"Quando fores grisalha", de Yeats.



Olha, esse daqui é muito famoso. Em língua inglesa ele é o correspondente do Paráfrase de Ronsard, de Bandeira (que incluo no fim da postagem). Acho que não é pra menos: louva-se o amor sem aquela espécie de desdém quanto à velhice, enxergando-a, apenas, como uma espécie de empecilho, conforme o que a torto e direito usam quando o tal do carpe diem dá as caras no poema. Aqui a velhice não é tratada, de forma enfática, como algo ruim; antes, existe uma delicadeza muito grande no modo como Yeats aborda essa mesma velhice, seja a partir do full of sleep, seja a partir do of their shadows deep, referindo-se aos olhos da dama. É bonito.

Não é o único que Yeats parafraseou de Ronsard. At the Abbey Theatre também parte daquele que começa com "Tyard, on me blasmait à mon commencement". Quem quiser uma análise do soneto de Ronsard e da paráfrase de Yeats, pode conferir um artigo que o jovem Merquior fez no seu A razão do poema. Meio invejável, se formos parar pra pensar, o que Merquior com aquela idade (e que era, por exemplo, um pouco menos do que a minha e talvez a mesma que a sua) fizera, ou seja, o nível crítico a que alcançara. Invejável, mas sorte nossa.

Compilo aqui todas as traduções que encontrei do poema, fornecendo, no final, uma contribuição minha (faço o mesmo com o original de Ronsard, limitando-me, contudo, a apresentar o trabalho alheio). Há muito tempo, numa das primeiras postagens aqui do bloguinho, logo depois do ciclo de postagens sobre Shakespeare (traduções bastante destrambelhadas, essas, mas muito importantes para mim), eu postei uma paráfrase da paráfrase de Yeats. Quem quiser encontrá-la pode consultar o volume 1 da revista Lara, que meus amigos Angelo Giardini e Bruno de Oliveira publicaram ano passado. Ali o leitor contará também com as versões anteriores do She walks in beauty do Byron e do soneto 138 de Shakespeare (anteriores, por certo, mas com poucas mudanças quanto às versões que hoje estampo: em específico, no caso de Byron, um verso diferente e, no caso de Shakespeare, salvo engano, um verso e a chave de ouro). Não sei se gosto muito dessa paráfrase, e é por isso que eu não a republico aqui. Enfim. Eu estava muito impactado pelo vocabulário bandeiriano, o que explica um "entressonhada" ali no meio... Acho que se viesse a parafrasear algo saído de Ronsard novamente, eu o faria de modo mais próximo desse exercício belíssimo e instigante de Bandeira, ou seja, eu partiria do próprio Ronsard.

Existem opções arriscadas em minha versão, em específico quanto à mudança da posição das rimas no primeiro quarteto, o que rompe com o esquema rímico do poema como um todo (quer dizer; o primeiro quarteto é o único que mantém o esquema ABBA do original, mas, como os outros dois quartetos ostentam CDCD e EFEF, então o primeiro quarteto destoa do resto), e o uso de "exausta" como adjetivo no primeiro verso, algo que a meu ver destoa um pouco do full of sleep do original. O mesmo, se quisermos continuar a malhação do Judas, quanto a "esvai-se" para fled no último quarteto. Enfim. Estou consciente de cada um desses problemas, uma mescla indissociável de necessidade, opção e risco.

§

P.S. (27/08/16): Adicionada a versão de Pedro Mohallem, inédita.

Poucas horas depois, Wagner Schadeck gentilmente me mostrou as versões de Ary Mesquita para o Quand vous serez de Ronsard, e de Cláudio Veiga para Je vous envoie. Não sei a procedência da primeira (que incluo entre a de Guilherme e a de Laranjeira por pura pressuposição), mas a segunda vem da antologia de Veiga de poesia francesa, um ótimo livro facilmente encontrável na internet. Na mesma oportunidade, Wagner lembrou-me de um soneto de Camões que guarda proximidades muito interessantes com o Je vous envoie de Ronsard, algo que não chega a ser tão espantoso se tomarmos como base que a temática do carpe diem ligada à imagética das flores, do fenecimento e da morte, era quase que moeda de troca. Como, porém, se trata do inabalável Camões (o primeiro terceto, por exemplo, é de uma beleza ímpar), incluo o soneto no final da postagem. Quem desejar um ótimo comentário sobre o poema, de vasta erudição, pode consultar o de Manuel de Faria e Sousa, aqui (página 69), um dos primeiros camonistas da história. Informo, ainda, que atualizei a grafia da versão de Guilherme de Almeida, conforme o poeta o dispusera em seu Poetas de França, ou seja, uma grafia arcaica (vide o caso do "que", grafado como "q᷉"), consoante ao projeto de tradução de du Bellay e, em grau ainda mais acentuado, Villon.

P.S. (03/02/17): Adicionada a versão de Bezerra de Freitas. Um tanto quanto estranha, se considerarmos que a segunda estrofe do original possui apenas três versos e foi repartida, ainda por cima, em duas. Existem erros de digitação também, mas estão exatamente como consta no livro.

P.S. (12/10/17): Adicionada a versão de Jorge Wanderley.


YEATS

§

trad. Bezerra de Freitas
em: Antologia de poetas estrangeiros, Logos, 1960, p. 177.
Quando fôres velhinha, de cabelos brancos e cheia de sono,
Cabeleando junto ao fogo, toma êste livro,
Lê-o vagarosamente e sonha com o doce brilho
Que teus olhos tinham outrora e com as suas sombras carregadas;

Muitos adoraram os teus instantes de graça juvenil,
E amaram a tua beleza com amor dissimulado ou verdadeiro;

Mas, um homem amou as amaruras que o teu rosto estampava.

E, reclniada sôbre as barras incandescentes,
Recordarás, um pouco tristonha, o amor que fugiu
E atravessou as altas montanhas
Ocultando a face por entre miríades de estrêlas.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
em: Poemas, Art, 1987. Não sei a página.
Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,
Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

§

trad. Paulo Vizoli
em: Poemas, Cia das Letras, 1993. Não sei a página.
Quando velha e grisalha e exausta ao fim do dia
Tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear
Lentamente este livro, e lembra o doce olhar
E as sombras densas que nos olhos teus havia;

Quantos, com falsidade ou devoção sincera,
Amaram-te a beleza e a graça da menina!
Um só, porém, amou tua alma peregrina,
E amou as dores desse rosto que se altera.

E junto às brasas, inclinando-se sobre elas,
Murmura, um pouco triste, como o amor distante
Passou por cima das montanhas adiante
E escondeu sua face entre um milhão de estrelas.

§

trad. Jorge Wanderley
em: 22 ingleses, Civilização Brasileira, 1993, p. 25.
Quando estiveres grisalha e com sono,
Dormitando ante o fogo, lê meu livro
Bem lentamente e lembra o sensitivo
Olhar que tinhas de suave abandono.

Muitos amaram tuas alegrias,
Tua beleza; mas só num culmina
O amor por tua alma peregrina
E a mágoa que teu rosto pressentia.

Reclina-te ante as chamas; e que ao vê-las
Lamentes, triste Amor - que te deixou
Pelos montes mais altos que encontrou
E o rosto disfarçou entre as estrelas.

§

trad. José Agostinho Baptista
em: Uma antologia, Assírio & Alvim, 1996. Não sei a página.
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

§

trad. Áquila Teófilo.
em: Recanto das Letras, 28/01/15. Disponível aqui
Quando fores velha, cinza e letárgica,
Toma este livro, junto ao fogo, vacilante,
Lê-o lenta, sonhando com o olhar deleitante
Dos olhos de outrora, e suas sombras, trágica;

Muitos teus feitos de doce graça amaram,
E amaram-te bela, em estima falsa ou genuína,
Mas um homem amou em ti a alma peregrina,
E amou as tristezas que o teu rosto mudaram;

E inclinada sobre barras de metal cintilantes,
Murmura, triste, o amor que de ti fugiu
E galgando as altas montanhas partiu
E recolheu o seu rosto nas estrelas abundantes.

§

trad. Ferreira Gullar
em: O prazer do poema, Edições de Janeiro, 2014, p. 76.
Quando já fores velha e grisalha, e com sono
Cochiles frente ao fogo, abre este livro e lê-o
Com vagar e relembra o olhar que era o teu,
Suave, pleno de sombras, luzes e abandono.

Muitos amaram os teus momentos de alegria,
Outros, fingindo ou não, amaram-te a beleza;
Mas um somente soube amar tua tristeza
E essa alma inquieta que em teu rosto refletia.

E curvando-te junto às brasas mas sem vê-las,
Triste, dirás a ti que o Amor fugira
Para sempre se foi, à montanha subira,
E ocultara afinal seu rosto entre as estrelas.

§

trad. eu [2016]
Quando fores grisalha e velha e exausta,
Junto à lareira, pega estes escritos
E, lendo aos poucos, sonha os tão bonitos
Olhos de outrora e a sombra deles, vasta.

Quantos te amaram quando eras menina
E, falsos ou sinceros, teu encanto...
Mas um só amou tua alma peregrina
E a dor de teu rosto que muda tanto...

E se inclinando à brasa incandescente,
Murmure, um pouco triste, Amor que esvai-se
E escala a cordilheira mais à frente
E em meio a mil estrelas vela a face.

§

trad. Pedro Mohallem [2016]
Quando pesar-te o cinza do cabelos,
Jazendo ao pé do fogo, lentamente
Abre este livro, e encontra o brilho ausente
Dos olhos teus, e as sombras a envolvê-los;

Quantos, de amor falso ou sincero, amaram
O encanto e a graça do alto de teus dias...
Mas um amou-te a alma fugidia,
Teu triste rosto e as linhas que o marcaram;

E, inclinando-te junto das centelhas,
Murmura tristemente o Amor perdido
No cimo de algum monte, ora escondido
Entre a montanha a multidão de estrelas.

§

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.



RONSARD

§

trad. A. Herculano de Carvalho
retirado daqui.
Quando velhinha, à noite, ao lume da candeia,
sentada ao pé do fogo, escutando e fiando,
direis, meus versos lendo e vos maravilhando:
Celebrou-me Ronsard quando não era feia.

Serva não haverá, que ouvindo vossa ideia,
cansada do trabalho e já cabeceando,
desse meu nome, ao som, não se erga despertando,
Vosso nome a abençoar, de louvor toda cheia.

Eu serei sob a terra e fantasma ocioso,
sob os mirtos, à sombra, hei de ter meu repouso:
sereis uma velhinha, à lareira, encolhida

A chorar meu amor e vossa altivez vã.
Acreditai, vivei sem esperar por amantes:
Colhei, a partir de hoje, as rosas desta vida.

§

trad. Guilherme de Almeida
em: Poetas de França, Companhia Editora Nacional, 1965, p. 32-35.
Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meos versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em q᷉ fui bella.

E entre as servas então não ha de haver aquella
Q᷉, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor q᷉ o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, phantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia q᷉ vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

§

trad. Ary de Mesquita
Quando fores velhinha, à noite, junto à vela
Sentada ao pé do fogo, a coser e a dobar,
Dizendo os versos meus, tristonha, hás de cismar:
-- Ele me celebrou no tempo em que fui bela.

E ninguém há de ouvir a harmoniosa querela
Do meu profundo amor e meu grande pesar,
Sem repetir contrito, e contrito abençoar
Teu louvor imortal, que o verso meu revela.

E sem ouvir, sem ver, estático e gelado,
Sob a terra estarei pra sempre sossegado;
E tu serás então uma velha curvada

Lastimando paixão tão mal correspondida:
Ah! se me queres crer, não esperes mais nada,
E colhe agora mesmo as rosas desta vida.

§

trad. Mário Laranjeira
em: Poetas franceses da renascença, Martins Fontes, 2004. Retirado daqui.
Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,
Sentada ao pé do fogo, e dobando e fiando,
Dirás, aos versos meus, e te maravilhando:
"Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela".

Não terás serva então que, a ouvir notícia tal,
Ao peso do labor meio cochilando,
Ao meu nome não vá logo se despertando,
Bendizendo o meu nome em louvor imortal.

Eu debaixo da terra, um fantasma sem osso,
Pela sombra murtosa acharei meu repouso;
Tu, ao pé da lareira, uma velha encolhida,

Vais chorar meu amor e tua soberba vã.
Vive, se me dás fé, não deixes pra amanhã
Colhe já, sem temor, as rosas desta vida.

§

Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, devidant et filant,
Direz, chantant mes vers, et vous esmerveillant :
Ronsard me celebroit du temps que j’estois belle.

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Desja sous le labeur à demy sommeillant,
Qui, au bruit de Ronsard, ne s’aille réveillant,
Benissant vostre nom de louange immortelle.

Je seray sous la terre, et, fantosme sans os,
Par les ombres myrteux je prendray mon repos ;
Vous serez au fouyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et vostre fier desdain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain ;
Cueillez dés aujourd’huy les roses de la vie.



PARÁFRASE DE RONSARD
Manuel Bandeira
Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de floras que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade afeia sem demora.

Senhora, o tempo foge... o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é tão breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.

§

trad. Claudio Veiga
O ramo que vos dou a minha mão
Entrelaçou com as flores mais garridas.
Se não fossem ao pôr do sol colhidas,
Amanhã jazeriam pelo chão.

Que este exemplo vos sirva de lição:
As vossas seduções, hoje floridas,
Muito em breve estarão emurchecidas
E, iguais à flor, em breve morrerão.

Foge o tempo, Senhora, não perdura.
Meu Deus! O tempo não, mas nós mortais,
Que vamos logo estar na sepultura.

E desse amor que, agora, em nós palpita,
Ao morrermos, ninguém se lembra mais:
Amai-me, pois, enquanto sois bonita.

§

Je vous envoie un bouquet que ma main
Vient de trier de ces fleurs épanies ;
Qui ne les eût à ce vêpre cueillies
Chutes à terre elles fussent demain.

Cela vous soit un exemple certain
Que vos beautés bien qu'elles soient fleuries
En peu de temps cherront toutes flétries
Et comme fleurs périront tout soudain.

Le temps s'en va, le temps s'en va, ma Dame,
Las ! le temps non, mais nous, nous en allons,
Et tôt serons étendus sous la lame ;

Et des amours desquelles nous parlons,
Quand serons morts, n'en sera plus nouvelle ;
Pour ce, aimez-moi cependant qu'êtes belle.



Camões
Está-se a Primavera trasladando
Em vossa vista deleitosa e honesta;
Nas belas faces, e na boca e testa,
Cecéns, rosas, e cravos debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta,
Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
Se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora não quereis que quem vos ama
Possa colher o fruto destas flores,
Perderão toda a graça os vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
Que semeasse o Amor em vós amores,
Se vossa condição produz abrolhos.

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