Sendas que traduzir o Finnegans Wake faz com que percorramos.

 


Quero iniciar o ano com algumas questões relativas a traduzir Joyce. Especificamente, traduzir o Finnegans Wake. No último texto que escrevi a respeito do assunto, minha introdução comentando o início do capítulo 8 da obra, eu disse que é salutar que o tradutor possua um projeto tradutório até bem firme em sua cabeça para que ele consiga operacionalizar a coisa. Projeto tradutório, ou seja, uma concepção ou pelo menos uma reflexão teórica prévia a respeito do que seria traduzir o Finnegans Wake, de que escolhas eventualmente privilegiar, sem implicar, com essa ideia, uma espécie de programação prévia a qual o tradutor tivesse que se submeter como se, metaforicamente, ele inserisse um mero CD ROM em sua caixa craniana. Um projeto tradutório maleável o suficiente mas, todavia, com uma estruturação prévia.

Disse também que a língua do Finnegans Wake pode ser lida como um inglês cravejado de tudo. A estruturação básica do Finnegans Wake é o inglês, mas ele leva a sintaxe do inglês ao limite em alguns casos e, coisa que faz com que o Finnegans Wake seja famoso, cria palavras valendo-se de muitas outras línguas, criando uma espécie de abertura hermenêutica. Ou seja: mesmo que Joyce tivesse tido em mente um horizonte fático de cerca de 60, 70 línguas, isso não quer dizer que uma 71ª língua que não estivesse no horizonte real de Joyce não possa lançar luz a alguns aspectos interpretativos do próprio Finnegans Wake. Acho que é uma opção, embora ela, se fosse realmente tomada a cabo, terminasse tornando o Finnegans Wake uma empresa exponencialmente difícil, de maneira que é mais seguro que nós tenhamos uma espécie de bom senso antes de querermos enxergar pedaços de palavras como que ao léu ao longo do texto, isto é, é bom que nós tenhamos sempre um escopo que busque prezar pela coerência da interpretação que estamos fazendo e, aspecto também importante, até mesmo pelo que era realmente possível a Joyce conhecer.

Mas vamos imaginar que temos uma palavra ali ao longo do Finnegans Wake que seja composta por ABCD, em que cada uma dessas letras corresponde a uma língua. Existem casos extremos de palavras que são compostas de línguas demais, onde o inglês é claramente só uma em meio às demais, como no caso das thunderwords, onde, dada essa estruturação tão equivalente entre todas as línguas, e dado o fato de que elas possuem 100 letras e que possuem até mesmo uma narrativa interior; então, dado isso tudo, a melhor opção parece realmente fazer como tem sido feito: não traduzir; deixar como está. Mas, voltando à palavra ABCD. Na verdade, mesmo em casos mais "simples" (entre aspas pois são mais simples se comparados às thunderwords), a coisa pode aparecer de muitas formas, pois eu posso ter uma palavra que seja composta apenas de palavras do inglês, ou uma que, também só composta de inglês, vá do inglês arcaico ao inglês corriqueiro, ou mesmo uma que possua uns 4 significados em inglês e, sei lá, 1 em francês e 2 em alemão e por aí vamos.

Mas ABCD. Eu estou traduzindo pra português. O que devo fazer aqui? Tentar pegar o significado geral e sonoro dessa palavra, isto é, ver quais são todos esses extratos de sentido, fazer uma espécie de média (algo como: "a maior parte deles remete a X") e, só em português, recriá-los? Ou eu devo traduzir o português apenas para os casos do inglês e manter o resto como está? Assim, se na palavra ABCD, A significa a língua inglesa e P significa a portuguesa, eu traduziria ABCD para PBCD. É uma opção: a segunda, no caso. Ou, pra colocar a primeira opção que expus nesses termos, eu estaria traduzindo ABCD em P1P2P3P4. Claro que existem muitas outras formas, pois eu posso ter de cortar um desses significados por algum motivo que seja. Por exemplo: vamos supor que pra manter os quatro sentidos A, B, C e D, eu tivesse de criar uma palavra longa demais, o que, dado que o Finnegans Wake possui uma medida rítmica importante, seria um negócio meio chato de acontecer na minha tradução, ou então, às vezes também nesse ponto de vista sonoro, rítmico ou mesmo dentro da sintaxe portuguesa, eu tenha que transformar o que era só uma palavra ABCD em AB CD, isto é, duas palavras.

Um exemplo pra tentar aclarar isso, tomando como base a frase que traduzi na postagem passada. Peguemos a palavra forstfellfoss. Como dito, aqui nós temos 1) florest; 2) first; 3) fell, que em alemão é carne e se esconder; 4) fossefald, que em dinamarquês é cachoeira; e 5) -foss, que em norueguês também denota cachoeira. Isto é: temos duas palavras em inglês, uma em alemão, uma em dinamarquês e uma em norueguês. I1+I2+A+D+N. Augusto de Campos traduziu para "florestfossenfiou". (Ele desdobrou a ideia de first em "primeiro" logo atrás.) Nós temos, aqui, florest, foss e "enfiou". Ou seja: temos inglês, norueguês e português. I+N+P. É uma opção que estaria próxima do meu segundo caso, ou seja, ele não levou tudo pra português, mas manteve palavras estrangeiras. Diferente de Donaldo Schüler, que traduziu pra "preparando a úmida conjunção". Aqui ele explicou a ideia pro leitor, transportando tudo pro português. Eu mesmo, por exemplo, traduzi pra "desembocá-la", que é também uma forma de trazer pro português. Uma maneira mais clara de exemplificar a primeira opção que dei, de se levar tudo pro português, seria se, sei lá (o exemplo sairá ruim, já vou logo avisando), nós traduzíssemos pra "caisconcata", que traria, em nível de detecção maior ou menor, palavras como "cair", "cascata", "esconse" (escondido) e "mata". Nada (ao menos esta não foi a intenção) de outra língua.

Existem também outras formas de se encarar a questão. Passar de uma língua a outra é ir de uma possibilidade sonora a outra. Numa obra tão musical quanto o Finnegans Wake, tudo isso é muito importante. Às vezes a correspondência de significado é de menor importância que a correspondência sonora propriamente dita. Assim, se em forstfellfoss eu tenho uma palavra com forte aliteração em F, eu devo pensar numa opção que também tenha uma aliteração forte. Por isso, vamos supor que eu deseje uma terceira opção. Isto é: sou uma pessoa que gosta da ideia de transformar meu português em um português cravejado de tudo, à maneira do Finnegans Wake, e eu vejo como natural que em certos momentos eu não tente traduzir tudo pro português mas, ao contrário, que eu traduza a base pro português mas vá cravejando-o com significados de outras línguas. Só que agora eu radicalizo, pois não dou só, por assim dizer, copia-e-cola na palavra do original. Eu retrabalho seu horizonte de sentido.

É difícil dar esse tipo de exemplo de sopetão, mas vamos imaginar que eu esteja ainda no caso de forstfellfoss. Eu quero trazer a ideia de "cascata" em português, mas "cascata" é uma palavra com C que destoa e muito do F do original. Não seria maravilhoso se eu tivesse, por exemplo, uma palavra de outra língua que também possuísse um C bem marcado que pudesse me ajudar a, sei lá, trazer a ideia de "floresta"? Vejamos. Eu tenho, por exemplo, em inglês, brake, coppice, covert. E se eu recriasse meu neologismo só que me valendo desse novo horizonte de sentido? É uma terceira via.

Qual delas é a melhor?

Não pretendo chegar a uma resposta desse tipo. Acho que cada caso vai ser um caso. As três opções parecem ser francamente distintas, mas na verdade elas possuem sua proximidade, pois a base central do Finnegans Wake, que é o português, elas traduzem. A diferença é que a primeira vertente quer trazer tudo do Finnegans Wake pra português, ao passo que a segunda mantém estratos do original e a terceira trabalha com um horizonte de palavras distinto do horizonte original. A diferença entre a segunda e a terceira opção estaria mais ligada à subordinação que elas estabelecessem para com o núcleo formador do neologismo. No segundo caso, nós estamos de olho em manter estratos de significado do próprio original, de modo que adequamos o português. No terceiro caso, nós adequamos as outras línguas ao português.

Mas o cerne está aí. O projeto tradutório do tradutor e as necessidades do momento o farão ir de encontro às varias formas possíveis de lidar com a construção de uma tradução. Se o Finnegans Wake é um livro que na cultura de partida impacta o leitor com um estranhamento e com uma dificuldade básica, isto é, ele é construído tomando como base um número grande de línguas, pra não dizer na abertura fundamental que ele incute e que mencionei anteriormente, é lícito que o tradutor também possa trabalhar com isto. A diferença aqui é que o horizonte de línguas do tradutor pode muito bem ser distinto do de Joyce.

É o seguinte. Eu disse anteriormente que se tomarmos, tal e qual, o Finnegans Wake como uma abertura linguística essencial (ou seja, é da essência do Finnegans Wake operar tal abertura), então o Finnegans Wake se tornaria ininterpretável. Ele fugiria de qualquer controle hermenêutico que fosse. Daí os ditames do bom senso que mencionei. Mas e se fôssemos, em nossa tradução, seguir os caminhos ditados pela terceira opção, então não seria o mesmo que dizer que o tradutor deveria conhecer todas as línguas que Joyce cita ao longo do Finnegans Wake pra que pudesse ter um horizonte (re)criador igualmente funcional ao de Joyce? Em teses extremadas, sim, seria isso mesmo, mas não acho que necessite ser por aí. Afinal de contas, seria uma tarefa hercúlea, embora, claro, nós possamos mitigá-la lembrando que Joyce não era um mestre consumado em todas as línguas que usa pra citar ao longo do Finnegans Wake; em muitas, ele só conhecia palavras. De todo modo, a questão aqui é que essa terceira opção seria uma opção que acabaria sendo usada como uma exceção, ou, se fosse realmente o caso de que ela fosse usada sistematicamente, então seria forçoso admitir que necessitaríamos de um tradutor que possuísse rudimentos avançados pelo menos do tronco linguístico europeu básico. Transformaria, como se pode ver, a tarefa de traduzir o Finnegans Wake em algo muito mais difícil. Mas essa continua sendo uma opção, de modo que não acho que seja necessário que o tradutor conheça absolutamente de todas as línguas usadas efetivamente na obra (isto é, excluindo as usadas casuisticamente ― se bem que as línguas casuisticamente usadas também entram no redimensionamento de horizontes) para que ele consiga efetivar a terceira opção a contento.

Naturalmente que ele, se realmente quiser aplicá-la no caso de uma obra que se vale de um número de línguas elevado para sua composição, deve ser um poliglota ― um poliglota e tanto, podemos dizer, embora, ao mesmo tempo, devamos ressaltar: não um poliglota perfeito. Isto é: um poliglota que conhecesse bem todas as 60, 70 línguas usadas por Joyce. Pra só ficarmos no caso de forstfellfoss, ele não precisa ser um poliglota em inglês, dinamarquês e norueguês ― ou, expandindo pro livro todo, ele não precisa ser um em espanhol, alemão, francês, italiano, latim, grego... Na realidade, ele acabaria se guiando no sentido de procurar por palavras, algumas vezes de maneira um tanto quanto amadora ― amadora no sentido de consultar dicionários (em especial de sinônimos) sem conhecimento embasado na língua ― pra encontrar correspondentes (na maior parte dos casos partindo de um ditame sonoro, mas podendo ser também um ditame imagético ou de significado) constitutivos da palavra que ele está montando. Assim, ele encontra um extrato de sentido dinamarquês na palavra forstfellfoss. Ele não precisa conhecer tudo de dinamarquês, mas, se ele sentir necessidade de, nesse caso, incorrer na terceira opção que dei, ele vai buscar por outras palavras que, dentro da opção que ele está montando (por exemplo minha ideia de buscar por correspondentes que aliterem em C), consigam traduzir o termo ― e isso podendo muito bem ser da forma amadora que sugeri anteriormente.

Ou seja: é como se mesmo a terceira via estivesse muito ligada à segunda, ou, pra ser até mais preciso, mesmo esse sair à cata de novas opções, de correspondentes para o novo caminho que traço, mesmo essa atividade é, evidentemente, guiada pelos ditames da tradução, isto é, conseguir reproduzir de maneira esteticamente efetiva o original na cultura de chegada

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