As peripécias de um leitor de livros digitais.



Pelo menos quase tão leve quanto seu celular. (Considerando que os celulares hoje parecem uma TV de plasma, é bem provável que menor também.) Um botão ali na parte de baixo pra que você consiga colocar no descanso de tela (imagens de uma psicodelia monocromática aconchegante) e, se pressionar (por quanto tempo direito eu não sei, mas força nesse dedo), possa desligar, reiniciar, mudar de ideia, essas coisas. Existem modelos com botões a mais, alguns sofisticados o bastante pra que, com uma simples pressão, a tela, como de praxe, se embaralhe um pouco e plim!, página nova, vida que segue. Ou aqueles com capas que recarregam o aparelho com luz solar (um legado das árvores milenarmente serradas em prol da auto-ajuda). Mas não é de nenhum desses que falo: antes, é do modelo mais humilde, a versão mais simples que você irá encontrar, a que não conta nem mesmo com luz embutida, o que talvez até seja algo bom para seus olhos, que assim se veem afastados da tentação de ler à noite (ou qualquer outra desculpa que você dê para si próprio querendo, com isso, justificar as razões que te levaram a comprar o modelo mais simples só porque era mais barato e não devia fazer tanta diferença).

Seja lá qual for, a tela. Um minuto de sua atenção. É difícil descrever exatamente o que seria essa tela. Ela é muito mais do que branca, muito mais do que confortável. Parece existir uma espécie de magia negra na coisa toda. É como se fosse a parede branca que você pintou semana passada mesmo, esse tipo de coisa que não é da brancura artificial de uma propaganda de pasta dental, mas, pelo contrário, é da brancura que acompanha a luminosidade do aposento, capaz de se inundar de penumbra e de se aclarar com raios de sol. Como se o aparelho nem mesmo tivesse ligado, e aquilo ali fosse uma tela de suporte desnuda, um pedaço de parede, eu disse. Mas aí você aperta aquele botão ali da parte de baixo e as letras surgem, elas como que florescem da tela. Não é a tela toda que surge, um feixe de luz. São apenas as letras. Não é uma imagem completa que preenche a tela. São apenas as letras. O espaço que existe entre "paixão" e "avassaladora" é um vácuo, do mesmo modo que o espaço preenchido por essas mesmas palavras numa folha datilografada era, pura e simplesmente, a própria folha datilografada. Chamam isso de tecnologia e-ink: é como se sua superfície fosse uma piscina de bolinhas, cada bolinha recheada de pigmentos pretos e brancos imersos num fluido. Um comando é feito para que se forme a letra P seguida de A, de I, de X... E cada uma das bolinhas faz seu silencioso trabalho.

Você passa o dedo, quer sentir de perto. Tela fosca, antirreflexo... A superfície é levemente áspera. Ela não é de um tipo de polidez que faz com que seu dedo escorregue macio. Também faz com que seu dedo escorregue macio, mas, à maneira de uma página de livro, que não te deixa tatear aquilo como se tateia um balcão de mármore, do mesmo modo a tela te convida para simples movimentos, pequenos toques, viradas de página com a ponta dos dedos. Porque quando tiramos os dedos de lá, nós até sentimos o impulso de olhar para as pontas: era como uma parede, não era? Recém pintada, não era? Então: cadê a tinta?





O sistema de avanço de leitura é útil, mas é preciso convir que se trata de uma utilidade limitada. Quando abro uma brochura, eu sei precisar mais ou menos a porcentagem de leitura que já fiz. A precisão numérica é um fetiche, um detalhe, de modo que este deixa de ser um atrativo propriamente falando.

A ideia dos livros digitais envolve poucos atrativos. Pelo menos no sentido de que um celular envolve atrativos e se assemelha a um canivete suíço. Há a questão dos dicionários: basta que se pressione um pouco a palavra que uma definição irá surgir. Português, inglês, inglês-português... Aquele trabalho aporrinhante de abrir um pesado dicionário e colocar o livro que lemos em cima, pra que, caso não saibamos o significado de furbelow, possamos fechar um pouco a brochura e manusear os quadrados gigantes das folhas do dicionário. Ou então um navegador aberto, o que facilita um pouco a coisa mas que, ainda assim, nos faz ter de incorrer no trabalho de fechar o livro e, portanto, arrefecer um pouquinho a máquina que produzia aquele interessante feudo e aquelas interessantes cortesãs, abrirmos o navegador, entrarmos no dicionário online, pesquisarmos (não sem antes conferirmos as curtidas)... Que coisa mais estafante! Ninguém merece uma vida dessas.

É possível mudar o tamanho da fonte também: seus avós nunca mais vão reclamar. O tipo da fonte. Destacar trechos, fazer anotações, colocar quantos marcadores de página quiser sem precisar colecionar cartões de visita e folders de restaurantes. Ir pra lá, ir pra cá. Pular de capítulos. Ir pra página exata em que se encontra o trecho exato. Conectar-se à internet, ainda que de forma rudimentar (o suficiente pra que pelo menos o site de compras funcione), e compartilhar a passagem que acabou de ler. Ou ver o que outras pessoas também sublinharam. Ou então que tal essa: um mecanismo que calcula, eu só não sei como, que palavras você provavelmente terá dificuldades, fazendo com que, entre uma frase e outra, e bem em cima da palavra, apareça uma sugestão de tradução. É útil, vamos convir. Do mesmo modo que é útil, edificante, bonito, encorajador abrir o tal do Construtor de Vocabulário e dar uma averiguada em todas as palavras que você já consultou na sua vida de leitor.

Tudo quanto é tipo de ferramenta que você sempre sonhou ter ao alcance do dedo está lá. O trabalho desses caras é esse: criar um trambolho que permita aos leitores a coisa mais confortável do mundo. Os caras chegam a arredondar o design do aparelho pra que você consiga ler sem que ele escorregue pelas mãos, ou então adicionam um botão ali na lateral (aquele botão que, como eu disse, sente a pressão do seu dedo com uma sensibilidade romântica) só pra que você consiga ler com uma delas. Chegará o instante em que irão embutir uma câmera ali no pingo do I da logomarca capaz de perceber quando você está olhando fixamente demais pro canto da página, querendo mudá-la.

E falo disso sem nem entrar no argumento-mor em prol dos livros digitais: a tentação de carregar uma biblioteca ali dentro. Os contos completos de Tolstói, por exemplo, três elegantes volumes em capa dura, cor azul, aclimatados numa caixa firme (dessas que talvez aguentem um soco), fina lavra da finada Cosac Naify. Existe uma gravidade implícita no manuseio de livros assim. E não digo no sentido de que você não o leria no ônibus por motivos de comodidade, higiene ou zelo pessoal. Tudo isso incide também no âmbito dos leitores digitais, majorados pela segurança pública pura e simples. Estou falando da situação de ler numa rede, por exemplo, ali no período da tarde, dormidas as horas de sono após o almoço. Ninguém quer empunhar um livro daqueles com muito esforço. Ninguém quer muito esforço. Isso de segurar o livro com uma das mãos, pondo o polegar pra que mantenha a página aberta... Faça-me o favor. Eu não tenho bíceps nem pulso pra aguentar essa literatura caudalosa dos russos. O argumento é cristalino: ergo os estandartes da cultura sem arrebentar minha compleição, e, caso queira sair de Tolstói e me esgueirar para Martha Medeiros, bastar-me-á algumas estocadas, brandas, com os dedos, nada que me faça locomover o esqueleto e derrubar as jarras de vinho da preguiça.





Mas encontramos perigos. Ler, por definição, é tratar o objeto livro como um bem precioso. E não falo apenas daquele caso óbvio em que a capa dura descolada e encapada com papel de ursinhos se transforma no livro que sua mãe leu pro vestibular. Me refiro também à paleta de cores hipnótica coroada de letras gordas e harmônicas que, logo após pagarmos o boleto e vivermos as intermináveis horas de espera até que o herói de nosso tempo, o carteiro, bata no portão e o cachorro corra em disparada; me refiro também à metamorfose que aquele objeto, preso no quadrado de um bitmap cuja única função é despertar sua lascívia, sofre quando desembrulhado, revelando, por trás do que antes era a descrição de uma capa dura nas especificações do produto, uma bela duma capa dura com letras emborrachadas e em alto relevo. Isso sim é um momento mágico. Abrir um livro bem feito. Sentir seu cheiro. Comparar esse mesmo cheiro com aquele transporte, aquele sublime de um livro envelhecido, sem se esquecer do golpe fulminante que uma capa dura com uma grossa película de poeira sobre suas páginas e uma lombada de couro é capaz de oferecer.

Tocar as páginas. O dourado espalhafatoso nas laterais das folhas. Aquela língua de fora, roxa. É incômodo manusear um livro grosso, mas nós, leitores, historicamente vencemos com galhardia a batalha. A sensação de, com ambas as mãos, abrir um livro com o único propósito de devassar suas histórias enquanto, com a palma dos dedos, sentimos o tecido que reveste a capa dura. Leitores digitais são rápidos, e, como dito, em instantes eu troco de livros, mas eles não conseguem competir com dois de nossos dedos estrategicamente posicionados e prontos para o trabalho de comparar a pedra no meio do caminho com, páginas depois, a chave de ouro no soneto Legado. Isso é mais rápido, confortável, nós nos sentimos como linces saltitando e capturando a presa de olhos fechados.

Consigo ver seu sorriso. As sensações são maravilhosas. Essa daqui é ótima também: a vertigem sentida quando se entra numa livraria, num sebo, numa biblioteca, no amontoado de livros de alguém. As capas, tão díspares, tão únicas... Ou então as coleções, que, juntinhas, à maneira das pernas das nadadoras olímpicas saindo com leveza da água, promovem um instante de volúpia visual no meio da paleta de cores caótica das lombadas na estante. A parte de fora de um livro é um aspecto tão marcante que tão logo sentimos a surpresa de encontrar um irmão, um igual no transporte público, calmamente ou com muito esforço lendo seu livro enquanto o ônibus sacoleja rumo ao fim do mundo, nosso impulso é o de aproveitar a ginástica do momento para descobrir, nem que isso custe o vexame!, o vexame!, que livro é aquele.

Sentimentos assim os livros digitais não são capazes de nos oferecer. Se tiro o meu da mochila, as pessoas jamais saberão que livro é aquele que estou lendo. Eu não exibirei ao mundo em que toca de coelho me adentro. Do mesmo modo, se vejo uma imagem disposta na tela desses aparelhos, essa imagem me seduz com muito pouco, me seduz com quase nada. Livros digitais não foram feitos para crianças. O leitor de livros digitais infantis continua sendo um tablet qualquer, onde o prazer de uma boa história tem de disputar espaço com um pinguim que come peixes numa bocada só (e arrota, claro, pois isso é hilário). Nossos olhos não se arregalam quando encontramos uma gravura de Gustave Dorè na página de um leitor digital. Pode ser que a tecnologia se aprimore a ponto de ultrapassar, mais uma vez, as telas de computadores, e pode ser que ela apresente essas gravuras de Dorè com mais realismo que a imagem aberta no navegador, do mesmo modo que as letras que agora você lê são muito mais letras quando dispostas na parede em branco dos leitores digitais. É verdade. Mas e quanto às gravuras coloridas? É um passo tremendo. Os livros digitais parecem ser projetados para o público adulto, um público padrão e lacônico que não vê tanta diferença em se iniciar um poema com uma fonte toda encaracolada e na cor vermelha. Pelo menos tão cedo não creio que poderemos haurir um pouco do prazer medieval de encontrar iluminuras nas aberturas dos livros.

Na verdade, o trabalho com a fonte do texto, com sua disposição, com sua diagramação se torna outro muito diferente. Se possuo a liberdade de trocar a fonte do texto que leio, e aumentá-la e diminuí-la, então a fonte usada já não conta muito e aquele risco de diagramar com a fonte num tamanho determinado, com um espaçamento determinado, com tais e tais margens... Bem, esse risco desaparece, e o trabalho da diagramação cede espaço ao trabalho de fazer com que, independente da formatação de página que eu tenha escolhido, eu não me veja diante das incômodas situações de uma frase que, mesmo num texto justificado, não chega ao fim porque a palavra é muito grande e só caberia, completa, na outra frase. Muitos têm optado pela opção de não justificar o texto, o que melhora a legibilidade da página disposta, ou seja: aqueles espaços em branco que costumam existir quando o texto é justificado e não consegue contar com um algoritmo que separe sílabas (de modo que se a palavra "legibilidade" não couber na frase, ao invés de cortá-la para "legibi-" e "-lidade", a palavra é empurrada para a próxima e os espaços em branco entre as palavras na anterior são aumentados), é melhor que se deixe sem justificação nenhuma para que justamente esses espaços em branco não atrapalhem a experiência da leitura. Uma editora como a finada Cosac Naify, que sempre se preocupou muito com o produto final apresentado, até mesmo no caso de livros digitais continuava oferecendo um bom produto, optando, no caso de livros como os ensaios de Virginia Woolf ou a cachalote de Melville, por não justificar os parágrafos de seus ebooks.





Pôr os pés no século XXI enquanto leitor é se preparar para o surgimento inevitável da pergunta: os livros irão desaparecer? Mas essa pergunta feita com seriedade, de modo que, embora você seja uma pessoa inocente, como antes eu mesmo fui, e equacione a pergunta numa versão apocalíptica que envolva militares com coturnos pretos e um lança-chamas, ainda assim você se veja encurralado diante dela, obrigado a tomar partido dos livros digitais ou dos livros físicos.

É tentador poder contar com todo o cânone de peças de Shakespeare e com 17 peças apócrifas, peças perdidas e até mesmo Double Falsehood, pelo preço singelo de 10 reais. Se isso se transformasse num livro físico, imagine o peso que isso não daria, imagine o preço! Eu mesmo não conheço nenhuma publicação das obras completas de Shakespeare que tenha as manhas de incluir tudo isso, além do Prefácio de Johnson e dos textos de Tolstói. Pois é. A edição da Delphi tem. E uma edição bem diagramada, que fique claro. Até as coletâneas de poesia deles são bem feitas, e veja você que, nesse caso, via de regra os poemas são diagramados de qualquer jeito, pondo um recuo excessivo que acaba fazendo com que o poema se achate num canto e fique todo deformado com quebras de linha, ou então que confunde, por algum motivo, o espaçamento que se dá entre um parágrafo e outro com o espaçamento que se dá entre versos, quem sabe achando que basta apertar uma tecla apenas para que o trabalho se dê por terminado.

E no entanto, as peças dispostas em duas colunas, seguindo a boa e velha diagramação do primeiro in-Folio, com letras miúdas, de tal jeito que se alguém chega por trás acha que você está lendo a Bíblia; eu também mantenho um carinho especial por essa edição da Oxford que tenho aqui comigo, uma simpática capa dura azul com folhas finas e um dos odores mais agradáveis que já senti quando o assunto é livros. Pois não temos razão para escolher. O caminho é longo, é árduo e, mesmo que falemos só de obras em domínio público, há muito o que ser disponibilizado. A poesia brasileira, por exemplo, está em sua imensa parte fora do que os livros digitais tem a oferecer. Muitos livros que viviam soterrados em catacumbas ganharam voz e vez com a internet, mas partir daí para o âmbito dos livros digitais é um salto perigoso. É preciso um segundo trabalho para que mais essa ponte seja cruzada, um trabalho que não envolve a digitalização apenas. Do mesmo modo, existe um flanco aberto na literatura produzida mundialmente: o flanco dos direitos autorais. Mesmo que toda a literatura em domínio público estivesse disponível, o livro publicado em 1960 continua escudado por essa barreira que fatalmente envolve interesses humanos diversos, muito além da iniciativa altruísta ou econômica pura e simples: estamos falando de um terreno que pode envolver a voz roufenha dos herdeiros.

E sem contar os bibliófilos, e sem contar o prazer de caminhar por um corredor cheio de livros pelo simples prazer de saber que aquilo ali ocupa espaço, é claro, mas que, essencialmente, é capaz de se desdobrar e ocupar o planeta inteiro com um simples "Era uma vez". É altamente improvável que optemos por um lado em exclusão do outro, e, tendo em vista o crescimento ainda tacanho dos livros digitais, é improvável que gerações que algum dia na vida mantiveram contato e lambuzaram de chocolate uma bela brochura com capa branca venham a se esquecer dessa experiência e mergulhar de corpo e alma apenas nos livros digitais. Como dito, os livros digitais não abrem tanto espaço para as crianças. É divertido ver uma animação enquanto se lê a história do sapo cantor na tela toda brilhosa, mas também é divertido abrir o livro e ver um navio feito só de papel surgir, ou colocar o dedo e abrir a boca do pirata pra que, assim, ele possa despejar seus impropérios. O importante, é claro, continua sendo a leitura, até mesmo quando resumida nas folhas frágeis e espaçosas dos jornais impressos, mas isso não quer dizer que a experiência que decorre da celulose na ponta de nossos dedos deva ser necessariamente extinta porque, afinal de contas, os rolos de papiro algum dia o foram.

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