Florbela Espanca (1894 - 1930).

 


Um eufemismo cairia bem. Um pra dizer que não gosto de Florbela Espanca. Mas vejam vocês que isso me deixaria numa posição desconfortável nem tanto pelos pedregulhos lançados e sim pelo respeito que nutro para com o legado histórico do nome da autora, para com aquelas interpretações sólidas feitas a seu respeito e para com ― o que é o principal, aliás ― os instantes engenhosos dessa poesia que eu caracterizaria como descomedida em seus destrambelhos (instantes pouquíssimos, é verdade, mas tentarei ao menos dar nomes aos bois).

Entendo perfeitamente que a voz sensual às favas de uma mulher que fosse, lá pro início do século XX, era algo no mínimo revolucionário que abria uma estrada e tanto para inúmeras outras poetisas. Entendo também que a explosão e sinceridade lírica de muitos de seus versos encantam leitores até hoje ― ou, até pra me valer de uma expressão menos propensa a erros, pois "sinceridade lírica" traz consigo uma ideia que não me agrada nem um pouco ― a ideia da sinceridade, que pra mim só funciona num âmbito artístico se falarmos de sinceridade entre pressupostos nossos, enquanto leitores, e o texto em-si, e não entre o texto em-si e o autorzão ali por trás ―, eu diria que tendo em vista que a obra de Florbela fala de amor tão abertamente e com tanta frequência, e sempre com um eu lírico do qual nós, enquanto leitores, nos postamos e julgamos como verdadeira aquela tormenta sentida, além, ainda, de uma certa rusticidade nos poemas da autora, valendo-se de recursos líricos certo modo corriqueiros quando pensamos um poema de amor ― entre eles a afirmação frequente dessa mesma paixão ou então o uso de adjetivos, ou, mesmo, o uso de certos recursos imagéticos tradicionais como os referentes a pássaros, rios, flores etc etc ―; se tivermos tudo isso em mente (mais, quem sabe, sua vida conturbada e o suicídio, que, por motivos mórbidos, atiçam a curiosidade do povo), pra retornar ao que eu dizia, então vejo como sendo meio lógico que as pessoas se encantem tanto com a poesia da autora, e eu não quero dizer que esse encantamento alheio é algo que me desagrada, mesmo porque, na verdade, eu acho bem pelo contrário: gosto, e gosto muito, de que as pessoas gostem da poesia de Florbela Espanca por mais que euzinho aqui não goste.

E o que não gosto, em linhas gerais, seria justamente o excesso lírico que faz com que o poema peque em objetividade ― aquele tipo de objetividade que dá concreção ao poema e faz com que o uso excessivo de adjetivos que dão na mesma, por exemplo, ou um sentido de inflamento que temos ao ler os poemas da autora ― isto é, parece que em muitos casos ela teve que encher a forma soneto quando poderia resolver o conteúdo lírico sem toooodos aqueles versos ―; estes são alguns aspectos que me desagradam em sua poesia, e que, de modo geral, são características propriamente românticas. Em especial a questão da lírica meio que descabelada e a falta de controle que o poema apresenta, coisa que eu vejo, mais uma vez, na falta de um recorte preciso que estirpe os excessos. Aquilo ali cansa, e as farpas de inteligência que um bom poema traz consigo podem até aparecer aqui e ali ― e muitas vezes nós as percebemos sem grande esforço graças ao fato de que muitos dos poemas da autora apresentam uma linguagem límpida quase que isenta de frases retorcidas ―, mas logo são apagadas pela enchente de outros tantos versos que parecem ficar batendo na mesma tecla a vida toda. Uma antologia, de qualquer tamanho que seja, de bons momentos de Florbela Espanca só me parece concebível se nossa tesoura estiver afiada o bastante para mutilar a maioria dos poemas e se contentar, se brincar, com palavrinhas arrancadas de sonetos inteiros.

Mas eu também reconheço que o que aponto pode não ser um bicho de sete cabeças, e que muitas vezes repetir um conteúdo já apresentado no poema ― que muitas vezes criar um poema que possua excessos é necessário, e que aquela engenharia pré-cabralina, se me for permitido o anacronismo, não é de forma algum sinônimo de boa poesia. (Tenha em mente, ó poeta, uma verdade universal: o tédio costuma ser um artífice mais hábil do que você, de modo que, quando você menos esperar, ele banha teu poema inteirinho em suas águas e faz que sua seiva corra às bicas justamente naquela parte que você até então jurava de pé junto estar tapada com impermeabilizante Anfion ©.) Eu diria, todavia, pra tentar me safar desse tipo de contra-argumento, que mesmo que um poema possua excessos e retornos, ou seja, instantes em que o texto aparentemente repete o que ele já disse, ainda nesses momentos ele na verdade está criando conteúdo novo e, a bem da verdade, está, isso sim, se favorecendo do que o retorno a determinado conteúdo lírico tem a oferecer (as opções são várias a respeito do que seria esse "favorecer-se", mas eu citaria, por exemplo, a dinâmica do retorno e da diferença: aquilo ali está de volta e, no entanto, já é outra coisa sensivelmente distinta).

Não estou com muita pachorra pra exemplos. Naquele Fanatismo, que recebeu uma versão de Fagner, embora eu sempre estremeça com o primeiro verso, me aborreço, por outro lado, com o segundo, que pra mim é uma reescrita desnecessária do primeiro (e na verdade é também o que me parece ocorrer entre o terceiro e o quarto e a ideia do livro no segundo quarteto quase todo). Em Toledo, noutro exemplo, eu gosto muitíssimo do primeiro quarteto:

         Diluído numa taça de oiro a arder
         Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
         O sol a rir... Vivalma... Não esboço
         Um gesto que me não sinta esvaecer...

A imagem que abre o poema é instigante, assim como instigante é que abre Tarde no mar ("A tarde é de oiro rútilo: esbraseia / O horizonte: um cacto purpurino." ― e peço para que você, muito mais do que saborear a engenhosidade do horizonte como um cacto purpurino ― metáfora que se crava na carne de séculos de clichê e a reinventa ―, note o cavalgamento, meio que raro na poesia da autora mas, aqui, de efeito lírico impressionante!). Na verdade, a comparação de Toledo a um rubi consegue se superar. A rima interna (a meu ver suficiente para um ouvido mais atento) entre "rubi" e "rir" nos versos 2 e 3 é também digna de nota, assim como é digna de nota a simples palavra: "Vivalma..." A poetisa despovoa o cenário poético numa só pincelada e no momento certo. Isto é: após Toledo ter sido caracterizada como estando no entardecer, como sendo dona de um momento precioso ("taça de oiro", "rubi": comparações que dizem muito), como sendo dos dois amantes e, importantíssimo, antes da menção ao gesto que, ainda que em esboço, se esvaece.

Mas o segundo já descamba no excesso. Não acho que uma poetisa que realmente se pautasse eu não vou dizer nem tanto pela concisão, mas, ao menos, por um senso de economia mínimo que fosse, escreveria o último verso do segundo quarteto. Veja:

         As tuas mãos tateiam-me a tremer...
         Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço
         É como um jasmineiro em alvoroço
         Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

"jasmineiro em alvoroço"... Oh céus. Não basta colocar uma árvore num poema que ia muito bem seu ar da graça; tem também que deixar tão escancarado a rima-por-rimar? O resto da poesia da autora são versos aqui e acolá que me agradam. Por exemplo a sugestão desse daqui, o primeiro de Esfinge:

         Sou filha da charneca erma e selvagem.

Bastaria a comparação de que a poetisa era essa tal charneca e pronto: não teria a mesma força. Ou esses dois na segunda estrofe de Fumo:

         Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
         Perdidos pelas noites invernosas...

O simples fato de que ela tenha se contentado com um só adjetivo já espanta. Veja o que ela resolve fazer nos dois próximos versos...:

         Abertos, sonham mãos cariciosas,
         Tuas mãos doces plenas de carinhos!

Mas os dois que eu trago na íntegra são "Frêmito de meu corpo a procurar-te" e Amar!. Para tentar ser um pouco breve, do primeiro eu te convidaria a perceber a tessitura sonora do poema, que, embora não seja lá tão marcante, pelo menos é maior do que a média dos poemas da autora e consegue realçar a passagem temática e imagética do poema ― qual seja, a de que um frêmito de amor aos poucos se transforme na paisagem pacata (ou na apatia, caso queira) de um amor ignorado. O jogo de vogais entre os versos de abertura e os versos finais, que apresentam, praticamente, todas elas bem demarcadas, é também bom de ser observado, algo que, de resto, será desenvolvido o poema todo (como se o poema fosse um painel amplo de assonâncias encadeadas, onde até mesmo a repetição que vemos em "Estonteante fome, áspera e cruel", cumpre, ao menos, sua função de pincelar as vogais que devem ser pinceladas na aquarela vocálica).

E do segundo, um instante em que o procedimento de repetições parece que se desnuda e demonstra seus propósitos, que seria o de acompanhar, na medida do possível, as idas e vindas da paixão e algo do movimento da alma da poetisa, entre certeza e incerteza. É o que acontece quando, por exemplo, na metade do primeiro verso do primeiro quarteto a poetisa diga que quer amar, pra, na segunda metade, completar que quer amar completamente. Não se trata de uma repetição inútil, eu digo, pois esse movimento de recomeço, de como que retificar algo que foi dito, é importante para que a paixão seja realçada como sendo muito mais completa do que foi dito, como se a poetisa apagasse e corrigisse o que acabou de ser dito, buscando, sempre, formas mais amplas de enunciar seu amor. E isso no poema quase que inteiro, até a chave de ouro que, por mais que eu tente desgostar, sempre me faz sorrir de bandinha.


Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas... 

§

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

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