Finnegans Wake. A canção.



Abri com essa imagem do João Canabrava pois o Timothy Finnegan da canção... Bem, ele é um João Canabrava irlandês, sem tirar nem pôr.

Pois veja o leitor que estamos diante de uma canção popular de meados do século XIX. Costumam atribuí-la a um tal de John Durnal. Mas só isso: costumam. O negócio é um tanto quanto absurdo. Mas absurdo mesmo. O tal do Timothy Finnegan, que não curtia muito trabalhar, cai da escada e morre. Os amigos batem um rango durante o velório (até pouco tempo era comum rolar uma bebedeira em velórios), mas logo começam a brigar e, soco vai, soco vem, garrafada vai, garrafada vem, uma delas cai sobre o defunto e ele... ressuscita. Pois é.

Joyce era um camarada muito fanfarrão. Não deve espantar que ele tenha usado uma canção dessas como substrato de um romance tão ousado quanto o Finnegans Wake. A canção ajuda a criar um clima onírico e principalmente absurdo, como mencionei antes, que propiciará as aventuras expansivas do romance joyceano. É como se o Finnegans Wake, o livro, fosse uma expansão após uma dose cavalar de radicalidade no episódio Circe do Ulysses, onde Leopold Bloom e Stephen Dedalus se encontram pela primeira vez num puteiro, o Stephen mais pra lá do que pra cá e o Bloom preocupadíssimo com aquele rapaz.

A canção já apresenta alguns detalhezinhos interessantes. Como variantes, basicamente só o último verso, onde é comum que se troque "Thanam o'n Dhoul!" por "Thundering jaysus"Jaysus, Jesus. É possível que Joyce tivesse tido acesso ou uma preferência pelo segundo sentido. Como explicado na postagem passada, as thunderwords possuem importância capital no Finnegans Wake. Outro exemplo é a rua em que o Tim morava, Walting, que é chamada em algumas versões de Wattling, Walken, Walkin, Walker ou Rankin. Preferi Waltin pela rima. Mas olha, na moral, não vou ficar me estendendo muito acerca do assunto. O leitor pode conferir esta excelente postagem caso queira nadar de braçada num assunto assim. Nela o autor compila as variantes e as passagens em que Joyce cita diretamente a canção. Uma belezura.

Agora, detalhezinhos num sentido mais joyceano, digamos assim... Nesse caso, temos especificamente dois. Um: Finnegan's Wake. Wake pode significar tanto morrer quanto acordar. Aí complica, né? O outro a palavra whiskey, que é o que acabam jogando no Timothy e faz com que ele desperte. Whiskey, etimologicamente, se liga a uisce beatha, um termo irlandês que quer dizer "água da vida". Na tradução, que buscou acima de tudo a manutenção da linguagem fanfarrona do original (que se vale de muitas gírias irlandesas, por exemplo mavourneen, das minhas preferidas), o primeiro caso foi traduzido basicamente de duas formas. Ou como no título, em que preferi o verbo "despertar" pois creio que ele possui ressonâncias religiosas distantes, é verdade, mas presentes (isto é, ou assim eu acho, "despertar" é mais usado em contextos religiosos do que por exemplo "acordar"), ou então, como no verso final do coro, me valendo da expressão "sair dessa". Esta última a meu ver bem mais adequada pra encarar o Wake do texto; se não me vali dela no título, foi por achar que ele ficaria estranho. "Sair dessa" pode ser tanto "sair dessa [pra melhor]", isto é, morrer, ou então, simplesmente "sair dessa" no sentido de sair dessa, ué, escapar, sabe-se lá o quê. O segundo sentido é mais plausível que o primeiro, mas, de todo modo, a sementinha está plantada. Já quanto à ideia do uísque remetendo à água da vida, o que pude arranjar foi mudar o uísque pra pinga, mais próximo de nós, mais próximo do povo, e, no penúltimo verso, dizer: "Pinga santa!"

Uma das passagens mais complicadas da tradução foi na hora de transpôr o tal do brick hod. Na verdade, brick hod não surge de maneira literal; aparece de modo velado no verso 4. A ideia é a de que pra sobreviver no mundo, pra vencer na vida (rise in the world), Finnegans usava um hod. Como ele era pedreiro, esse hod só pode ser o brick hod. E o brick hod, eu dizia, é isso aqui, ó:


Tá vendo essa espécie de pá que os caras apoiam no ombro pra levar os tijolos? Isso é um brick hod. Pois então. Eu não faço a mínima ideia se algo assim existe em nosso país, e, se existe, eu pelo menos nunca vi. Por isso, na tradução, eu tirei o brick hod e adicionei o nosso carinho de mão, que é um companheiro muito mais presente dos nossos pedreiros (o Tim era um pedreiro).

Por fim, já de olho no desdobrar joyceano de expandir a contração morte-ressurreição de Finnegans Wake para o sobrenome Finnegans ("Finn"+"again", fim e de novo, de modo geral), traduzi o sobrenome para "Finício", de certo modo a primeira coisa que vem à cabeça do tradutor.

Adicionei também, meio que de última hora, uma tradução do meu amigo Ivan Justen Santana, que traduziu a canção no seu blog Um si em si, na postagem Revelando as fênixaqui. O Ivan conseguiu boas soluções. No quarto verso, por exemplo, ele conseguiu manter a ideia do rise in the world, um significado importante para a reutilização joyceana posterior.

*

P.S. 18/06/15: Há também uma tradução de Lya Luft inclusa como nota de rodapé à biografia de Joyce por Ellmann, editora Globo, 1989, p. 670-671. Como minha edição da biografia está roída de traças, não adicionei a tradução. Mas fica aqui a indicação.

P.S. (30/07/16): Adicionada a tradução, do refrão apenas, feita por Haroldo de Campos para o Bloomsday de 1997, e adicionada a tradução integral de José Antonio Arantes (que apresenta uma esplêndida solução com "venório"). Organizei a compilação por ordem cronológica.

§

trad. José Antonio Arantes.
em: Homem comum enfim, Anthony Burgess, Cia das Letras, 1994, p. 210-211.
Tim Finnegan morava na rua Walker,
      Distinto irlandês e muito curioso.
Tinha lá seu conhaque, claro e agradáver,
      Pra subir no mundo carregava um cocho.
Só que Tim era chegado à bebida:
      Com amor ao beberico ao mundo Tim veio,
E pra dar uma força ao dia-a-dia,
      Tomava a criatura logo cedo.

Coro:
Viva! Hurraaa! Dança agora coa parceira!
      Soca o soalho, bate os pés;
Pois não foi queu falei da
      Folia no venório do Finnegan?

Certa manhã Tim encheu a cara,
      Sentiu a cabeça pesar, um tremório.
Foi quebrar o crânio caindo da escada,
      Pra casa o levaram, corpo pro velório.
Envolto em bonito lençol limpo,
      Na cama logo o estenderam,
Pondo aos pés galão de uísque,
      Barril de porter à cabeceira.

Os amigos foram ao velório.
      Dona Finnegan pros comes fez chamado:
À mesa serviram chá com bolos,
      Depois vinho, ponche de uísque e tabaco.
Srta. Biddy Moriarty a chorar:
      "Morto mais mimoso já se viu, se vi?
Ai, Tim queridim, pur que cê foi passar?"
      "Fecha a matraca", diz Judy Magee.

Vem Peggy O'Connor e contra-ataca.
      "Ara, Biddy", diz ela, "cê tá errada, se não."
Mas Biddy lhe mete um soco na matraca
      E a deixa esperneando no chão.
Cada lado se agarra na guerra:
      Era mulhé com mulhé  home com home;
Se lei de boteco é zona, ninguém erra,
      E um pau sangrento logo come.

Mickey Maloney a cabeça mostrou,
      No que um galão de uísque por ele fez zim;
E, não acertando, na cama pousou,
      Entornando o líquido sobre Tim.
"Oi, que ele revive! Oi, que vem do eterno!"
      Timothy pula da cama, meio torto,
Diz: "Jogam álcool com chamas do inferno --
      Almas danadas" Pensam questou morto?"

§

trad. parcial de Haroldo de Campos.
em: Junijornadas do Senhor Dom Flor, Olavobrás, 1992, p. 16.
Dama e cavalheiro formem par,
Falo a verdade, toca a dançar,
Um forró dos bons vai ter início:
Farra à beça no bar do Finnicius.

§

VELANDO TIM.
(Finnegan´s Wake, em versão brasileira dos Dublês de Dublin)
trad. Ivan Justen Santana e William Crusoé Teca
em: Um sim em si, 15/06/10. Disponível aqui.

Tim Finnegan vivia na Rua do Passeio,
um gentil irlandês muito esquisitão;
tinha uma língua cheia de asseio
e pra subir na vida ele usava um formão.
Tinha um jeitinho de quem bebia,
o uísque deixava Tim tantã,
e a fim de firmar o pulso a cada dia
bebia um traguinho toda manhã.

(refrão:)
Truque na morte, dance comigo,
varra o soalho, chacoalhe pra mim;
é ou não é assim como eu digo
uma grande bagunça velando Tim!?

Certa manhã Tim já tava torrado,
a cabeça pesada o fez bambear;
caiu da escada e quebrou seu crânio
e o levaram pra casa a fim de o velar.
Enrolaram Tim num lençol limpinho
e o deitaram na cama de revés,
à sua cabeça um barril de vinho
e um galão de uísque a seus pés.

(refrão:)

Os amigos vieram para velá-lo
e a viúva Finnegan dava um caldo,
primeiro ela trouxe chá com bolinhos,
depois uísque, tabaco e cachimbos.
Biddy O´Brien pôs-se a chorar:
"Um cadáver tão limpo jamais se viu!
Tim, camarada, por que nos deixar?"
"Ah, fecha essa matraca!" disse Paddy McGill!

(refrão:)

Aí Maggie O´Connor ganhou controle,
"Biddy," disse ela, "por certo você erra!"
Mas Biddy pregou-lhe o cinto na goela
e deixou-a no chão, esticada e grogue.
Então no velório o pau quebrou,
e foi homem a homem, mulher a mulher,
a lei da pancada ali se instalou,
salvem morto e feridos quem puder!

(refrão:)

Aí Mickey Malone sentiu o drama
quando um copo de uísque voou assim:
tirou-lhe uma fina e caindo na cama
o copo derrama-se sobre Tim!
Tim revive! Ele ressuscita!
Timothy vindo de volta, eu vi,
diz: "Vamos beber toda essa birita!
Almas do diacho, acham que eu morri?"

(refrão:)

§

O DESPERTAR DE FINÍCIO.
trad. eu.
Tim Finício, da rua Waltin,
Um bom irlandês, mas doidão,
Tinha um sotaque bonitin
E pro trampo um carrim de mão.
O Tim cambaleava seco
De vontade dum aguardente,
E por isso ia pro boteco
Antes de pegar no batente.

REFRÃO
Ô-vem dançar mais o parceiro,
Bate a mão, bate o pé ligeiro!
Ah-vai ser bom, ser bom à beça,
Quando o Finício sair dessa!

Di' desses Tim tava era louco
Com dor na cachola, daquela;
Caiu do andaime e racha o côco
E o povo o leva em casa e o vela.
Eles o enrolaram até
E o colocaram lá no leito,
Um galão de pinga no pé
E uma garrafa sobre o peito.

Mas pausaram quando a senhora
Finícia os chamou pro rango.
A comilança foi daora,
Com muito pito, pinga e frango.
Aí chegou a Biddy e disse:
"Tim, meu véio, justo você!
"Cê é um cadáver lindo, visse?"
E o Paddy: "Cala boca aê!"

E aí a Maggie toma tento
E diz: "Que mentira danada!"
E a Biddy: "Ah, eu te arrebento!"
E dá-lhe uma boa cintada.
E aí a guerra é instaurada
E é muié com muié, omi com omi,
E a única lei é a da porrada
E da paulada que come.

Aí Maloney baixa a cara
Quando nele arremessam pinga,
No que essa mesma pinga para
Onde o Tim tá, e nele pinga.
Aí...
        Tim revive! E levanta!
Tim Finício levanta e aí
Diz: "Mas oxente! Pinga santa!
Pro inferno! Acharam que morri?"

*

Recomendo ao leitor que leia o comentário de Ivan logo abaixo. A primeira versão da tradução estampava "'Tim, meu véio, morreu pra quê? / Cê é um cadáver lindo, visse?' / E o Paddy: 'Meu!... vai se foder!' // E aí a Maggie toma tento / E diz: 'O Biddy mente paca...' / E o Biddy: 'Ah, eu te arrebento!' / E a soca e a deixa até mei fraca. / E aí a guerra é instaurada / E é muié com omi e o contrário, / E a única lei é a da porrada / Na fuça do seu adversário." Daí as críticas de Ivan, sempre de enorme pertinência.

§







§

FINNEGANS'S WAKE.

Tim Finnegan lived in Watling Street
A gentleman Irish, mighty odd;
He'd a beautiful brogue so rich and sweet
And to rise in the world he carried a hod.
Now Tim had a sort o' the tipplin' way
With a love of the liquor poor Tim was born
And to help him on with his work each day
He'd a drop of the craythur ev'ry morn.

CHORUS
Whack fol the dah now dance to your partner
Welt the flure, your trotters shake;
Wasn't it the truth I told you
Lots of fun at Finnegan's wake!

One mornin' Tim was rather full
His head felt heavy which made him shake,
He fell from the ladder and broke his skull
And they carried him home his corpse to wake.
They wrapped him up in a nice clean sheet
And laid him out across the bed,
With a gallon of whiskey at his feet
And a barrel of porter at his head.

His friends assembled at the wake
And Mrs. Finnegan called for lunch,
First they brought in tea and cake
Then pipes, tobacco and whiskey punch.
Biddy O'Brien began to cry
"Such a nice clean corpse, did you ever see?
"Arrah, Tim, mavourneen, why did you die?"
"Ah, shut your gob" said Paddy McGee!

Then Maggy O'Connor took up the job
"O Biddy," says she, "You're wrong, I'm sure":
Biddy gave her a belt in the gob
And left her sprawlin' on the floor.
And then the war did soon engage
'Twas woman to woman and man to man,
Shillelagh law was all the rage
And the row and the ruction soon began.

Then Mickey Maloney ducked his head
When a flagon of whiskey flew at him,
It missed, and fallin' on the bed
The liquor scattered over Tim.
Tim revives! See how he rises!
Timothy rising from the bed
Sayin': "Whirl your liquor around like blazes!
Thanam o'n Dhoul! D'ye think I'm dead?"

Comentários

  1. Bela postagem bloomsdaica, e grato pela inclusão da nossa versão (o William Crosué Teca merece bastantes créditos pelo trampo). Uma observação a confirmar é que Biddy O'Brien, até onde sou capaz de interpretar, é uma mulher (conferi isso agora aqui: http://www.behindthename.com/name/biddy/comments -- Biddy é um apelido "carinhoso" para Brighid, nome pelo jeito comum na Irlanda do século XIX). Assim, a confusão no velório se estabelece porque essa Biddy começa a prantear o falecido de modo muito dramático. Na minha interpretação, o Paddy McGee fica despeitado (talvez porque estivesse meio afim de Biddy) e fala pra ela fechar a matraca (shut your gob é muito irlandês...). Diante disso, Maggy O´Connor (que em variantes também é chamada Biddy) que talvez também fosse meio afim do Paddy, e assim estivesse despeitada da atenção que este deu a Biddy, invoca com a "rival", e dá-lhe com o cinto na boca, e aí começa o barraco forte. Notar que a "shilelagh law" é um tipo de "lei da selva" que só prescreve que na hora do pau "só não vale homem dar em mulher, nem vice-versa", e assim "Twas woman to woman and man to man". Sua tradução "atualizou" essa tradição, Matheus, e nesse sentido és vanguardista na igualdade entre os sexos, hehe...

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    1. Agradeço muitíssimo pelo comentário, Ivan. Modifiquei a tradução e adicionei também os créditos ao William Crosué Teca.

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