Bob Dylan, Nobel de literatura 2016.



TICO ― E o Nobel desse ano, hein?


TECO ― Você viu quanto furdunço?


TICO ― Vi. Que tal irmos por partes? Letra de música.


TECO ― Ah... Aquela discussão chata de sempre. Sim, sou da opinião de que pode ser poesia sim.


TICO ― O lastro histórico, correto? Na própria justificativa do Nobel já davam essa deixa: Homero, Safo eram poetas orais. Na prática, a clivagem entre poesia e música é posterior à invenção da imprensa, posterior à Revolução Francesa. A dúvida que fica é: isso foi há séculos atrás. Hoje a literatura se especializou. Hoje, vamos dizer, pelo menos desde Hegel na Estética. Que sentido faz voltar a uma distinção dessas?


TECO ― Será mesmo que se especializou? Acho que uma opinião dessas leva em desconsideração a realidade prática da poesia. Veja: em língua portuguesa, como bem notou Ruy Lozano em artigo, temos que considerar que os primeiros poetas de nossa língua foram trovadores. Pense no grande D. Dinis. Pra quê todo esse espanto, minha gente? Só que não é só isso. A resposta que eu dou é: como assim se especializou, cara pálida? Depois de toda a modernidade poética? Como se especializou, se tantos poetas hoje trabalham a performance como uma parte essencial de seu trabalho e visão da poesia? Depois do Un coup de dès ― ela se especializou? Depois da poesia concreta? Depois de Allen Ginsberg declamando o Uivo para multidões? Como se especializou se existe uma faceta da produção poética que permanece inabalável: a poesia popular (cordel, embolada, repente etc)? Não, não se especializou coisíssima nenhuma. Diga isso pro romance, e olhe lá. Mas com a poesia não, meu chegado. Até mesmo no âmbito da tradução, veja só.


TICO ― Como assim no âmbito da tradução?


TECO ― Sim, no âmbito da tradução. Existem tradutores hoje que, seguindo a esteira de conquistas passadas como as traduções homéricas feitas por Carlos Alberto Nunes, traduzem tendo em vista justamente a força performática do texto. É o que tem sido feito por Leonardo Antunes e Guilherme Gontijo Flores, este último com um trabalho mais amplo que também, observe bem, abarca letras de canções modernas. Pois nós sabemos que existem muitas formas de se traduzir uma letra de música. Desde as maneiras literais, que não são de todo desprovidas de validade, até maneiras mais trabalhadas (que se engalfinham com métrica e rima) e até maneiras que buscam seguir de perto a duração rítmica e a distribuição dos acentos. Leonardo Antunes e Guilherme Gontijo Flores fazem parte deste último grupo: traduzem pé ante pé. Isso aqui é um dátilo e aquilo ali é um espondeu? Pois bem. Ou eu traduzo assim também, ou eu traduzo seguindo a lógica daquilo (por exemplo a lógica do hexâmetro datílico homérico), ou, então busco algum correspondente. Do segundo grupo, de tradutores que não chegam a tais minúcias mas que ainda assim apresentam uma consciência aguda da construção poética daquele texto, eu citaria o grande Carlos Rennó, que, entre outros, possui uma tradução esplêndida de Strange Fruit.


TICO ― Interessante.


TECO ― E nós podemos ir além. Vamos dizer que, pelo menos, da segunda metade do século passado pra cá não é mais possível pensar a poesia sem que se pense também a letra de música. Alguns dos maiores poemas da nossa literatura recente são letras de música, bastando que se observe o que um Chico Buarque ou um Caetano Veloso conseguem fazer. Se me permitir o trocadilho, Construção, de Chico Buarque, por exemplo, é um texto de construção estupenda (sem nem contar o lirismo complexo de muitas de suas personas femininas, comunicando-se, de pronto, com nossa melhor tradição de cantigas de amigo). E, caso queira fundamentos de versificação clássica, eu consigo ver uns ótimos em Caetano Veloso, por exemplo rimas de luxo (penso em Escândalo). Ou, caso queira indagações metafísica, ainda com Caetano, poderíamos ficar com Cajuína: "Existirmos, a que é que se destina?" E por aí vamos, até chegarmos a artistas mais recentes. Renato Russo tem coisas notáveis, por exemplo em Daniel na cova dos leões, que possui umas metáforas muito bem realizadas ("Teu corpo é o meu espelho e em ti navego"), ou Pais e Filhos, um ótimo poema dialógico. Ou então, sei lá, pense no caso do rap. Diário de um detento é um texto fortíssimo. Uma das rimas mais impactantes de nossa literatura é aquela contida nos versos "Só o cheiro de morte e Pinho Sol. / Um preso se enforcou com o lençol."


TICO ― Então toda letra de música pode ser lida como poema?


TECO ― É preciso cautela numa hora dessas. Quando eu falo que uma letra de música pode ser considerada um poema, eu olho, em suma, para a realidade textual daquela letra. Não estou falando de ser boa ou ruim. Este é um juízo posterior. Eu já parto do princípio que a pessoa com quem discuto fará o mínimo do mínimo, ou seja, não confundirá uma questão de fato com uma questão de valor. O ponto é que se trata de um tipo de análise, que pode naufragar com muita facilidade se não tivermos cautela. Por um lado eu até entendo quem esbraveja com tanta iracúndia que letra de música não pode porque não pode ser poesia. Mas vamos, vamos, muita calma. Pois existem letras que realmente, enquanto realidade textual, conseguem se sustentar muito bem. O que pode ser algo bom ou algo ruim ― a letra pode se sustentar enquanto poema e, ainda assim, continuar ruim; não é porque se sustenta como poema que, por conseguinte, é algo positivo, como se ser poema por si só fosse algo positivo (lembre-se: a maioria dos poemas são ruins mas ainda assim são poemas). Do mesmo modo, existem aquelas que não conseguem ― aquelas que parece que só se completam, de fato, com a melodia, que necessitam da melodia para que sejam ligadas a todo vapor. Continuariam sendo poemas? Sim, mantenho minha opinião de que continuariam sendo poemas. A diferença é que, agora, uma análise textual pura e simples não seria mais o bastante. Seria necessário ampliar o escopo de análise.


TICO ― E o que dirá quando uma letra precisa ou não desse "escopo maior de análise"? Aliás, o que seria isso?


TECO ― Seria levar em conta a melodia como componente de sentido.


TICO ― Mas com toda letra isto seria necessário.


TECO ― Naturalmente. A melodia não é nunca algo secundário. Não estou querendo sugerir isso. O que digo é que, com algumas letras, a realidade textual, desvinculada da melodia, consegue se sustentar bem. Do mesmo modo, se eu pego um poema que até então só existia enquanto texto (um soneto de Claudio Manoel da Costa, por exemplo) e transformo aquilo ali em música, se eu adiciono melodia, pode ser que essa melodia dê novos significados ao texto original. Pense na Balada do Velho Marinheiro musicada pelo Iron Maiden.


TICO ― Volto à minha pergunta: como saber que se sustenta ou não?


TECO ― No fundo este será um esforço argumentativo. Não acredito que hajam características que você bate o olho e afirma: olha, por isso e isso e isso. Eu até enxergo algumas sugestões aqui e ali. Por exemplo: acho que muitos letristas não são grandes leitores de poesia, o que, claro, é um péssimo sinal para seu trabalho; de todo modo, se reconhecemos que existem letras que conseguem influenciar outras (você começar a escrever as suas porque leu o encarte do Iron Maiden), ou, de algum modo, apontarem soluções estéticas engenhosas, então isso é um forte sinal de que aquele texto se sustenta bem sozinho. Existem casos, como dito, contrários. Pense nas versões de Another man gone, traduzidas por Guilherme Gontijo Flores, consistentes, basicamente, de versos repetidos. Tomado apenas em sua realidade textual, a diferença que existe entre o verso "I didn't know his name" na versão de Vera Hall, e sua tripla repetição logo depois, no espaço de uma única estrofe ("I didn't know his name / I didn't know his name / I didn't know his name / I didn't know his name"); bem, essa diferença até existe se eu leio o texto por si só, mas o fato é que ela é muito mais visível quando eu ouço Vera Hall cantando. Ou então pense na dinâmica das rimas: a coisa mais comum do mundo é que um cantor faça com que duas palavras rimem apenas pelo modo como ele as declama. Cálice não conseguiria desenvolver toda a potência de seu célebre jogo de palavras se não fosse cantada. Bat Macumba não seria ligada a toda voltagem se não tivesse a melodia realçando camadas de sentido. Eu trato essa minha divisão, se for pra chamar assim e já resumindo, mais como uma noção. Você, diante da letra de música, saberá que ela pode se comportar assim ou assado. Quem vai determinar isso? Parece que estou deixando meu argumento ao Deus-dará, mas tem outro jeito? Oras: quem vai determinar é você, em seu esforço de argumentação.


TICO ― Mas se uma letra consegue se sustentar sozinha enquanto texto, isso não a faria melhor do que uma que não conseguisse?


TECO ― Acho que não. Porque aí trocaríamos as bolas. Se eu digo que uma letra de música A consegue se sustentar sozinha sem a melodia, e se digo que uma letra de música B não o consegue, isso não quer dizer que a letra A seja necessariamente melhor do que a letra B. Porque, se eu fizer um juízo desses, eu estarei aceitando levar em consideração a letra A dum ponto de vista que, conforme eu mesmo reconheço, ainda assim lhe favorece, não fazendo o mesmo para a letra B. Quando eu aponto para esse tipo de distinção, é para que o leitor tome o cuidado de considerar a letra num estado de suficiência, por assim dizer. Ou seja: da maneira como eu a considero, seja vinculada ou desvinculada à melodia, eu concordo que ela se sustenta bem enquanto obra de arte. Toda pessoa quando vai julgar um texto tem que tomar esse tipo de cuidado. Não faz sentido julgar um texto a partir de parâmetros, vamos dizer, que não lhe favorecem.


TICO ― Dizer, assim sendo, que pode ser um poema, que pode ter sua realidade textual tomada por si só, e ainda assim se revelar suficiente... Não é uma resposta diferente de dizer, de forma categórica, que é?


TECO ― Não vou mentir. De certo modo, sim. Mas é que a realidade da letra de música, por definição, pode ser muito ampla. Eu posso pegar um trecho de Guimarães Rosa e adicionar melodia. Ou um de Graciliano Ramos, se quiser uma estética mais seca. Se tornaria letra de música, naquele contexto ―


TICO ― E só aqui teríamos outra divisão: letras escritas com fim de serem musicadas e poemas depois musicados. É diferente pensar nos dois, não? Manuel Bandeira fala algo assim no Itinerário de Pasárgada. Que quando ele escreve algo pra ser depois musicado, ele tem uma espécie de aceitação maior quanto a alterações semânticas. Mudar palavras, por exemplo.


TECO ― Bem lembrado. Aí já entramos nas raias da composição poética. De todo modo, é, dá pra pensarmos mais nessa também.


TICO ― Pois bem. Não seria, logo, uma refutação do que você diz? Se uma letra é escrita para ser musicada, então como ela pode pretender se alçar à condição de poema?


TECO ― Como ela pode? Simples: ainda assim se alçando. Quer dizer: ela pode querer só servir de esteio, de algum apoio ainda que na base da convenção ("como todos os músicos de sucesso, hoje, fazem-no, fá-lo-ei também"), e, ainda assim, se revelar um grande poema. O leitor tem essa liberdade. Ele não precisa se prender à intenção originária daquele texto. Do mesmo modo, eu posso escrever um poema com pretensões literárias, vamos dizer, mas que, ainda assim, queira se amalgamar naquele todo melódico.


TICO ― Compreendo. Mas acho que te cortei. Você dizia sobre a definição de letra de música poder ser ampla.


TECO ― Exato. Como venho dizendo, acho que, dentro desse universo de possibilidades, muitas das letras são poemas. Se bons ou ruins, trata-se de uma análise posterior. Do mesmo modo, é preciso convir que a análise puramente textual é uma análise que pode ser viável para umas ao passo que, para outras, implicaria numa perda significativa.


TICO ― Essa discussão que estamos tendo, em específico aquilo que eu falei da letra ser escrita apenas pra servir à melodia... O Bruno Tolentino tem uma ideia parecida com essa, não?


TECO ― É, Bruno Tolentino. Pobre Bruno Tolentino. Sempre mal lido. A suma da opinião do Tolentino está numa frase, inclusa como posfácio a O mundo como cárcere: "letra não é texto, é subtexto, até porque é esta a sua função." Ou: "As palavras para um texto musical, mesmo erudito, não aspiram sequer à condição de arte autônoma, menos ainda à de poema." O que ele está querendo dizer é que se você pegar uma letra, por si só, ela nunca conseguirá chegar ao mesmo nível de excelência dos melhores resultados, digamos, da poesia-livresca, visto que você precisaria considerar a letra num todo indissociável, a letra como um subtexto, ou seja, um esteio para aquela construção semântica maior que é a música.


TICO ― Esse parece ser um bom raciocínio.


TECO ― E é. A minha discordância é mais precisamente em dois pontos: 1) acho sim que letras de música, mesmo que tomadas como texto e não mais como subtexto (pois, como dito, acho que existem letras que nos dão essa liberdade), podem vir a ser grandes poemas; e 2) o modo como ele se prende, de forma excessiva, à ideia de tradição e cultura como sendo a tradição e cultura europeia standart. Alçar letra de música à condição de poesia seria, para ele, "a tentativa solerte de fazer dos DJs os árbitros da arte de Camões, Pessoa e Drummond." Noutra passagem, comenta que as letras de música "irão envelhecer, de um certo modo (e até um certo ponto, é claro), porque a canção popular pertence irremediavelmente à sensibilidade de uma época, de um momento. Passados estes, viram item de colecionador." Quando, pelo contrário, a tarefa da poesia "é unir o passado e o futuro de um idioma, de um pensamento e de um projeto nacional, fundamentando-os na linguagem profunda de um povo. Só a grande arte autônoma da palavra pode subir a essas altitudes e mergulhar nessas profundezas." Pois não que o conjunto letra e melodia não o consigam; é, na verdade, que "a palavra é mero suporte da frase musical, é esta última quem comanda a emoção." Ou: "Nenhum texto musical, erudito ou popular, precisa realmente de um grande texto verbal para comover ninguém."


TICO ― Continuo achando a ideia fascinante.


TECO ― É porque ela é. O raciocínio de Tolentino é muito bom. Quando citam aquela frase dele, de que iria ouvir Noel Rosa com todo prazer, mas não imaginando ir para uma biblioteca, eu pergunto a mim mesmo se fazem alguma noção do que diabos o Tolentino quis dizer com aquilo. Enfim. Como dito, ainda assim acho que letras de música podem ser lidas como poemas, não só porque algumas conseguem um nível de realização estética muito elevado, mas também porque não é pelo fato de que, supondo que elas não conseguissem chegar às profundidades de um poema autônoma, elas deixariam de ser poemas (não se pode retirar o status de "poema" para obras ruins ou medianas: é confundir, repito, questão de fato com questão de valor). Acho, também, que o raciocínio de Tolentino subestima o liame histórico entre a letra de música e o poema, afinal de contas existiram canções que conseguiram se desprender de sua época (pois, como visto, Tolentino acha que a letra de música se prende demais à sua época e, por isso, envelhece mais) ― e um bom exemplo são as canções do dolce stil nuovo, por exemplo o Perch'io no spero de Guido Cavalcanti, que o próprio Tolentino traduziu ― e porque, repito, existiram e existem poetas que trabalham sim a letra de suas músicas com uma preponderância poética (acho improvável, por exemplo, que muitas das letras de Renato Russo, que o próprio Tolentino admirava, tenham sido escritas desconsiderando-se sua realidade textual). Lou Reed eu sei que enquanto letrista tem pretensões enormes. (Mas note que estou simplificando as coisas e vendo só da perspectiva do artista: o que me impede, afinal, de "levar a sério" enquanto texto aquela letra, independente do letrista tê-lo feito ou não?) E, por fim, há o que eu disse sobre a tradição: Tolentino toma a grande tradição europeia como súmula de todas as tradições poéticas existentes, como se todas as tradições poéticas existentes nela devessem convergir.


TICO ― Nisso de tradição, você tem em mente a justificativa do Nobel?


TECO ― Touché. Sei que quando falamos em tradição literária, em cânone ou que o valha, nós costumamos imaginar aqueles livros em capa dura vermelha e com letras douradas, publicados em tempos de antanho e sob a alcunha grandiloquente de "Clássicos da literatura universal". Sim, é muito bonito isso, mas não é bem por aí. Vou dar um exemplo. Suponhamos que, não exatamente um Nobel, mas, talvez aqui mesmo na nossa terrinha, algum prêmio tenha dado o galardão para um cordelista. Qual prêmio? Não sei. A maior parte só premia livros impressos, o que cria uma barreira fortíssima para com a produção de cordel, que, se é reduzida a termo, por assim dizer, o é de maneira muito limitada, com uma tiragem e distribuição local. Enfim. Suponhamos que um o fez. Consegue acompanhar?


TICO ― Prossiga.


TECO ― Vamos supor, continuando, que a justificativa do prêmio tenha sido "porque conseguiu criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição do cordel".


TICO ― A mesma justificativa do Nobel pra Dylan.


TECO ― Exatamente. A questão é: você, ao analisar a obra desse cordelista laureado, se limitaria a comparar sua obra à de Dante, Camões, Rilke, Eliot? Digo: claro que você pode fazer isso. Sim, pode, ainda mais porque esses caras são o que se entende por tradição. Eles são o standart. Mérito deles, bem se entenda (mas não só deles, não sejamos inocentes). Não estou negando isso. Mas peço que note: se você o fizesse... Não é de se pensar que, na prática, você não está indo ao xis da questão? Se a justificativa fala de um contato com a tradição do cordel... Por que motivo você não vai lá, na tradição do cordel, e repensa a obra do cara? Por que motivo tradição só pode ser a tradição europeia standart? Sabe? Na verdade, isso pra simplificar, pois, como notou muito bem Ronald Augusto, Dante pra escrever a Commedia teve que se alimentar muito da poesia dos trovadores... Mas enfim. É aí que tá o problema. Se você desmerece a obra do cara porque ela se comunica com uma tradição, com uma cultura que você não domina, que sentido faz você querer impor esse tipo de comparação que lhe dá na veneta? É porque lhe é mais fácil? Ou é porque tradição pra você é só isso? Ou vai cair naquela balela de "oh, mas veja, a obra dele não trama com profundidade dos grandes temas da alma humana..." Ora, pinhões! E desde quando obra de arte virou apostila de cursinho de filosofia? Obra de arte é objeto estético. Afeta a sensibilidade. Sem contar uma coisa: tratar dos grandes temas da alma humana com profundidade... Na boa: você acha que só tem um jeito de fazer isso?


TICO ― Como assim?


TECO ― Você acha que só dá pra fazer isso escrevendo a décima primeira elegia de Duíno? O quinto quarteto? O trigésimo quarto canto do Paraíso? Uma coda a Sôbolos rios? Francamente, viu.


TICO ― Existiriam, sendo assim, outros modos de se espelhar, vamos dizer, uma grande visão de mundo.


TECO ― Mas é claro! Pegue o critério da imaginação moral, do Kirk. Conheço ótimas leituras conservadoras da obra de Bob Dylan, apontando que ela possui uma riqueza de visão de mundo estupenda. E é claro que possui. Já parou pra notar no que redunda a alegoria exposta em All along the watchtower? A coisa ali é forte. Há uma grandeza naquilo. E não só pelas referências bíblicas (o título, os cavaleiros no final remetendo, certo modo, aos do Apocalipse etc etc). Por quê life is but a joke? Por que And this is not our fate? Por quê o coringa diz There's too much confusion / I can't get no relief? Qual a extensão desse all along? Nenhuma dessas respostas você consegue dar de forma simples. Todas elas demandam uma resposta maior, de ordem metafísica. O problema, como sempre, é que no Brasil o conservador adere a um esteticismo barato. Ou seja: o conservador vê o Nobel desse ano e, com base apenas no furdunço do "letra de música é poesia?", acha que a literatura acabou, chegou ao fim. É um porre. O cara não se preocupa com a única questão que realmente importa: a vida do espírito.


TICO ― Então o Nobel pro Bob Dylan foi uma boa?


TECO ― Eu preferiria que fosse pro Adonis, grande poeta sírio. Seria um tapa na cara do mundo. Mas foi positivo, sim, pro Dylan.


TICO ― Pois o Nobel é político. E o Dylan não precisa...


TECO ― É, não precisa. Ele é o único ser humano com um Oscar, um Grammy e um Nobel, certo? Incrível. Pois exato, o Nobel é político. Em outra postagem nós dois já comentamos que isso dele ser político não se traduz em conchavo politicamente correto. O Nobel só premia grandes escritores. Claro que já existiram exceções (penso em Churchill ou Sartre), mas a regra é essa. De uns tempos pra cá ele tem buscado se diversificar ainda mais, e acho que ele faz um esforço em contemplar a literatura mundial de uma maneira ampla. De novo, não digo que é perfeito. O número de línguas contempladas, ou o número de mulheres, por exemplo, ainda é muito baixo. Mas o Nobel dá mostras de que vai se diversificar. Ele é político no sentido de que Alfred Nobel, em seu testamento, falava de the most outstanding work in an ideal direction. Ou seja: é um mais o outro, o que, claro, exclui muita coisa (penso, por exemplo, que um cara como o Pound jamais teria ganho). A questão é que o impacto político do Nobel não reside só aí, por óbvio. Se as pessoas não sabem o que significa esse propalado impacto político do Nobel, por que diabos elas o tratam com tanto desdém quando descobrem essa motivação política? Oras: o impacto político também reside na diversificação de culturas premiadas, nessa coisa de enxergar como sendo natural premiar um escritor famoso hoje e, amanhã, poder premiar um escritor "exótico". Entre aspas pois não tem nada de exótico. É um grande escritor também, só que não conhecido. Um tapa na cara do mercado, sacou? Eu vou premiar quem eu quiser, sem seguir, feito cordeirinho manso, o que seus conglomerados editoriais a nível planetário ditam. Muito me espanta, aliás, que no Brasil a gente brinque com isso, levantando bandeiras para os nomezinhos de sempre: Roth, Murakami... Esses caras são bons? Murakami eu não sei, mas Roth é espetacular. Dificilmente ele, em vida, ganhará o Nobel, haja vista que o Bob Dylan entrou na jogada (os gringos estavam há 20 anos, salvo engano, sem ganhar o Nobel). Então é assim: eles são ótimos. Mas só existe eles de ótimos no mundo? Você tem como responder pelo mundo todo?


TICO ― Não.


TECO ― Em 1996 você tinha como responder por toda a poesia publicada no mundo? Quando você cogitava um poeta para ser premiado em 1996, você cogitava o nome de Wislawa Szymborska? Do mesmo modo: hoje um americano, um sueco, um alemão, um francês: quando eles cogitam um nome pro Nobel, eles cogitam Ferreira Gullar? Não, respondemos. E por que motivo? Gullar não é bom o bastante? Pois é. É exatamente disso que estou falando.


TICO ― Então, para resumir, o Nobel pro Dylan foi uma boa?


TECO ― Repito que sim. Vamos ver se agora as pessoas começam a prestar mais atenção na poesia oral. Porque é nesse sentido que o Nobel pra ele me pareceu positivo, muito mais do que apenas a questão da qualidade literária. Mesmo porque, como dito, é difícil dimensionar o que seria a qualidade da obra do cara pois ela clama que nós também tenhamos um bom conhecimento da tradição em que ela se inscreve. E eu confesso: eu não tenho conhecimento suficiente sobre o assunto. Logo, é difícil dimensionar o que seria essa qualidade. Será sempre um juízo capenga. De todo modo, acho que an ideal direction desse ano é justamente isso: reconhecermos essa tradição poética mais ampla, uma vez que a justificativa do Nobel, também repito, cita Homero, Safo e a grande tradição da canção americana. É o que faz com que aquela sensação que temos a princípio, de que o Nobel pro Dylan é um Nobel sem um quê de surpreendente, se torne precisamente o oposto.


TICO ― E, segundo entendi do que você está dizendo, é algo que tem o que dizer sobre a poesia como um todo?


TECO ― Sim. Veja: no nosso caso, ou, a bem da verdade, no caso de qualquer literatura, falar em literatura oral não precisa de refinamentos teóricos muito grandes. É só olhar pro lado, praquela tradição inabalável: a tradição da poesia popular. Claro que aqui entra toda uma discussão que precisa de mais refinamento. Se a gente conseguir sair daquele estágio de debate em que as pessoas se embasbacam com letra de música ser ou não poesia, aí a gente tem que entrar na obra do cara propriamente dita, e se lembrar (sempre se lembrar) da deixa que o Nobel colocou pra gente: a grande tradição da canção americana... Além de soluções poéticas muito felizes, seja a nível de construção textual, seja a nível individual. Lembro de Fabiano Calixto comentando a beleza de versos como aqueles, do refrão de Jokerman: "Jokerman dance to the nightingale tune, / Bird fly high by the light of the moon". Isso é coisa refinada, muito refinada. As sílabas todas a serviço do voo do pássaro à luz da lua. Lindo.


Encerrando a postagem, trago uma tradução para All along the watchtower. Tive que me afastar do sentido estrito do original para que pudesse manter o esquema de rimas e a métrica em redondilhas maiores (uma certa oralidade também, como no caso do verso 7). A ideia de traduzir Plowmen por "Peão" vem de Ivan Justen Santana, cuja tradução, de imensa qualidade, incluo abaixo. Espero, sinceramente espero que alguma editora se interesse em publicar o trabalho de Ivan como tradutor. É de uma qualidade estupenda. Do mesmo modo, fico no aguardo de reedições de Tarantula, o livro de Bob Dylan traduzido por Paulo Henriques Britto na década de 80, salvo engano, e hoje esgotadíssimo.

P.S. (25/01/17): Adicionada a versão de Guilherme Gontijo Flores, que inclui uma gravação feita pelo tradutor.


AO LONGO DA TORRE DE CONTROLE
trad. Ivan Justen Santana
em: Um sim em si, 06/10/09, aqui.
– Tem que ter uma saída de emergência –
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.

– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.

Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam
E o vento inventava de uivar.

§

POR TODA A TORRE DE VIGIA
trad. eu.
Tem que haver uma saída
Disse o coringa ao ladrão
Não tenho alívio nenhum
É muita confusão
Gestores bebem meu vinho
Peões fazem meu serviço
Nenhum dos que andam na linha
Sabe qual o valor disso

O ladrão diz com doçura
Essa raiva não dá em nada
Muita gente por aqui
Sabe que a vida é piada
Nós já passamos por isto
Nosso destino é distinto
Como está ficando tarde
Nem você mente ou eu minto

Por toda a torre de vigia
Os príncipes veem bem
Os servos descalços indo
Mulheres que vão e vêm
Lá fora, no frio ao longe
Gato selvagem rosnando
Dois cavaleiros se abeiram
E o vento irrompeu uivando

§

NESTE PANÓPTICO

trad. Guilherme Gontijo Flores.
"Mas deve ter como sair daqui”, disse o bobo pro ladrão,
“Tem tanto tumulto, sem fim na aflição.
Rico bebe o nosso mel, e cava o agricultor,
Nenhum deles sob o céu sabe ver o seu valor."

"Não tem por quê tanto espanto”, disse o sutil ladrão,
“Muitos hoje ainda sentem que vida é um mero bufão;
Mas eu, você já vimos bem: não vamos ser assim,
E deixa de bobagens já, o dia logo chega ao fim.”

Neste panóptico princesas nos verão,
Quando as mulheres vão e vem em meio à escravidão.
Lá fora na geada a onça quer rosnar
Dois viajantes chegam e eis que o vento vai uivar.




§

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