Fique em paz.

A morte de um grande tradutor é, pelo menos indiretamente, a morte de muitos. Não creio sequer ser necessário desenvolver o raciocínio, tão óbvio me parece. Por Schnaiderman fomos apresentados e reapresentados a gente como Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Górki, Búnin. Por isso que é a morte de muitos. Mas o que dizer de Bóris Schnaiderman, que atingiu o estágio mais pleno da tradução? É dizer: o estágio em que, além de contribuir para gravar em mármore a literatura russa em nosso país (a tal ponto que podemos dizer, seguindo aquele clássico elogio de Eliot a respeito de Pound, que Schnaiderman foi o inventor da literatura russa no Brasil), o tradutor serve de mestre para outros tradutores? Afinal de contas, não nos fiemos apenas das lições e dos resultados obtidos por Schnaiderman, que se comunicam de forma inteligente e evidente com os resultados por exemplo dum Rubens Figueiredo ou dum Paulo Bezerra. Ou o Schnaiderman organizador, por meio do qual fomos apresentados aos formalistas e semioticistas russos. Estou falando também daquele Bóris Schnaiderman que, ao lado dos irmãos Campos, traduziu poesia russa de vanguarda, ou que, ao lado de Nelson Ascher, verteu Púchkin, Brodsky. Seria o caso de dizermos que o fez apenas fornecendo traduções literais e informações de ordem bibliográfica a que depois os poetas insuflariam a tal vida, a tal poesia? É o que dizem, mas, cá entre nós, acho difícil. Nisso de ter sido múltiplos, a magia de Schnaiderman reside também no fato de que foi um profundo conhecedor de nossa língua, de nossa literatura, bastando que se olhe para a interessantíssima análise que fez de uma tradução de Púchkin para a Lira LXXI de Gonzaga (aqui) ou da leitura revigorante que fez do Catatau de Leminski. Um leitor lúcido, portanto, que, como todo leitor lúcido, foi evidentemente um leitor múltiplo. Schnaiderman professor. Schnaiderman memorialista. Schnaiderman teórico da tradução (ato desmedido...). Schnaiderman menino, presenciando o encouraçado de Eisenstein. A morte de um grande tradutor é a morte de muitos.

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