O maior poeta do século XXI será um computador.

A propósito, escrevi um textinho pro Jornal Opção, edição 2129: aqui. A versão publicada acabou saindo com algumas alterações para deixar a coisa mais palatável para o leitor de jornal. Mas como ninguém aqui nesse recinto é, vamos ficar com:




O MAIOR POETA DO SÉCULO XXI SERÁ UM COMPUTADOR.

(Ou essa ou qualquer outra provocação que vier a calhar.)

Pois como assim um computador, ouço dizerem. Digamos que temos um poema à nossa frente, e que esse poema é dedicado, sei lá, àquelas árvores que parecem as daqui do cerrado, só que mais grossas e meio estraçalhadas. Aquilo que os gringos chamam de Bristlecone Snag. E vamos supor que metade, ou quase isso, do poema é:

            Você diz, que tempo é esse esperando em sua primavera?
            Te digo que espera por seu ramo que flua,
            pois você é diamântea arquitetura de doce aroma
            que não sabe por que ele gera.

Não parece ruim. Saísse da pena de algum brasileiro e logo nos surpreenderíamos, pouco que fosse, com um poema versando sobre um tema seco sem lançar mão de pastiches cabralinos. De todo modo, a partir do momento em que esse interlocutor está numa posição meio que indefesa, sem saber o que está acontecendo consigo mesmo, e a partir do momento em que o poema consegue uma bela metáfora envolvendo um diamante; bem, isso já é o suficiente pra que esse poema ponha a cabeça e parte do tronco acima do nível do mar.

Já deu pra entender que não sei nem disfarçar direito, não é mesmo? Em 2011 o jornal da universidade de Duke, o The Archive, aceitou o poema For the Bristlecone Snag para publicação, sem saber que se tratava de um poema escrito por um computador. Zackary Scholl, responsável pela criação do programa, mandou na verdade um florilégio de versos, mas que um tenha sido selecionado e que tenha apresentado alguns momentos poéticos notáveis para um gélido algoritmo... rapaz, isso merece um momento de nossa atenção.

Não se trata, porém, da primeira experiência a respeito. É melhor tirar os sapatos: acabamos de entrar no campo da Inteligência Artificial ― embora, de certo modo, a criação de poemas esteja um passo aquém e um passo além do que o campo pode nos oferecer. Digo um passo aquém pois quando pensamos em Inteligência Artificial, nós de algum modo pensamos num computador com o qual possamos debater sem que a palavra "golpe" ou a coreografia do impeachment ocorram. Basicamente, trata-se daquilo que, após um artigo escrito por Alan Turing em 1950 (Computing Machinery and Intelligence), se passou a chamar de Teste de Turing, ou seja, se alguém estiver conversando com um computador de tal modo que não tenha como saber se está falando com um ou com um humano (isso já foi mais difícil de imaginar, mas, hoje, basta pensar na situação de uma sala de bate-papo ou no saudoso Robô Ed), e se essa pessoa, após pelo menos cinco minutos de conversa, em 70% dos casos não conseguir identificar com quem está conversando; se isso ocorrer, então o trambolho do qual estamos tratando passa pelo Teste de Turing. A questão é que, dentro do Teste (e o próprio Turing fornece esse exemplo), se eu pedir para que meu interlocutor escreva um soneto, uma resposta negativa ou mesmo um soneto ruim não inviabilizarão o resultado do Teste, visto que esse meu interlocutor pode simplesmente dizer: "Sonetos? Não curto". Portanto, um passo aquém. A arte é uma das excelências humanas, mas ninguém precisa saber compor uma sinfonia para ser chamado de inteligente. (O máximo de inteligência, aliás, que alguns artistas apresentam é isso: compor, compor e só.)

E digo um passo além pois o campo da Inteligência Artificial não se resume a tentar criar computadores que algum dia serão uma boa companhia pras sextas à noite; na verdade, as pesquisas em Inteligência Artificial não se preocupam muito em passar no Teste de Turing, e, como exemplificam os pesquisadores Stuart J. Russell e Peter Norvig em Artificial Intelligence: a Modern Approach, os irmãos Wright só foram bem sucedidos quando deixaram de imitar aves e passaram a entender de aerodinâmica.

Outros casos de experimentos computacionais envolvendo poesia são o do Pentametron, um perfil de twitter que pega mensagens que conseguem se encaixar na métrica de um pentâmetro jâmbico (um dos metros tradicionais de língua inglesa) e chega até mesmo a compilá-los em sonetos; o Times Haiku, que pega trechos de reportagens no jornal The Times e transforma em haikais (às vezes simples tercetos), alguns realmente saborosos (por exemplo: "Surely that shower / couldn't have been going since / yesterday morning."); ou então o Swift-Speare, que pega o algoritmo SwiftKey (sabe quando você está digitando e o seu celular te dá sugestões de palavras de acordo com as que você já usou?) e, como que o personalizando com base numa linguagem eminentemente poética (por exemplo a dos sonetos de Shakespeare), consegue criar sonetos que ostentam versos tais como: "As clouds occlude the globe's enshrouded fears" ("Tal como a nuvem oclui [fecha] os medos encobertos do globo" ― belíssima essa paranomásia "clouds occlude").

As perguntas suscitadas diante de experimentos assim são um pouco previsíveis. Nós podemos escapar pela tangente e dizermos que como não possuímos um conceito totalmente operacional do que é poesia, então nós não temos nem mesmo como lidar com experimentos assim. O problema é que, embora de fato não tenhamos um conceito que consiga lidar com todo o fenômeno poético, isso não quer dizer que não saibamos o que é poesia nem que muitos dos conceitos ou ideias mais correntes a respeito da poesia (por exemplo sua latência emocional ou sua preponderância sonora) não consigam lidar com uma parte considerável e consistente da própria poesia. Assim sendo, se me posto diante dos decassílabos brancos de Gonçalves Dias, dificilmente não direi que aquilo é poesia, mesmo sem ter um conceito pronto do que viria a ser. E é com base pelo menos nessa zona mais segura de um conceito de poesia que um algoritmo de escrita de poemas consegue se sustentar.

E mesmo que fôssemos sair dessa zona de segurança, ainda assim os computadores, alicerçados no Teste de Turing, são capazes de nos dar respostas surpreendentes. O site do Bot or Not é basicamente um Teste de Turing aberto 24 horas, e alguns dos resultados obtidos são de dar nó na cabeça. Oscar Schwartz, um dos criadores do site, numa palestra para o TEDTalk, brinca com a plateia e coloca um poema de Blake ao lado de um poema feito por um computador. A plateia se sai bem e consegue apontar qual foi escrito por Blake e qual pelo computador. A coisa complica, porém, quando Schwartz coloca um de Gertrude Stein ao lado de um feito por um computador. O resultado é o oposto. Sendo assim, a que conclusão chegamos? Que Gertrude Stein é mais robô do que um robô? Você pode, claro, torcer o nariz para Gertrude Stein, mas vamos supor que nosso interlocutor se postasse diante da pedra no meio do caminho de Drummond e que, por algum motivo, ele nunca tivesse lido o poema. Vamos ser sinceros: diante da possibilidade de que o poema tenha sido escrito por um computador, você acha que ele responderia como?

Do mesmo modo, não podemos dizer que a produção de poemas por computadores faria da poesia algo simplesmente inabarcável, e isso pelo simples motivo de que sem nem mesmo os computadores entrarem na jogada a coisa já é assim. É difícil que algum de nós discuta poesia tendo em mente o poeta que estoura uma champanhe numa livraria obscura nos ermos do Brasil. Ler literatura, saber que ela existe é, em grande medida, jogar à não-existência uma boa parte do que ainda assim é literatura.

Também não adiantaria muito dizermos que os poemas escritos por computadores seriam poemas ruins. Antoine Compagnon dá a letra: a maior parte dos poemas são ruins mas ainda assim são poemas. Nem que computadores não são capazes de inovar. Podemos muito bem voltar, a respeito desse assunto, a Alan Turing. Comentando algumas objeções possíveis à hipótese levantada, ele traz uma feita por Ada Lovelace em 1842: "A Máquina Analítica não tem pretensão alguma de originar algo." As frentes de resposta dadas por Turing são várias, indo do ditado de que não há nada de novo sob o sol até o questionamento sobre em que medida nossas inovações são assim tão inovadoras (desculpem a redundância). Quando criamos alguma coisa, criamos partindo daquilo que aprendemos. É dizer: ninguém, ao escrever um poema, origina um poema do nada, ainda mais se o poema for ruim. Posso querer falar de meu amor da maneira mais única possível, mas, se eu não ficar esperto, estarei escrevendo que meu amor é como uma flor. Toda uma competência literária está por trás daquilo. Você pode olhar de soslaio para os catalisadores de T. S. Eliot ou para o agon na teoria de Harold Bloom que vai dar na mesma. Escrever é enraizar-se.

Afinal de contas, o quê exatamente impediria um computador de escrever algo surpreendente? For the Bristlecone Snag é surpreendente, ora essa. E, dependendo da maneira como o algoritmo é estruturado, é perfeitamente possível que o computador consiga escrever poemas que pelo menos não redundem em problemas comumente apontados como crassos: por exemplo o excesso de adjetivos ou a dosagem entre termos esperados e termos inusitados (se depois de "lua" eu coloco "pálida", isso faz de meu poema um porto seguro romântico, mas se coloco "diurética", então deem as boas-vindas a Carlos Drummond de Andrade).

Tal como você, ainda mantenho uma posição cética sobre se um computador conseguirá gerar um poema que consiga nos surpreender em altíssimo grau, um poema que consiga rivalizar com os melhores da tradição ocidental. Escrever sonetos à maneira de Shakespeare é um avanço, claro, mas pode redundar em efeméride (a mesma de Guilherme de Almeida e Abgar Renault escrevendo sonetos à maneira de Camões); e, por mais que em For the Bristlecone Snag nós tivéssemos um poema que apresentasse uma comparação inusitada e uma adequação estética invulgar, ainda assim ele apresenta coisas como a incômoda rima com flows e grows no original (temos aqui um enxerto explícito) ou versos melodramáticos como "porque te amam, amor, sob fogo e vento".

Todavia, não enxergo nenhum óbice teórico a que leiamos poemas escritos por um computador de maneira séria, com todas as anteninhas a postos. Acho até que pelo contrário, se considerarmos pontos-chave da teoria literária como a falácia intencional, a morte do autor ou o autor-modelo. Poderemos, claro, acusar alguns deles de falta de sentido, mas não é algo a meu ver aplicável a Bristlecone Snag, por exemplo (este me parece ser um problema muito mais relacionado ao algoritmo em si do que à possibilidade vislumbrada). Pressupormos um autor por trás de um texto não é a mesma coisa que pressupormos carne e osso, resmungos e lobby. O eu lírico pode presidir até mesmo textos vindos de computadores, sem que isso diminua um centímetro que seja a capacidade lírica daquele texto que temos em nossa frente.

Se a provocação feita no título vai acontecer mesmo ou quá, trata-se de uma cartomancia que jogo pra escanteio. As capacidades e os avanços da área são enormes demais, e talvez tudo o que precisemos seja de um algoritmo refinado e uma base de dados ampla o bastante. Ainda que isso não seja capaz de criar poemas, como eu disse, que rivalizem com os mais altos pontos da tradição ocidental, isso pode ser capaz, pelo menos, de dificultar a vida dos poetas ruins e estabelecer um padrão médio de qualidade um tantinho mais elevado.

Não é pouco.


FOR THE BRISTLECONE SNAG.

A home transformed by the lightning
the balanced alcoves smother
this insatiable earth of a planet, Earth.
They attacked it with mechanical horns
because they love you, love, in fire and wind.
You say, what is the time waiting for in its spring?
I tell you it is waiting for your branch that flows,
because you are a sweet-smelling diamond architecture
that does not know why it grows.

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