Esse modelo de poesia performática

(digamos, hmmm... projetada pra saraus, slams ou qualquer congregação pública) não desce muito bem comigo ainda, mas acho que Mel Duarte, aí no vídeo, consegue pelo menos estabelecer um patamar de qualidade (isto é, você passa a ter como COMPARAR), com alguns momentos francamente bons, por exemplo a parte do cabelo negro como não só resistente, mas resistência, ou o início do segundo poema: "Frestas invadem janelas / (...) / Um reflexo, uma luz que não reverbera".

Serei mais claro. No primeiro exemplo nós temos aquilo que no século XVII seria chamado de wit. E mais: note também como ela acelera a declamação ali perto da parte dos palavrões e depois desacelera em específico no "imponência", fazendo com que a tensão aumente e com que o jogo cabelo resistente/resistência surja com mais ênfase. Isso é bom. Mas o segundo exemplo é ainda melhor, pois ele cria um ambiente poético com habilidade, o primeiro verso, aliás, estupendo. Quer dizer: estupendo pois associamos janelas a liberdade (coisa tanto mais automática depois de sermos informados da gênese do poema), mas, a partir do momento em que as frestas invadem essas janelas, então nós somos jogados num ambiente, como eu disse, construído com habilidade, pois se as frestas invadem as janelas, a imagem retratada foge daquele clichê da janela ser uma fresta para a realidade do cárcere para, ao contrário, retratar como nem mesmo a janela e tudo aquilo que ela nos permite ver ― como nem mesmo isso incute liberdade bastante, o que faz da invasão das frestas no espaço dessas janelas (o que pode indicar que as janelas são exíguas também) adiciona em comovência (pequenos instantes de ação e ousadia, correlatos à alegria relacionada aos dentes amarelos ― aqui tomados num sentido mais amplo, certamente como metáfora das péssimas condições do local, bastando que você note o sorriso que a poetisa dá quando diz "risadas", seguida da rápida pausa e da cara de desprezo quando diz "amarelas").

Sem contar o reflexo, luz que não reverbera. Pois a luz cairia bem naquele local que, presumimos, é uma verdadeira masmorra. Janelas, frestas que invadem... As coisas parecem escuras (em certa passagem ela vai trabalhar a assonância em U e palavras rimadas coladinhas uma na outra: "Seres confusos, escusos"). A poetisa enumera os objetos ali dentro com um certo desprezo ("Ruídos, sistemas, celas"). São coisas mesquinhas as que existem ali à disposição dos meninos. Portanto, a luz cairia bem. Mas ela não cai exatamente. Um reflexo. Uma luz que não reverbera. Tudo ali é uma pálida imagem. O reflexo é servil. Ele não ilumina. Digamos que copia, abaixa a cabeça (o próximo verso é: "Fardas tão singelas e a mente não oxigena" ― verso estranho, admito). Não é ruim. Tudo bem comprimido no início do poema, dando a letra logo de cara. Fisga sua atenção.

Pois quando falo em patamar de qualidade, não é só no sentido de que a performance com versos assim; é também no sentido de que considerando esse tipo de performance nua, contando com a voz apenas e uns gestos aqui e acolá, a poetisa se sai bem, muito bem. Quem estava ali na hora certamente sentiu o cálcio da espinha arrepiar todinho. Claro que você pode se ressentir de uma ausência de um trabalho poético mais específico, algo que fizesse com que o texto deixasse essa cara de nota de repúdio rimada ocasionalmente ― às vezes tão ocasionalmente que, quando a rima surge, é como se o poeta tivesse esquecido que está compondo um poema e, a+b, ele deve rimar (portanto, tratemos de rimar desde já, ainda que fazendo com que o poema fuja dos trilhos e a rima surja toda destrambelhada e desnecessária), e não o digo porque ele parte de uma concepção simplista de que todo poema deve rimar (pode ser também, nunca se sabe); digo porque a rima, nesse tipo de poesia performática, é um recurso importante pois assim o público sente o ritmo palpitar. Mas eu dizia da nota de repúdio rimada ocasionalmente ― e sim, concordo, e é por isso que esse modelo de poesia não desce muito bem comigo ainda. Mas ela tem crescido pra caramba e é algo que tem sido muito praticado e tem gente que está se especializando nisso. Mel Duarte é uma delas. Então ok, válido. Se quer saber, achei a performance dela até mesmo melhor que a da tal da Kate Tempest. E, coisa que não preciso nem dizer, certamente muito melhor que a do poeta municipal que acha que suas rimas em "-ão" são a última bolacha do pacote, ainda mais porque escudadas por um anti-parnasianismo professo (e é, pois é, na cabeça dele realmente faz todo sentido ir contra uma estética do século retrasado ― e digo isso porque o único, se quer saber, que depois do Modernismo heroico de 22 sustentou um discurso anti-parnasianista coerente foi Bruno Tolentino).


 

Porque se você acha isso daí pouco, presta atenção, leitor. Ela tem até cd gravado, e teve as manhas de se sair com isso:


No gogó, apenas (as outras faixas contarão com instrumentos e essas tranqueiras todas). Imagine você pondo o fone e escutando isso antes do trabalho. "Temos olhos de estrelas que por vezes se permitem constelar" (note a ênfase no "por vezes", note a pausa antes do "constelar", note o tom plácido seguido da voz ríspida nos versos seguintes). É bonito. Qualquer poeta ficaria feliz depois de ter escrito algo assim. Imagem delicada, serena, dessas que até afagam...

O terceiro poema que ela leu no sarau da Flip você pode ver aqui também:


Com o ruído do ambiente, motos passando, pessoas indo e vindo, a poetisa se movimentando e a voz empostada... (Bem diferente do áudio límpido e do público albergado em poltronas confortáveis e de uma utilíssima tomada de câmera mostrando as palmas na intensidade certa e a casa cheia.) Não, é mais do que isso. "Empostada" é pouco: quando ela diz, por exemplo, "Praticando sessões de estupro que ficam sem justiça / Carniça!", existe uma vida própria, um verdadeiro álbum de fotografias na simples forma como ela esbraveja a palavra. E isso é ótimo. Tudo isso é ótimo e permite termos uma ideia melhor das bases sobre as quais sua performance se assenta. Um patamar de qualidade.

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