Nobel: um prêmio admirável.


(Svletana Alexievich, jornalista bielorrussa vencedora do Nobel de 2015.)



Todo ano é a mesma coisa: aquela torcida, ainda que singela, por alguém ou no mínimo por algum gênero literário. No meu caso, em especial a segunda opção: qualquer poeta que ganhe eu já comemoro. (Embora deva reconhecer que os contistas e os dramaturgos estão em lençóis muito piores nesse quesito: a poesia, apesar de ser muito maltratada, ainda assim impõe respeito: é matriarca.) Na torcida individual, eu sempre dou um jeito de acender alguma velinha por Ferreira Gullar, se bem que, neste ano, dada a premiação de Augusto de Campos com o Neruda, eu tenha namorado um pouco essa possibilidade.

E aí o que acontece é aquele sentimento incrível de, mais ou menos às 07:30 em ponto da manhã, você estar devidamente arrumado pra assistir ao vivo o anúncio do vencedor do Nobel. Quando aquela porta ali abre, sempre às 8 e pouco, e sai alguém com uma pasta em mãos... Olha, isso é emocionante demais. Pra quem gosta de literatura, é um momento verdadeiramente mágico.

Mas nem só disso vive o Nobel. O Nobel é um prêmio admirável por algumas razões. Primeiro de tudo, é preciso reconhecer que ele não é um prêmio previsível. Seu objetivo não é o de premiar o escritor mais aclamado do mundo pelo simples motivo de que a dinâmica do reconhecimento literário, num âmbito mundial (embora este raciocínio possa ser aplicável também a âmbitos menores, como a literatura continental, nacional ou regional), é excludente. Isto é: se fosse apenas o caso de premiarmos os autores mais aclamados, então nós cairíamos numa espécie de pingue-pongue eterno entre instâncias de legitimação literária, ao passo que qualquer cultura longe dessas instâncias, como por exemplo a nossa, brasileira, dificilmente teriam sequer uma chancezinha que fosse de ganhar o Nobel.

Não. O Nobel tem um objetivo... Bem. O Nobel quer mudar o mundo. O testamento de Alfred Nobel busca claramente uma forma de contribuir com a paz entre os povos. É uma celebração da cultura mundial em tudo o que ela possa nos fornecer de vislumbre de um mundo mais justo e harmônico. No campo específico da premiação literária, é preciso ter em mente que os objetivos do Nobel se referem àquele autor que contribuiu com "the greatest benefit to mankind" (na verdade, esse é um critério mais geral, aplicável a todas as categorias) e que "have produced in the field of literature the most outstanding work in an ideal direction".

Do segundo trecho que citei, o Nobel se pauta, evidentemente, por autores que tenham demonstrado uma excelência literária, o que outstanding work atesta de modo claro. Mas não só isso: in an ideal direction. O que quer dizer isto?

A discussão é ampla. As micro-justificativas que são dadas para os vencedores podem ser lidas como uma especificação do que seria esse in an ideal direction para cada caso. É preciso, naturalmente, cominar uma expressão à outra, isto é, é preciso que o trabalho seja outstanding e que vá rumo an ideal direction. Isso pode dar ensejo a muitas formas de interpretação, haja vista que esse in an ideal direction não é apenas uma questão conteudística; antes, tendo em vista aquilo que Hjelmslev chamou de forma do conteúdo e conteúdo da forma, é também entender que in an ideal direction também pode incindir na forma de uma obra literária. O melhor texto que você vai encontrar a respeito do assunto é um de Sture Allén, Aspects of the Nobel Prizeaqui. Cito, em específico:

The solution would thus appear to be that Nobel's phrase in an ideal direction means 'in a direction towards an ideal'. The sphere of the ideal is in turn indicated by the fundamental criterion for all the Nobel Prizes, namely that they are to be awarded to those who "shall have conferred the greatest benefit on mankind". This means, for instance, that writings, however brilliant, that advocate, say, genocide, do not comply with the will.

Naturalmente que aqui já entraríamos em outras discussões, como a de ser ou não possível que um autor cuja obra renda loas ao holocausto seja considerada boa. De minha parte, como sou um relativista em termos valorativos, eu, por surpreendente que possa parecer (e confesso que quando paro pra pensar nisso, eu realmente vejo que é surpreendente até pra mim mesmo), creio que seja possível, dependendo dos critérios valorativos adotados, que a pessoa considere a obra como sendo boa. Em específico se imaginarmos a situação de um crítico que valore a obra não por seu conteúdo mas sim por sua forma, ou pelo desenvolvimento e forma de lidar com o conteúdo e não pelo conteúdo em si. Claro que isso não quer dizer que a opinião de tal crítico se tornaria menos debatível ou criticável; antes, minha opinião é a de que toda crítica é criticável. Mesmo porque, das opções que listei, todas elas dão um jeito de excluir o conteúdo do holocausto do escopo analítico, substituindo-o por outras formas de valoração que o dispensem. E veja que não se trata apenas de opções de leitura puramente formais de uma obra; é possível também que, num enfoque conteudístico, eu dê um jeito de chutar as loas ao holocausto em minha valoração, à maneira de dizer que, embora a obra trate de maneira crua demais o holocausto, sua investigação dos grandes dramas humanos seria maior.

Enfim. São discussões nas quais não desejo entrar. A questão é: o Nobel tem um objetivo mais amplo que o de apenas premiar a excelência. Como todo prêmio, claro, ele sempre vai buscar premiá-la. Mas não só. Se digo mais amplo, pressuponho mais inteligente e honesto, pois ele não premia a excelência tendo como muleta apenas a vendagem mundialmente considerada. Ele arregaça as mangas e vai à caça. Ele demonstra uma visão realmente mundial do fenômeno literário, e não uma visão pseudo-mundial (isto é, se ele apenas se rendesse ao critério da visibilidade, ele não estaria possuindo um alcance verdadeiramente mundial).

Nesse sentido digo que ele é admirável. Ele, mais do que pressupor uma pluralidade, corre atrás e se demonstra atento a essa mesma pluralidade, de tal modo que consegue atuar no cenário literário de maneira largamente benéfica, mudando o foco das atenções, periodicamente, a outras literaturas, a outros autores que, se fossem depender apenas do impacto mercadológico, seriam excluídos, como, de resto, muitos, muitos, inúmeros são. E ainda que se venha a contra-argumentar que o júri do Nobel é feito por membros de várias nacionalidades, e que isso pode de certo modo condicionar o resultado (o que só aqui já é um argumento esdrúxulo, posto que pressuporia que jurados de outras nacionalidades seriam defensores cegos de suas literaturas nacionais ou que seriam leitores menos qualificados, quando o que ocorre na verdade é que eles simplesmente são leitores com bases distintas mas nem por isso menos sólidas); ainda que se venha a contra-argumentá-lo, ainda assim não estaríamos mudando a realidade dos fatos, mesmo porque o objetivo de uma premiação não pode ser apenas a de premiar, com, quem sabe, um toque de condescendência, autores marginais (isto é, à margem dos grandes centros de produção e veiculação literária) à maneira de cotas ou que o valha. Não é isso. Se o Nobel busca por um corpo de júri que se faça plural, e se o resultado a que chega é também plural, ele, logo, é um prêmio que se norteia por um entendimento realmente amplo da literatura, realmente mundial, como eu havia dito. É uma importantíssima lição não só para outras premiações literárias, mas também para nós próprios enquanto leitores, que, fiados numa concepção estática e reclusa de qualidade literária, parecemos não ter a coragem suficiente nem o ânimo minimamente necessário para descobrirmos, nem que por um átimo que seja, a realidade heterogênea e incrivelmente rica da literatura.

§

Mas devo reconhecer que o contra-argumento que pus em cima da mesa é esdrúxulo demais. Não creio que alguém fosse realmente chegar a uma ideia assim. Mesmo porque estaríamos ignorando o funcionamento do Nobel: numa primeira etapa temos pencas e pencas de sugestões vindas do mundo todo e, numa segunda, um grupo seleto de membros da Academia Sueca decidindo, a partir de uma lista menor de indicados, o vencedor. Assim sendo, um eventual complô em prol de autores menores vindos dos cafundós do mundo não é plausível de ocorrer no Nobel. Se o Nobel premia autores distantes, autores, por assim dizer, desconhecidos, é porque faz parte de sua proposta. E aqui voltamos ao que disse anteriormente. Não é simplesmente que o Nobel devia premiar mais literatura e menos política, como alguns já chegaram até a maldosamente sugerir, fazendo acompanhar uma lista entediante de nomes de injustiçados.

Engraçado, aliás, essa coisa de injustiçados do Nobel. O mundo é grande demais e tem autores bons demais num número suficiente pra que passemos a vida toda lendo e nos contentando. Em larga escala, o mundo literário é inexplorado. É um imenso oceano por-conhecer. O número de injustiçados do Nobel, portanto, é muito grande. Mas, quando reclamam dessas tais injustiças, citam sempre autores com um renome internacional (um dos mais frequentes é Haruki Murakami, o chamado diCaprio do Nobel). Oras: quer dizer então que o objetivo do Nobel seria o de premiar apenas o renome internacional? Se o Nobel deixa de premiar um autor de renome X para premiar um desconhecido Y, ele está realmente sendo injusto com o autor de renome X? Mas se ele premiasse X, ou se ele se ancorasse no critério do renome como sinônimo de qualidade, ele não estaria sendo injusto com Y? Claro que aqui poderíamos dizer que, como o autor Y não possui renome, ninguém, por assim dizer, sentiria sua falta, com exceção das pessoas de seu país e alguns outros. Todavia, isso não estaria fazendo com que nos rendêssemos demais ao quesito do renome?

Poderíamos também dizer que o quesito do renome não é aleatório; ele pode possuir um fundamento qualitativo, e não estou querendo negar isto. Enxergo o renome literário em grande parte como uma medida mercadológica que lança um autor no mundo (nem sempre de forma literal; existem áreas do mercado editorial mundial que se fazem de metonímia do todo ou como centros irradiadores), de modo que o efetivo sucesso desse renome dependeria tanto da qualidade da obra do autor veiculada em contextos diversos (embora eu deva lembrar que este não é nem de longe um critério que "funciona", no sentido de absoluto ou menos problemático que qualquer outro; ou seja, não é porque uma obra é lida em muitos contextos distintos que ela é, necessariamente, boa; antes, a ideia de que uma obra seja lida em muitos contextos é mais um ponto de partida para a argumentação crítica do que um método de aferição de qualidade) quanto dos próprios influxos subsequentes do mercado editorial mundial. Seria, de certo modo, uma questão de oportunidade, uma espécie de dependência de um pontapé inicial para que esse autor realmente possa tentar criar um renome. E a própria criação desse renome, é claro, está geopoliticamente condicionada, haja vista que quando falamos em renome nós falamos menos de número absoluto de leitores do que de leitores qualificados, e, mesmo dentro do campo de atuação destes leitores qualificados, falamos mais especificamente daqueles ligados a grandes centros de veiculação literária. Ou seja, não é porque críticos de muitas partes do mundo avaliaram bem que por conseguinte o autor poderia ter algo que se possa dizer de renome; é preciso que críticos de algumas partes do mundo avaliem bem: pois eles, como disse, estariam mais próximos dos centros de veiculação literária, o que implica uma difusão literária e crítica maior ao longo do globo. E aqui, claro, não adianta pensarmos no remédio de que bastaria que chamássemos esses críticos para que, juntos, escolhessem o melhor: primeiro e acima de tudo porque o Nobel já faz isso, mas faz de verdade (isto é, chama gente do mundo todo), e segundo porque, se fôssemos simplesmente chamar os críticos com maior poder de influência ou, noutras palavras, com maior renome, nós não estaríamos mudando em quase nada o que eu disse sobre a questão do renome e da literatura: continuaríamos dependendo de uma complexa mecânica que de literária não possui tanto. Assim sendo, a realidade do renome não é uma realidade para muitos. É, ao contrário, para poucos.

Além do mais, é preciso reconhecermos a especificidade do Nobel. Ele é um prêmio que possui uma operacionalidade própria. Ele anda com as próprias pernas, ou seja, ele não depende de inscrições, e ele premia o conjunto da obra de um autor dentro dos parâmetros que mencionei anteriormente. Isso por si só faz muita diferença. Posto num âmbito mundial, onde a desigualdade da veiculação literária possui extremos gritantes demais para serem ignorados, e onde conglomerados editoriais movimentam com mãos imensas o cenário literário, a atitude pluralista do Nobel, eu repito, é admirável.

Talvez pareça ser uma necessidade de fazer média grande demais, no que voltaríamos à ideia de que o Nobel tem feito mais política do que de fato laureado a literatura. Porém, do que expus até aqui, creio já ter ficado claro que não é minha opinião: ele precisaria "fazer política" pra, justamente, laurear a literatura. Não faz sentido que se queira pluralizar o Nobel de física, por exemplo, haja vista que dentro da avaliação da descoberta científica mais importante do ano há uma objetividade e uma universalidade que a avaliação literária não tem como gozar. Na verdade, não é só uma questão avaliativa: uma descoberta física, dada sua universalidade, já impacta o mundo como um todo. Não digo que a obra literária de um escritor não o impacte. Mas uma premiação literária que se aferrasse à mecânica do renome literário não impactaria da mesma forma, dada a preponderância cultural do fenômeno literário: ou seja, a premiação deixaria de fomentar a literatura (pois o Nobel, hoje, tem a real capacidade de premiar, virtualmente, um autor de qualquer parte do mundo) e, por conseguinte, de oxigená-la ("oxigenar" entendido em muitos sentidos, em especial no de que um autor vindo de um contexto distinto do nosso, um autor fora dos grandes centros de veiculação literária é um autor que traz consigo necessidades críticas novas, pra não dizer no simples fato de que ele traz consigo a possibilidade de que descubramos a literatura de seu país, de sua cultura). Além do mais, o problema com a construção de um prêmio de literatura que impacte virtualmente o mundo todo já começa com o próprio espectro de alcance desse prêmio, ou seja, o até onde ele enxerga. É tolo pressupormos que, ao nos arvorarmos na ideia do renome como correspondente da objetividade e da universalidade científica, nós estaremos premiando mais literatura do que política. Acho até que tenderíamos a fazer o contrário...

Naturalmente que nestas horas também entramos em contato com o argumento de que o Nobel gosta de premiar autores com uma verve política mais acentuada. Se desta constatação a pessoa parte pra ideia de que, portanto, o Nobel premia literatura menor pelo simples fato de que uma literatura comprometida politicamente seria inferior, eu sinceramente, de minha parte, dou um longo suspiro e espero que algum dia esse alguém possa lançar um olhar um pouco menos encabrestado na coisa toda. Muitas vezes a universalidade que alardeamos numa obra é resultado de uma metonímia (ou seja, certa cultura é elevada a status de universal, ao passo que todas as outras são tidas como "presas demais a seu contexto") ou resultado de uma argumentação seletiva e excludente em pelo menos dois sentidos: tanto num plano de conteúdo, ou seja, toma-se os estratos políticos e contextuais da obra para depois excluí-los ou neutralizá-los sob a égide do discurso "mas a universalidade é mais latente, mais poderosa", ou então é-se feito este exercício ou esta constatação para algumas obras seletas enquanto, para outras, que poderiam muito bem receber o mesmo tipo de leitura, silencia-se ou faz-se o caminho reverso: acentuar os estratos políticos e contextuais da obra e, ao invés de pô-los em segundo plano em prol da tal universalidade, diz-se que são eles que atrapalham a dita cuja. Isso tudo, claro, pra não dizer que não é porque uma obra seja universal que ela necessariamente seja melhor que outra: a universalidade se encaixa melhor em certas formas de argumentos, mas isso não quer dizer que uma obra que realmente dependa de seu contexto seja necessariamente uma obra menor pelo simples fato de que ela possui dificuldade em se comunicar dentro de outros contextos... (Quer dizer: possuiria? Dentro de que contextos estamos falando? Ou melhor: será que essa transcendência contextual da obra literária não exigiria, por parte do leitor, uma transcendência contextual também? E essa transcendência contextual, ela é possível ou ela é simulada, isto é, sai-se de um contexto para se pisar em outro tomado como universal? E essa transcendência contextual, ela é necessária? E essa transcendência contextual, não é factível pensar que ela seja mais difícil, dentro de certas obras, que o simplesmente fazer o caminho reverso, isto é, acentuar o contexto? E por aí vamos...)

Assim, entendido que essa suposta preferência do Nobel por obras que não renegam sua contextualidade política não faz do Nobel um prêmio partidário, deve-se notar que quando, em uma lista de injustiçados do Nobel, alguém inclui nomes como Joyce ou Gullar, o que se está fazendo é uma confusão e, claro, um desentendimento de como o Nobel de fato funciona, de quais são suas propostas. Joyce foi de fato um autor de renome, mas e quanto a Gullar? O mundo realmente conhece a poesia de Ferreira Gullar? Gullar tem renome em nosso país, mas lá fora não. Assim sendo, se o Nobel foi supostamente injusto ao não premiar Joyce, pois Joyce tinha renome, ele não o foi ao não premiar Gullar, pois Gullar não tem renome. Mas aqui entra a questão: Gullar, ora essa, não merecia? Sua poesia não é boa o suficiente para o Nobel?

Como ficou claro no início do texto, minha opinião é a de que sim, Gullar merece vencer. Todavia, como ele sequer pode ser cogitado para tal se nós estivermos falando de uma premiação que busca apenas premiar o melhor escritor do mundo e, em busca deste fim, se ancora apenas em quesitos de renome, de quantidade de leitores, de volumosidade bibliográfica? Se estes forem realmente os critérios, então Gullar está fora da jogada, assim como tantos e tantos outros. E o resultado seria óbvio: o Nobel deixaria de ser um prêmio de alcance mundial.

Comentários

  1. Um texto lúcido. Embora eu às vezes ache que o Nobel de Literatura tem muito mais a ver com questões políticas do que de fato literárias, concordo em parte com suas opiniões e reverencio a argumentação. Parabéns!

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  2. Coisa boa tirar um tempo para ler um texto seu, Matheus.

    Sobre essa questão de "relativismo acerca de valores", posição com a qual você se identifica, teria como explicitar o que seria ser um relativista acerca de valores? Como você articularia essa tese?

    No mais, concordo com as posições que defendeste. Valeria a pena, talvez, destrinchar essas posições que exigem o valor da universalidade como critério para avaliar obras literárias -- você tocou num ponto interessante, o de que, em geral, quem exige universalidade está, muitas vezes por ignorância ao invés de má-fé, incitando um critério mais político do que propriamente literário. Talvez - embora eu também seja um tantinho cético quanto a isso - haja espaço possível para o critério da universalidade pulular como critério de avaliação literária, mas num sentido rearticulado. Uma rearticulação diferenciada desse critério deveria desligar o conceito de universalidade em literatura com as visões eurocêntricas do que seria a tal 'universalidade'. Falo isso porque, de alguma forma, não podemos negar que estamos interessados em *universalizar* critérios sensíveis ao contexto -- a ideia seria que essa 'universalidade' não seria incompatível com critérios sensíveis ao contexto, e muito menos incompatível com uma pluralidade de critérios, o que, convenhamos, é necessário para dar conta da riqueza e complexidade do fenômeno literário. No fundo, tanto por quem costuma criticar a universalidade quanto por quem costuma defendê-la, a noção de 'universal' é comumente mal-articulada, dando brechas para críticas do tipo "a universalidade ignora contextos, especificidades etc." -- críticas que fazem sentido para muitos casos.

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    1. Fala, Xande!

      Disse relativista em termos valorativos no sentido de: relativista para com a valoração artística. Acho que ela vai sempre depender do relativo ao quê estamos falando. E nem tanto no sentido de que inapelavelmente nós estaríamos caindo numa ausência de conceitos ou de esteios mais objetivos, por assim dizer. Isto é: num plano social e biológico, por exemplo, nós podemos falar em definições objetivas que norteiam valorações. Podemos falar objetivamente de valores, como a ideia da beleza corporal humana: existem estudos que demonstram preferências corporais independente da cultura em questão (proporção cintura-quadril próximo de 0,7 e por aí vai). Mas, neste caso, estaríamos tendo uma referência mais exata do que falamos quando mencionamos a beleza: ou seja, a beleza, nesse caso, que adquire aqui um valor objetivo, seria relativa à atratividade sexual.

      Num âmbito social, seria, se fôssemos considerar a realidade dos valores literários, o caso do campo literário visto numa perspectiva sociológica. A dinâmica de instâncias críticas privilegiadas, casas editoriais de grande alcance econômico, instituições como a escola, a ideia do cânone literário etc etc. Ou seja: não posso simplesmente dizer que o cânone é algo que não existe. Ele existe. É ensinado nas escolas, fundamenta escolhas editoriais, dá dinheiro e tal e tal.

      Porém, quando a gente entra num âmbito crítico, aí eu já acho que essa relatividade deixa de ser direcionada a valores objetivos e deixa de possuir qualquer postulação a priori, por assim dizer. Ou seja: num âmbito crítico, você pode valorar da forma como bem entender, de modo que o que resta no fim das contas é muito mais a qualidade do seu argumento crítico do que de fato o valor estipulado em relação a determinado autor. (Estou, no caso, tomando a crítica literária como uma forma de leitura valorativa, isto é, dizer se é bom ou ruim, e que seja articulada, isto é, que se sustente, que possa ser lida e criticada por outros leitores.)

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    2. E de fato, concordo com o que você disse sobre a universalidade. Ou melhor dizendo, veja se entendi: seria como que uma imersão no próprio contexto e, a partir daí, o anseio pela universalidade? Se for nesse sentido, também acho que é por aí mesmo. Transcender o espaço e o tempo é algo bem próximo de uma característica geral da arte, né? Acho até que dá pra fazer muitas ilações a partir dessa ideia...

      A universalidade é sem dúvidas um critério de avaliação literária. Não digo que seja O critério, pois afinal de contas nós também podemos louvar uma obra de arte pelo que ela possui de específico, ou então aplicarmos a ideia da universalidade de forma subsidiária de outros critérios (ou mesmo enxergar a universalidade como um demérito da obra: pense por exemplo em boa parte da poesia pseudofilosofante da geração de 45).

      Minha ideia é de que, se fôssemos colocar todos os critérios pensáveis numa folha de papel (e, embora eu não tenha direito uma ideia de quantos seriam, eu arrisco dizer que eles existem num número limitado), nós notaríamos que para cada um deles é possível pensar num critério oposto igualmente digno de nota, igualmente funcional. Por exemplo inovação e respeito à tradição. Ou a universalidade e a especificidade. Ou beleza e feiúra. Ou complexidade e simplicidade. E por aí vamos. Claro que podemos também imaginar que, na verdade, o que conta é muito mais o embate entre um e outro: por exemplo a forma como uma obra inova mas ainda assim se comunica com a tradição (esse é o ponto do Eliot naquele famoso ensaio dele). Mas, ainda assim, nós podemos falar que uma obra pode ser boa por ser radicalmente inovadora ou radicalmente realçadora da tradição (concepções vanguardistas e neoclássicas, respectivamente). E no final, do ponto a que cheguei, minha conclusão foi o que disse anteriormente: se eu for me fiar realmente em um critério de valoração artística como sendo absoluto, eu vou estar meio que apagando os outros, visto que esses outros existem numa pluralidade de possibilidades tão alta, que qualquer maneira de estabelecer a priori qual desses critérios é o melhor restaria inútil: é mais próximo da realidade que analisemos a qualidade do argumento.

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    3. Eu estava pensando algo no seguinte sentido: ao defendermos critérios sensíveis ao contexto, pensamos que, dado um contexto x, um critério sensível ao contexto x deveria ser aceito universalmente para avaliar uma obra literária, pois, do contrário, a crítica literária acabaria ignorando especificidades da obra que são literariamente significativas; que deveriam ser levadas em conta pela crítica literária.

      Na verdade, eu agora me dei conta de que, nesse sentido, a universalidade não seria exatamente um critério literário, mas um critério da validade ou adequação de um critério literário, o que daria para articular da seguinte maneira: Se um critério estético E é sensível ao contexto C, então *para toda* (residindo, aqui, a universalidade) obra literária imersa no contexto C, E é um critério estético (de valoração, portanto) adequado às especificidades das obras literárias em questão.

      O que você pensa sobre isso?

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    4. Mentalizei. Corporificando num exemplo: o haicai. Um critério estético sensível ao haicai é o da simplicidade, ou despojamento como preferem alguns. O problema é que eu vejo que essa inclusão da universalidade é muito problemática, pois a percepção contextual pode mudar. Acho que a questão com a crítica é nem tanto uma questão de verdades, mas, como diz o Barthes, de criar validades.

      Mais ou menos o seguinte: apesar do critério estético E, no meu exemplo a simplicidade, aplicada ao contexto C, o haicai, ser um critério que você poderia a princípio estender a toda obra literária adequada a tais especificidades contextuais (digamos: a todos os haicais), outras leituras são possíveis e igualmente plausíveis. Pegue-se por exemplo um simples haicai como aquele da rã pulando no açude, do Bashô. Existem traduções dele (e eu tomo a tradução como resultado de uma operação crítica) que realçam sua simplicidade (a do Franchetti, p.ex.), mas também existem aquelas que realçam sua estrutura formal p.ex. as do Haroldo de Campos e do Décio Pignatari.

      A ideia é de que a obra de arte possui uma relação contextual latente, mas ela ao mesmo tempo é um objeto voltado contra esse contexto e que se utiliza desse contexto de forma significativa (digamos que ela se enraíza, mas ela também corta relações com esse contexto e usa o solo desse contexto de maneira significativa). Então me pergunto se, como você formulou, nós não estaríamos dependendo de uma certa simplificação do contexto ou das relações entre o objeto estético e esse contexto. Afinal de contas, o critério estético precisa se conformar com o fato de que obras literárias são interpretadas de muitas formas e mesmo que contextos são interpretados de muitas maneiras, seja o meu, seja o do outro, seja a relação entre o meu com o do outro...

      A raiz da divergência, por assim dizer, entre as interpretações do haicai do Bashô da rã no açude que vemos entre as traduções do Franchetti e do Haroldo e Décio, é em muitos sentidos uma divergência de instrumentos de leitura, de percepções contextuais etc. Aí voltaríamos à ideia do Barthes, de que a crítica tem que criar validades, isto é, como que uma segunda linguagem alicerçada na linguagem da obra de arte que se sustente e seja válida, que estabeleça um contato fecundo com a obra de que parte.

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  3. EU ESTOU IRRITADIÇO DE IRRITADO! CADÊ POSTAGEM NOVA?

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