Uma paráfrase de Geoffrey Hill.




Dias ruins para os amantes da boa poesia. Na quinta Geoffrey Hill e, na sexta, Yves Bonnefoy. É como se de algum modo as coisas se despedaçassem. Ausência ― pelo espaço em branco que deixam, mas também pelo respeitoso silêncio diante desses nomes que nos tornaram pessoas melhores. Claro que boas notícias ainda assim perpassam o cenário, por exemplo a de que A balada do cárcere, de Bruno Tolentino, receberá, da Record, uma edição crítica (e ao que tudo indica, a obra toda do Tolentino será reeditada pela mesma casa). É bom. Nove anos sem Tolentino. Diante das notícias que assolaram a semana, muitos têm lembrado desse fio macabro que une os três instantes, uma vez que Tolentino foi um dos grande entusiasta, em solo nacional, tanto da poesia de Hill quanto da poesia de Bonnefoy.

Não sou um grande leitor nem de um nem de outro. De Bonnefoy eu já li umas coisinhas aqui e outras ali (e sim, meus olhos permanecem vidrados na beleza imperecível daquela salamandra), mas de Geoffrey Hill eu não li quase nada. Sei que sua poesia possui uma espécie de divisão em duas fases muito da peculiar, mas, afora isto, necas. Conheço de passagem alguns poemas, por exemplo aquele, interessantíssimo, sobre Ovídio no Terceiro Reich. Mas sei também deste soneto aqui (Lachrimae amantis), muito, muito tocante, publicado num livro de 79 (Tenebrae), especificamente como último de uma sequência intitulada Lachrimae, or Seven tears figured in seven passionate Pavans. Trata-se de uma paráfrase de um outro de Lope de Vega, que incluo logo no final. Como não possui conhecimento de causa para falar da obra do poeta, e como creio que a comoção sobre sua morte ainda é muito recente, eu meio que me contentei em traduzir o soneto e só. Por hora, é o que me cabe fornecer, em grande medida como uma espécie de singela homenagem ― "singela" muito no sentido de pobre, viu?, porque pra traduzir "my door" por "meu teto"... (Tsc, tsc!) Afinal de contas é um poema comovente, desses que de algum modo fazem bailar os raios de sol em nosso espírito. É de uma placidez peculiar em específico pela forma como Geoffrey Hill transforma um soneto um tanto quanto impetuoso, barroco em suma (conte o número de exclamações no original de Lope de Vega, caro leitor; apenas conte), num poema pacato que mescla perplexidade com encantamento na medida certa. Manuseie com cuidado. Isso é preciosíssimo.

Existem muitas páginas internet afora que dão o tom do que é a poesia do autor. Mas não vou ficar te irritando demais com links estrangeiros. Apenas, referente à paráfrase traduzida, atente-se ao artigo de Colin Thompson publicado em 95, aqui (um belo dum biscoito fino, se quer saber, apontando, dentre tantas e tantas curiosidades, uma tradução de Longfellow para o mesmo soneto), e, à poesia de Geoffrey Hill de um modo geral, atente-se ao artigo de Martim Vasques da Cunha, aqui, bem como ao obituário de Érico Nogueira, aqui. E é isso. Que descanse em paz.


LACHRIMAE AMANTIS.
trad. eu.
O que é isto em meu peito pra que exijas
com afinco seu amor? Que estranho afeto
te traz feito andarilho até meu teto,
sob frígido rocio e noites rijas,

buscando um peito que sequer te abriga,
que religiosamente se resguarda?
Neste solstício de calor e geada,
nova há de sangrar tua paixão antiga.

Por tantas noites o anjo do meu lar
deu azo, em sonho, a um conforto urgente
que diz "teu senhor logo vai voltar",

que adormeci um pouco, meio crente
e imerso em tons de juras e pesar:
"me ergo amanhã só pra que o cumprimente."

§

LACHRIMAE AMANTIS.
Geoffrey Hill.
What is there in my heart that you should sue
so fiercely for its love? What kind of care
brings you as though a stranger to my door
through the long night and in the icy dew

seeking the heart that will not harbour you,
that keeps itself religiously secure?
At this dark solstice filled with frost and fire
your passion’s ancient wounds must bleed anew.

So many nights the angel of my house
has fed such urgent comfort through a dream,
whispering ‘your lord is coming, he is close’

that I have drowsed half-faithful for a time
bathed in pure tones of promise and remorse:
'tomorrow I shall wake to welcome him.’

§

Lope de Vega.
¿Qué tengo yo, que mi amistad procuras?
¿Qué interés se te sigue, Jesús mío,
que a mi puerta, cubierto de rocío,
pasas las noches del invierno oscuras?

¡Oh, cuánto fueron mis entrañas duras,
pues no te abrí! ¡Qué extraño desvarío,
si de mi ingratitud el hielo frío
secó las llagas de tus plantas puras!

¡Cuántas veces el ángel me decía:
«Alma, asómate ahora a la ventana,
verás con cuánto amor llamar porfía»!

¡Y cuántas, hermosura soberana,
«Mañana le abriremos», respondía,
para lo mismo responder mañana!

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