Anne Bradstreet (1612 - 1672).




N
ascida em 1612, Inglaterra, no ano da morte da rainha, Anne era a segunda filha de Thomas Dudley e Dorothy Yorke. Antes de Anne, o casal tivera Samuel, que era quatro anos mais velho que a irmã, e depois de Anne três filhas: Patience, Sarah e Mercy. Desde cedo Anne ajudava a mãe a cuidar das irmãs caçulas, o que ela fazia com muita dedicação.

Anne recebeu uma educação esmerada. As mulheres elisabetanas e as que viveram períodos imediatamente posteriores ao elisabetano podiam gozar de uma educação um pouco mais esmerada. Mas há também que se considerar a religião de Anne: muitas meninas puritanas eram ensinadas a ler, visto que, assim, poderiam, fosse necessário, ensinar seus próprios filhos a também lerem, o que, na prática, significava ler a Bíblia (a Bíblia traduzida pelo rei James foi publicada um ano antes do nascimento de Anne: 1611). Mas Anne, além de saber ler, também sabia escrever, o que já demonstrava um passo a mais na sua formação. Ela gostava em específico de livros de história, por exemplo History of the World de Raleigh, e de poesia, em específico a de um tal de Guillame de Salluste Du Bartas.

Aos dezesseis ela se casa com Simon Bradstreet. Em 1630, a bordo de um dos 11 navios capitaneados por John Winthrop, ela foi parar nos Estados Unidos. O episódio ficou conhecido como Winthrop Fleet e demonstrava a insatisfação puritana para com o governo inglês, em específico com as condutas religiosas do país. Com a ascensão dos puritanos no parlamento, e com o consequente fechamento desse mesmo parlamento pelo rei Carlos I, os puritanos, ao todo mil, a bordo dos 11 navios que mencionei, debandaram para a América, onde encontraram melhores condições de vida (a poeta vai retratar essa disparidade de condições para os puritanos entre o solo inglês e americano num poema denominado A Dialogue between Old England and New). Lá, Anne e seu marido foram praticamente nômades, pois se mudavam com frequência de um lugar pro outro, mas isso não chegou propriamente a impedir que constituíssem uma larga família (convenhamos que isso está meio longe de ser propriamente um empecilho).

Em 1632 Anne teve seu primeiro filho, de um total de oito. Sua família possuía uma condição social confortável. O que complicava era a saúde de Anne, que só foi se agravando com o passar dos anos. Antes ela havia tido varíola, e, mais perto do fim da vida, chegou a sofrer de paralisia nas juntas. Em 1650 ela publicou, na Inglaterra, o livro The Tenth Muse Lately Sprung Up in America, que, na capa, dizia que havia sido composto por A Gentlewoman of Those Parts. Ela era a primeira mulher das colônias britânicas a ser publicada. Quem lhe havia ajudado nesse feito foi o reverendo John Woodbridge, cunhado de Anne, que viajou para a metrópole levando os manuscritos. Até então, os poemas circulavam apenas entre familiares. Dizem que Anne não tinha conhecimento da publicação, mas hoje essa é uma hipótese meio difícil de acreditar haja vista que Anne chegou até a escrever um poema-prefácio para a publicação. No prefácio que Woodbridge escreveu, em certa passagem ele diz:

o máximo que lhe ocorrerá [ao leitor] será a descrença, que lhe fará inclusive se perguntar se a obra é de uma mulher, e questionar, isso é possível? Se alguém o fizer, receba isto como uma resposta de quem ousa confessá-lo; é obra de uma mulher, honrada e estimada onde vive graças a seu comportamento garboso, seus dotes eminentes, sua conversa pia, sua disposição cortês, sua exata diligência em seu lugar, e a discreta forma com que lida com os afazeres domésticos, e até mais do que isso; estes poemas são fruto de algumas poucas horas, arrancadas de seu sono e outros lazeres.

O livro foi aclamado (oito anos depois era listado como um best-seller e o rei George III o tinha em sua biblioteca), mas, como eu disse, Anne teve que escrever um poema certo modo vexatório em que ela, por assim dizer, abaixava a bola e assumia uma postura mais servil em relação a sua obra. O poema se chama The Author to Her Book, e diz, nas linhas finais, por exemplo: "And for thy Mother, she alas is poor, / Which caused her thus to send thee out of door." ("E quanto à sua Mãe, é uma coitada / Por deixar-te ir pela porta de entrada.") Num outro poema, intitulado Prologue, a autora diz, logo na primeira estrofe: "To sing of Wars, of Captains, and of Kings, / Of Cities founded, Common-wealths begun, / For my mean Pen are too superior things;" ("Cantar Varões e Reis, Urbes fundadas, / Cantar Contendas e cantar Impérios: / São coisas, para mim, muito elevadas"). Já na penúltima estrofe:

        Mulheres sejam o que são, e Helenos,
        Helenos. O homem alça-se e excele:
        Tolo é lutarmos, pois nós somos menos.
        A mulher sabe que o melhor é ele.

["Let Greeks be Greeks, and Women what they are. / Men have precedency and still excel; / It is but vain unjustly to wage war. / Men can do best, and Women know it well."]

Não causa espanto que assim fosse. Dentro das jaulas machistas e puritanas do século XVII, uma mulher que conseguisse o simples feito da publicação, como Anne conseguira, já era como que chamada a se explicar. Como explicam Sandra Gilbert e Susan Gubar, a escrita literária sempre foi ligada a uma questão de autoridade patriarcal. A mulher era apenas matéria literária, quando muito. Seus deveres societários eram o de ser o anjo do lar, uma figura servil que mantinha o status quo graças a um processo violento de supressão de sua pessoalidade, e de afastar a figura da mulher como um ser demoníaco e transgressor (por exemplo os retratos grotescos e misóginos que Jonathan Swift faria num poema como The lady's dressing room). A escrita não era uma atividade pra mulheres. Quem ousasse escrever, só seria aceita caso se retratasse de algum modo ou emulasse a voz masculina, silenciando ao máximo o que ela, mulher, sentisse e artisticamente fosse posto no papel. É o que explica a frequência alta de notas servis no decorrer da obra de Anne. Veja-se a atitude submissa do eu lírico de To my dear and loving husband. A equação de que o marido e a esposa são um só, e que seria repetida por exemplo no final de A Letter to Her Husband, Absent upon Public Employment (o final diz: "Flesh of thy flesh, bone of thy bone, / I here, thou there, yet but both one."; "Carne da tua carne e osso do teu osso: / Mesmo apartados, nós somos um só."), era um tanto quanto retórica. O Um que prevalecia era o do homem. Tanto que, neste mesmo poema, A Letter to Her Husband, Anne diz com clareza que a felicidade dela era muito maior quando seu esposo estava presente. Evidentemente que existe no poema uma declaração de amor intensa e tocante, mas isto não creio que invalide minha observação de que o grau de dependência, no poema, é acentuado. Veja-se:

        Mas que estranho! Você, que ao sul viajara,
        Me deixa num fastio que desampara;
        Porém ao vir do norte e me encontrar,
        Que o meu sol só se ponha a incendiar
        O Trópico de Câncer de meu peito

["O strange effect! now thou art southward gone, / I weary grow the tedious day so long; / But when thou northward to me shalt return, / I wish my Sun may never set, but burn / Within the Cancer of my glowing breast,"]

Mas nem tudo na obra de Anne foi um abaixar a cabeça. Ela não tinha a veemência de Anne Finch, por exemplo, poetisa inglesa imediatamente posterior a Anne Bradstreet; mas isso não quer dizer que em certos momentos ela tenha deixado de atacar o patriarcalismo latente e explícito de sua época. Num poema dedicado à falecida rainha, In Honour of that High and Mighty Princess, o eu lírico diz em certa parte:

        Não, homens, vocês já nos podaram demais.
        Mesmo morta, a rainha irá impôr: "não mais".
        Se, sobre nós, de tolas já houveram escrito,
        Lembrem: hoje é calúnia; mas já foi delito.

["Nay Masculines, you have thus tax’d us long, / But she, though dead, will vindicate our wrong. / Let such as say our sex is void of reason / Know ‘tis a slander now, but once was treason."]

Em 10 de julho de 1666, a casa em que Anne e sua família moravam foi consumida pelas chamas. Num poema intitulado Upon the Burning of Our House, ela se mostra, todavia, resoluta. O que ocorreu? Oh, o que ocorreu faz parte dos desígnios de Deus. Cerca de 800 livros, pelo menos, foram embora com o incêndio, o que demonstra de maneira clara o alcance da erudição de Anne e sua família. Ela faleceu em 1672. Em 1678, uma coletânea intitulada Several Poems Compiled with Great Variety of Wit and Learning foi publicada nos Estados Unidos. Era a segunda coletânea de poemas da autora que, embora póstuma, ajudou a firmar seu nome como o de uma das primeiras poetisas americanas. Pouca coisa não é.

A poesia de Anne Bradstreet com frequência se vale de comparações metafóricas certo modo contidas, isto é, sem a inventividade metafórica e mesmo formal que podemos antever na produção barroca de seu tempo. Como o espectro de alcance de sua poesia era basicamente familiar, isto é, Anne versava sobre coisas que aconteciam no dia-a-dia, sem poder dar asas à imaginação em excesso, então se entende a razão da contenção que julgo poder ser vista em seus textos. Às vezes ela consegue usar de maneira muito interessante o sarcasmo, e a mescla de sobriedade com intensidade que ela consegue dar a alguns de seus poemas fazem deles dos mais belos da lírica de língua inglesa. To my dear and loving husband, por exemplo, é dos preferidos de quem desfecha tiros no peito. Creio que essa fama se dê graças ao fato de que nele a poeta expande a ideia bíblica do casal como sendo apenas um, numa cumplicidade que não deixa de possuir sua beleza (o casamento era tido em alta conta pelos puritanos), e, formalmente falando, ela consegue incutir essa ideia pro leitor, o que pode ser visto em especial no jogo de alternâncias que ela faz dando um enfoque aos pólos masculino e feminino: veja-se por exemplo os versos 2 e 3. É como se ela se pusesse num solo firme para, permanecendo nesse mesmo solo, executar seus altos voos poéticos. No caso do segundo poema traduzido, é só observar a maneira como ela professa o amor a um de seus filhos valendo-se da hipótese, para ela muito presente, de que morreria e não poderia conviver muito tempo com sua criança. Ela quase que toma isso como certo, e passa assim o poema todo, e é justamente passando assim o poema todo que ela expande suas imagens e recursos poemáticos sempre girando em torno desse conceito ou dessa ideia central.

Até onde eu saiba, não existe nenhuma outra tradução de Anne Bradstreet no Brasil (desconfio que talvez possa existir algo de Paulo Vizioli, mas é somente um chute). O leitor pode ler a obra completa da poeta, em inglês, aqui.


A MEU QUERIDO E AMADO ESPOSO.

Se dois já foram um só, fomos nós.
Se um esposo já foi feliz, foi vós.
Se uma esposa já foi feliz, então
Meça-se a mim, se houver comparação.
Eu prezo vosso amor como excelente,
Mais que o ouro de todo o Oriente.
Os rios não saciam meu amor,
E só em vós encontro o meu louvor.
Vosso amor é tanto, que eu não custeio;
Rogo aos céus que de bens vos façam cheio.
Enquanto vivos, que no amor perseveremos,
Pois que, não mais vivos, eternos viveremos.

§

ANTES DO NASCIMENTO DE UMA DE SUAS CRIANÇAS.

Neste mundo inconstante tudo morre,
E um dia ao riso a adversidade ocorre.
Nenhum laço tão forte ou amizade
Fica, se a morte chega de verdade.
As coisas do passado não se cassam,
Coisas comuns que, oh!, sempre, sempre passam.
Cedo que a mim a morte desintegre,
Mais cedo é que ela ceife quem te alegre.
Nós somos ignorantes, mas o amor
Me manda que isto eu venha a te compôr,
Pra que quando o nó que nos fez só uma
Se desfaça, em ti eu viva, embora eu suma.
Se eu viver nem metade da existência,
Que o resto Deus te dê de recompensa.
As faltas que tu sabes que possuo,
Enterrem-nas na cova onde me incluo;
E se alguma virtude houver em mim,
Vívida viva em tua alma e, alfim,
Quando não mais sentires dor, como eu,
Ama quem antes já te protegeu.
Se tuas perdas com ganhos se atestam,
Olha esses bebezinhos que me restam.
E se amares a ti mesma, ou me amares,
Guarda-os das detrações dos mais vulgares.
E se o acaso te mostrar meu verso,
Dê tristes honras a meu fim adverso
E beija este papel por bem dos teus
E receba este último e amargo Adeus.


TO MY DEAR AND LOVING HUSBAND.

If ever two were one, then surely we.
If ever man were loved by wife, then thee.
If ever wife was happy in a man,
Compare with me, ye women, if you can.
I prize thy love more than whole mines of gold,
Or all the riches that the East doth hold.
My love is such that rivers cannot quench,
Nor ought but love from thee give recompense.
Thy love is such I can no way repay;
The heavens reward thee manifold, I pray.
Then while we live, in love let’s so persever,
That when we live no more, we may live ever.

§

BEFORE THE BIRTH OF ONE OF HER CHILDREN.

All things within this fading world hath end,   
Adversity doth still our joyes attend;
No ties so strong, no friends so dear and sweet,   
But with death’s parting blow is sure to meet.   
The sentence past is most irrevocable,   
A common thing, yet oh inevitable.
How soon, my Dear, death may my steps attend,   
How soon’t may be thy Lot to lose thy friend,   
We are both ignorant, yet love bids me   
These farewell lines to recommend to thee,   
That when that knot’s untied that made us one,   
I may seem thine, who in effect am none.   
And if I see not half my dayes that’s due,
What nature would, God grant to yours and you;   
The many faults that well you know I have  
Let be interr’d in my oblivious grave;   
If any worth or virtue were in me,   
Let that live freshly in thy memory   
And when thou feel’st no grief, as I no harms,   
Yet love thy dead, who long lay in thine arms.
And when thy loss shall be repaid with gains   
Look to my little babes, my dear remains.   
And if thou love thyself, or loved’st me,
These o protect from step Dames injury.
And if chance to thine eyes shall bring this verse,
With some sad sighs honour my absent Herse;   
And kiss this paper for thy loves dear sake,
Who with salt tears this last Farewel did take.

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