileira acabou. É meio óbvio o que ele quis dizer com o texto: ele está reclamando daquela poesia que se alicerça apenas na paranomásia, como se ela fosse o suficiente. Por isso ali em cima, naquela coisa em letras garrafais chamada "título", está escrito: o vício. Isso é uma fatia da poesia produzida hoje. Se você se conteve e conseguiu chegar ao final do texto antes de compartilhar, então você foi recompensado com essa informação utilíssima.

Mas enfim. Não sei se os pontos que levanto aqui possuem algum tipo de relevância diante do texto do Emmanuel, que, como dito, para mim tomou todos os cuidados que poderiam ter sido tomados. Então, é como se eu elucubrasse a respeito do assunto levantado, tendo, como ponto de partida e apoio, o que está ali no texto dele. Eu repito que ele é um leitor fino, de modo que poder elucubrar sobre algo que tenha escrito é, a longo prazo, muito mais aprender do que afirmar. Pois veja que esse início todo, falando da linguagem humana como constituinte de nossa experiência de mundo (quem observar um pouco mais os arbustos se mexendo conseguirá ver a figura do menino Heidegger) e da linguagem poética como um pé-de-cabra, bem como essas citações aí do sempre admirável Octavio Paz, isso pra mim tá muito bem, muito bom. Não vou ficar enxugando gelo. O que eu questionaria, pra me afastar dos circunlóquios, é a maneira com que o Emmanuel trata a paranomásia em alguns pontos do seu texto.

Na verdade eu questionaria até mesmo a maneira com que ele esparramou as três figuras de linguagem (metáfora, ironia e paranomásia) no gramado do texto. Da paranomásia mesmo, veja-se esta passagem, bastante elucidativa:

Mas o que podemos dizer da paronomásia como figura de linguagem? Nela, estabelece-se uma relação entre dois termos que é da ordem do fortuito e do arbitrário. Não há qualquer semelhança ou paralelismo que encontre lastro empírico, existencial ou psicológico. Trata-se de uma associação baseada em aspectos meramente circunstanciais. Em vez de encontrar afinidades ocultas entre os seres, como na analogia, ela apenas elide as diferenças; em vez de apontar a divergência entre significante e significado, a fratura entre a aparência e a essência das coisas (ou, num vocabulário materialista, entre a ideologia e a práxis), como na ironia; ela pretende conciliar o inconciliável. A paronomásia é um tipo de truque de prestidigitação linguístico, um ilusionismo poético. À primeira vista, enche os olhos, mas não nos diz nada sobre nossa relação com o mundo ou sobre nossa vida interior. É uma relação entre signos, somente.

Nada impede que a metáfora se automatize a ponto de se tornar uma simples relação entre signos. Na poesia barroca a metáfora dos dentes como pérolas era uma espécie de código a tal ponto gasto que os integrantes da Academia dos Esquecidos (destaque para Rocha Pita) podiam propor o exercício interno de se escrever poemas a respeito de uma dama que quebrou os dentes quando revolvia entre eles algumas pérolas. A pérola-pérola quebrou a pérola-dos-dentes, sacou? De boa parte da poesia barroca e do movimento academicista, de resto, se pode dizer que refestelou no lúdico. Se por um lado se pode dizer que é uma das razões da baixa qualidade do que produziu, ao mesmo tempo não se pode concluir que seja a única ou a de maior preponderância, mesmo porque brincar na hora de escrever poemas não era algo tão distante assim do que o Boca do Inferno em seus melhores momentos também praticava.

Ora: é preciso ter em mente que não é o uso da metáfora ou mesmo da ironia que garantirá o poema essa coisa de dizer algo da experiência humana etc e tal. Na verdade podemos ir até além, uma vez que sabemos que um poema pode armar sua arapuca longe do solo metafórico ou do irônico. Até aqui tudo bem, mesmo porque o Emmanuel não cai no erro de iniciante de retirar o status de poético para a poesia viciada de paranomásia. Mas o meu complemento é no sentido de dizer que um poema pode, perfeitamente, sem se valer da metáfora ou da ironia, ainda assim dizer alguma coisa a respeito da experiência humana. Sei que é um negócio meio complicado falar disso da experiência humana sem que caiamos num nível de abstração odioso, mas, de todo modo, alerto que o texto do Emmanuel em momento algum implicou que de fato existam poemas que não contenham uma gota sequer de experiência humana consigo. É mais correto dizermos que o texto se refere a uma experiência pobre, fraca ou artisticamente insuficiente, ou, ainda, ao adjetivo "circunstanciais" um pouco mais cedo no parágrafo. O meu ponto é: sim, compreendo tudo isso, mas não acho que por definição um poema, valendo-se principalmente da bengala das paranomásias, esteja impedido de oferecer um espetáculo.

Ora: fortuita e arbitrária a metáfora também pode ser. Antes eu citei que ela pode se esvaziar e se tornar quando muito uma convenção pálida, e quanto a isso do fortuita e arbitrária basta que se abra qualquer livro mequetrefe que tenha macaqueado a poesia nerudiana ou qualquer livro de poesia amorosa com pássaros e um céu crepuscular na capa ("meu amor é uma flor", "meu amor é isso", "meu amor é aquilo"). Justamente por isso ela pode ser convencional e dizer pouco sobre a visão de mundo do artista. Nem se poderia alegar, por outra senda, que a paranomásia oferece pouco de visão de mundo, ao contrário do que, de acordo com Paz, figuras como a ironia ou a metáfora são capazes de iluminar. Afinal de contas se a poesia possui um importante papel na desautomatização da linguagem, e se as figuras de linguagem são mola mestra neste processo (sigo o raciocínio do próprio Emmanuel, com o qual coaduno), então como dizer que a paranomásia se limitaria ao arbitrário, ao fortuito, ao circunstancial? Se ela faz parte do lúdico e se ela possui um impacto sonoro no plano textual, então ela pode também traduzir uma visão de mundo onde as ferramentas que usamos para compor frases dos mais variados tipos (por exemplo uma campanha política que tira da cartola I like Ike) ganham uma espécie de encanto e onde a raça humana se permite uma maneira recreativa mas nem por isso menos rica do ponto de vista da experiência humana. Se equacionamos a paranomásia tendo em mente um poema qualquer, desses que te causam câncer na retina, e a colocamos do lado de uma obra de excelência como embaixatriz da ironia (e o exemplo do Emmanuel é o Brás Cubas), então é claro que o resultado fica tendencioso e se torna difícil dar algum apoio moral pro primeiro tipo de figura de linguagem. Mas se pensarmos que a paranomásia pode ser uma importante razão para que o verso de um poema ganhe uma espécie de magia própria onde um Corvo irritante consegue unir sonoramente Raven e Never, então poderíamos fazer o mesmo exercício só que agora tomando, como representante da metáfora, a virgem pálida transfigurada num raio de saudade, num meteoro da paixão, numa explosão de sentimentos.

Seguindo outra senda, se a linguagem pode dizer muito da experiência humana e se, como dito de maneira admirável pelo Emmanuel, ela é "instrumento de prospecção da realidade", então se torna questionável querer abordar um poema como o

            ameixas
            ame-as
            ou deixe-as

do Leminski como exemplo de poesia que seria uma espécie de fósforo que, depois de riscado, se tornaria imprestável. É dizer: poesia incapaz de revelar qualquer coisa depois de lida pela primeira vez. Ou por acaso alguém ri duas vezes da piada do Joãozinho?

Vejam bem. O desbunde da chamada geração mimeógrafo não pode ser lido como um desleixo que fazia parte, apenas, da irreverência da época e só. Os melhores estudos sobre o período cuidam de desfazer este mal entendido. O Emmanuel foi sim direto ao ponto ao notar a brincadeira feita a partir do slogan característico dos anos de chumbo. O problema é que justamente por isso o poema do Leminski é tudo menos fósforo. Não vejo como ele pode dizer pouco num contexto austero de repressões físicas brutais. No âmbito poético, o jovem poeta se via diante do legado dos modernistas, alguns mortos há pouco tempo (Bandeira, Cecília), alguns ainda vivos (Drummond, Quintana), além da experiência dos movimentos de metade do século (as vanguardas, o cepecetismo) e da matriz construtivista do projeto cabralino. Ainda pretendo escrever com mais tardar sobre o velho Leminski, mas já é do conhecimento de muitos que sua poesia foi escrita entre a ponta de lança de vanguardas como a concreta e um fino conhecimento de vasta parcela da tradição poética de um lado, e, do outro, com uma opção deliberada pelo desleixo e pela comunicação maior com o público. Caprichos e relaxos, ele próprio dirá com argúcia. O desleixo era uma estratégia mais ampla. Ele não era gratuito: ele era feito com consciência do que era aquele tempo e do que era a poesia produzida naquele tempo. À frase de efeito poundiana, make it new, pode-se contrapor aquela do Cage, make it necessary. O desbunde foi isso: make it necessary. Não preciso nem dizer que não era a única estratégia concebível, ou seja, querer reduzir a poesia do Leminski aos poemas que, à maneira de uma ostra, acrisolam trocadilhos feito pérola, é algo que me parece um tanto quanto desonesto diante da produção do cara. (E não, o Emmanuel em momento algum faz isso.) Mas era uma estratégia mais ampla diante da conjetura do tempo, além de outros quesitos como o próprio cenário cultural (a indústria cultural, a contracultura) ou a reedição de poetas capitais como Oswald de Andrade. Ora: qualquer um sabe que os poemas-piada também se tornaram viciosos com muita facilidade, o que o depoimento de alguém como Mário de Andrade, insuspeito, é capaz de revelar. Todavia, isto basta pra nos levar à conclusão de que são poemas que não apresentam nada além de uma piada com maior ou menor grau de humor?

Tenho certeza que Emmanuel não chegaria a uma resposta dessas.

Um último apontamento que eu faria é o de que, embora também me pareca lícito associar o uso da paranomásia a uma poesia que se torna viral com muita facilidade, não sei se isto poderia nos levar à conclusão de que se trata de uma poesia que diria pouco sobre nossa época. Primeiro pois a rigor mesmo uma poesia horrivelmente ruim (como é o caso de muita coisa que se torna viral) pode dizer coisas preciosas a respeito de um tempo. Entender um período literário é mais cedo ou mais tarde ler poetas secundários e terciários, e, se possível for, até mesmo aqueles ao rés do chão. Sem nem contar o trabalho do historiador, que pode achar o trabalho do poeta ruim muito mais recompensador que o daquele poeta de carga complexa metafórica. Afinal de contas, se leio apenas a poesia produzida, digamos, pelo alto circuito poético de uma época, isso me ajuda a entender algumas coisas daquele tempo, mas inevitavelmente algumas peças ficarão faltando no quebra-cabeças.




Esse carinha dos guardanapos é o exemplo mais célebre de poesia viral que temos hoje. O que é curioso aqui, porém, é que não dá pra reduzir apenas ao nível da paranomásia. Podemos quem sabe circunscrever num âmbito maior de ludismo, o que o próprio Emmanuel diz no final do seu texto: "um desfile interminável de trocadilhos e outros truques poéticos semelhantes." (O título já permite algo do tipo, visto que começa falando de trocadilhos e depois especifica pra paranomásia.) Veja a letra estilizada, esse óculos aí meio (ligado ao "ver"), o próprio fato de ter sido feito num guardanapo... Enfim. O problema é que não podemos achar que o ludismo explica tudo. Eu diria, até mesmo, que esse singelo guardanapo serve como uma espécie de arte poética do tal do Antônio. Claro que parece meio ridículo usar um título vetusto como "arte poética" (a partir do qual antevemos o semblante simpático do nosso amigão Horácio) a qualquer coisa que saia da lavra do carinha, mas de minha parte eu não vejo problema nenhum, mesmo porque lavei as mãos antes de usar o termo. Enfim. O que eu quero dizer é: o poeta escreve pra vencer a solidão, pra romper as barreiras desse mundo que... Ah. Não vou ficar aqui descrevendo o que basta você dar uma olhada ao redor pra perceber: pessoas concentradas em si mesmas, supostamente interagindo horrores quando, na verdade, as muralhas de vidro translúcido das redes sociais as separam. Afinal de contas, não são poucos os guardanapos em que o autor irá falar de coisas, sentimentos, sensações, memórias que transcendem, por exemplo o amor ou o afeto com alguém distante e às vezes até próximo. A realidade é dura, as coisas não possuem graça alguma. Você passou o dia inteiro fazendo sorvete de casquinha pra madame e seu herdeiro birrento e, quando chega em casa, quer apenas compartilhar os guardanapos poéticos do cara, como se de algum modo eles te ensinassem que a vida pode ser mais mágica e bonita.

Como dizer que um poema assim não diz nada sobre nosso tempo? Do mesmo modo, como dizer, à guisa do que o Emmanuel afirmou alguns parágrafos antes, que poemas como esse, onde a paranomásia "versifico" e "ver se fico" é uma das atrações principais, são poemas que se resumem "a um chiste, a um jogo de palavras e tão somente a isso?" Um pouco antes, ele se questiona:

Quantas vezes poderemos reler o poema e ainda experimentar o humor e a surpresa da primeira leitura? Quantas vezes é possível ouvir a mesma piada sem que ela perca completamente a graça?

Ao que retruco: parece realmente lícito dizermos que a sobrevivência individual de um guardanapo como esse seja a menor possível, se brincar até mesmo mais tênue que a do material em que foi criado, mas não se pode dizer que seja um poema que deixe de acompanhar seu público leitor, afinal de contas não é nem um pouco implausível que se imagine alguém captando a mensagem do singelo poema que citei acima e, pouco depois, tentando criar os seus, ou então passando a ver, como sugerido, o mundo de maneira mais lúdica. O desafio da poesia viral está em entender que são poemas que propõem um tipo de sobrevivência distinta da que fomos treinados a conceber quando o assunto é Poesia. Não chego a dizer um tipo de sobrevivência nova, visto que na prática eles fazem o que a poesia popular (pense no caso de uma quadrinha) sempre fez: convidam o leitor a que prolongue o ato criativo, a que faça o mesmo: escreva. É difícil imaginar que uma quadra popular vá conseguir vencer os séculos, a não ser que estejamos falando daquelas do Fernando Pessoa ou do José Albano (pra citar dois autores eruditos que fizeram um bom serviço nessa área), mas se elas puderem impelir as pessoas a prosseguirem os trabalhos marítimos, então isso por si só afasta a tese de que são poemas que não sobrevivem. Eles apenas sobrevivem de um modo diferente. Realmente acho difícil que uma pessoa ria duas vezes da piada do Joãozinho, mas depois de ouvi-la é comum que se queira contar outra.

Obviamente não é meu propósito aqui o de santificar a poesia trocadilhesca que nos inunda tão logo abrimos uma nova aba. O que o Emmanuel critica é a poesia viciada na paranomásia e em qualquer outro truque que, de tão usado e por ter revelado ser de algum sucesso hoje em dia, se tornou moeda de troca. A metáfora é passível de padecer do mesmo problema. A ironia também. Qualquer outra figura de linguagem. Posso ir até além: a própria linguagem, a partir do ponto em que as tiragens jornalísticas e a conversa das ruas e (...) desgastam as palavras, aparvalham-nas. O objetivo do poeta é planar uma banana dinamite nisso daí. Ele pega a propaganda governamental e a acrisola não só no "ame-as" ou "deixe-as", mas principalmente no "ameixas", que une tanto o "amar" (na verdade podemos ver muito bem a forma flexionada: "amei") quanto o "deixar", fazendo com que aquela odiosa condição imposta pelo governo, de que ou você amava o país da maneira como era conduzido ou você fazia as malas, fosse esmigalhada num trocadilho que se por um lado parece descompromissado (e ser descompromissado é parte importante do que ele é), por outro mostra as garrinhas afiadas: amar as ameixas não mudará o fato de que elas continuarão carregando consigo o "deixar" (e de fato, amar o país naquelas condições políticas era deixá-lo à míngua) mas, ao mesmo tempo, deixá-las era também um modo de amá-las, visto que o "deixar", no contexto do slogan militar, queria dizer deixar o projeto de Brasil que era imposto.

Isso com o poeta, que pode chegar a tal nível de prospecção da realidade ou pode simplesmente mostrar que linguagem é coisa que se usa pra pedir aumento salarial e pra brincar, pra galantear, pra emocionar. Ocorre que não cabe apenas atribuir papeis ao poeta. Ao leitor de todo modo também cabe arregaçar as mangas e na medida do possível explicar que a poesia pode ser mais do que essa manifestação de tiques nervosos, e que, até mesmo, não é só a poesia feita num rebotalho de pano que diverte (não sei se já chegaram a ter esse tipo de ideia, mas, caso ainda não o tenham, eu abro mão dos créditos), mas também a poesia mais refinada ― seja lá que diabos passe pela nossa cabeça quando balbuciamos "refinada".

Comentários

  1. Então é esse o termo científico para minha grave condição? Eu preferia os termos populares, como senil, tísico, enfermo, mas hoje insistem em tenebrosos nomes alemães ou gregos, síndrome de Alzheimer, Parkinson, Paranomásia...

    enfim, é um, não chegaria a dizer vício, mas cacoete. De vez em quando aparece já formado no meio do verso, difícil resistir.

    Não conhecia esse carinha do guardanapo. :D

    As ameixas do Leminsky realmente só deixam de ser banais quando lidas no contexto do slogan político da época, que dá aos pequenos versos a devida grandeza enquanto crítica ferina. E me pergunto, quantos poemas antigos lemos hoje em que o contexto já se perdeu, mas que foi justamente o responsável pela sua popularidade à época? Talvez não seja o caso dos lúdicos barrocos com seus dentes perolados (uma metáfora óbvia que mesmo quem nunca tenha lido sequer um deles já deve ter feito uma vez na vida), mas penso sempre na imortal rã de Bashô. Gosto de pensar que a imagem banal de uma rã fazendo marolas na água carregue consigo algum contexto perdido, como um daimyo gordo fazendo alguma grande lambança e sendo dissimuladamente criticado em versos aparentemente inócuos...

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    1. É uma boa questão, Niuma! Na verdade eu diria que os barrocos ainda seriam um bom exemplo dentro do que você levantou, visto que a maneira com que um poema barroco e suas sacadas engenhosas eram apreciados por seus contemporâneos é uma maneira muito distinta da nossa: metáforas codificadas, como que tomadas a partir de um estoque prévio e estabelecido, mas ordenadas de maneira, digamos, espetacular, arguta, é uma coisa bem distinta de nossa exigência burguesa e pós-romântica da novidade a qualquer preço.

      Não sei se eu usaria ainda o mesmo exemplo no texto (ou seja, trazer um período histórico como o barroco para servir de contra-exemplo ao texto do Emmanuel), mas de todo modo a sua indagação é pertinente e realmente dá pano pra manga. A gente costuma dizer que a obra de arte é boa quando transcende o contexto, mas com muita facilidade essa exigência se perde, especialmente porque a própria noção de transcendência artística não é tão atemporal assim e porque a perda contextual pode ser fatal sim para muitos textos, sem que isso implique dizer que sejam obras de arte inferiores.

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