Sobre o conceito de literatura feminina.


(Salvo engano, Monet.)


Só existe uma forma eu não digo nem tanto de começar, mas de algo além disso: de começar, de continuar, de pontuar, de seguir em frente, de ir pra cozinha tomar uma água, de voltar e elucubrar mais um pouco enquanto se joga Candy Crush etc etc ― e essa forma é a seguinte: pegamos uma ideia que será convertida em dogma e vamos batê-la nessa parede em branco, a qual, com toda conveniência do mundo, transformaremos em palco para nosso raciocínio; e esse dogma pregado na parede, nós estaremos impedidos de tocar um dedo nele, de mexer um centímetro que seja, de modo que qualquer tipo de relativização, por mais crua, grosseira e chã, ou até mesmo estilizada e toda polvilhada de transgressões superficiais, não importa, qualquer tipo de relativização será descartada de pronto. O que me diz? Um pouco radical a ideia? Ah, não gostou? Não gostou de "radical"? Então que tal "limitada"? Parece um adjetivo melhor, ainda mais depois que eu falo disso de dogmas inamovíveis (um pleonasmo, eu sei, mas é sempre bom um pleonasmo pra servir de reboco). Pois é, concordo. Mas deixa eu lhe dizer uma coisa: esse dogma que estou me referindo, ele nada mais é que o seguinte: toda mulher tem o direito de escrever sobre o que quiser.

Compreende? É esse o dogma. E, independente de que raios de raciocínio eu vou desenvolver, você aí do outro lado vai me ajudar a não encostar um triz que seja nesse dogma. Ele precisa ser cumprido e ponto final. E veja que não falo só das situações em que a mulher ganha o direito de fugir do padrão de bela, recatada e do lar. Eu estou falando sério quando erijo essa frasezinha como dogma. Estou querendo dizer que se uma mulher quiser retratar feministas como ogras bigodudas com tranças debaixo do sovaco, essa mulher também terá todo o direito do mundo de fazer algo do tipo. Compreende?

Pois não se pode negar o fato de que quando falamos de literatura feminina, nós não podemos querer traçar um tipo de poética que de algum modo deverá ser seguida por todas as mulheres. Quando um conceito de literatura feminina surge e constringe autoras, ele se funda justamente nessa forma de fazer com que a mulher possa escrever apenas sobre determinado tema, por mais libertador que ele seja, sem necessitar, portanto, que estejamos falando de temas puramente domésticos ou melosamente sentimentais. Você também corta as asinhas se cria um conceito de literatura feminina que transforme a transgressão num ditame. Só existe uma lei a ser seguida: escrever sobre o que quiser. O que nos leva a uma pergunta óbvia: se é desse jeito, então como podemos sequer pensar num conceito de literatura feminina? Oras: se a mulher pode escrever sobre o que bem entender... Então não existe maneira nenhuma de querer abarcar a produção feminina numa única cumbuca. Ela poderá escrever poemas eróticos ao mesmo tempo em que poderá escrever poemas órficos. Poemas satíricos. Panfletários. Sonetos de amor à moda dos árcades.

De fato. Existe um problema grave quando tentamos erigir um conceito de literatura feminina. Não falo só do problema que concerne a qualquer conceituação no âmbito artístico, haja vista que a obra de arte é um objeto de invenção e que este objeto de invenção possui uma vida estética peculiar no seio de uma sociedade. Quer dizer: ele não só transcende seu contexto como ele faz com que nós, leitores, tenhamos uma liberdade na hora da leitura, que nós, leitores, também possamos empurrar esse objeto estético para que ele também transcenda seu contexto originário. A obra de arte não fica parada. Ela mexe conosco, mexe com nossos sentimentos, ela coloca sua linguagem em risco, ela palpita. Não é uma coisa inerte que manuseamos; ela como que nos acompanha, anda à medida que andamos e possui uma insistência e uma reentrância cultural a tal ponto que, mais do que simplesmente a enxergarmos como algo vivo, nós enxergamos vida naquela obra.

Não falo só desse problema, portanto, que não chega bem a ser um problema mas que, enfim, serve pra sinalizar a precariedade de toda forma de conceituação no campo literário, de qualquer demarcação que seja. Demarcações são precárias, você não pode querer inscrever qualquer artista num campo contextual ou no campo de um conceito pois ele sempre transcende de um modo ou de outro. Bons artistas, é certo, parecem transcender com uma força maior, posto que constroem obras inteligentes que de algum modo dão a impressão de vencerem o tempo, tamanha é a vida, a pujança que são capazes de transmitir. E a lógica acaba sendo a de que as periodizações literárias tomam mais como base o espírito de uma época, e qualquer delimitação que seja faz igualmente o mesmo, sempre em torno de linhas de força que à medida que se esmiúçam vão perdendo sua operacionalidade, o que não quer dizer, exatamente, que sejam de todo impensáveis. É dizer: toda forma de conceituação literária sempre opera de forma mais ou menos, mas esse mais ou menos não é uma narrativa arbitrária ou imposta (se quisermos usar o jargão de nossa época); na verdade, possui lá suas bases, como por exemplo depoimentos de escritores e padrões estéticos que grosso modo podemos distinguir. Mas nunca é algo que funciona de modo infalível, e o digo não só tomando como base a obra de bons escritores que aprofundam sua vida estética no seio da comunidade crítica, quer dizer, geram interpretações únicas e muitas vezes contraditórias em torno de si; na verdade, eu o digo tendo em vista também aquele escritor ruim que pode não se encaixar dentro de uma conceituação que seja, uma vez que a dinâmica de uma conceituação literária não é a de criar uma lista que deve estar necessariamente contida apenas nos artistas ali dentro do círculo de giz que traço, e sempre de forma integral, mas, antes, seguindo a lógica dos jogos de linguagem de Wittgenstein, são um conjunto de características que aparecem de forma esporádica e quase sempre parcial ao longo daquele conjunto, sem necessitar que surjam todas de uma só vez em todos os objetos ― o que é um raciocínio que contribui em maleabilidade para a ideia a ser transmitida mas, ao mesmo tempo, não chega a salvar o procedimento do conceito, uma vez que certas características de um período literário, por exemplo, podem estar perfeitamente presentes em outro, ou então serem extensíveis a tal ponto que perderiam sua caracterização histórica particular, como por exemplo falarmos de sentimentos, apenas, e evocarmos os românticos. É dizer: só eles trataram de sentimentos? Ou trataram de forma peculiar? Porque se foi de forma peculiar, então o discurso tem que ser outro: só sentimentos ou sentimentalidade não bastam.

O que quero dizer é que toda forma de conceituação é precária ― mas nem mesmo tomando isso como base nós parece que chegamos ao xis da questão em relação a um conceito de literatura feminina. É que assim: vamos pegar a literatura barroca. Eu falo de literatura barroca tendo em vista um recorte temporal, ou seja, eu sei, mais ou menos, qual é seu início e qual é seu fim. E com base nesse recorte temporal eu também recorto um contexto em específico e vou pincelando características gerais ali daqueles escritores, tentando correlacionar uma coisa e outra: texto e contexto, características gerais, linhas de força. É assim que eu chego a uma conclusão dessas: literatura barroca. A miríade de escritores pode ser enorme, é claro, e na prática sempre existem escritores que fogem dessas características ― às vezes, aquele escritor que no geral apresenta na maior parte da obra características coincidentes com as do período pode ser aquele escritor cuja obra X, vamos supor, tenha sido recentemente valorada pelos críticos, de modo que o interesse que ele é capaz de gerar para nós, contemporâneos, não reside nem tanto naquela parte de sua obra que é característica de sua época, mas justamente naquela que escapa dessa mesma época. É o que acontece com Byron ― lemos um poema como She walks in beauty e conseguimos traçar uma série de pontos de encontro entre aquele poema e a estética romântica, mas tão logo começamos a perscrutar um longo poema como Childe Harold, aí nós já começamos a cair no terreno das dissonâncias, das incongruências, que, de resto, podem ser uma fonte de interesse até maior que a das coincidências de She walks in beauty.

Com literatura feminina, porém, a coisa complica pois estamos falando de toda mulher que escreve. Não dá pra chegar numa característica geral de todas elas. Primeiro porque nós não contaríamos com um recorte temporal. Todas as mulheres. Como chegar a qualquer conceito que seja? Isso parece um embuste, ora essa. E no entanto, não é bem assim.

O ditame de que a mulher possa escrever o que bem entender é recente. Podemos dizer que vem com o século XX, quando muito ― se brincar, só de metade do século pra cá é que a coisa realmente começou a mudar de figura. Mas é recente. O machismo brutal de antanho cerceava a mulher e a jogava para uma posição de leitora de romancezinhos quaisquer, quando não a posição de alguém que era pura e simplesmente impedida de tomar a pena ― e de ler, e de manifestar emoções... Enfim. Não vou ficar contando a historinha que você já bem sabe. A questão é: a mulher estava afastada da escrita, de modo que, como lembra muito bem Elaine Showalter, a história da literatura feminina sempre foi uma história intermitente. Nunca houve uma continuidade: você encontrar uma filha de Deus que conseguisse escrever poesia, se alfabetizar, se formar enquanto poetisa ― todo esse árduo trabalho ― era algo esporádico e quase milagroso. Das trobairitz a Louise Labbé há um salto e tanto. Não o salto de escritoras ruins que não conseguiram produzir algo com qualidade. É algo que se assemelha a um enorme vácuo, uma enorme mancha branca. A coisa só começou a melhorar com o século XIX, quando as mulheres a um só tempo passaram a escrever mais e a escrever rompendo com o que mercadologicamente era empurrado como literatura feminina, isto é, elas romperam com um conceito adstringente de literatura feminina. Um conceito que lhes era empurrado pela goela ― o que não quer dizer que ele não tivesse alguma correspondência fática que seja. É apenas que: o conjunto de leitores é uma variedade inabarcável; você não tem como dizer o que seus leitores querem; você pressupõe e cria uma espécie de narrativa (para voltarmos ao termo, que, convenhamos, é útil), uma espécie de produto que é vendido para determinado nicho como sendo algo deles. Vejam, mulheres: isso daqui se chama literatura feminina, e vocês gostam disso. Pode realmente ser que parcela desse público goste de verdade daquilo, e de forma genuína, mas pode também ser que goste porque foi educado praquilo, porque havia toda uma constrição social para que aquele tipo ali de literatura fosse o tipo de literatura que lhe caiba, e não, veja, aquele outro tipo ali. Esse é o seu nicho. Fique aqui. Só aqui, entende? ― Por isso adstringente. Por isso empurrado pela goela.





O que eu dizia era que com o século XIX foi que as mulheres passam a escrever mais e a constituir um público de leitoras ― uma e outra coisa, naturalmente, ligadas. Mas foi também quando grandes escritoras começaram a surgir e começaram a romper com esse conceito escarrado de literatura feminina. Foram elas que começaram a abrir a chancela. E é aqui que nós podemos começar a vislumbrar um conceito de literatura feminina, seguindo, por exemplo, os ensinamentos de Sandra Gilbert e Susan Gubar. Quer dizer: nós podemos sim falar de um conceito de literatura feminina se nós possuirmos um recorte histórico preciso do que estamos tratando. Esse é o ponto. Um conceito de literatura feminina precisa de um recorte temporal, pois, caso contrário, ele cai na sensaboria das características biológicas, que são um liame frágil demais do ponto de vista da criação literária ― haja vista que, como eu disse, a obra literária é uma obra de invenção. E daí a necessidade de um recorte histórico. De que eu date de que período a que período estou tratando. O que, por certo, não parece chegar exatamente ao ponto do que a ideia de uma literatura feminina tem a oferecer. Quer dizer: a mecânica de um recorte temporal seguido do trabalho de pincelar características gerais e linhas de força contextuais para que eu chegue a um conceito com toda aquela maleabilidade que já discuti; essa mecânica pode ser aplicada à literatura feminina como, sei lá, à literatura corcunda.

E de fato. Mas qual seria a dúvida mesmo? ― Bem, a dúvida é: muitas vezes, e isso parece ocorrer de forma frequente, eu vejo nas notícias a menção a uma literatura feminina, talvez pressupondo que hajam algumas características em comum entre as mulheres que escrevem. Como devemos tratar esse tipo de menção?

Pode ser que o autor ou a autora do texto tenha realmente pretendido chegar ao xis da questão no sentido de que a literatura feminina ― a verdadeira literatura feminina ― é uma literatura libertadora, uma literatura que pega aquele conceito empurrado pela goela e simplesmente o despedaça. Isso seria literatura feminina. Mas, problematização quase que automática, nós precisamos pontuar: isso seria, na verdade, uma literatura feminina. Pois a questão é essa: se vamos realmente sair da segurança do recorte histórico e vamos aceitar que a ideia de uma literatura feminina seja aplicada até mesmo para a literatura contemporânea, então nós precisamos aceitar de maneira ainda mais aguda a precariedade do discurso que montamos, e temos realmente que pedir ao leitor ou pelo menos pressupor que ele pontuará nosso texto com aquilo que eventualmente não deixamos explícito: que é só um recorte. Pois do ponto de vista mais fundamental e mais lógico de um conceito de literatura feminina, esta nada mais é que toda a literatura feita por mulheres. Mas isso, qualquer um reclama, não diz nada com nada. Sim, concordo. E por isso ou nós nos ancoramos no recorte temporal para tentar angariar novas características, ou então nós seguimos com esse tipo de platitude, que, de resto, pode até funcionar ― por exemplo quando eu propugno para que leiamos mais mulheres.

Eu já falei a respeito desse assunto aqui no meu blog. Em específico sobre a questão das mulheres e premiações literárias. O número é baixo, baixo dum jeito de nos deixar estarrecidos. É claro que temos que desconfiar desses números, pois basta que nos perguntemos: será que temos tão poucas mulheres escrevendo bem? Então foi aí que eu acusei os prêmios literários de possuírem uma pobreza de visão, de não perceberem de forma realmente adequada a produção contemporânea. E falei isso não propondo uma espécie de tabelinha mágica de representatividade, pois, embora eu não tenha dito com todas as letras, minha opinião é a de que a premiação literária ― o patamar mais alto da literatura, se quisermos trocar em miúdos ― não tem nada que ver com representatividade ou coisa do gênero. Só tem a ver com a excelência. Ponto. Mas isso não quer dizer que nós, enquanto leitores, não possamos buscar em outros lugares, transcendendo nosso curralzinho imediato, por essa excelência ― ou seja, que busquemos ler mais mulheres, negros, gays, autores de regiões geográficas distâncias, de editoras menores etc etc. Isso sim nós podemos fazer e ainda assim, do ponto de vista crítico, permanecermos honestos.





Falar de literatura feminina limitando-se a verificar cromossomos ou identidade de gênero, e logo após fechar num estalo a caderneta, continua sendo possível. Nunca deixou de ser. Mas todo mundo já sabe: é sem dúvidas um conceito fraco, a tal ponto que não sei nem se merece a alcunha de conceito (chamei de "platitude" antes e parece realmente melhor). Só devemos ter o cuidado de não separarmos entre o que seria uma espécie de literatura feminina de verdade do que seria um simulacro. E não porque não existam; sim, existem, o simulacro sendo exatamente tudo aquilo que busca cortar o barato da criação da escritora feminina com formas redutoras e constritoras de lhe cercear caminhos. Seja a ideia de que à mulher só lhe cabe escrever coisas de mulherzinha, seja a ideia de uma espécie de riso da Medusa, se quisermos tocar direto na ferida do famoso texto de Hélène Cixous. Não deve haver dever. Se houver, é falso, é simulacro. O sentido é esse. E assim voltamos ao dogma. A única forma realmente honesta de olharmos para o dogma, portanto, e pensarmos um conceito de literatura feminina será se efetuarmos um recorte histórico, com começo e fim, ou então se, mesmo que falando de literatura feminina da maneira que melhor nos caiba, às vezes até pretendendo uma linha de força em aberto ― bem, essa última opção só servirá se pontuarmos bem o artigo que precede nosso discurso: uma.

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