"A Rês", de Thomas Hardy.

 


Eu mesmo nunca ouvi ninguém me contar isso, mas dizem que, no nascimento de Cristo, até os animais se ajoelharam demonstrando reverência. É uma história muito bonita, como, de resto, toda a história do nascimento de Cristo o é, com toda a sua simplicidade e nobreza latente. O poeta Thomas Hardy a explorou bem num poema que a princípio parece muito simples, mas que esconde, todavia, um significado daqueles. Espia só:

The Oxen foi publicado na véspera de Natal de 1915, na Times. Ou seja, em plena Primeira Guerra. Só aqui nós já conseguimos ver o contraponto que a simplicidade da historinha retratada no poema possui para com o simples contexto da época. Todavia, o que observamos no próprio poema é um embate que, em termos blakeanos, poderíamos dizer ser como da inocência contra a experiência.

Inocência, isto é, desconhecimento da realidade, fantasia, é o que a criança possui quando acredita mesmo na história dos animais que se ajoelham e, na véspera de Natal, fica esperando pra realmente ver os bichinhos fazerem isso. No caso, ela esperava perto de uma fogueira, de modo que podemos presumir que o mundo lá fora seja um tanto quanto frio. Portanto, ela está num local aconchegante. Aí chega um certo velho e lhes diz que, veja só, eles já se ajoelharam, e então a criança (que na verdade é expandida até nós todos, pois o poeta usa um We, nos colocando no meio do balaio) imagina a bicharada se ajoelhando e pronto. Imaginar basta. Ela não precisa ir lá ver. Ela acredita. Inocente, isto basta.

O que se segue é um verso ágil: "So fair a fancy few would weave / In these years!" Note a aliteração em F seguida de uma aliteração em W. Nas versões anteriores do poema, Hardy havia colocado "would believe", o que não só é sonoramente mais pobre como também tira a carga propriamente imagética que aquele tipo de imagem possui dentro do poema. Isto é: aquele tipo de imagem, aquele tipo de fancy era tecida naqueles anos assim e assado. Há um trabalho artesanal aqui, mas há também uma concreção que logo é rasgada pela rispidez dos versos seguintes.

Nestes, temos um eu lírico maduro, experiente, um eu lírico que já experimentou as agruras da realidade. Se alguém chega até ele e o manda ver os animais em algum lugar... Ou, melhor dizendo, "In the lonely barton by yonder coomb". Temos aqui termos que possuem um sabor tão incomum quanto, por exemplo, oxen no título ― isto é, o comum seria cattle, mas oxen (plural de ox) se encaminha já direto à ideia do gado de abate, e o fato de que os animais mencionados pelo desconhecido sejam especificamente oxen e não mais meek mild creatures é um detalhe pungente, pois o eu lírico estaria se encaminhando para ver animais que logo estariam mortos, à maneira, quem sabe, dele próprio. Barton é um pátio de fazenda, um farmyard, e coomb é um vale entre duas colinas íngremes. São palavras dialetais. Yonder, além, também possui uma pitada de arcaísmo e de estranhamento. Tudo isso ajuda a criar um tom de transportamento, deslocando a atenção do leitor de um poema que até então não apresentava dificuldades em seu vocabulário. É a forma que o poeta encontrou de transformar a beira da lareira, o hearthside ease, e o strawny pen das estrofes iniciais num local distante, certo modo inacessível e lendário (mas de um tipo de lenda que não parece reconfortar e sim apartar), que terminará num gloom.

O fato é que o desconhecido chama o eu lírico pra ir ver os animais In the lonely barton by yonder coomb. Se antes o poeta usava um We, agora ele usa um insosso I ao lado de um someone bem distinto do confiável An elder do verso 3. Esse someone faz o convite e o eu lírico, ainda que esse desconhecido o levasse ao gloom, às trevas (totalmente distinto do calor das embers in hearthside ease), iria ver de fato o que está pegando. Note que agora o eu lírico realmente quer ir. Até então, bastava ter ouvido. Mas note também como ele vai custe o que custar. É um ser humano experiente, isto é, já viveu muito e não possui mais na imaginação uma fonte de conhecimento suficiente (à maneira do ser humano inocente); ele é nutrido de experiência e precisa continuar as consumindo, o que, no frigir dos ovos, faz com que ele pareça querer de fato ver com os próprios olhos a rês se ajoelhando seja pra nutrir de novo um pouco do que a infância lhe dera, seja pra, de algum modo, provar quão infundadas e absurdas eram aquelas crenças.

As duas leituras mais legais que você vai encontrar desse poema estão em inglês: uma, por Adam Newey pro The Guardian, em 16/12/10, aqui, e a outra é o artigo Image, Allusion, Voice, Dialect, and Irony in Thomas Hardy's "The Oxen" and the Poem's Original Publication Context de Philip V. Allingham, aqui. Os termos dialetais do primeiro verso da última estrofe eu verti tornando o recorte da frase, como um todo, em algo um tanto arcaico. As rimas pares das estrofes iniciais não funcionaram muito bem, de modo que tive que encontrar socorro numa correspondência sonora tênue (o som de LH nas palavras finais dos versos pares) e meio que cruzada (ou seja, rimando o verso 4 com o 8). Não estou certo que o todo sonoro tenha ficado legal. Foi o melhor que consegui.


A RÊS.

Véspera de Natal, às doze.
    "Já se ajoelharam", o velho
Disse quando a gente sentou-se
    Junto à brasa que se avermelha.

Nós pensamos nos bichos lá
    No seu curral cheio de palha,
Mas não viemos a duvidar
    Se cada um de fato ajoelha.

Poucos um casto anseio igual
    A este urdiriam!... E porém,
Se na véspera de Natal
    Dizem: "A rês ajoelha; vem;

No ermo vergel d'além do vau
    Que em criança nós vimos, veja",
Em meio à treva o sigo e vou ―
    E é bom que assim seja.


THE OXEN. 

Christmas Eve, and twelve of the clock.
     “Now they are all on their knees,”
An elder said as we sat in a flock
 
    By the embers in hearthside ease.

We pictured the meek mild creatures where
 
    They dwelt in their strawy pen,
Nor did it occur to one of us there
 
    To doubt they were kneeling then.

So fair a fancy few would weave
 
    In these years! Yet, I feel,
If someone said on Christmas Eve,
 
    “Come; see the oxen kneel,

“In the lonely barton by yonder coomb

     Our childhood used to know,”
I should go with him in the gloom,

     Hoping it might be so.

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