Apontamento passageiro sobre uma tradução de Paulo Vizioli.



Depois da polêmica envolvendo traduções de Donne feitas por Paulo Vizioli e Augusto de Campos, Nelson Ascher, sabiamente se afastando da contenda toda (que com o passar do tempo se transformou em tudo, menos em discussão tradutória minimamente séria), passou a se referir de modo respeito às traduções do Vizioli, inclusive destacando uma versão para o The Waste Land. Acho que a essa altura do campeonato não é novidade pra ninguém que existem muitas versões desse poema (facilmente constatável pela gama de opções com que se traduz Waste: devastada, desolada, gasta, inútil, estéril...), desde a mais conhecida do Ivan Junqueira até versões hoje de luxo (Paulo Mendes Campos), versões parciais (Ivo Barroso, Ferreira Gullar) e até as que são particularmente do meu agrado (Lawrence Flores Pereira), sem exclusão das restantes. Mas essa tradução do Vizioli, inclusa no livro Poetas de Inglaterra (foto acima; um dos livros de tradução mais brilhantes já publicados entre nós) realmente é muito esmerada, esplêndida em suma. Três passagens bastam, selecionadas por apresentarem dificuldades estilísticas distintas dentro do original. A primeira, do início da segunda parte, estampa:

         Sua Cadeira, qual polido trono,
         Fulgia sôbre o mármore, onde o espelho
         Colocado em suportes esculpidos
         Com videiras ornadas de racimos
         Donde um áureo Cupido despontava
         (Outro ocultava os olhos sob uma asa)

         The Chair she sat in, like a burnished throne,   
         Glowed on the marble, where the glass   
         Held up by standards wrought with fruited vines   
         From which a golden Cupidon peeped out
         (Another hid his eyes behind his wing)


E por aí vamos. Eliot começa com uma citação de Anthony and Cleopatra e mescla, aqui, uma descrição exterior um tanto quanto luxuosa com o uso, certo modo livre, mas ainda assim perceptível, do pentâmetro jâmbico. Vizioli se saiu muitíssimo bem. Pode-se censurar o aumento de um verso a mais na tradução, algo, entretanto, que a meu ver não passa de detalhe, ainda mais porque feito com parcimônia. A segunda citação, ainda na mesma parte, é:

         Quando o marido de Lil voltou da guerra, eu disse...
         Não medi minhas palavras, eu disse a ela no duro,
         DEPRESSA POR FAVOR ESTÁ NA HORA
         O Alberto vai voltar, vê se fica mais bonita.
         Vai perguntar que fêz você com o dinheiro que lhe deu
         Pra pôr os dentes. Deus, eu 'tava lá.

         When Lil’s husband got demobbed, I said,   
         I didn’t mince my words, I said to her myself,

         HURRY UP PLEASE ITS TIME   
         Now Albert’s coming back, make yourself a bit smart.   
         He’ll want to know what you done with that money he gave you   
         To get yourself some teeth. He did, I was there.


E por aí vamos. Aqui Eliot está sendo bastante coloquial, captando com uma perícia esplêndida a crueza de uma conversa sobre um assunto extremamente sério, que envolve uma família amputada e um contexto em estado crítico. Vizioli, mais uma vez, se saiu muitíssimo bem: esse "eu disse a ela no duro", por exemplo, é muito delicioso de ler, o mesmo quanto à interjeição "Deus" posta no último verso do excerto. Um último exemplo está na terceira parte, ali pro meio:

         O jantar terminou, a hora é propícia,
         Ela está aborrecida e fatigada,
         Busca envolvê-la com a sua carícia
         Que, embora recebida, é indesejada.
         Decidido, no assalto êle se posta;
         Mãos exploram sem despertar ofensa;
         Sua vaidade não requer resposta,
         E julga boas-vindas essa indiferença.
         (E eu Tirésias sofrera o que no escuro
         Foi encenado no sofá ou cama;
         Eu que em Tebas estive ao pé do muro
         E que entre os mortos caminhei sem fama.)

         The time is now propitious, as he guesses,
         The meal is ended, she is bored and tired,   
         Endeavours to engage her in caresses   
         Which still are unreproved, if undesired.   
         Flushed and decided, he assaults at once;   
         Exploring hands encounter no defence;

         His vanity requires no response,   
         And makes a welcome of indifference.   
         (And I Tiresias have foresuffered all   
         Enacted on this same divan or bed;   
         I who have sat by Thebes below the wall

         And walked among the lowest of the dead.)

E por aí vamos. Aqui Eliot descreve de forma nefasta um estupro, mas usando um verso rimado que cria um compasso e uma espécie de andamento solene para a situação, ou, no mínimo, algo que faz com que o leitor enrede sua atenção numa cena terrível. Vizioli, vocês já sabem, consegue usar o decassílabo rimado de forma fluente, sem inversões desnecessárias e de modo incrivelmente escorreito. Nelson Ascher está certo: a tradução de Vizioli é notável.

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