Banzando-Basta.


(Vovô Ezra e os netos e o gato.)


Perdi bastante a vontade de prosseguir com a série Banzando. Não que eu tenha deixado de banzar; é que banzo mas não registro. Pra não prolongar algo que perdi a bastante em tocar, ponhamos um ponto final. Basta.


Os objetivos daqui até, hum, meados do segundo semestre, são o de preparar o pulo da onça, isto é, uma tradução de proporções maiores, dar continuidade a alguns ensaios (dois deles no ponto de bala) e retomar o comentário sobre Nominata Morfina de Fabiano Calixto, que deverá receber pelo menos mais 4 partes.


Lendo quatro coisas. Quatro livros que, no momento, reinam em minha cabeceira: The Pound Era, Hugh Kenner, provavelmente o livro mais espetacular de crítica que li este ano (este ano tenho lido muitos muito bons); The Critical Tradition, coletânea de David Richter com textos sobre literatura (de Aristóteles às questões mais recentes), que é o livro-base das aulas do professor Paul Fry no Open Yalke Courses sobre Teoria da Literatura (devo ter assistido o curso umas 3 vezes, mas só essa quarta vou poder ter o syllabus comigo); Confucius to cummings, a antologia de Pound em colaboração com Marcella Spann que tem se saído melhor que a encomenda (é um prazer ler trechos dela todo dia ao voltar de ônibus da faculdade); e a tradução, também de Pound, das Odes de Confúcio (um mergulho sapiencial em tempos tão borocochôs). Têm sido frequentes também as leituras parciais do monumental European literature and latin middle ages, E. R. Curtius. 


Disse Pound. Pois então. Para abrir a temporada de citações e de trechos esplêndidos, uma das minhas passagens preferidas de Pound é esta, abertura do Canto XCV:




Ainda com Pound, não custa lembrar:

One definition of beauty is: aptness to purpose.

Isso no ABC of Reading. A meu ver, a definição mais funcional de beleza que já foi pensada, o que não quer dizer que seja absoluta, perfeita e blábláblá. Em pleno século XXI nós já deveríamos ter isso como mais óbvio. Propósito: que propósito? O propósito de um poema é tão simples de se definir? E a aptidão? Como mensurá-la? Posso enxergar um propósito claro numa obra. Posso enxergar muitos. Posso enxergar um que não bate com o que minha época enxerga. A época pode enxergar um agora, outro depois. Ou então posso enxergar um propósito distinto do propósito do autor. E por aí vamos. O que não nega, mais uma vez repito, a funcionalidade de que se pense a beleza como aptidão para um propósito e não como, sei lá, um padrão imutável (ou seja, a beleza como uma ideologia: uma ideia fora do lugar).

Afinal de contas:

Como diz o próprio Pound, "Uma definição da beleza é aptidão para o propósito"; e há tantos tipos de beleza poética quanto de propósitos poéticos.

Michael Hamburger, trad. Alípio Correia Neto, A verdade da poesia, Cosac Naify, 2007, p. 172.

Sem mencionar, de novo, que reconhecer o propósito de um poema não é algo estanque ou que o valha. Depende não só de meus posicionamentos como leitores como também de meu posicionamento numa comunidade de leitores. O mesmo referente ao que mensuro como aptidão para o propósito e segue passeio. Digo que é uma definição funcional não porque ela nos dá uma tabela ou nos define a beleza; ela nos ensina a nos posicionarmos frente a uma obra literária, respeitando a heterogeneidade própria da literatura. Nisto reside minha admiração.


(119) A morada do homem, o extraordinário.

Heráclito, trad. Emmanuel Carneiro Leão, Os pensadores originários, editora Vozes, p. 91.


Nada como a obra de arte demonstra com tamanha clareza e pureza a simples durabilidade deste mundo de coisas; nada revela de forma tão espetacular que este mundo feito de coisas é o lar não-mortal de seres mortais.

Hannah Arendt, trad. Roberto Raposo, A Condição Humana, editora Forense, 8. ed, 1997, p. 181.


Pois, se a crítica é apenas uma metalinguagem, isto quer dizer que sua tarefa não é descobrir "verdades" mas somente "validades".

Roland Barthes, trad. Leyla Perrone-Moisés, O que é a crítica, p. 161, in: Crítica e verdade, editora Perspectiva, 1970.


We have seen the best of our time.

King Lear, Ato I, Cena II.

Auden: aqui

INTERVIEWER
How about Mickey? 
AUDEN
He’s all right.


Sabemos que os álamos não bebem sangue, que a crueldade vem trajada de plumas e que as pessoas sem imaginação creem que os outros também levam uma vida medíocre.

Trecho de Poeta, Fabiano Calixto, no livro Nominata Morfina.



       Odisseu, recluso no palácio, movia-se elaborando 
       projetos contra os pretendentes. E eram funestos.

Odisseia, começo do canto 19, trad. Donaldo Schüler. Os pretendes VÃO SE LASCAR.



(Lembrando que "dita", no quarto verso e no antepenúltimo, também significa "sorte".)

Finalmente criei coragem e comprei o História concisa da literatura brasileira do Bosi. Aí, folheando o livro e relendo algumas coisas meio que a esmo, me deparei com esse poema do Artur Azevedo. Engraçado que sempre li o livro do Bosi e nunca havia me detido no poema... O mesmo com a obra do poeta, que conheço de tempos de antanho ― em especial seu trabalho como dramaturgo, tradutor, parafraseador (este último particularmente interessante) e sonetista.

Seria o caso de dizermos que o poeta "previu" nossa época?

Tenho muitas reservas com um argumento assim. A não ser que estejamos falando de ficção científica, em que o camarada recorre a bases científicas que lhe permitem uma visão pelo menos um pouco estável do que está por vir, não gosto de uma frase assim. Ela costuma pipocar no geral ou em coincidências felizes ou infelizes, e seria o caso deste poema que ponho, ou então no caso de narrativas distópicas.

Estas últimas, todos sabem, viraram a casa-da-Mãe-Joana no debate político atual. Direita e esquerda se valem dos mesmos clássicos distópicos, notadamente Orwell e Huxley, para o bel-prazer de seus argumentos furados. Analisar que é bom, necas. Conviver com a obra do autor, necas. E por aí vamos.

Mas não creio que seja o caso de, em narrativas distópicas, ou nas coincidências (in)felizes, recair no argumento de que elas previram o futuro. Não é bem esse o objetivo destes textos, ou, pelo menos, não é assim que podemos tirar o mais possível deles. Pois não é que esses autores olharam pro futuro, à maneira da ficção científica; eles olharam pro presente, como que desnudaram os bastidores da realidade e viram uma coisa nem um pouco boa. Os melhores escritores distópicos enxergam, nessa microscopia da realidade, também estruturas históricas, o que lhes permite como que antever o fato de que a situação hoje não brotou do nada, possuindo, antes, um passado. É isso o que gera aquele liame tão interessante e ao mesmo tempo ligeiramente enganador nas narrativas distópicas: os escritores, enxergando o presente de forma, digamos assim, lúcida, e ao mesmo tempo conscientes das estruturas históricas, entendem que a situação do presente é "resultado" da vida material do passado e que ela lançará bases para o que virá no futuro. Este o liame. Não aquilo de pensar, repito, que eles olham pro futuro, mas sim que, preocupados com uma situação real, e aproximando-se sobremaneira da alegoria, queiram retratar muito mais a persistência de estruturas opressoras ao longo do tempo do que retratar um vislumbre futurístico.

Não é bem o caso do poema do Artur Azevedo pois ele, como eu disse, está próximo da coincidência. Aqui existem discussões dignas de nota, existem preconceitos a serem derrubados etc. Por exemplo, existe uma ojeriza generalizada a poemas que se refiram de modo aberto a problemas sociais "específicos". Segundo dizem, eles não duram: uma vez resolvido o problema, o poema perde a razão de ser. Mas este poema do Artur Azevedo prova o contrário. Como é possível? ― "Simples". Não são problemas que são resolvidos de maneira simples. É muito fácil pretendermos analisar a realidade social deixando de lado as conquistas epistemológicas da História e da Sociologia. Agora, quando as consideramos, aí percebemos que esses problemas, emaranhados e quem sabe até parte constituinte da realidade histórico-social, lançam seus ressaibos no futuro. Ou seja: eles permanecem.

Para ficar com uma ponte análoga ao poema do Artur Azevedo, é o poema AI-5 de Guilherme Gontijo Flores:

       & na verdade fomos um barco
       sem vela sem
       leme levados a portos
       & fozes & praias diversas
       por um vento seco
       que se vapora
       da mais dolorosa pobreza

       & e na verdade ainda
       somos

O poema do Guilherme é sem dúvidas mais interessante que o do Artur Azevedo pois vai mais a fundo na percepção das reentrâncias históricas. De todo modo, tanto um poema quanto outro acabam escancarando a covardia de um argumento saudosista de regimes militares ― sejam eles de que ideologia forem, visto que esse saudosismo nefasto é trans-ideológico. Refrata-se uma ideologia de elite ― o que não quer dizer que apenas a elite pranteie a volta daquele regime, ou que apenas brancos, heterossexuais, cristãos etc etc ― que pede a volta do que é a regra em nossa história. Eles só querem voltar pro aconchego do lar. Não se acostumaram e, tendo em vista nosso desenvolvimento econômico-social, sempre às raias de uma arapuca estamentária, nem querem se acostumar. Provamos um pouquinho que seja o sabor da democracia e o castelo de cartas rui ― seja no pedido de volta à ditadura, seja na busca obsessiva por mais Estado em nossas vidas (e sim, em relação a isso não posso negar ― por quê negaria? ― que tenho simpatias com o argumento liberal).


Sobre Marco Feliciano e outros demônios... Bem.

Descobri hoje na madruga, boladão e sentado na esquina, que dá pra responder o Feliciano citando Goethe. Penúltima cena da segunda parte do Fausto, na tradução do Haroldo de Campos, quando o Mefistófeles está prontinho pra cumprir o pacto com o Fausto (spoiler: ele não consegue) e, antes disso, evoca os Anjos. Aí eles ocupam toda a ribalta e empurram o Mefistófeles pro proscênio, no que ele diz:

       Vós nos tratais de espíritos danados,
       E vós, que sois? Bruxos enfeitiçados,
       Corruptores de homens e mulheres.
       Que aventura mais negra, mais sinistra!
       A este princípio é que chamais de amor?




Ainda num espírito germânico: Irmãos germanos. Táí um livro do Augusto que eu ainda hei de possuir. (Malgrado, é claro, o fato de custar o oio d acara...: 209 dilmas no site da editora, aqui).

       E quando um ser que sofre cala o seu clamor,
       Um deus me deu o dom de dizer a minha dor.

Goethe, trad. Augusto de Campos, aqui. Não sei se é do livro. Já a tradução abaixo eu tenho certeza que é:

MEDITAÇÃO SOBRE O TEMPO.
Paul Fleming, trad. Augusto de Campos, aqui.

       Vives no Tempo sem saber o que é o Tempo;
       Ignoras de onde vens e no que te detens.
       Sabes apenas que num Tempo foste feito
       E que num outro Tempo ainda serás desfeito.
       Mas o que foi o Tempo que te trouxe incluso?
       E o que há de ser aquele que te faz sem uso?
       O Tempo é sim e não, o homem se multiplica,
       Mas o que é este Sim-e-Não ninguém explica.
       O Tempo morre em si e a si mesmo renasce.
       O de que tu e eu viemos, de nós mesmos nasce.
       O homem está no Tempo e o Tempo está no homem,
       Mas o Tempo resiste enquanto o homem some.
       O Tempo é o que és e és o que é o Tempo,
       Embora tenhas menos do que o Tempo tem.
       Ah, se esse outro Tempo, sem Tempo, chegasse
       E a nós, de nosso Tempo, esse Tempo arrancasse,
       E de nós mesmos, nós, para sermos também
       Como esse Tempo, que nenhum Tempo contém.


A obra de arte não é simplesmente isolável da ‘contingência’ das condições de acesso sob as quais se mostra, e, onde esse isolamento acaba ocorrendo, o resultado é uma abstração, que conduz o ser próprio da obra. O espetáculo só acontece onde está sendo representado, e a música em plenitude deve soar.

Gadamer, Verdade e Método, vol. I, trad. F. P. Meurer, editora Vozes, 2002, p. 121.


Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o.

Oswald de Andrade, Manifesto Antropofágico. Galli Mathias: galimatias: discurso pedante e confuso.


A falsa tendência para a redução de tudo a uma única consciência, para a dissolução da consciência do outro (do sujeito da compreensão) nela. As vantagens essenciais da distância (espacial, temporal, nacional). Não se pode interpretar a compreensão como empatia e colocação de si mesmo no lugar do outro (a perda do próprio lugar). Isto só é exigido para os elementos periféricos da interpretação. Não se pode interpretar a compreensão como passagem da linguagem do outro para a minha linguagem.

Mikhail Bakhtin, trad. Paulo Bezerra, um dos Apontamentos de 1970-1971. Incluso no livro Estética da Criação Verbal, editora Martins Fontes 2003, p. 377.


Cada um deve encontrar a língua menor, dialeto ou antes idioleto, a partir da qual tornará menor sua própria língua maior. (...) É em sua própria língua que se é bilíngue ou multilíngue. Conquistar a língua maior para nela traçar línguas menores ainda desconhecidas.

Deleuze e Guattari, 20 de novembro de 1921  Postulados da Linguística, trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Incluso no segundo volume do Mil Platôs, editora 34, 1995, p. 51.


71. Pode-se dizer que o conceito de 'jogo' é um conceito com contornos imprecisos. ― "Mas, um conceito impreciso é realmente um conceito?" ― Uma fotografia pouco nítida é realmente a imagem de uma pessoa? Sim, pode-se substituir com vantagem uma imagem pouco nítida por uma nítida? Não é a imagem pouco nítida justamente aquela de que, com frequência, precisamos?

Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, trad. José Carlos Bruni, editora Nova Cultural, 1999, p. 54.


Hino por hino eu prefiro os de Hölderlin e Shelley, mas devo admitir meu apreço por essa estrofe do Hino Nacional:

       Brasil, de amor eterno seja símbolo
       O lábaro que ostentas estrelado,
       E diga o verde-louro dessa flâmula
       ― "Paz no futuro e glória no passado."

O restante eu sempre achei que só agrada ao ranço nacionalista ou à mumificação gramatical dos exemplos infelizes, mas essa estrofe tem seu interesse. Observe o ritmo iâmbico dos segundo e do quarto verso. As aliterações em L e T. Enquanto o hipérbato do começo do hino é forçado e cafona ("Ouviram do Ipiranga" bláblá), o hipérbato do começo dessa estrofe é bem mais interessante, dando uma ênfase maior às estrelas do lábaro e permitindo um movimento de inversão de vozes gramaticais com o próximo verso: ou seja, o hipérbato do começo serve pra incutir a voz passiva, que, por sua vez, serve também de choque com a voz ativa do verso seguinte. Pra não dizer, claro, na forma como as imagens são apresentadas: nos dois primeiros versos vamos dando um enfoque do país para o lábaro (logo, aos pormenores) que continua no terceiro verso (é o verde-louro que diz, e não a flâmula) e é rompido no final pela frase de efeito generalizadora e universal. Se querem saber, até a disposição das sílabas acentuadas creio que ficou bem feita: "símbolo" no final do primeiro verso, "lábaro" no começo do segundo (note o choque dos L's), "flâmula" de novo no final e "glória" no meio do último verso, o que as dispõe bem dentro da cadeia sonora do texto e de certa maneira dispensa o leitor de depender do dicionário.


Uma das imagens poéticas mais bonitas que já li:


       Derramada a notícia, o Laomedôncio
       Em cuidados flutua, e a mente vaga
       Divide e agita, a meditar em tudo:
       Como em bacia d’água o tremulante
       Raio da Lua ou Sol, repercutido,
       A regirar volúvel, monta aos ares
       Do sumo teto os artesões ferindo.

Eneida, livro VIII, comecinho, na tradução do Odorico Mendes. Esclarecendo, o Virgílio compara os devaneios do personagem com a luz do Sol ou da Lua que, atingindo uma bacia d'água, cria aquela iluminação que enche o aposento todo. O efeito é esse aqui:


Só que você vai ter que imaginar uma bacia numa sala (pequena, eu presumo) com umas pintura, uns adereço no teto.


Poema XVII de Chamber Music.
James Joyce, trad. Alípio Correia Neto.

       Por ter a tua voz, o fiz
       Perder a paz;
       Por ter a tua mão na minha
       Uma vez mais.

       Palavra ou gesto não refaz
       O laço antigo;
       Agora é apenas um estranho
       Quem foi amigo.


       Nós ao igual destino
       Iniguais pertencemos.

Fragmento de Ricardo Reis. O número 185 na edição da poesia reunida por Manuela Parreira Silva, editora Cia das Letras, 2000, p. 164.


Por fim, um dos meus poemas favoritos:

CANTIGA SUA PARTINDO-SE.
João Ruiz de Castelo Branco (séc. XIV-XV).

       Senhora, partem tão tristes
       meus olhos por vós, meu bem,
       que nunca tão tristes vistes
       outros nenhuns por ninguém.

       Tão tristes, tão saudosos,
       tão doentes da partida,
       tão cansados, tão chorosos,
       da morte mais desejosos
       cem mil vêzes que da vida.

       Partem tão tristes os tristes,
       tão fora d'esperar bem,
       que nunca tão tristes vistes
       outros nenhuns por ninguém.


...e uma das fotos mais bonitas: a mão de Salvador Dalí ao lado da de sua esposa Gala Dalí. Man Ray, Paris, 1936.

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