Simples exercício de apreciação textual aplicado a jornais.

 


Porque se você tiver algum motivo pra desconfiar, é bom que eu dê corda logo de cara: não sou um leitor assíduo de jornais. Minha mãe compra daquele que custa um real e que tem uma sessão de piadas, horóscopo, palavras cruzadas e jogo dos sete erros, além de manchetes sanguinolentas e um lance aí de que se você juntar não sei quantos selos, você pode trocar por coisas como um conjunto de xícaras. Mas eu mesmo nunca fui muito fã dessa coisa de guardar uns trocados num copo de milkshake e pedir um jornal depois do misto com ovo. Em grande parte pois eu não sei direito nem como se manuseia: é um negócio meio grande e você tem que dobrar pelo menos duas vezes pra conseguir ler sem ocupar todo o espaço. E as letras miudinhas, então? Sem contar o estilo de escrita.

Ou melhor: já contando. É que assim... A gente tem que se lembrar que estamos falando de jornais e, portanto, existe uma coisa velha (tão velha!...) chamada adequação textual. Quer dizer que não adianta você abrir o jornal e realmente pretender que aquilo ali vai estar escrito num estilo literário ― seja lá o que diabos você entenda por literário (de minha parte eu me refiro a pelo menos um olhar mais atento e uma liberdade de construção textual mais livre). A questão é ver se aquilo ali, dentro do arregimento dos textos jornalísticos, consegue se demonstrar como algo bem escrito, isto é, que capte a atenção, que demonstre um domínio narrativo e que seja claro a ponto de ser um alívio. Pois se for assim, então tá ótimo. Tem nem pra quê eu ficar enchendo o saco, não é mesmo? Sim, de acordo. Mas veja que esse modelo de texto no geral não dá muito espaço pro camarada, e o que vemos mundo afora são textos que, uma vez que conseguem chegar ao ponto final com um saldo nulo de erros gramaticais, então pronto: objetivo de vida alcançado.

Parece. Destilar essa palavrinha na frase representa um conforto, pois tal como você sabe eu também sei que não é bem assim por uma série de motivos. O primeiro deles é o de que, mesmo dentro da cumbuquinha do texto jornalístico informativo padrão (um rol de adjetivos pra dizer simplesmente daquela reportagem sobre o passageiro de ônibus esfaqueado ou a moradora de rua que curte ler livros), nós ainda assim podemos às vezes apreciar alguns arroubos de construção textual diferentona (Euler Fagundes de França Belém, editor com um bom faro — algo raro, rima e solução —, destacou uma boa reportagem feita num jornal da concorrência — !! — aqui; a reportagem, de Andréia Bahia, é essa aqui, da qual eu destaco passagens que são realmente diferenciadas, como por exemplo a frase "Compra ração e brinquedinhos": note a concisão e o sujeito elípticos, pungentes, pungentes). O segundo é o de que mesmo dentro de um jornal nós podemos ter espaço para textos literários mesmo (todo jornal, em especial o local, cedo ou tarde tenta abrir espaço pro desfile de poetastros ocupar um espaço que poderia ser de uma colheitadeira), pra não dizer naqueles textos jornalísticos que, embora não literários, já demonstram uma liberdade maior e podem ensaiar ousadias estilísticas. E veja que por "mais livres" eu me refiro tanto a um mais livre em relação à linha editorial (pois sim, é quase que um ditame que um jornal possua uma linha editorial, mas você deve pelo menos ter a decência de entender que ter uma não quer dizer que ele vai desperdiçar toda sua celulose só naquilo) quanto àqueles que se permitem afastar alguns passos da busca pela realidade fática. Afinal de contas, o que pode servir de um terceiro apontamento ou pelo menos de desfecho dramático deste parágrafo, o texto jornalístico trilha a senda entre os declives do fato e da escrita decente, o que não quer dizer exatamente que ele seja uma espécie de escravo do fato e que a parcialidade lhe cause arrepios ― em grande medida porque a imparcialidade em absoluto não existe (embora, claro, graus de imparcialidade existam e devam ser buscados pelo simples motivo de que as pessoas curtem comprar seu jornal por causa disso) e em grande medida porque o jornalista sempre acaba reordenando o material fático da realidade de modo a construir um texto que sim, sim, tem a pretensão de trazê-la sem se esquecer que 1) ele é um texto limitado (e falo limitado não só num sentido metafísico mas também no sentido de que não vai ser seu texto, amiguinho, não o seu, que ocupará quatro páginas sem nenhuma imagem) e 2) a realidade, meu querido, ela é inabarcável: portanto, contente-se em apresentar sua versão da forma mais honesta e elegante possível.

Falo desse tipo de coisa, meio como quem não quer nada, é pra tentar deixar desde já bem claro que a crítica que estou prestes a cometer é uma crítica perambulante, e que se houver alguma pretensão além do circo pegando fogo, essa pretensão é bem aquilo que o título conta: simples exercício. Um exercício com qualquer firmeza a mais que fosse, no âmbito jornalístico, só me parece possível de ser feito por um bom editor que puxe a orelha de sua equipe e se anime a bisbilhotar com frequência o conteúdo do seu e dos outros jornais em circulação. Tudo o que faço aqui é catar uns textos bem e mal escritos escolhidos ao sabor do acaso. Como as partes de um jornal que mais me interessam são aquelas ligadas à cultura e a qualquer coisa que mostre um livro ainda que de relance, é bem possível que alguns tipos de textos jornalísticos (em especial aqueles mais breves e de tom informativo mais evidente) fujam do escopo de minhas exíguas anteninhas. Fazer o quê.

O primeiro texto é Um saco de virtudes, escrito por Sérgio Rodrigues e publicado no Estadão no domingo passado (aqui). Quem acompanha a produção intelectual de Sérgio Rodrigues no blog Todo Prosa sabe que estamos diante de um leitor fino. Talvez não saiba de seu trabalho numa espécie de micro-consultório gramatical (aqui), bem à maneira daquelas colunas jornalísticas que existiam no começo do século passado e que até hoje possuem lá sua popularidade (e que bom que tenham: são uma mão na roda); mas sim, Sérgio Rodrigues tem um trabalho com isso também e, olha, é um trabalho muitíssimo bem feito, o que, na prática, quer dizer simplesmente que estamos diante de alguém que conhece do assunto e o alinha às verdades mais elementares da ciência linguística (sem a histeria dos neófitos, todavia).

Mas aí está. Um texto legal, ou, se eu quiser me livrar logo do fardo e aplicar a chancela que me cabe aplicar: um texto bem escrito. Observe as duas primeiras frases:

O adjetivo "republicano" tem feito hora extra no vocabulário de nossa crise político-econômico-institucional-moral-nervosa. Palavra fetichista, circula por aí pavoneando uma sobra de sentido, uma cauda de conotações positivas, saudáveis, graves ― e vagas, como convém à mistificação.

Eu sei que você que me lê tem escolaridade e sabe classificar esse tipo de texto: artigo ― de ― opinião ― bip! Pois sim, palmas, palmas. Mas note que, diante da evidência de que um artigo de opinião não goza de muito espaço (e na verdade o espaço podia ser o maior possível; isso não muda o fato de que um texto não possui muito espaço pra ficar aborrecendo o leitor), ele consegue apresentar a famigerada opinião não graças a comentários que surgem no meio de vírgulas e circunlóquios chatos, mas (o que demonstra um domínio textual esplêndido), graças à escolha e disposição de termos. É só você bater o olho na primeira frase e notar a expressão "hora extra", que dá um tom todo leve à frase (ao invés de cair em formulações graves como, sei lá, "tem surgido com frequência", ou, se você quiser ser até mais poético, "irrompe muito e amiúde"), e a carreata de hífens que começa com adjetivos esperados (político, econômico, institucional, moral) para terminar com um diagnóstico maroto: "nervosa". Esse procedimento vai ser praticamente repetido na segunda frase, se você notar como a expressão "circula por aí", prosaica, se faz seguir de "pavoneando uma sobra de sentido" (como se a compensação de você se banhar um pouco no arroio da fala cotidiana te permitisse uma expressão um pouquinho mais inventiva), ou se você notar mais uma vez como Sérgio Rodrigues vai esmiuçando as conotações da cauda (e novamente elas são meio que esperadas) até o momento em que usa o travessão num timing hábil, buscando, com uma espécie de desfecho dramático, pôr em cena a ideia da mistificação.

É bom quando você lê esse tipo de coisa e nota que o cara possui um domínio tão bom a ponto de fazer com que a construção textual quase que por si só consiga te dizer coisas. Embora a reflexão por si só não tenha me impressionado tanto por motivos de "já a escutei da boca de outros", devo confessar que o autor muito bem a acrisolou, por exemplo em:

Como ocorre do lado negativo do vocábulo com o termo "fascista", que cada vez mais perde sua carga história de sentido para virar um xingamento político pastoso, o equivalente de "bobo e feio" numa briga de crianças, o elogiosíssimo "republicano" vai ficando cada vez mais parecido com "bonito e legal".

As mostras de erudição, que parecem ser algo de bom tom quando estamos falando de artigos de opinião, aparecem aqui com discrição, é certo, mas nem por isso com menos inteligência. Menciono a informação de que os termos "que viram guarda-chuvas de sentidos e perdem em precisão o que ganham em abrangência" são chamados pelos lexicógrafos de "palavras-ônibus" e menciono, também, a citação de José Murilo de Carvalho no penúltimo parágrafo. É uma citação que surge de maneira espontânea, no momento certo, além, claro, do fato de que ela se adequa com precisão ao tema tratado.

Não é uma citação feita com aquele tipo de empáfia patética, com aquele tipo de erudição vazia. Trazendo um segundo exemplo, que terá o objetivo de servir de contra-ponto (talvez de teste de acidez estomacal também), creio que consigo detalhar essas coisas melhor. Pois esse segundo exemplo é da pena de um autor que também puxou o carrinho de mão abarrotado de instrumentos gramaticais para o campo da reflexão política ― só que deixando um terribilíssimo rastro de sangue...

Nome: Sobre a linguagem do Batman, do Lula e do Superman. Réu: Carlos André. Local do crime: jornal O Popular, 25/03/16, aqui.

É um texto tão ruim que fica até complicado saber onde começar. Que tal sobre a ideia do texto, que, de tão confusa, arregala os olhos, derrete os miolos e, à maneira de um rojão, risca de amarelo gema o céu e não estoura? O autor começa falando de poesia, passa pra Ferreira Gullar, Chomsky, fala do politicamente correto, fala do blockbuster da semana, do Lula... Ó céus, pra quê? Sei que os idos de março significam falar do PT em algum momento do texto (qualquer texto) ou da bota do Homem Morcego no pescoço do Homem de Aço, mas nada disso justifica forçar a barra pra meter um e outro num texto do qual você até entende, no meio do desnorteio, a pretensão de refletir politicamente e ainda assim servir de chamariz cultural; sim, você entende isso, você vislumbra essa luz no fim do túnel, mas é tão somente para, depois, exclamar: "Mas não é possível..."

Pois nós não precisamos disso. O gramático já não é mais aquela espécie de curandeiro da língua, e falo não me referindo a uma mudança recente, mas sim a uma mudança que vem ocorrendo há pelo menos 40 anos, se considerarmos que a gramática de Evanildo Bechara é de 61, a de Celso Cunha de 72 e a de Celso Luft de 74. Assim sendo, aquela caricatura que comumente fazemos da figura do gramático não tem muito cabimento. Pelo menos não se tomarmos como base gramáticos que honram a massa cinzenta e o arcabouço cultural da língua.

O problema é que não deixou de ser comum você ver por aí pessoinhas que literalmente decoram uma gramática normativa fazendo as vezes de esclarecidos, e, uma vez surgida a oportunidade de comentarem temas mesmo que contíguos à sua área de atuação, por exemplo poesia ou política, no frigir dos ovos mais parecerem pássaros fugidos da gaiola quando analisam poemas e se limitam a constatar que embora no verso 17 o poeta tenha pulado a cerca da gramática, ele é poeta e pode (ou então ele é modernista e, bem, fazer o quê... malditos modernistas), ou então quando comentam a política nacional, apresentando, como vinte centavos, a informação de que os cartazes levados pra manifestação possuem erros de concordância. E não digo isso sugerindo que Carlos André seja uma dessas figuras; se fosse realmente o caso de cair nesse tipo de maledicência, eu deveria ter pelo menos a honestidade de considerar de maneira mais ampla a obra que Carlos André tem construído (por exemplo no instituto que leva seu nome, o qual, ao que me consta, é realmente de excelência na preparação para concursos). O que digo é que, infelizmente, Carlos André neste texto (e eu posso te dizer com segurança que em outros que ele publica no mesmo jornal) não conseguiu nem de longe ou de relance uma demonstração de competência textual a menor que fosse.

Eu repito: é ruim demais. O sapateado de referências é só um aspecto, do qual eu inclusive faço notar que não, jovem gafanhoto, não estou lhe proibindo de sapatear também, se bem lhe convier; o problema é que como o texto está escrito numa linguagem praticamente cifrada, cheio de referências gratuitas e uma estrutura só farrapos e alarido, então nós leitores simplesmente não temos como ir muito longe, ficando, ao contrário, entre a vertigem e o pasmo. Veja-se, pra pincelar apenas um exemplo:

Em razão disso, alguns intelectuais, como o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, passaram a estudar o que se chamaria de Teoria do Politicamente Correto, a qual ― segundo Pondé ― seria a materialização da irrealidade das relações sociais por meio das palavras.

A simples menção a uma Teoria do Politicamente Correto já me parece algo risível (pra quê maiúsculas e o penduricalho "Teoria do" se só "politicamente correto" dá cabo no assunto?), mas a coisa só fica pior quando Carlos André resolve enfiar um "materialização da irrealidade das relações sociais por meio das palavras". Você até poderia se sair com uma dessas, se tivesse ao menos a decência de passar não sei quantos parágrafos esmiuçando melhor algo do tipo para seu leitor. Não adianta jogar pro alto (uma "deixa") e depois cair fora. Mesmo porque estamos falando de algo que pode muitíssimo bem ser formulado de maneira mais simples. Assim, se seu objetivo é realmente o de cair numa formulação dessas, então que você deixe claro a necessidade desse monte de palavras enormes amontoadas ― e que você consiga aclimatar o leitor, esclarecer ponto por ponto.

E não adianta prosseguir com "Acalme-se, Leitor! Já explico" (quem chega nesse estágio do texto já está por aqui com esse vocativo usado a torto e a direito) se você não vai explicar coisa nenhuma, mas, pelo contrário, vai fazer brotar das profundezas do Érebo isso:

Para quem é contra a Teoria do Politicamente Correto (que é o caso de Pondé), é inadmissível a utilização das palavras como meio de esconderijo da realidade. Assim, não chamar um preto de preto, mas sim, de afrodescendente, por exemplo, é voltar ao passado bilaquiano ou azevediano da romanticidade irreal.

Não estou falando só do grand finale evocando Bilac e Álvares. Poderia muito bem ser, uma vez que o autor parece ter se esquecido que tanto um poeta quanto outro apresentam laivos que poderíamos chamar de anti-românticos, bastando que você dê um pouso, ainda que curto, nos rumos do parnasianismo enquanto escola e na segunda parte da Lira dos vinte anos (digo "poderíamos" pois, colher de chá, a poesia de Bilac apresenta vários pontos de contato com o Romantismo, por exemplo em Via Láctea, e o prosaísmo do Calibã de Álvares não é nenhum absurdo dentro da própria estética romântica: vide Heine e Byron por exemplo). Não, não falo só disso. Estou falando também de uma menção de cabeça pra baixo, e novamente, à tal da Teoria do Politicamente Correto. É como se Carlos André confundisse a prática do politicamente correto com sua teoria. Afinal de contas, Pondé é um teórico do politicamente correto no sentido de que ele o estuda, de que ele reflete a respeito do assunto. E é precisamente o que o parágrafo que antes citei dá a entender; mas eis que você lê o segundo e já não sabe direito o que pensar, pois aí Carlos André nos informa que Pondé, que antes estudava a tal da Teoria do Politicamente Correto, se posiciona como contrário a ela. Neste segundo trecho citado, ele toma a Teoria num sentido programático, isto é, teoriza-se a respeito e busca-se, com base nessa teoria, como que dar um rumo pra prática do politicamente correto. Reconheço que é uma acepção plausível da palavra "teoria", mas não dá pra você simplesmente decidir mudar de acepção de uma hora pra outra.

Se o objetivo do texto é realmente passar uma mostra de erudição, então que ele faça isso direito. Dois sinais são os mais evidentes da erudição rala: 1) quando o texto sai dos trilhos, escapa pela tangente apenas pra englobar uma citação ou uma menção qualquer (por exemplo Chomsky no texto você-sabe-qual); e 2) quando essa citação ou menção não surge naturalmente (podemos ficar com o mesmo exemplo). Afinal de contas, erudição, se quiser me contentar com uma definição um tanto quanto útil, é, segundo Baltasar Gracián (jesuíta; séc. XVII), a "vária notícia de toda cousa". Não há propriamente uma conexão necessária entre a erudição e a inteligência, visto que você pode ter essa vária notícia mas não aprofundada, ou pode tê-la sem saber como usá-la de forma efetiva dentro de seu argumento. Enfim. Mas essa erudição, se aplicada a um texto de funcionamento mínimo (entenda-se: uma erudição que podemos constatar no texto e não uma que pressupomos ser a do autor), ela rechaça ambas as saídas da erudição vazia pois, ao invés de fazer com que o texto escape pela tangente pra captar uma menção que seja, ele consegue detectar a menção certa para aquele ponto ali do texto. E muitas vezes, diga-se de passagem, você consegue notar a erudição do cara não graças ao afã infantil de sair por aí citando o maior número de autores e versos que o excomungado tem de cabeça; uma simples menção, se feita com a acuidade necessária, já é o suficiente pra que você saiba que está diante de um erudito. E melhor ainda: de alguém com elegância intelectual.

Consigo dar um exemplo contrário e até certo ponto funcional de mostras de erudição, e sem precisar sair do perímetro do Estado (o que, acredite, é algo com o qual até mesmo eu me surpreendo), se citar o texto de Marcelo Franco para a Revista Bula: A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto) (aqui). Sei que não é um texto propriamente jornalístico, mas não tenho a menor dúvida de que poderia sair num jornal goiano. Os caras daqui de Goiás abrem espaço pra malucos que discutem espiritismo e astrologia, ora essa...

Aqui é como se entrássemos na cabeça de um leitor ligado no 220. O jogo de alusões é intenso e não parece parar sequer prum cafezinho. É algo sem dúvidas difícil, pois, embora o leitor iniciante se deslumbre com tantos nomes num malabares interminável, o leitor mais experimentado pode simplesmente pegar pra capar alguns minutos que seja e, quem sabe, descobrir o embuste da coisa toda. Se você ainda não chegou a clicar no link, fique tranquilo pois não é o que acontece aqui, uma vez que o autor nos puxa para seu mundo particular e tenta insuflar em nós o mesmo ânimo admirável que possui em relação à leitura. Veja-se:

Há um clássico problema decorrente de dedicar livros: pode-se encontrá-los num sebo. Como agir? Bem, há o método “Naipaul” e o método “Shaw”. Parece que V.S. Naipaul teria encontrado um livro por ele dedicado a Paul Theroux, seu amigo fraterno transformado desde então em inimigo íntimo. Já George Bernard Shaw viu num sebo um livro que dedicara certa vez a alguém, comprou-o e dedicou-o novamente — a primeira dedicatória: “Para …, com afeto, G.B.S”; a segunda: “Para …, com renovado afeto, G.B.S.”.

O que é bom num parágrafo desses é que, como dito, a erudição do autor lhe permite achar o exemplo certo para o caso certo. E nós podemos ir até um pouco além, pois, como Marcelo Franca busca dar um abraço de urso no seu leitor, ele não pega exemplos quaisquer: ele pega exemplos de, é claro, dois grandes autores mas dois grandes autores em situações íntimas, e, partindo dessas situações íntimas, cunha os tais métodos a que se refere. Na verdade, o processo de escrita do parágrafo é engenhoso pois ele já começa falando de um problema clássico e, para esse problema clássico, ele nos fala de dois métodos, de modo que o que esperamos, se tivéssemos lido apenas esse parágrafo, é que sejam métodos com o rigor habitual que o termo "método" acarreta consigo. Mas não. Após estes dois movimentos generalizantes das peças de xadrez do texto, que envolvem uma ampliação de ideias (o clássico e a transformação de dois escritores em métodos), temos, a seguir, o autor nos contando dois causos que esmiúçam a situação (ou seja, a câmera mental se estreita). Isso sem contar a fluidez com que o texto é escrito, a habilidade com que termos tais quais "Parece que", "teria encontrado" (de novo a câmera mental é suspendida, mas com um sabor de hipótese imiscuída no corriqueiro) ou "inimigo íntimo" (note a interiorização coincidindo com o final) surgem ou, ainda, a maneira como a frase a respeito do causo envolvendo Bernard Shaw é escrita buscando trazer as duas dedicatórias juntinhas e isoladas por um travessão.

Marcelo Franco possui pelo menos outros dois textos que são primores: a resenha que fez da obra de Pedro Nava, Livros para ler numa ilha deserta (aqui) e Viagem à volta de meu criado-mudo (aqui). Deste último a máquina de referências é ainda mais frenética, e mesmo aquele cansativo processo de evocar o leitor sempre pra conversa surge, aqui, a torto e a direito. Mire e veja: "comedidos leitores", "leitores panglossianos", "acacianos leitores", "pródigo leitor", "francófilos leitores", "nietzschianos leitores", "anglófilos leitores", "belicosos leitores", "desinformados leitores", "freudianos leitores", "saarianos leitores", "bíblicos leitores", "penelopianos leitores", "latinistas leitores" e "prufrockianos leitores". A questão é que os evocativos no texto de Marcelo Franco escondem um procedimento textual muito mais refinado do que aquela coisa pegajosa no texto de Carlos André. Vejamos apenas um parágrafo em ação:

Neste mundo moderno, contudo, se é certo que a praça é do povo e o céu é do condor, os cadernos de cultura dos jornais são dos cinéfilos e dos aficionados aos quadrinhos. A leitura vai se transformando em atividade de excêntricos. Mas, dito isso, ou apesar disso, espanto-me: há livros — e há leitores! O mundo editorial ainda gira. Sim, caros e panglossianos leitores: eppur si muove. As editoras seguem publicando seus livros e as livrarias vivem atulhadas (com todos se amontoando, nas ditas megastores, nos três únicos banquinhos colocados à disposição dos distintos fregueses, que em tempos de outrora sempre tinham razão — mais où sont les neiges d’antan?). Tudo isso, claro, para desgosto dos jornalistas culturais que pretendem explicar as engrenagens do mundo com o último filme argentino ou com a mais recente coletânea de algum quadrinista (existe essa palavra?) do Cazaquistão ou de Chatne.

Sem precisar trazer um nomezinho nem, muito menos, uma maiúscula que não seja a dos nomes de países, nós sentimos, feito sopro, uma procissão: Castro Alves, Galileo, Voltaire, Villon. Claro que no caso de Galileo você consegue notar de forma até considerável o autor buscando encaixar a referência, bastando que observe a guinada que a frase "O mundo editorial ainda gira" acarreta. Sim, concordo, ficou artificial. Mas a citação de Villon cai como uma luva, e, no fim das contas, a franqueza de uma mente volúvel predomina. Mas o que devemos notar, para fins de esclarecimento do porquê considero este texto um primor, é o adjetivo "panglossiano" aplicado a leitor. Panglossiano é todo aquele que demonstra um otimismo exagerado. Advém do personagem do doutor Pangloss no Cândido de Voltaire. O que intriga é: oras... Mas será mesmo que somos panglossianos? Ou, até admitindo que fôssemos, como raios nós nos tornamos acacianos já na próxima menção, ou penelopianos, prufrockianos? É simples: o texto todo está, também em sua construção textual, à volta do criado mudo e das leituras do autor. Portanto, nós, leitores, estamos literalmente à roda das referências e embarcamos nessa aventura junto com o autor, de modo que quando o assunto é Segunda Guerra, então nós nos transformamos em belicosos, e, quando o assunto começa a descambar pro lado de Churchill, em anglófilos. Não importa se o somos exatamente. Nem mesmo se o próprio autor é tudo isso. Ele pode não ser, mas a experiência fundamental da leitura — a de que lendo ele se torna — é passada para nós.

Não é preciso ir além disso. Nem muito menos querer espichar esse texto além do que ele pode se propor. Um exercício simples, eu não havia prometido? Pois é exatamente isso o que temos em mãos. Três ou quatro pulinhos, praticamente. Um instante de sobriedade seguido de uma carreata de destrambelhos e, por fim, um périplo por dentro da alma de um leitor. O fio condutor não encuca ninguém depois de enunciado: a excelência textual. Ou por acaso é um disparate dizer que é preferível que a busquemos enquanto ainda gostarmos de apreciar coisas legais e bem feitas? Não creio. E por isso reafirmo: busquemo-la ainda que no jornal que alguns minutos depois será o mais novo papel de embrulho pro peixe comprado. Esse tipo de caça não pode parar. Pois não é meu objetivo, aqui, oferecer um método ou, pior ainda, uma tabelinha de resultados (exemplares que sejam). Montaigne já sugeriu, na boca miúda, que o prazer da caça não está na caça. Quem dirá com esse tipo de caça que tratamos, implacável. Porque se assim não for, desconfio, alguma coisa atrofia em nós.

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