O dia da poesia...



...que, no caso, foi segunda. 14 de março. Só posto hoje por motivos de: ops, então era hoje? ― ih caramba, vou escrever algo amanhã e ver no que vai dar. E aí eu pergunto: deu no quê?

Deu nisso. Nisso ― de que sim, sim, é muito bonito ver pessoas pelo menos um dia do ano se preocupando com poesia. É bacana esse tipo de coisa. Elas quietam um pouco o facho desse discurso de que não a entendem ou de que a desgostam simplesmente. Claro que nessas horas você, que chega a dizer que gosta dela até em público, até em dias de semana, enxerga uma hipocrisia onipresente nos que se lembram dela só hoje, e a coisa só piora, você só começa a espumar mesmo quando nota até editoras falando de poesia com tudo quanto é coração na postagem. Mas não podemos ficar tão ranzinzas assim a vida toda. É bom que uma data dessas seja ao menos comemorada. Gosto, por exemplo, de ligar na TV UFG e ficar bobeando por ali só pra ver os comerciais com poetas convidados lendo seus trabalhos. Você pode assistir a maior parte desses vídeos no YouTube mesmo (aqui). Alguns até grandinhos, com 4 minutos e tanto, o que, pra qualquer vídeo declamando literatura que seja (na verdade, pra qualquer vídeo veiculado numa programação televisiva que seja), é espantoso. Não comento a qualidade pois não me preocupo com isso nesta ocasião. Se fosse me preocupar, eu sequer assistiria. O que está em jogo é outra coisa: esse ano, por exemplo, eu me emocionei pra caramba com essas crianças e esses simpáticos velhinhos declamando, ou com Antônio Leitte pondo a mão no peito após dizer "em um hospital chamado... eu".

Mas vamos deixar algumas coisas meio claras. Dia da poesia é um negócio meio zoado. Fui sentir incômodo com isso só ano passado, quando pus tento e reparei: tá tendo dia da poesia demais esse ano, uai... E realmente o negócio é confuso. Desde 77 a gente comemora em 14 de março pois este era o aniversário de Castro Alves. Na verdade, até hoje a gente comemora: eu não tô aqui comemorando, afinal? O problema é que ano passado nossa presidenta Dilmonster sancionou a Lei 13.131, de 3 de junho de 2015, que, no artigo 1º, instituía 31 de outubro "o Dia Nacional da Poesia a ser celebrado, anualmente, no dia 31 de outubro, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade." Mas não pense que essas são as duas únicas datas que você tem que guardar, pois dia 21 é o dia internacional da poesia, conforme a UNESCO instituiu em 99. E você achando que tinha que guardar só o aniversário de casamento.

Eu particularmente gosto muito mais da ideia de que comemoremos o dia em 14 de março do que em outubro. Drummond é também sinônimo de poesia, claro que é, mas acho que de algum jeito a figura de Castro Alves e mesmo a obra que ele nos deixou cumprem esse papel com mais facilidade e como uma luva, ou seja, representam melhor o imaginário popular de que tipo de animal é o poeta: um apaixonado até quase explodir e com os nervos à flor da pele. Mas ok. Dois dias por ano tá legal. Quando chegar outubro as pessoas já se esqueceram que comemoraram em março. Promoção praticamente não vai haver mesmo pois como o catálogo de poesia das editoras no geral é ridículo, nem promoção dá pra fazer direito. Mas vamos lá. Compensa.

Como maneira de comemorar, eu cito mesmo só a parte VI de O navio negreiro e o poema Se eu te dissesse. Os dois são dos que mais gosto na poesia de Castro Alves, embora não sejam os únicos. Crepúsculo sertanejo, por exemplo, é um poema que eu admiro muitíssimo, mas só até certo ponto, de modo que presumo que posso passar a vida descobrindo novas formas de gostar desse poema sem que eu goste dele de forma integral. Ou então aquela estrofe mágica de Boa-noite ("A frouxa luz da alabastrina lâmpada" etc), que reputo um dos momentos mais felizes da melopéia poética nacional. Ou a gravidade (que vai esmorecendo, é certo, mas que se concentra que é uma beleza na primeira estrofe) em Horas de saudade. Ou alguns dos sonetos de Os anjos da meia-noite (gosto em especial das 5ª e 6ª sombras e da 7ª).

Da parte VI de O navio negreiro, dê uma vislumbrada aí na forma impactante com que o poeta maneja a oitava rima, num estrondo de iracúndia e desconsolo que nos faz lembrar de pronto os momentos mais melancólicos de Os Lusíadas (velho de Restelo, gigante Adamastor, o epílogo do poema). Mas não só isso. A primeira estrofe toda é um crescendo de emoções que se inflamam e estão prestes a explodir (observe as exclamações, as reticências, a interrogação, a escolha de vocábulos) até o momento em que o poeta, no dístico da oitava rima, começa com "Silêncio." É habilidosa essa parada. Não só no sentido de que dá a resposta para todas as perguntas anteriores: a resposta de que nenhuma delas tem resposta. Ele não pode resumir seu epílogo numa só nota emocional. Castro Alves é maior do que isso, aqui. Ele faz essa pequena pausa para que, por exemplo, já na próxima estrofe inicie com uma exortação patriótica pacata: "Auriverde pendão de minha terra [observe a troca de pronomes: enquanto na estrofe anterior tínhamos "mas que bandeira é esta", temos, aqui, um pendão "de minha terra"] / Que a brisa do Brasil beija e balança [observe, é claro, a bela aliteração em B]". E isso sem contar na bênção sem fim de um dos mais belos versos da língua: "Como um íris no pélago profundo!"

Já de Se eu te dissesse, embora sinta que algumas estrofes parecem estar aí só pra encher linguiça (e sem muita razão, pois o poema não precisava enchê-la: bastar-lhe-ia acabar onde quisesse), existem outras que são realmente muito belas, como por exemplo o final (se bem que esse final apresenta, de certo modo, um movimento de exposição lírica bastante comum: a de que o poema todo se estruture num sentido e, então, no finalzinho ele faça um giro nos eixos e contemple o contrário ― um tipo de surpresinha comum na maior parte dos fechos "memoráveis" da poesia do século XIX) ou então a imagem da alma da amada que pernoita com o eu lírico na relva (muito mais sutil e encantadora do que se ela simplesmente tivesse passado por ele). Guardo esse poema num canto do coração e não creio que algum dia eu o tire de lá. Ele parece fazer a vida melhor. Uma das funções mais primitivas e queridas da poesia, afinal de contas.


Parte VI de
O NAVIO NEGREIRO.

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

§

SE EU TE DISSESSE...

Se eu te dissesse que cindindo os mares,
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...

Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de um país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante.

Se eu te dissesse que do albergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva.

Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar ― saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente.

Se eu te dissesse, bela flor das salas,
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores.

Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa;
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!...

Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino.

Se eu te dissesse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...
Se eu te dissesse... ― Foi talvez mentira! ―
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses!

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