A respeito de um soneto de Augusto dos Anjos.

A LÁGRIMA

— Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Clorureto de sódio, água e albumina...
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

— "A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina." —

— O farmacêutico me obtemperou. —
Vem-me então à lembrança o pai Ioiô
Na ânsia psíquica da última eficácia...

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!

§

O jeitão dos poemas do Augusto dos Anjos é inconfundível. Esse uso intenso de termos científicos faz com que o leitor no mínimo os ache engraçados, ao contrário do que se poderia pensar acerca de um movimento de repulsa inicial — ou seja, se eu leio um poema cheio de termos que não entendo, eu tendo a me afastar, mas com Augusto dos Anjos é o contrário. Há um magnetismo em seus poemas. E aqui não custa lembrar que primeiro Augusto dos Anjos foi aclamado justamente pelo povo, que declamava seus poemas, para só depois chamar a atenção da crítica. É muito curioso. Mas tem lá sua lógica, visto que esse monte de termos obscuros é usado com uma fluência e mesmo uma elegância própria que fazem com que fiquemos curiosos em parte pelo que eles podem eventualmente significar, mas em grande parte pelo fato deles fazerem sentido dentro do plano poemático.

Não digo "fazer sentido" num ponto de vista semântico. Digo: eles estão amarrados numa cadeia sonora muito bem tecida. Quase não se encontra nos poemas do poeta uma inversão sintática que seja. Há sempre um clima de mistério e surpresa propiciado pela pirotecnia de suas rimas, que são sempre rimas riquíssimas (ou, pelo menos, do conjunto de rimas na estrofe, pelo menos uma é) — o que impede o leitor de em algum momento chegar a um estado de espera ou previsão do que está por vir, pois ele sabe que se surpreenderá com as rimas a que o poeta chega, a não ser que o leitor esteja de má-vontade ou tenha lido de forma exaustiva o poeta, o que atrapalha, de resto, os efeitos de qualquer poema que seja. E essa cadeia sonora muito bem tecida implica dizer que a atitude do leitor frente a um poema de Augusto dos Anjos não precisa ser a de sair igual um louco procurando o significado das expressões. Em muitos casos nós vemos um exagero e mesmo um volteio por parte do poeta em fazer com que a expressão científica se encaixe (mas, como o leitor desconhece o significado da expressão científica, ele ignora esse volteio, esperando ser presenteado pela sonoridade bombástica da poesia do autor e, claro, sendo sempre recompensado). Me parece nítido que o propósito é via de regra o de impactar e de plantar caraminholas no leitor. Claro que não apenas isso; existe uma grandeza no uso de Augusto dos Anjos de termos científicos altamente especializados. Pois esse tipo de terminologia implica uma especialização; eles são usados justamente pra que consigam tratar com precisão cirúrgica de determinada coisa. São insubstituíveis. Não se diz simplesmente "cloreto de sódio" para substituir um termo como "sal"; usa-se pois um termo como "cloreto de sódio" capta minúcias que "sal" simplesmente não capta. Mas Augusto dos Anjos consegue usar esse instrumental altamente específico num plano poemático mais amplo, ou seja, seus poemas sempre tratam de temas que parecem assolar o âmago do ser humano como um todo. Em muitos casos, poemas com um teor altamente metafísico, que beiram questões como a essência do Ser ou os insondáveis mistérios da Morte.

E aqui a relação é curiosa. Pois são discussões que demandam termos mais genéricos e amplos, termos que, muito embora possam ser especificados em categorias que contribuam para a análise (por exemplo quando Heidegger, pensando a questão do ser, o "subdivide" em ser-aí, ser-em, ser-com etc), ainda assim guardam um tom genérico essencial para que consigam tratar questões assim (mesmo porque são termos também especializados, só que especializados filosoficamente). Mas aí vem Augusto dos Anjos e se vale de um instrumental científico, cirúrgico pra tratar de tais questões, e tudo num âmbito poético, o que implica um substrato emocional latente ou então a percepção do discurso a partir de vias tidas como secundárias (por exemplo a via das correspondências sonoras ou metafóricas). Há uma contradição aí. Afinal de contas, o palavreado científico altamente especializado funciona bem em sua área, mas em questões metafísicas o palavreado especializado tem de ser outro. Augusto dos Anjos consegue como que o milagre de unificá-los e operacionalizá-los dentro de seus textos.

Ele consegue isso graças a alguns instrumentos específicos e recorrentes em seus textos. Um deles o de sempre trazer situações cotidianas ou que passem pela realidade empírica de maneira visceral. Claro que há o negativo de situações de teor surreal, mas essas situações surreais nos poemas de Augusto dos Anjos são surreais por passarem e perturbarem a concretude do real. Ele também costuma segmentar seu poema em pequenas notações que se assemelham à observância científica de um fenômeno. Além disso, ele possui uma filosofia iconoclasta, ancorada na dúvida absoluta, na rejeição de verdades e na proclamação da vanidade da existência. Se em algum instante os dois pólos opostos científico e metafísico, que Augusto dos Anjos conhecia com grande erudição, parecem se harmonizar ou pelo menos cada qual apontar para uma verdade, a postura de Augusto dos Anjos ao utilizá-los destrói qualquer resultado que se tenha pretendido esboçar e o leitor fica, no fim das contas, com um monte de destroços. E aqui de novo caímos numa ironia esplêndida, visto que estamos falando de um poeta que escreveu numa época de efervescência positivista acentuada. A partir do momento em que ele se vale de posturas, conquistas e termos dessa empreitada positivista e, de modo geral, de grandes resultados, de ápices do pensamento ocidental, mas não para chegar a resultados objetivos e universais e sim para chegar a uma banana dinamite dentro do poema, ele está por conseguinte operando um grande ataque à concepção de mundo de seu tempo. Afinal de contas, ele pega todo o instrumental mais fino de entendimento de mundo de sua época e o usa pra proclamar o enorme Nada.

O soneto que trago creio que o demonstra bem. Ele pega os pólos científico e metafísico para depois proclamar sua insuficiência. Trata-se de um soneto dramático, no sentido de que traz personagens num diálogo. Na época de Augusto dos Anjos, de fortes veleidades parnasianas (e muitas características da obra de Augusto dos Anjos possuem um ponto de partida parnasiano, entre eles a preocupação formal), Arthur de Azevedo era o mestre mais consumado no estilo dos sonetos dramáticos. Não existem muitos sonetos dramáticos na obra de Augusto dos Anjos e, de modo geral, no soneto brasileiro como um todo. De todo modo, a situação entre paciente e doutor seria retratada de maneira memorável no começo de Budismo moderno: "Tome, Dr., esta tesoura, e... corte / Minha singularíssima pessoa." (Um dos poucos poemas em que você consegue ver um suspense bem bolado, mas um suspense bem bolado já no começo.) Aqui nós temos basicamente a conversa entre o eu lírico e um farmacêutico. No início do século o farmacêutico era bem mais do que era hoje. Haja vista que muitas cidades não contavam com um médico, o farmacêutico, ou boticário, era quase que um curandeiro ou médico-geral do povo.

Na primeira estrofe o poeta pede que se lhe tragam os materiais químicos pra que se faça a lágrima. Temos a famosa especialização de Augusto dos Anjos concentrada nesse segundo verso. E a linguagem formal do primeiro, com "por obséquio", contribui para que tenhamos uma atmosfera fria logo nesse introito, o que é quebrado pela informação de que esses instrumentos servem apenas para originar as lágrimas de todos os vencidos. Isto é: nós ampliamos de maneira muito forte o plano de visão do poema, partindo da reunião de elementos químicos para todos os vencidos do mundo. Na segunda estrofe, que é uma citação do farmacêutico, nós nos encontramos com uma frase um tanto quanto curiosa. Primeiro pois une a farmacologia e a medicina, o que quer dizer que estamos falando de instrumentos científicos finos e avançados. A relatividade dos sentidos é uma expressão curiosa, mas que nos ajuda a cair num plano mais humano, ou seja, num plano mais empírico e menos científico. Os dois versos juntos querem dizer, em outras palavras, que a ciência e o ser humano alguma coisa. No caso, que os dois juntos "Desconhecem os mil desconhecidos". O duplo esforço da ciência e de nós, seres humanos, com todos os nossos sentidos à flor da pele, foi baldado: nós desconhecemos um número enorme de desconhecidos e, portanto, somos ignorantes, de modo que o próximo verso, que se refere a uma secreção divina (mencionada com um pronome vago: "dessa", contraposta ao "isto" do terceiro verso), possui sua coerência: diante de tantos desconhecidos que desconhecemos, nós nos postamos frente a algo que só possui explicação divina.

Isto quem disse foi o farmacêutico, alguém que não deveria se contentar com uma explicação dessas ou que, mesmo supondo que fossem mil os desconhecidos, não deveria por conseguinte atribuir explicação divina ao fenômeno. "Obtemperar" é dizer com modéstia. No próximo verso somos trazidos à referência do pai Ioiô. Ioiô era como carinhosamente chamavam o pai do poeta, Alexandre Rodrigues dos Anjos. Ele era primo de Agrípio Carlos Pessoa de Melo, chamado de Doutor, que se casara com uma tal de Dona Juliana. Essa Dona Juliana era viúva de José Fernandes de Carvalho, mas, ao contrário do costumado, não se casou novamente com alguém dos Fernandes de Carvalho, mas com um juiz que havia chegado ao local: no caso, Agrípio. Já Alexandre se casara com Dona Córdula Carvalho Rodrigues, a Sinhá-Mocinha. Sucede que Dona Juliana, um ano após se casar com Agrípio, falecera, e Agrípio passou a tomar conta dos negócios da família. Portanto, Alexandre não tinha lá muitas preocupações familiares ou econômicas, visto que Agrípio havia pego o boi pelo chifre. Mas eis que a época vira de ponta cabeça a economia e o açúcar bem como o aguardente despencam de preço. Era a ruína financeira da família, o que só pioraria quando Alexandre caísse de cama enfermo até a morte.

Augusto dos Anjos tratou a situação da morte de seu pai em dois comoventes sonetos: A meu pai doente e A meu pai morto. Não custa lembrar que Eu é dedicado, entre outros, à memória de seu pai. A referência carinhosa ao pai neste soneto quebra o tom frio e vago dos versos anteriores. Desarma. Evidentemente que já no verso seguinte nós temos uma expressão como "ânsia psíquica da última eficácia", que, graças a seus acentos bem distribuídos (em especial pelo fato de conter duas palavras proparoxítonas, algo raro de ocorrer num verso), criam um distanciamento. Mas demonstra, de todo modo, como, apesar de Augusto dos Anjos possui à sua disposição todos os instrumentos capazes de fazê-lo se esquivar da própria vida — seja graças à ciência, seja graças à filosofia, seja graças à postura negativa —, ele ainda assim está falando fulcralmente de si mesmo, dos horrores, mistérios, perplexidades que sua estada no mundo lhe incutem. Eu. No poema, caberia citar o penúltimo verso, com uma redundância da primeira pessoa: "lembrar-me eu de meu Pai" (o uso de "Pai" em maiúscula é também digno de nota pois Augusto é um poeta que aprecia o uso de termos em maiúscula para retratar partes significativas do texto, e, no soneto que tratamos, "Pai" é o único termo que aparece em maiúscula). Fabricar uma lágrima, como o poeta pretendia no começo, é tarefa inútil, pois pressupõe uma estada no mundo, pressupõe lembranças, pressupõe, em suma, o que chorar. A última rejeição de Augusto dos Anjos não é uma rejeição absoluta como poderíamos perceber em outros poemas do autor; é uma rejeição em prol de algo. No caso, da lembrança, do afeto.

É, por assim dizer, um soneto de exceção na obra do poeta. Poderíamos dizer que até os tercetos, pois o poeta cria um clima de negação primeiro do que a ciência seria capaz de oferecer, depois do que a metafísica ou nossa percepção humana igualmente ofereceriam, para, já no primeiro terceto, irromper com a referência ao pai Ioiô que, repito, desarma o poeta. Um desarmamento a meu ver muito bonito, especialmente se considerarmos a grandiloquência com que Augusto dos Anjos sempre trata seus temas e a maneira como ele joga tudo ao chão e espatifa. Aqui ele também joga as drogas da farmácia, mas a lembrança de pai Ioiô — jamais. Ela é a lágrima. Parece existir uma contenção no singular "lágrima"; um poeta romântico não se contentaria apenas com uma, mas com todas. De todo modo, apenas uma lágrima que seja, é o suficiente. A inclusão do pai Ioiô, uma personagem concreta, de carne e osso, num poema que primeiro tratara da lágrima na sua generalidade química, depois na sua generalização (a lágrima de todos os vencidos), e depois da essência divina da lágrima; sua inclusão faz com que canalizemos nosso afeto à sua figura, haja vista que os outros motivos de lacrimejar foram afastados pelo poeta. A ânsia psíquica da última eficácia, ou de qualquer eficácia que seja, como que parafraseando em termos arrevesados a ideia de um efeito placebo ou coisa do gênero (quem sabe a busca por uma espécie de emplastro Brás Cubas), é substituída pela simples lembrança carinhosa do pai. Não há que se buscar algo além disso.

Comentários