Uma leitura leiga do "Todesfuge", de Paul Celan.



Uma maneira particularmente estéril de fazer uma leitura de um poema estrangeiro é se você não conhece a língua na qual ele foi escrito. Nada, nada. Não sabe nem dizer "foda-se essa merda". E pior ainda: ler um poema estrangeiro de um poeta que você conhece pouquíssimo. Entenda-se: alguns passos além do estágio em que você o conhece de nome e tomou coragem de ler suas peças mais representativas. Afinal de contas, nada pode dar certo num cenário desses. Qualquer crença na especificidade da obra de arte será, quando muito, uma maneira de incorrer em subterfúgios, uma vez que essa tal da especificidade não é uma desculpa pra que você simplesmente descarte como sendo secundárias informações sobre a vida do artista, sua época, conhecimentos da língua e da obra do cara como um todo. Pode ser que ali, naquela leitura em específico que você faça, isso de fato seja secundário. Mas é ali, naquela leitura, naquele momento, naquele espaço em preto de não-sei-quantos-caracteres.

O que estou prestes a fazer é, portanto, arriscado. Mas de algum modo me parece necessário por motivos que, a bem da verdade, prescindem com muita facilidade desse e de qualquer outro preâmbulo que se queira escrever sobre o assunto. Afinal de contas, as leituras são minhas e eu faço o que quiser com elas. Caso você ainda não tenha percebido, eu sou um leigo a respeito de qualquer assunto que falo aqui, e, ainda que não o fosse, enxergo o espaço de um blog pessoal como um espaço propício para a liberdade e, porquê não pensar?, até mesmo a irresponsabilidade. Mas não é tudo. Li o poema, gostei do poema. Por que motivo protelar ao infinito meu encontro com ele? (Mário de Andrade, numa carta já citada alhures aqui no bloguinho, fala muito bem dessa ânsia de só-falar-depois-de-se-ler-tudo.) Digo: meu encontro textual, minha maneira de pôr as ideias no lugar e dizer, ainda que pra mim mesmo, a razão de ter gostado daquilo. A crítica no final das contas sempre foi isso: você consigo mesmo, você e sua consciência. Então pronto. Não tenho a menor pretensão de que esta seja uma leitura definitiva. (Claro que zombo da situação pois ninguém, em sã consciência, ao ler uma obra de arte, pretende que sua leitura seja realmente a definitiva...) Na verdade, nem mesmo uma leitura séria ou uma leitura que sequer se mantenha de pé, ainda que de maneira totalmente desajeitada, eu tenho. Eu simplesmente estou tentando deixar claro a razão de gostar do poema, já sabendo, de antemão, que qualquer forma de interpretação que eu eventualmente venha a chegar muito provavelmente já foi feita por um crítico antes, seja esse crítico um verdadeiro medalhão da fortuna crítica de Celan, seja, até mesmo, um pé rapado de quinta categoria. Não interessa. Entende? Não interessa. Estou de olho em outra coisa.





Celan viveu o holocausto, e salvo engano seus pais foram mortos lá mesmo. Esta é uma raiz fortíssima para o impacto que o poema é capaz de causar. Afinal de contas não foi o tal do Adorno que disse que não era possível escrever poesia depois de Auschwitz? (Tudo bem que esse questionamento do Adorno se reveste de uma carga totalmente diferente do que as pessoas comumente escamoteiam por aí afora, mas, independente disso, a carga literal da questão, sua carga nua e crua, continua sendo, no mínimo, instigante, apesar de toda a especificidade dela dentro do pensamento do Adorno ― ou seja, se a torcida do Flamengo inteira toma o questionamento do Adorno de forma literal, então, independente do que diabos o Adorno queria dizer com isso, você também vai ter que encarar a questão de forma literal.) Sabemos que é fácil redargui-lo por três razões: 1) grande poesia foi escrita depois de Auschwitz; 2) Auschwitz não foi a única barbárie na história da humanidade: tivemos antes, por exemplo, o genocídio Armênio, que, entretanto, não impediu tantas e tantas obras estupendas; e 3) grande poesia foi escrita saída de Auschwitz. E Celan é uma prova desta terceira razão. (Mas, pra voltar ao parêntesis perguntinha-do-Adorno, isso de querer responder a afirmação de Adorno é um tanto quanto infantil, seja sua afirmação considerada dentro de um edifício filosófico maior, seja sua afirmação tomada de forma literal, uma vez que o objetivo não é o de que você saia todo pimpão como se tivesse cravado uma estaca no peito da esfinge; antes, é muito mais no sentido de que você entenda a relação entre poesia e barbárie, entre poesia e a Maldade em seu estado mais bruto.)

Ao que me consta a partir de certo ponto Celan foi se tornando meio desgostoso com o poema. Porque ele faz parte daquilo que a crítica chama de primeira fase de sua obra. É só você pegar uns poemas posteriores e comparar a cadência longa e marcada de Todesfuge com os versos menores, fraturados e permeados de neologismos. Mas não só: é muito fácil que transformemos Todesfuge num bibelô de estarrecimento. Ou seja: que empunhemos o poema diante de qualquer situação incômoda, como se sua função fosse a de fornecer doses terapêuticas de pasmo, pânico e pavor a nossas vidinhas. Isso é muito fácil e muito mais simples do que compreender as raízes históricas de um momento tão terrível quanto o holocausto, ou de se olhar para a cara da Maldade e não recuar ou tergiversar a respeito do assunto, como se lidar com a Maldade no mundo fosse uma questão pura e simples de encontrar paralelos entre o que aconteceu lá e o que está acontecendo aqui (e assim dar razões, é claro, para todas as vezes em que tiramos o poema de sua toca como se tira um piscar de olhos durante um discurso).

É compreensível, portanto, que Celan tenha se afastado um pouco do poema, recusando-se a lê-lo em público (pois, como nota muito bem Ricardo Domeneck, este é um poema para ser lido em voz alta: e você pode ouvir o próprio Celan declamando-o) e recusando-se a republicá-lo em antologias. Isso tudo, claro, sem contar a própria dor pessoal que um poema desses não devia carregar consigo. Ele foi muito provavelmente escrito entre 1944 e 1945. É feito de versos que em sua maioria obedecem a um ritmo anfibraico, ou seja, estruturado com base em anfíbracos, que são uma sílaba longa entre duas breves. Há quem aponte também um andamento datílico ou trocaico para o poema, mas acho que um andamento anfibraico é o mais acertado (mas, claro, essas coisas são muito maleáveis, e, na prática, o arremate será dado pela forma com que você se sentir melhor lendo em voz alta). Fuga é um tipo de composição musical que envolve repetições de um mesmo tema, entrecruzamentos, essas coisas. A imagem do leite preto (Schwarze Milch) apareceu antes na poesia de uma contemporânea de Celan chamada Rose Ausländer. O caso de contato mais forte, propriamente falando, que o poema de Celan estabelece, todavia, é com um de Immanuel Weissglas, também contemporâneo, chamado ER (ELE). É o que incluo no fim da postagem. A ideia de cavar sepulturas no ar, dançar, isso das víboras, isso dos cabelos de Margarete... Tá tudo aí.

Margarete, aliás, certamente se refere à personagem da primeira parte do Fausto de Goethe, também chamada de Gretchen. Aquela, do bem-me-quer, mal-me-quer. Uma mulher simplória a quem Fausto, durante sua jornada no chamado microcosmo (o universo do Indivíduo, das paixões, dos afetos, do amor etc etc), se apaixona e quer conquistar a todo custo, o que, diga-se de passagem, ele até consegue. São passagens realmente deliciosas, por exemplo aquelas em que Fausto coloca Mefistófeles pra sair com a mãe de Margarete, para que, assim, os pombinhos possam namorar em paz. É bonito. Margarete é realmente ingênua, e chega até a se espantar com aquele demônio interior que Fausto, nessa parte da tragédia já rejuvenescido, trazia consigo. Ocorre que Margarete teme estar grávida de Fausto, e é mais ou menos nesse ponto da peça que surge Valentim, irmão de Margarete. Ele duela com Fausto, mas Fausto, ajudado por Mefistófeles, vence Valentim. Mais do que isso: mata Valentim. (Aqui Goethe está se lembrando, basicamente, de Laertes e Ofélia, Mercúcio e Julieta.) Margarete corre para um convento, mas, lá, é atormentada pela culpa. Mefistófeles tenta desanuviar Fausto levando-o para a famosa Noite de Walpurgis, mas isso não adianta muito pois, enquanto isso, Margarete, num acesso de loucura, afoga o próprio filho (é, ela pelo jeito estava mesmo buchuda), no que é condenada à morte pela justiça. A cena final da peça é comovente, com Margarete no cadafalso enquanto um coro angelical diz: "Salvou-se!"

Já a Sulamita é a personagem bíblica do Cântico dos cânticos, a enamorada de Salomão. Tinha uma beleza tão acentuada que era simplesmente impossível não apreciá-la. Segundo a própria Bíblia, a Sulamita sabia usar de sua beleza como uma arma. De modo que, unindo a imagem de Margarete à da Sulamita, temos dois polos ligados à beleza, mas de tal modo que possuiríamos um extrato de sentido ligado à ingenuidade, à pureza, e outro ligado ao ardor. Não digo exatamente pecado. Não. Dois pólos vivos, coisas apetecíveis, agradáveis. Há um quadro muito bonito do pintor alemão Anselm Kiefer, de 1981, chamado justamente Margarete. Este:


Na verdade Kiefer também possui outra obra, de um ano antes, chamada dein goldenes Haar Margaret, um pouco menos ríspida que a anterior (sem a palha, por exemplo). Esta:


Mas vamos deixar em suspenso, um pouquinho, esses quadros. Vamos olhar o poema de forma mais detida. É um dos poemas mais estarrecedores e perturbadores que conheço. Claro que é muito difícil não pensar assim depois de saber por quem ele foi escrito e quando ele foi escrito. Mas o poema, em si, é capaz de criar pavor de maneira impressionante. Ele não nos deixará esquecer isso. Jamais.

Leite negro não parece ser uma coisa lá muito boa. Pelo menos saudável não é. O leite é branco, e a coisa mais fácil do mundo é associarmos a ideia do leite à ideia da inocência, da pureza. Bebês. Aquele copão que você toma e chega fica com um bigodinho. Lady Macbeth criticava, em seu marido, o leite da bondade humana. Mas aqui o leite é negro. Preto. Claudia Cavalcanti traduz pra "Leite-breu". É como se de algum modo o leite estivesse podre, impróprio para consumo. E no entanto, esse leite negro é o da madrugada, é o da aurora. O que não contribui muito para a imagem, pois nós também sabemos que o leite é algo ligado à aurora: o roceiro acorda, espreguiça, boceja, se veste e vai ordenhar a vaca. Ou então: o leite que costuma ser entregue pelo leiteiro, de manhãzinha. Um leite fresco, noutras palavras. É uma correlação que me parece adequada. Pois não esperamos que a madrugada, que a aurora, que via de regra se ligam à renovação, a algo fresco, saído do forno, novinho em folha, tragam algo estragado como um leite preto. Já imaginou a cena? Pois é. Se logo de manhã nós temos um leite preto diante de nós, então é sinal de que a coisa é mais profunda, o buraco é mais embaixo.

E no entanto, esse leite preto da aurora nós o bebemos sie abends. Acho que as melhores traduções para sie abends são as de Ricardo Domeneck e Karen Bakke de Araújo: "a tardinha" e "a noitinha", respectivamente. (Gosto também de dusktime, de Rothenberg.) Nós percorremos o dia. De uma ponta a outra. Só que, seguindo minha sugestão de que o leite preto ser da aurora indica que há algo de podre no reino da Dinamarca, nós temos uma espécie de processo de estender algo desse clima fúnebre para o dia como um todo. Afinal de contas, a época do dia que o poema retrata, por enquanto, é o dia: ele começa da aurora e vai até tardinha. Daybreak, sundown, traduz Michael Hamburger, e daybreak, nightfall, traduz Christopher Middleton. Não quer dizer necessariamente que exista alguma coisa, vamos dizer, no plano fático que se estenda à luz do dia (por enquanto não, mas, como veremos logo depois, existe: o holocausto, a execução de seres humanos). Pode ser que a rigor não haja nada, mas o clima esquisito que o poema incute com essa imagem do leite preto; bem, esse clima ele é esticado até cobrir o dia inteiro. E isso é interessante, pois o dia é a hora do labor, das atividades, de fazer o que tem pra ser feito. Hora de sermos ativos, hora da vida propriamente falando. Esse leite que é retirado da aurora e bebido durante a tardinha como que espera esse tempo todo, ou como que se esparrama e deita sua carga obscura no dia que se inicia. É bom esse início, ainda mais porque ele será repetido várias vezes ao longo do poema. Ele crava os dentes na ideia de início graças à dupla imagem do leite e da aurora, mas, ao mesmo tempo, ele fala desse início como algo corrompido, apodrecido. Se a fuga está constantemente reiniciando, e indo e vindo, então saber que as duas pontas da corda estão sujeitas a esse leite preto (uma porque o produz e a outra porque o consome)... Isso não é bom.

No segundo verso, porém, somos informados que esse leite é bebido não apenas a tardinha, mas também ao meio-dia, de manhã e de noite. Não quer dizer necessariamente que ele seja bebido a toda hora, mas pode ser, apenas, que nós o bebemos a qualquer hora do dia, ou que o povo, como um todo, o bebe a qualquer hora. Não interessa. Ele é bebido. É consumido. E se ele é bebido durante o dia inteiro, então as pessoas parece que dependem dele. Só que se é um leite preto, um leite, supomos, impróprio para o consumo, então como assim as pessoas o bebem? Elas não estariam sendo obrigadas ou coisa do tipo? Ou bebem porque é a única opção? Quer dizer: leite preto, eu repito, não pode ser bom. Não te parece que tem algo de errado? A sintaxe fraturada do poema, um amontoado de retalhos sobrepostos de maneira grosseira, sem que um sempre desenvolva o outro (ocorrendo, antes e com frequência, que um repita parte do que o outro disse, ou que seja incrustado na metade do outro), é algo importante pois cria uma espécie de ritmo avassalador. Se você ouvir o próprio Celan declamando o poema, vai notar que esses versos iniciais são declamados num só ritmo. São como que gorgolejos. Você se embebe dos versos de uma só vez. Não existe uma pausa propriamente falando. Começamos meio que ao redor da noite: primeiro a aurora, que é quando se acaba de sair da noite, depois a tardinha, que é quando se está no pórtico da noite. Depois chegamos até o meio-dia, a manhã... E encerramos com a noite. Nós, de certo modo, estávamos como que fugindo da noite. Mas ela vem. E fecha o verso. E diz o terceiro: "wir trinken und trinken". Ritmo anfibraico é isso: "wir TRINken / und TRINken". Ou, como traduz Nelson Ascher: "beBEmos / beBEmos". Já não interessa em que hora do dia o leite preto é tomado. Ele apenas é tomado. É como se o negror desse leite fosse turvando o dia, só que num movimento peculiar: ele é um leite que advém da aurora, e, portanto, ele como que turva tudo o que vem depois; mas, se esse leite preto, com capacidade de turvar as coisas, surge com a aurora, que, em tese, deveria trazer apenas o dia, a luz, o branco, o fresco; bem, se esse leite preto surge com a aurora, no primeiro verso nós vemos que ele também surge a tardinha, e convenhamos que ele surgir a tardinha parece fazer mais sentido. Mas aí somos informados que ele também surge no meio-dia, na manhã e na própria noite. Ou seja: ele vai turvando tudo até o instante em que retorna para o seio da noite, exato momento em que a própria marcação temporal se obscurece a ponto de sequer ser mencionada. Nós apenas bebemos e bebemos. É algo meio que automático, impressão respaldada pela sintaxe em frangalhos dos versos, fazendo com que os cortes súbitos se encaixem uns nos outros como se o poema fosse uma espécie de disco furado.

Os dois próximos versos são imagens extraídas Weissglas. O leite serve pra fortificar. Mas parece que o poema deu um pipoco e o ato de tomar um leite pela manhã se alastrou ao dia inteiro até o momento em que nós ficamos apenas bebendo. Um leite negro, disse. As imagens aqui continuam pesadas. Cavar no ar a própria cova... A cova é o lugar onde se pode ficar à vontade, ou, como traduzem de forma interessante Ricardo Domeneck e Karen Bakke, é o local onde se pode espreguiçar e onde não se deita amontoado. De fato. O ar, o vento se liga à ideia da liberdade (ar livre), mas também se liga à ideia da inconstância ("As altas torres que fundei no vento": verso português clássico no século XVI). Só que lá é um lugar bom. Aqui na terra as coisas são pesadas. Aqui na terra nós bebemos leite preto. Se você cava uma cova no ar para que, assim, se sinta mais confortável, o clima só pode ser dos piores. Você parece estar dizendo que antes a morte do que aquilo ali. Mas isso, digamos, é lá fora. No interior de algum recinto existe um homem que brinca com cobras e escreve.

Cobras são animais peçonhentos, traiçoeiros. Encantar cobras é brincar com o perigo. Mas talvez esse seja, justamente, o xis da questão. Afinal de contas nós sabemos que em regimes ditatoriais o próprio ato da escrita também é perigoso. A palavra é perigosa. Ela pode morder, destilar seu veneno, existe um trabalho arriscado quando se mexe com elas. Não é absurdo ligar o poder da escrita com coisas maiores que envolvam o conhecimento ou um poder mimético acentuado, por exemplo, ou então, simplesmente, o domínio de um ofício tão intenso quanto o da escrita literária. Não acho um absurdo ligarmos as duas ideias. Mesmo porque se lá fora o homem cava no ar a própria cova pra que, assim, se sinta mais à vontade (o que, como eu disse, implica uma vida de merda, implica uma maneira de deixar a coisa como está, e desistir de tudo), lá dentro o homem está incorrendo em um trabalho mais perigoso: brincar com cobras, escrever. Dentro de casa, assim sendo, dentro de uma interioridade que seja, há espaço para uma verdadeira liberdade. Uma que envolva o perigo, mas, ao mesmo tempo, se você tem o domínio das cobras e das escrita, metaforicamente o domínio de uma coisa francamente perigosa (cobras, veneno, presas, peçonha) e outra com um poder peculiar (a escrita, a perpetuação que ela pressupõe em específico nos registros históricos). Logo, não é aquela liberdade de se cavar no ar a própria cova pra dar aquela espreguiçada boa. Isso não é, nem de longe, liberdade propriamente falando. Não se toma as rédeas da situação assim. Você só vai tomar, realmente, se conseguir algo próximo do que esse homem dentro da casa faz.

O que esse homem escreve, no ocaso, o que ele escreve à Alemanha natal, é o verso "dein goldenes Haar Margarete". Um verso de força lírica. Teu cabelo doirado, Margarida (acho que Domeneck foi feliz com esse "i" aportuguesado em sua tradução). Isso não deixa de ser bonito, ou, ao menos, é no mínimo a única imagem com uma fagulha lírica que seja num poema que até então apresentava coisas terríveis. O poema todo é estruturado segundo uma fuga, então ele vai indo e voltando, vai se entrecruzando, como eu disse. O homem, por exemplo, brinca com a cobra, mas (e aqui a sintaxe fragmentada opera um corte preciso e evidenciado) ele também escreve e, especificamente (sem que esse "especificamente" exista no poema), ele escreve tais versos para a Alemanha. Versos de conforto, podemos dizer. Margarete é uma personagem que se fosse metaforizada em leite, seria, sem a menor sombra de dúvidas, leite branco, branquíssimo. Uma exortação, portanto. Um instante de beleza. Isso sim é liberdade. Ainda mais porque ele escreve para a Alemanha quando escurece. O leite negro se esparramando, sendo tomado, e o homem escrevendo um verso tão bonito desses. Uma maneira de resistência, portanto.

Mas aqui começa o lado negro da coisa. Isso é um homem. Um ele. Porque esse homem escreve e vai pra janela assoviar para seus cães. Um clima ainda familiar. Só que enquanto esse homem contava com a liberdade de escrever um belo dum verso, a liberdade de por exemplo brincar com cobras, aquele "nós" dos versos iniciais, esse "nós" é um nós que possui um peso extremo sob suas costas. Pois o homem chama seus cães, chama seus judeus (só que também por um assovio, o que rebaixa à animalidade os judeus, o que, no plano fonético, Celan trabalha graças à aproximação entre Rüden e Juden), e manda que os judeus cavem na terra uma cova. Agora não se trata mais daquela cova no ar que traria consigo uma espécie de liberdade, um alívio. Aquela terra em que pisam é uma terra opressiva. Talvez a mesma terra que forneça o tal do leite preto. Pois não só o homem do lar ordena aos judeus, oprimidos pela presença dos cães, a que cavem uma cova na terra; ele também pede pra que peguem os violinos e toquem, pois dançariam. Na verdade, pede não. Ele ordena. A arte não aparece aqui como um exercício de liberdade análogo ao de se brincar com a cobra e flertar com o perigo. É um perigo menor, afinal de contas, pois, embora a cobra seja um animal peçonhento, e embora ter uma em casa possa dar merda com muita facilidade, nós pressupomos que se esse homem brinca com a cobra, ele sabe o que faz e essa cobra é um mínimo adestrada que seja. E não só: esse homem escreve para a Alemanha, quando escurece. E escreve um belo dum verso lírico que funcionaria como uma espécie de facho, uma espécie de fanal. Aqueles judeus não parecem ter essa mesma possibilidade. Não temos como precisar onde, geograficamente, o poema se passa, mas temos indícios fortes de que é num campo de concentração (o fato dele escrever à "Alemanha natal", não me parece capaz de abalar muito o indício), o que, nesta primeira estrofe, a simples menção animalizada dos judeus indica. Mas, independente de onde seja, o povo judeu sempre foi um povo em busca da Terra Prometida, um povo em diáspora. Logo, um povo desterrado. Não interessa em que terra estejam: não é a terra deles. É uma terra opressora, uma terra onde um homem, verdadeiramente livre, verdadeiramente senhor de sua arte (a ponto de poder flertar com os perigos ofídios da palavra escrita), os ameaça com cães. Precisam tocar violino, precisam dançar. A arte é uma obrigação. O que é terrível, claro, haja vista que se a arte é um instrumento de alegria e de aprimoramento humano, qualquer modo de querer impô-la, de querer ordenar que o outro a produza, é uma maneira extremamente violenta de tratar a situação. Você corta até mesmo a mais genuína alegria daquela outra pessoa. É um apagamento que dá uns bons passos a mais na escala da brutalidade.

Mas o poema então reinicia. Que música é essa que tocaram, que dança foi essa que dançaram nós não sabemos, mas, a ter em vista a situação em que ela surgiu, sabemos que muito provavelmente foi a última. Aqueles judeus (e me parece consistente afirmar que o eu lírico é um judeu pois ele se identifica ao "nós" nos primeiros versos e, mesmo após o homem de dentro da casa chamar os cães e seus judeus, ele ainda assim se mantém dentro da posição do "nós") certamente cavaram sua cova. Só que, eu dizia, o poema recomeça, e temos de novo a imagem do leite preto. Aquilo ali dele ir turvando as coisas todas e, como eu expus, dele ir se tornando algo cada vez mais automático. É como se aquilo fosse um outro dia. A primeira estrofe nos apresentou uma imagem aparentemente pacata, que envolvia o ato de tomar leite (que, claro, ia se desmanchando até o ponto de se reduzir a "bebemos bebemos"), o ato de estar ou sonhar com o ar livre, o ato de estar dentro de casa, assoviar para os cães... Quer dizer: não falo "pacato" no sentido de nada aconteceu. Óbvio que não. É no sentido de: as coisas parece que aconteceram de maneira meio mecânica, sem qualquer irrupção que fosse, sem qualquer mostra de recusa, de gesto mais violento de uma das partes. O homem apenas assovia para os cães, para os judeus, e então os ordena cavarem a própria cova. Só que o fato de que ele o tenha feito após escrever um verso de forma lírica evidente... Isso dá um tom macabro à coisa. O retorno da mesma estrutura faz jus ao título (Fuga), mas faz com que aquele clima de relativo silêncio e de opressão generalizada (a ponto de transformar esse silêncio num silêncio sepulcral); bem, faz com que esse clima, graças à forma como se repete, crie recomeços, crie uma espécie de rotina macabra que transforma a Maldade numa coisa indefinida. É uma disrupção. Não basta ao poeta simplesmente retratar uma cena terrível; ele precisa incutir a profunda alteração, no plano mesmo da realidade, que o insurgimento da Maldade bruta acarreta.

A diferença nesta próxima estrofe é que agora o homem dá mais ordens. Ele manda cavarem mais fundos. Ele tem um instrumento de coerção. E aquela espécie de posse de um objeto lírico continua sob seu domínio, bastando que notemos seus olhos azuis. Mas aqui existe outra diferença. Os versos que esse cara escreve. No plural, pois não é mais apenas aquele do cabelo doirado de Margarete. "dein aschenes Haar Sulamith". Nelson Ascher nota muito bem que aschenes Haar não quer dizer apenas cabelo grisalho, mas também cabelo em cinzas. Isso explica sua tradução. Pois, tanto num quanto noutro sentido, aquele esplendor próprio da Sulamita é transformado em pó. Passado. Pretérito. O sentido de que tenha sido reduzido a cinzas é ainda mais brutal. Já é uma face negra e serve de contraponto à resplandecente aparição de goldenes Haar. Mas não é só isso. Se na primeira estrofe o interior e o exterior tinham uma demarcação precisa, aqui existe uma inversão e um exercício de tensão mais poderoso. Primeiro fala-se do leite. Depois do homem que escreve, no que os dois versos são revelados, já. (O fato do segundo verso ser revelado aqui pode ser lido no sentido de que como os judeus agora estão cavando a própria cova, de fato, então esse extrato de sentido mórbido, nefasto e decadente do aschenes Haar da Sulamita como que emerje.) Mas eis que surge a menção ao fato de que os judeus cavam no ar. A maior parte disso repetido, com a diferença de que a ordem dos fatores muda, e o instrumento de liberdade que o homem da casa possui é contrastado com o anseio de liberdade daqueles judeus. O choque entre ambos se torna ainda mais intenso com as ordens do homem, que, agora, já aponta: lá, lá, lá. Espacializa a cena. Ela está ficando mais intensa, mas também maior.

Na próxima aparição da sequência do leite, outra mudança importante. "Você" (aliás, as versões de Jorge de Sena e João Barrento apresentam tal mudança com uma sutileza que me agrada: bebemo-lo, bebemos-te). O leite não é mais um objeto distante (ou qualquer coisa do tipo). Há uma exclamação endereçada a ele. Afinal de contas, apesar de preto ou não, esse leite revigora. Se próprio para o consumo, se impróprio... É como se ele fosse a única coisa que restasse. Que desse forças. Que instituísse um laço maternal com alguma coisa. Pois o poema adquire giros mais intensos, e a sequência do homem em casa que brinca com a cobra se transforma na interpolação abrupta dos versos que ele escreve na frase de que ele está em casa e brinca com as cobras. Ou seja: se antes tínhamos, conforme a tradução de Nelson Ascher, "há um homem que está na casa e que brinca com cobras", agora nós temos: "há um homem que está [Margarete suas tranças douradas / Sulamita suas tranças com cinzas] na casa e que brinca com cobras". Pus em itálico a interpolação. Como se os versos germinassem de maneira mais funda. Eles vão saindo de tudo quanto é parte das frases. As partes, os temas ficam em posições mais ou menos fixas, por exemplo a parte do leite, a parte do homem que brinca com cobras e escreve versos, a parte dos judeus querendo a cova no ar...

A morte se avizinhava. A fragmentação do poema e suas metáforas obscuras, a maneira como um clima de assassinato a sangue frio se tornava evidentemente concreto, tudo isso preparava terreno para a aparição desta palavra terrível: "Tod". Morte. A morte é uma especialidade da Alemanha. Aquele clima de maestria técnica que pressupomos no homem que escreve (e é capaz de chegar aos cabelos doirados de Margarete) e que pressupomos nos judeus tocando violino e dançando; bem, isso é convertido para seu lado negro, pois, como expus, a dominação daquele homem se faz a tal ponto que ele ordena aos outros que produzam arte num momento fúnebre. No seu momento fúnebre. Não é apenas aquela imagem medieval corrente da dança da morte, em que cadáveres bailavam com a senhorita-da-Foice por perto. Não existe espaço para alegria. Quer-se apenas fugir daquilo, quer-se apenas desistir de tudo e, num suspiro, desaparecer da face da terra. Por isso a promessa cínica: se tocarem o violino com mais força, eles flutuarão como o ar na fumaça e enfim ganharão aquela cova no ar que tanto sonhavam. Oras: não é mais, apenas, que peguem na enxada e cavem fundo sua cova. É que toquem o violino mais fundo. Com mais intensidade. Fuga da morte não adquire, no poema, uma conotação musical apenas, embora, claro, me pareça existir um liame até consistente entre a música tocada no violino pelos judeus e o próprio poema, a própria fuga da morte. É mais do que isso. É também uma fuga da própria morte, como se estivessem acuados e precisassem escapar daquela situação.

Todavia, aquela situação é onipresente: em todos os lugares a morte habita. Se lermos nas repetições do poema maneiras de fuga, maneiras de escapar de determinado assunto desenvolvendo-o, mas de tal modo que isso não passe de tentativas e no fim das contas sempre voltemos ao mesmo lugar... Bem, então a fuga da morte é inútil. Do mesmo modo que o alívio de se cavar no ar se torna inútil quando aquele homem da casa se apropria dos sonhos dos judeus e os transforma numa promessa cínica. Cavem logo sua própria sepultura que logo logo eu lhes darei a morte. Quer dizer: não existe uma fuga da morte. Eles estão abraçando a própria morte. É o que já estava implícito na ideia de se cavar uma cova no ar pra, assim, ser livre, poder se espreguiçar, essas coisas. Mas aqui entra um sentido importante: a fuga da morte é a fuga daquela morte. Ou seja, um campo de concentração é um local de morte total, pura e simples, um local de degradação e de sofrimento inomináveis, infindáveis. É uma morte que se estende e se torna uma morte a cada instante, como se fosse uma morte que se metamorfoseasse naquele leite preto que é bebido a todo instante (e de fato, podemos com muita facilidade associar a morte à cor preta). Se o poema se reconstrói a todo instante, se ele é feito de estilhaços que vão compondo uma mesma cena de modo repetido, isto pode sugerir, como eu disse, uma espécie de repetição indefinida da mesma situação, como se execuções daquele modelo fossem corriqueiras, mas também pode sugerir as minúsculas mortes que a condição degradada num campo de concentração implicava consigo.

Chamar esse leite preto de "você", assim, pode ser lido também como um modo de encarar a morte de frente. Pois a morte está próxima. A morte é uma especialidade da Alemanha... Que coisa mais terrível. É improvável que a cena se passe na Alemanha propriamente falando graças à menção da Alemanha natal a quem o homem escreve durante o ocaso. A morte se metamorfoseia no homem da casa, no homem de olhos azuis, e então se acerta uma bala na cabeça da pessoa. É o fim. De algum modo sentimos o impacto. As idas e vindas que o poema proporciona fazem dos versos versos insuportáveis. Não aguentamos mais aquele peso. A morte brindar aquele povo com uma cova é algo enojante, é cínico, claro que é, mas é também real.

Aqueles versos escritos pelo homem da casa, eles são a única coisa que restam. A declamação de Celan se torna um sussurro, praticamente, nesta passagem. Mais do que um suspiro, parece simular um vento que sopra num descampado. É um final intrigante. Pois eles iam vicejando ao longo das frases, eles iam brotando aqui e acolá como instantes de beleza no meio de uma cena tão terrível. Até, contudo, o momento em que sobram apenas eles. Um silêncio. Eles estavam de certo modo desconectados da cadeia lógica dos fatos, um pouco à maneira do leite negro mas nem tanto: pois, de resto, o leite negro era bebido pelos judeus, e o leite negro não passava de um objeto qualquer, muito ao contrário dos versos, obras de arte. Seria um modo de dizermos que a Maldade impera até nesse sentido, ou seja, tudo o que restou foram aqueles versos belos mas que, todavia, saíram da pena de um homem mal? É possível. O que não quer dizer que sejam versos necessariamente ruins ou, para tentar ir um pouco direto ao ponto, que sejam versos menos redentores em decorrência disso. Eles parecem vencer a tudo, parecem servir de testemunho de uma situação terrível, e isso nem tanto pelo primeiro, que é um instante lírico que serve de estrela-guia, mas muito pelo segundo (e nesse sentido, a opção de Ascher, de traduzir aschenes Haar em algo que vá de "tranças cinzentas" para "tranças com cinzas" e "tranças em cinzas", é uma opção muito hábil). É bem o que ocorre com o próprio Todesfuge, uma vez que aqueles dois versos isolados podem ser vistos como uma espécie de metonímia da própria poesia. Ou seja: Todesfuge é composto a partir de uma experiência terrível. Óbvio que não do lado do Mal, mas a partir de uma experiência absolutamente terrível, o que não quer dizer que o poema seja incapaz de trazer consigo um instante de beleza.

A existência isolada destes dois últimos versos é uma fonte permanente de beleza, a meu ver. (Aliás, um parêntesis: estou falando em versos mas há quem leia também que o homem da casa está escrevendo uma carta, interpretação a meu ver bastante acertada mas que não exclui o que estou dizendo aqui, tendo em vista que os trechos goldeness Haaar e aschenes Haar são de fato versos no final do poema, tendo em vista a força lírica peculiar que adquirem e tendo em vista a imagem de forte cunho simbólico da Sulamita, que não exclui, claro, a possibilidade do homem da casa estar escrevendo para alguém que por algum acaso também se chamasse Sulamita.) O que, aliás, me faz voltar aos quadros de Kiefer. Enquanto o segundo apresenta uma cena branda, em que traços amarelos combinados com floquinhos brancos compõem o trigo, o primeiro é muito mais áspero. Mas note: no primeiro nós temos, do lado direito, uma mancha negra que vai ocupando a tela. Lembra do verso em que o homem da casa dizia cinicamente que, se os judeus tocassem pra valer, eles iriam subir como fumaça no ar? A fumaça das câmaras de gás está aqui presente, o que dá mais uma pincelada terribilíssima à situação. Mas essa fumaça está ali, isolada no cantinho do quadro de Kiefer, indicando que aquelas tranças douradas existem num mundo onde judeus foram executados. Não podemos nos esquecer. A pureza de Margarete, personagem de Fausto, surgiu da pena de um assassino, mas, de resto, Margarete também foi um joguete nas mãos de uma coisa maior do que ela. Ela também expiou. Seu exemplo, seus cabelos doirados estão aí para testemunhá-lo. Tenha sido voluntário ou não por parte do homem da casa, o fato é que a menção a Margarete traz consigo uma memória ruim, um sabor acre na boca. O mesmo com a Sulamita reduzida a cinzas. A beleza é importante, mas ela também decai, ela também pode ser reduzida a cinzas. Margarete era pura, mas foi destruída de maneira injusta, trágica. Existe algo maior que tritura a inocência e o garbo. Todavia, uma vez que esses nomes foram escritos, seja lá por quem for, uma vez que eles foram lembrados, que foram eternizados à maneira do que Celan fez em Todesfugue com os judeus no holocausto, essas tranças doiradas de Margarete germinam como no quadro de Kiefer: ainda que de forma áspera, ainda que partindo de uma base negro-avermelhada.

§

Minha base são todas as versões em português que tive contato. Umas bem próximas das outras, por exemplo Jorge de Sena e João Barrento. As de Jonathas Duarte e Guilherme Gontijo Flores, inéditas (sei que existem graças a minha onisciência e graças a um comentário no escamandro, aqui), evidentemente eu não tive acesso. Incluí também quatro versões inglesas: uma de Michael Hamburger, poeta e tradutor que muito aprecio, uma de Christopher Middleton, que editou, com Hamburger, a célebre antologia Modern german poetry (aliás, um parêntesis: Middleton também editou com Hamburger uma antologia de 72 para a Penguin Books com poemas de Celan; lá, a tradução de Todesfuge é dele, Middleton, mas em Modern german poetry é de Hamburger, sendo que esta tradução de Hamburger só surgiria em volume separado em 95, numa edição da Anvil), uma de John Felstiner, autor da primeira biografia crítica de Celan em inglês, e uma de Jerome Rothenberg, autor do clássico Shaking the Pumpkin. O projeto destes dois últimos possui, aliás, pontos interessantes que certamente dariam ensejo a uma nova versão em português: Felstiner porque opta por manter algumas passagens em alemão, por exemplo os dois versos escritos pelo homem da casa, e Rothenberg porque mantém em alemão as referências à Alemanha (o que talvez realce o fundo nazista na expressão) e por algums escolhas ousadas aqui e acolá, por exemplo "der Tod ist ein Meister aus Deutschland " para "Death is a gang-boss aus Deutschland". Não consegui encontrar a data da versão de Renato Suttana, motivo pelo qual a ponho por último, antes, apenas, da versão gravada de Mauricio Cardozo. Peço desculpas pela diagramação, que ficou prejudicada graças ao layout do meu bloguinho.


FUGA DA MORTE
trad. Modesto Carone.
em: Quatro mil anos de poesia, org. J. Guinsburg, Perspectiva, 1969, p. 270-271.
& Folha de São Paulo, 19/08/1973. Disponível aqui

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia nós o bebemos de manhã e de noite
nós bebemos bebemos
cavamos uma cova nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se posta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora que toquem seus violinos para dançar

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite
nós bebemos bebemos
um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as enxadas vocês aí continuem tocando para dançar

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia nós te bebemos manhã nós te bebemos de noite
nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras

Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos aí vocês hão de subir como fumaça no ar
aí vocês hão de ter um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é o mestre da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é o mestre da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é o mestre da Alemanha

teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita

§

FUGA DA MORTE
trad. Jorge de Sena.
em: acho que no Poesia de 26 séculos, Editorial Inova, 1972. Disponível aquiaqui

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui
apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra
manda que toquemos para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem
agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos
enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes

Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha
grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares
depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos
há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha

o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita.

§

FUGA DA MORTE
trad. João Barrento.
em: Sete Rosas Mais Tarde, Cotovia, 1993. Disponível aqui.

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados

Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros cantem e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a tocar para a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes

E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha

os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith

§

FUGA SOBRE A MORTE
trad. Claudia Cavalcanti.
em: Cristal, Iluminuras, 1999. Disponível aqui.

Leite-breu d' aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve
ele escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e brilham as estrelas ele assobia e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos

Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande nos ares onde não se deita ruim
Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali continuem tocando para dançarmos

Leite-breu d' aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes

Ele grita toquem mais doce a morte a morte é uma mestra d' Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos ares como fumaça
e terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim

Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é uma mestra d' Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d' Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra d' Alemanha

teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita

§

FUGA DA MORTE
trad. Leandro Konder.
em: Estudos de sociologia, v. 6, n. 11, 2001. Disponível aqui.

Leite negro do começo nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia nós o bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
cavamos um túmulo no ar lá não é apertado
um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve
escreve quando escurece na Alemanha teu cabelo dourado Margarete
ele escreve isso e vem para a frente da casa as estrelas brilham ele assovia para
seus mastins e assovia para seus judeus manda cavarem uma fossa no chão
e manda tocarem música para dançar

Leite negro do começo nós te bebemos à noite    
nós te bebemos de manhã ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve
escreve quando escurece na Alemanha teu cabelo dourado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamith nós cavamos no ar uma cova lá não é apertado

ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês e cantem vocês e toquem
ele tira o ferro da cintura e o brande seus olhos são azuis
enfiem mais fundo as pás e continuem tocando música para dançar

Leite negro do começo nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
um homem mora na casa teu cabelo dourado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamith ele brinca com as serpentes

Ele grita toquem com mais doçura a música da Morte a Morte é um mestre da Alemanha
ele grita tons mais graves nos violinos então vocês subirão como fumaça no ar
então vocês terão um túmulo nas nuvens lá não é apertado

Leite negro do começo nós te bebemos à noite
e te bebemos ao meio-dia a Morte é um mestre da Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a Morte é um mestre da Alemanha teu olho é azul
e te acerta com uma bala de chumbo te acerta em cheio
um homem mora na casa teu cabelo dourado Margarete
ele atiça seus cães de caça contra nós ele nos presenteia com um turrado no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a Morte é um mestre da Alemanha

teu cabelo dourado Margaret
teu cabelo cinzento Sulamith. 

§ 

FUGA FÚNEBRE
trad. Nelson Ascher.
em: Folha de São Paulo, 20/07/2003. Disponível aqui.

Leite preto da aurora o bebemos à tarde
meio-dia o bebemos e toda manhã toda noite
bebemos bebemos
cavamos no ar onde há lugar para a gente deitar-se uma cova
há um homem na casa que brinca com cobras que escreve
que escreve no ocaso à Alemanha natal Margarete suas tranças douradas
que ele escreve e vai diante da casa e as estrelas fulguram chamar assobiando seus cães
chamar seus judeus assobiando mandando-os cavarem na terra uma cova
ele manda tocarmos agora uma dança

Leite preto da aurora bebemos você toda noite
bebemos você de manhã meio-dia e de tarde
bebemos bebemos
há um homem na casa que brinca com cobras que escreve
que escreve no ocaso à Alemanha natal Margarete suas tranças douradas
Sulamita suas tranças cinzentas cavamos no ar onde há lugar para a gente deitar-se uma cova

Ele manda vocês aí escavem mais fundo este solo e vocês lá cantando e tocando
tem um ferro em seu cinto que pega e que brande tem olhos azuis
vocês com as pás escavando mais fundo e vocês lá tocando essa dança

Leite preto da aurora bebemos você toda noite
bebemos você de manhã meio-dia e de tarde
bebemos bebemos
há um homem que está Margarete suas tranças douradas
Sulamita suas tranças com cinzas na casa e que brinca com cobras

Ele manda tocarmos a morte com gosto que a morte é um mentor da Alemanha
ele berra ao ferirem mais fundo os violinos vocês flutuarão como no ar a fumaça
e vão ter com lugar pra deitar-se uma cova nas nuvens

Leite preto da aurora bebemos você toda noite
bebemos você meio-dia é que a morte é um mister da Alemanha
bebemos você toda tarde e manhã nós bebemos bebemos
é que a morte é um mentor da Alemanha com olhos azuis
que acerta uma bala de chumbo em você sempre acerta na mosca
há um homem que está Margarete suas tranças douradas na casa
que solta os cachorros na gente e que no ar nos concede uma cova
que brinca com cobras e sonha é que a morte é um mister da Alemanha

Margarete suas tranças douradas
Sulamita suas tranças em cinzas

§

FUGA DA MORTE
trad. Ricardo Domeneck.
em: Tradução, contexto e migrações possíveis, Germina, 2008. Disponível aqui

Leite negro da madrugada que bebemos à tardinha
nós bebemos ao meio-dia e de manhã nós bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
cavamos uma cova nos ares onde possamos espreguiçar-nos
Certo homem habita a casa e brinca com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha teu cabelo doirado Margarete
ele escreve e posta-se diante da casa estrelas chamejam ele assovia conclama seus cães
ele assovia enfileira seus judeus faz cavarem na terra uma cova
ele ordena desferi os violinos agora chacoalhemos os esqueletos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa e brinca com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha teu cabelo doirado Margarete
Teu cabelo cinzento Sulamita nós cavamos nos ares uma cova onde espreguiçar-nos
Ele grita pás mais fundo no miolo da terra vós e vós cantai e tocai
ele alcança o ferro na cintura agita-o nos ares seus olhos são azuis
mais fundo com as pás mais alto com os violinos chacoalhemos os esqueletos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita ele brinca com víboras

Ele grita dedilhai com mais doçura a morte a morte é especializada na Alemanha
ele grita desferi azuis os violinos e escalai como fumaça aos ares
assim tereis uma cova nas nuvens onde podeis espreguiçar-vos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós bebemos ao meio-dia a morte é especializada na Alemanha
nós bebemos à tardinha e de manhã nós bebemos e bebemos
a morte é especializada na Alemanha seus olhos são azuis
ele acerta teu corpo com balas metálicas acerta na mosca
certo homem habita a casa teu cabelo doirado Margarete
ele atiça contra nós seus cães brinda-nos com uma cova nos ares
ele brinca com víboras e sonha a morte é especializada na Alemanha

teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita

§

FUGA DA MORTE
trad. Karen Bakke de Araújo.
em: Cadernos de Literatura em Tradução, 2010, v. 11. Disponível aqui.

Leite preto matinal nós o bebemos de noitinha
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova nos ares lá não nos deitamos amontoados
Um homem mora na casa que brinca com as cobras que escreve
que escreve ao escurecer para a Alemanha teu cabelo dourado Margareta
ele o escreve e vai para frente da casa e as estrelas cintilam ele assobiando chama seus cães
assobiando chama seus judeus manda cavar uma cova na terra
ele nos ordena agora toquem uma dança

Leite preto matinal nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noitinha
bebemos e bebemos
Um homem mora na casa que brinca com as cobras que escreve
que escreve ao escurecer para a Alemanha teu cabelo dourado Margareta
Teu cabelo cinza Sulamita cavamos uma cova nos ares lá não nos deitamos amontoados

Ele grita cavem mais fundo na terra uns e outros cantem e toquem
ele saca a arma do cinto brandindo-a seus olhos são azuis
finquem mais fundo as pás uns e outros continuem a tocar uma dança

Leite preto matinal nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noitinha
bebemos e bebemos
um homem mora na casa teu cabelo dourado Margareta
teu cabelo cinza Sulamita ele brinca com as cobras

Ele grita toquem a música da morte com mais doçura a morte é um mestre da Alemanha
ele grita tirem um som mais sombrio dos violinos e vocês subirão como fumaça para os ares
assim vocês terão uma cova nas nuvens lá ninguém se deita amontoado

Leite preto matinal nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um mestre da Alemanha
nós te bebemos de noitinha e de manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre da Alemanha seu olho é azul
te atinge com uma bala de chumbo te acerta em cheio
um homem mora na casa teu cabelo dourado Margareta
ele incita seus cães para cima de nós ele nos presenteia com uma cova nos ares
ele brinca com as cobras e sonha
a morte é um mestre da Alemanha

teu cabelo dourado Margareta
teu cabelo cinza Sulamita

§

FUGA DA MORTE
trad. Renato Suttana
em: blog pessoal do tradutor, aqui.

Leite negro da aurora bebemos-te à tarde
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à noite
e bebemos bebemos
cavamos um túmulo no ar onde não se há de estar apertado
Mora um homem na casa que lida com cobras que escreve
quando descem as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
ele escreve e se afasta da casa e cintilam estrelas assovia chamando os mastins
e assovia judeus seus judeus cavem fundo uma cova na terra
agora nos manda tocar para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
Mora um homem na casa ele brinca com cobras e escreve
quando baixam as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
Teu cabelo de cinza Sulamita cavamos um túmulo no ar onde não se há se estar apertado

Grita cavem mais fundo essa terra vocês acolá vocês cantem e toquem
pega o ferro do cinto balança-o seus olhos azuis
cavem fundo essas pás vocês estes aqueles não parem a música a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com cobras

Grita toquem a morte mais doce é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
grita toquem mais sombra os violinos depois subam como fumaça
e hão de ter uma cova nas nuvens que lá não se fica apertado

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te à tarde é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
bebemos-te à noite ou bem cedo e bebemos bebemos
a morte é um mestre senhor da Alemanha seu olho é azul
ele acerta-te a bala de chumbo te acerta na mosca
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
ele atiça os mastins contra nós e nos dá uma cova nos ares
ele lida com cobras e sonha é a morte um dos mestres senhor da Alemanha

teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita

§

FUNESFUGA
trad. Mauricio Cardozo.
em: Lending Voice, 08/02/2012.

 
§

FUGUE OF DEATH
trad. Michael Hamburger.
em: Modern German Poetry, Macgibbon & Kee, 1962, p. 318-321.

Black milk of daybreak we drink it at sundown
we drink it at noon in the morning we drink it at night
we drink and we drink it
we dig a grave in the breezes there one lies unconfined
A man lives in the house he plays with the serpents he writes
he writes when dusk falls to Germany your golden hair Margarete
he writes it and steps out of doors and the stars are flashing he whistles his pack out
he whistles his Jews out in earth has them dig for a grave
he commands us strike up for the dance


Black milk of daybreak we drink you at night
we drink in the morning at noon we drink you at sundown
we drink and we drink you
A man lives in the house he plays with the serpents he writes
he writes when dusk falls to Germany your golden hair Margarete
your ashen hair Shulamith we dig a grave in the breezes there one lies unconfined.


He calls out jab deeper into the earth you lot you others sing now and play
he grabs at the iron in his belt he waves it his eyes are blue
jab deeper you lot with your spades you others play on for the dance


Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at noon in the morning we drink you at sundown
we drink you and we drink you
a man lives in the house your golden hair Margarete
your ashen hair Shulamith he plays with the serpents

He calls out more sweetly play death death is a master from Germany
he calls out more darkly now stroke your strings then as smoke you will rise into air
then a grave you will have in the clouds there one lies unconfined


Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at noon death is a master from Germany
we drink you at sundown and in the morning we drink and we drink you
death is a master from Germany his eyes are blue
he strikes you with leaden bullets his aim is true
a man lives in the house your golden hair Margarete
he sets his pack on to us he grants us a grave in the air
he plays with the serpents and daydreams death is a master from Germany


your golden hair Margarete
your ashen hair Shulamith 


§
FUGUE OF DEATH
trad. Christopher Middleton.
em: Paul Celan: Selected Poems, Penguin, 1972. Disponível aqui.

Black milk of daybreak we drink it at nightfall
we drink it at noon in the morning we drink it at night
drink it and drink it
we are digging a grave in the sky it is ample to lie there
A man in the house he plays with the serpents he writes
he writes when the night falls to Germany your golden hair Margarete
he writes it and walks from the house the stars glitter he whistles his dogs up
he whistles his Jews out and orders a grave to be dug in the earth
he commands us strike up for the dance

Black milk of daybreak we drink you at night
we drink in the mornings at noon we drink you at nightfall
drink you and drink you
A man in the house he plays with the serpents he writes
he writes when the night falls to Germany your golden hair Margarete
Your ashen hair Shulamith we are digging a grave in the sky it is ample to lie there

He shouts stab deeper in earth you there and you others you sing and you play
he grabs at the iron in his belt and swings it and blue are his eyes
stab deeper your spades you there and you others play on for the dancing

Black milk of daybreak we drink you at nightfall
we drink you at noon in the mornings we drink you at nightfall
drink you and drink you
a man in the house your golden hair Margarete
your ashen hair Shulamith he plays with the serpents

He shouts play sweeter death’s music death comes as a master from Germany
he shouts stroke darker the strings and as smoke you shall climb to the sky
then you’ll have a grave in the clouds it is ample to lie there

Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at noon death comes as a master from Germany
we drink you at nightfall and morning we drink you and drink you
a master from Germany death comes with eyes that are blue
with a bullet of lead he will hit in the mark he will hit you
a man in the house your golden hair Margarete
he hunts us down with his dogs in the sky he gives us a grave
he plays with the serpents and dreams death comes as a master from Germany

your golden hair Margarete
your ashen hair Shulamith.


§

DEATHFUGUE
trad. John Felstiner.
em: Paul Celan: Poet, Survivor, Jew, Yale Nota Bene, 2001. Disponível aqui.

Black milk of daybreak we drink it at evening
we drink it at midday and morning we drink it at night
we drink and we drink
we shovel a grave in the air there you won't lie too cramped
A man lives in the house he plays with his vipers he writes
he writes when it grows dark to Deutschland your golden hair Margareta
he writes it and steps out of doors and the stars are all sparkling, he whistles his hounds to come close
he whistles his Jews into rows has them shovel a grave in the ground
he commands us to play up for the dance.

Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at morning and midday we drink you at evening
we drink and we drink
A man lives in the house he plays with his vipers he writes
he writes when it grows dark to Deutschland your golden hair Margareta
Your ashen hair Shulamith we shovel a grave in the air there you won't lie too cramped

He shouts jab the earth deeper you lot there you others sing up and play
he grabs for the rod in his belt he swings it his eyes are so blue
jab your spades deeper you lot there you others play on for the dancing

Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at midday and morning we drink you at evening
we drink and we drink
a man lives in the house your goldenes Haar Margareta
your aschenes Haar Shulamith he plays his vipers
He shouts play death more sweetly this Death is a master from Deutschland
he shouts scrape your strings darker you'll rise then as smoke to the sky
you'll have a grave then in the clouds there you won't lie too cramped

Black milk of daybreak we drink you at night
we drink you at midday Death is a master aus Deutschland
we drink you at evening and morning we drink and we drink
this Death is ein Meister aus Deutschland his eye it is blue
he shoots you with shot made of lead shoots you level and true
a man lives in the house your goldenes Haar Margarete
he looses his hounds on us grants us a grave in the air
he plays with his vipers and daydreams der Tod ist ein Meister aus Deutschland

dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Shulamith


§

DEATH FUGUE
trad. Jerome Rothenberg.
em: Paul Celan: Selections, University of California UP, 2005. Disponível aqui.

Black milk of morning we drink you at dusktime
we drink you at noontime and dawntime we drink you at night
we drink and drink
we scoop out a grave in the sky where it’s roomy to lie
There’s a man in this house who cultivates snakes and who writes
who writes when it’s nightfall
nach Deutschland your golden hair Margareta
he writes it and walks from the house and the stars all start flashing he whistles his dogs to draw near
whistles his Jews to appear starts us scooping a grave out of sand
he commands us to play for the dance

Black milk of morning we drink you at night
we drink you at dawntime and noontime we drink you at dusktime
we drink and drink
There’s a man in this house who cultivates snakes and who writes
who writes when it’s nightfall
nach Deutschland your golden hair Margareta
your ashen hair Shulamite we scoop out a grave in the sky where it’s roomy to lie
He calls jab it deep in the soil you lot there you other men sing and play
he tugs at the sword in his belt he swings it his eyes are blue
jab your spades deeper you men you other men you others play up again for the dance

Black milk of morning we drink you at night
we drink you at noontime and dawntime we drink you at dusktime
we drink and drink
there’s a man in this house your golden hair Margareta
your ashen hair Shulamite he cultivates snakes

He calls play that death thing more sweetly Death is a gang-boss
aus Deutschland
he calls scrape that fiddle more darkly then hover like smoke in the air
then scoop out a grave in the clouds where it’s roomy to lie

Black milk of morning we drink you at night
we drink you at noontime Death is a gang-boss
aus Deutschland
we drink you at dusktime and dawntime we drink and drink
Death is a gang-boss aus Deutschland his eye is blue
he shoots you with leaden bullets his aim is true
there’s a man in this house your golden hair Margareta
he sets his dogs on our trail he gives us a grave in the sky
he cultivates snakes and he dreams Death is a gang-boss
aus Deutschland

your golden hair Margareta
your ashen hair Shulamite



TODESFUGE
Paul Celan.

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland


dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith


§



ER
Immanuel Weissglas.

Wir heben Gräber in die Luft und siedeln
Mit Weib und Kind an dem gebotnen Ort.
Wir schaufeln fleißig, und die andern fiedeln,
Man schafft ein Grab und fährt im Tanzen fort.

Er will, daß über diese Därme dreister
Der Bogen strenge wie sein Antlitz streicht:
Spielt sanft vom Tod, er ist ein deutscher Meister,
Der durch die Lande als ein Nebel schleicht.

Und wenn die Dämmrung blutig quillt am Abend,
Öffn‘ ich nachzehrend den verbissnen Mund,
Ein Haus für alle in die Lüfte grabend:
Breit wie der Sarg, schmal wie die Todesstund.

Er spielt im Haus mit Schlangen, dräut und dichtet,
In Deutschland dämmert es wie Gretchens Haar.
Das Grab in Wolken wird nicht eng gerichtet:
Da weit der Tod ein deutscher Meister war.

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