"Seja este o poema", de Philip Larkin.



Nelson Ascher o chama de um ótimo poema repulsivo. Acho que é bem por aí mesmo. Pois veja você que estamos diante de um dos mais famosos de toda a língua inglesa, certamente daquele tipo de poema que seus professores te proíbem de ler só pra que, assim, você acabe dando um jeito de ler escondidinho. Publicado na antologia High Windows, de 1974, o poema retira seu título de um outro, de Stevenson, intitulado Requiem, cujo primeiro verso da segunda estrofe é "This be the verse you grave for me".

Tudo no poema de Larkin é muito simples e direto, da escolha do tom meio aforismático, sentencioso, certo de estar dizendo uma verdade, ao ritmo composto de tetrâmetos iâmbicos que criam um andamento relativamente infantil à coisa toda (tetrâmetros iâmbicos são comuns na poesia infantil inglesa). A intimidade já começa com your mum and dad logo no primeiro verso, e, daí, parte para um ambiente onde a sacanagem em família chega ao ponto onde o dolo ou a culpa se tornam irrelevantes (segundo verso) e onde esses mesmos pais que legam miséria para seus filhos, esses mesmos pais são fodidos por seus antepassados (segunda estrofe). Na verdade, Larkin vai generalizando até o ponto de, no primeiro verso da terceira estrofe, dizer: Man hands on misery to man. Ou seja: você já nasce herdando uns podres por parte dos pais, mas, à medida que vai vivendo, percebe que as coisas parece que sempre foram assim e assim hão de continuar. It deepends like a coastal shelf. coastal shelf é a parte do mar que separa a areia, a coastline, daquele barranco (continental slope) que nos leva ao fundo do oceano. Se a coisa se aprofunda como uma coastal shelf, então quer dizer que estamos à beira de um tombo feio, feio, pois, de resto, é isso o que a coastal shelf faz: você está ali, dentro da água, achando tudo muito bem, tudo muito bom, até que pisa em falso e escorrega direto para a morte. Súbito, sem possibilidade de reação. Indefeso. Um recém-nascido não é indefeso, afinal de contas, diante dos podres que seus pais legam-lhe, ainda que sem querer?

Tudo, em suma, é horrível. O tom franco do poema, direto, diretíssimo por exemplo quando diz que nossos pais fodem a gente, se torna, meio que de súbito, um tom amigável, muito ao contrário do que o início pode transparecer. Em solo nacional é muito difícil não nos lembrarmos do final de Brás Cubas, onde a opção por não ter filhos e por não legar algo da nossa miséria se torna uma espécie de alento para o protagonista-defunto. O narrador permeia seu capítulo de negativas, seja a do destino em permitir o sucesso de seu emplasto, seja sua negativa de padecer a morte de D. Plácida, seja de coisas como "não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento." Sim, tudo isso. Mas há uma negativa derradeira: negar-se a passar toda a sua negatividade para um filho. No poema de Larkin também existe esse forte sentido hereditário ao longo do texto e que fundamenta o don't have any kids yourself, se tomarmos como base o fuck you up do primeiro verso (fazendo com que o fuck, que literalmente dá origem à vida, dê origem a uns podres a mais), os antepassados (fools in old'style hats and coats) e a miséria de homem a homem (hands on misery to); sim, tudo certo, mas veja você que um sentido desses passa pelo fio da espada de um outro ― pela formacomo o mundo se torna um local inóspito, fazendo com que a questão se desloque um pouco da transmissão da miséria pra sacanagem que é botar alguém num mundinho de merda como esse. Como digo em minha tradução, infelizmente me afastando da ideia de coastal shelf, é uma fossa que avoluma. Não. A resposta é: recuso.

§

Compilo aqui todas as traduções que conheço do poema, fornecendo, como de praxe, uma versão minha com o intuito de tentar chegar, na medida do possível, a novas soluções, o que acabou sendo uma imposição em específico no fim do poema, onde busquei fugir da rima cômoda em "-undo". A expressão soppy-stern, que recebeu de Nelson Ascher uma ótima tradução, também buscou ser traduzida, sem, claro, o brilhantismo das traduções alheias. Faço notar, por fim, que há uma tradução de Paulo Henriques Britto publicada em 1990 na revista Verve, de abril. Não tive acesso.

*

P.S. (13/10/17): Adicionada a segunda versão de Nelson Ascher.


SEJA ASSIM O POEMA
trad. Rui Carvalho Homem.
em: Janelas altas, Cotovia, 2004. Disponível aqui.
Fodem-te a vida, o papá e a mamã,
Mesmo que não seja essa a intenção.
Deixam-te todos os vícios que tenham
E mais dois ou três, por especial atenção.

Mas no tempo deles também foram fodidos
Por tolos trajando jaquetão e coco,
Que quando não estavam piegas ou hirtos
Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

E assim é legada a infelicidade,
Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.
Foge mal tenhas oportunidade
E quanto a teres filhos – isso nem pensar.

§

ESTE SEJA O POEMA
trad. Nelson Ascher.
em: Folha de São Paulo, 30/06/2008. Disponível aqui.
Teu pai e mãe fodem contigo.
Que não o queiram, tanto faz.
Legam-te cada podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas de cartola e fraque, outrora,
fodera-os já do mesmo modo,
gente ora austero-piegas,
ora se engalfinhando cega de ódio.

Passa-se a dor adiante: fossas
num mar que só fica mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
sem pôr nenhum filho no mundo.

*

trad. Nelson Ascher [2ª versão].
em: Veja, 12/10/17. Disponível aqui.
Teu pai e tua mãe fodem contigo
Que não o queiram, tanto faz.
Passam-te todo podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas, de cartola e fraque outrora,
fodera-os já do mesmo modo,
gente ora austero-piegas, ora
se engalfinhando cega de ódio.

Miséria é o que legamos — fossas
no oceano cada vez mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
nem ponhas filho algum no mundo.

§

SEJA ESTE O VERSO
trad. Alipio Correia Neto. [1ª versão]
em: Revista Crioula, n. 4, 2008.
Eles te fodem, teus queridos pais.
É sem querer, só que a verdade é esta —
Te enchem das culpas que tiveram mais
E dão, só pra você, uma dose extra.

Mas eles se foderam com uns néscios
De paletós e de chapéus à antiga,
Durante o dia, piegas e perversos,
À noite, se esganando numa briga.

Legamos dor aos nossos semelhantes.
Como um recife, ela se crava fundo.
Por isso, saia dessa o quanto antes,
E nunca ponha filhos neste mundo.

*

trad. Alipio Correia Neto. [2ª versão]
em: blog pessoal do tradutor, 16/07/2013. Disponível aqui.
Te fodem, a mamãe e papai.
Sem querer, mas é o que lhes resta.
Te enchem das culpas que têm mais
E dão, só pra você, mais de extra.

Foram fodidos por uns néscios
De paletó e chapéu à antiga,
De dia piegas e perversos,
De noite se esganando em briga.

Legamos dor aos semelhantes;
Como um baixio se crava fundo.
Cai fora dessa o quanto antes,
Não ponha filhos neste mundo.

§

QUE ASSIM SEJA O VERSO
trad. Ruy Vasconcelos.
em: Zúnai, 2010. Disponível aqui.
Eles te fodem, teus dignos pais.
Podem dizer que não, mas remanescem.
Te legam seus defeitos pessoais
E alguns extras, só para ti, acrescem.

Mas a seu tempo foram fodidos nos zeros
Por idiotas de velhos chapéus e churras,
Que metade do tempo eram austeros
E outra metade viviam às turras.

O homem a desgraça passa ao homem.
E ela aprofunda-se como uma gamboa.
Anda, sai logo dessa, vê se some,
E não pensa que ter filhos é uma boa.

§

SEJA ESTE O POEMA
trad. eu.
Mamãe e papai te fodem feio.
Talvez não queiram, mas vão lá.
Te entopem de erros deles, meio
Que pondo uns novos pra agradar.

E eles se fodem do seu lado
Por gente besta em roupa arcaica,
Um povo birrento-quadrado
Que às vezes dá a louca e se ataca.

Só deixamos miséria, e essa
Miséria é fossa que avoluma.
Pula fora daqui depressa,
Mas sem deixar criança alguma.

§

THIS BE THE VERSE

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.



CAPÍTULO CLX
Das Negativas
Machado de Assis

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do Céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

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