A primeira frase do FW.



Sem enrolação. Direto pro que interessa.

riverrun. "River"+"run" é o mais óbvio que nos ocorre, o que inclusive é uma citação de Coleridge na abertura de Kubla Khan: "Where Alph, the sacred river, ran". O clima onírico do poema de Coleridge, que foi composto após uma dose tamanho-família de ópio, tem tudo haver com o Finnegans Wake. Em inglês, "Reverie" é o nosso devaneio, ou seja, um sonho à luz do dia; "reverend" é reverendo, um membro da igreja (o que a referência posterior, Eve and Adam's, permitirá que leiamos); "err" é errar, vagar, perambular; "overrun" é transbordar; e "run", em inglês arcaico, remete às runas antigas ("rune"), ou seja, à ideia de mistério, de segredo etc etc. "Riverranno", em italiano, quer dizer: "eles virão"; o prefixo "ri-", evidentemente, incute a ideia de recomeço. Já em francês, a palavra permite que nela leiamos "rêverons", "nós sonharemos", e "reverrons", "nós nos veremos/encontraremos de novo". "Erinnerung", em alemão, é memória; "rief heran" é "chamar alguém". Em irlandês, lembra Afonso Teixeira Filho, "amhran" é uma palavra que aparece no começo das epopeias, às vezes tida como metonímia do canto. Em latim, "rivo", do verbo "rivus" (rio, canal), pode significar tanto "eu liderei" quanto "eu retirei" (ambas as situações com conotações militares). Há um hieróglifo egípcio denominado "rn" ou "ren" e que significa "nome". Podemos também ler uma referência a Anne no "-un" do final da palavra, ou seja, Anna Lívia Plurabelle, ALP. Podemos ler "eve", quem sabe, em "-ive-". Ou uma referência a Rivalin, pai de Tristão, o carinha da lenda que aparecerá no começo do próximo parágrafo. Ou mesmo uma referência a rios como o Jordão ("River Jordan").

Os estratos principais, assim sendo, são o de um rio que corre (isto é, de uma passagem), o de um retorno, o de um mistério, o de um plano certa maneira onírico, o de um plano mnemônico e o de um plano sacro.

Adam and Eve's. Uma igreja franciscana às margens do rio Liffey, próxima de uma taberna de mesmo nome. É o que explica a solução de Donaldo Schüler, que pode parecer meio exagerada a princípio mas que encontra correspondência direta na ideia incutida de Joyce (na verdade, a solução de Schüler é muito boa, se querem saber). Adão e Eva não preciso nem explicar. A ideia desse primeiro parágrafo é o de que o riocorrente do Finnegans Wake, que é um livro cíclico e, portanto, renova suas águas num ciclo perene, passa por Adão e Eva, ou seja, por toda a história da humanidade (e, como a igreja franciscana está às margens do Liffey, o rio realmente passa por lá) e nos traz numa espécie de estrada que fica circulando e circulando várias vezes repetidas até esse tal de Howth's Castle and Environs.

a commodius vicus. "Commodius" remete tanto a "cômodo" quanto ao imperador romano Commodus, um dos piores de toda história romana. "Commode" é urinol (Donaldo Schüler explica com mais tardar algumas implicações desse sentido em traduções francesas, por exemplo). "Dius", em latim, quer dizer "há muito tempo". "Vicus" remete ao filósofo Giambattista Vico, cuja concepção de história possuirá profundas implicações na mecânica do Finnegans Wake, mas remete também à Vico Road na parte sul da Dublin Bay (a "bend of bay" já se referia de certo modo a essa Dublin Bay), a "vicus", em latim, e a um ciclo vicioso, "vicious circle".

Howth Castle and Environs. O leitor mais atento perceberá que esta é a primeira aparição de HCE no livro. Howth é uma montanha que realmente existe, mas não custa lembrar, de novo com Afonso Teixeira Filho, que homofonicamente ela lembra a palavra dinamarquesa "hoved", cabeça. Um castelo sobre a montanha Howth dá início ao tom heráldico que o começo do Finnegans Wake representa, como se ele fosse aquilo que Pedro Nava chamou de baú de ossos: contar a história (bélica) dos ancestrais. De todo modo, HCE se relacionar a uma montanha não é um absurdo. ALP não se relaciona a um rio? Então. ALP deságua em HCE, ou chove em HCE, sei lá, e o declive de HCE rolarrioanna.

Agora quanto à tradução.

"riternna". Podemos ler aqui, de forma estropiada, "retornar", mas também "eternar", tornar eterno, e "internar", internalizar. O prefixo "ri-" segue firme e forte. Os sentidos religiosos e misteriosos podem ser lidos em "rite", rito. A referência a ALP aparece de forma velada, como de resto também ocorria no original, graças ao sufixo "-nna". A menção ao rio acabou sendo eclipsada, mas ela ainda existe em "ri-". Ela também nos conduz a "ri-"+"ter na", ou seja, o rio vai ter nalgum lugar. Sentidos como por exemplo o do adjetivo "terna" me parecem de somenos importância. Enquanto a palavra de Joyce é de modo geral um substantivo, a minha tende a ser um verbo, no sentido de que o rio retorna e eterniza, ou então que o rio simplesmente re-eterniza.

"Eva e Adão". Por incompetência, não consegui me livrar dessa cacofonia horrorosa. Nem muito menos fui tão inventivo quanto Schüler. Se disse que a solução dele ficou esplêndida, e pra falar a verdade acho que ficou a melhor entre todas, foi tendo em vista que ele não só conseguiu manter para o leitor a ideia de uma igreja (não sei se perto de um rio ou não), mas conseguiu manter o significado religioso e a ideia de que se estende a toda humanidade ("d'Ohmem's"), além de manter a polarização mulher e homem ("Nossenhora" primeiro e "d'Ohmem's" em segundo).

"do desvio da praia à beira da baía" buscou, além da manutenção do sentido de desvio em "swerve" (a opção pela palavra "desvio", usada pelos irmãos Campos, me pareceu particularmente feliz pois incute a ideia de um descaminho, uma "des-via"), um efeito sonoro análogo ao do original com sua aliteração em S e depois em B. No meu caso, transpus a frase num verso alexandrino francês que conta com uma aliteração entre B lá no finalzinho e uma assonância combinada em desvIO, prAIA, bEIra e bAÍA.

"víncuo conmodus". "Víncuo" remete basicamente às mesmas coisas que o "vicus" do original com a diferença de que traz a ideia de "vinco". Vinco, sulco. Especificamente o sulco de uma estrada, o que ajuda a realçar a ideia de um caminho. "Conmodus" foi remetendo à leitura de que esse vinco deixado, essa estrada ela possui modos de recirculação. Um vinco à maneira de uma recirculação: trocando em miúdos, tudo o que o Finnegans Wake é.

E o resto desse primeiro parágrafo é a manutenção de HCE. Sem dificuldades. Uma pequena aliteração em V (eVa, desVio, leVa, Víncuo, de Volta) foi um ganho imprevisto mas que não deixou de ser agradável. A opção por traduzir "Environs" do final por "Ecercanias", pelos irmãos Campos, é uma opção realmente boa pois permite que leiamos uma referência explícita a ALP. Mas o "Environs" a meu ver se liga de modo muito forte ao início, ou seja, ao "riverrun", não sendo à toa que muitos estratos de sentido do "riverrun" podem ser aplicados a "Environs" (por exemplo "rêverons" e "reverrons", em francês). Por isso preferi "Entornnos" (com o "n" duplicado), que se liga de modo mais próximo a meu "riternna".

Já quanto ao começo da frase.

Com exceção da última palavra, um "the", final ainda mais tênue que o "Yes" do Ulysses, todas as outras palavras são meio que partidas entre um "A" e um toco de palavra restante. Como "riternna", no meu caso, é um verbo, privilegiando o movimento, tive que traduzir a passagem de um jeito que redundasse num verbo. Também fiquei de olho na sequência de A's como que partidos, especificamente seguidos de um monossílabo, e só me desviei do caminho com o "que". O original como que diz: "Um caminho / um sozinho / um último / um amado / durante / o". Busquei seguir essa sequência, tentando manter o tom monossilábico dos pedaços de palavras e uma sonoridade leve que não chega ao ápice do original (fortemente marcado em L, A e O).

Isto dito, fique o leitor com minha tradução e todas as outras a que tive contato. Mais uma vez, divirtam-se.

§

P.S. (18/07/16): Adicionada a tradução de José Antonio Arantes. Organizada a postagem em ordem cronológica.



trad. Augusto e Haroldo de Campos. [1971]
Panorama do Finnegans Wake, Perspectiva, 1971, p. 35 e 77,

A via a uma a una amém a mor além a

riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, devolve-nos por um commodius vicus de recirculação de volta a Howth Castle Ecercanias.


§


trad. José Antonio Arantes. [1994]
Homem comum enfim, Anthony Burgess, Cia das Letras, 1994, p. 213.

Além a solo a logo anelo ao logo do

correrio, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, nos traz por um commodius vicus de recirculação de volta a Howth Castle e Entornos.


§


trad. Donaldo Schüler. [1999]
Finnícius Revém, vol. I, Ateliê. Não lembro que página.
Finnícius Revém, vol. V, Ateliê, p. 521.

A via a lenta a leve a leta a long a

rolarrioanna e passa por Nossenhora d"Ohmem’s, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos recorrentes de Vico ao de Howth Castelo Earredores.


§


trad. Afonso Teixeira Filho. [2008]
A noite e as vidas de Renato Avelar, tese de doutorado, USP, 2008, p. 159. Disponível aqui.

fluminente, eventando o riocurso adante, do desrumo da fraga até à orla da angra, reavida por um vicomodado recirculoso, devoluta-se para a colina de Howth, o Castelo e o Entorno.


§


trad. Adriano Scandolara. [2011/2014]
Comemoração do Bloomsday no escamandro. Disponível aqui. Também aqui.

A via a sós a mor a fim a lém das

rivieras, passando Eva e Adão, da curva da costa à boca da baía, nos leva por um cômodo vico de recirculação de volta a Howth, Castelo e Entornos.


§

trad. eu. [2015]

A lém a léu a pós a mor a té que a 

riternna, pós Eva e Adão, do desvio da praia à beira da baía, nos leva por um víncuo conmodius de recirculação de volta a Howth, Castelo e Entornnos.




A way a lone a last a loved a long the

riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.

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