A ode 85 de Catulo.



Banzando eis que encontro, no perfil de facebook do poeta e tradutor Nelson Ascher, uma postagem em que ele oferece 7 versões da famosa ode 85 de Catulo e pede para que os leitores escolham a melhor. Não vou citá-las aqui pois acho que seria invasivo de minha parte; mas foi algo extremamente divertido que me ensejou a possibilidade de traduzir o poeminha duas vezes: uma versão mais fanfarrona e outra mais séria.

Meu companheiro de tradução Pedro Mohallem, já apresentado no bloguinho, contribuiu com uma versão: é o que ele chama de "trolldução". A ideia de se traduzir de maneira avacalhada um poema é antiga e recebeu muitas outras denominações, as quais, certamente, grassam no jardim da paráfrase. Como diz Guilherme Gontijo Flores, nós podemos pensar a tradução como um ato divertido, ou seja, remetendo à diversão. Pensamos a ideia da diversão como sendo apenas algo lúdico, mas a diversão também se liga à divergência. Se fosse para simplificar a ideia do Guilherme, poderia dizer que a ideia da tradução como uma diversão é a ideia de se encontrar prazer na divergência. Chega determinado ponto em que a pessoa quer simplesmente brincar, e aí caímos nós na paráfrase, algo que se brincar é tão antigo quanto traduzir seriamente ou escrever versos humorísticos. Talvez haja uma espécie de complexo de defesa na ideia da trolldução, no sentido de que o tradutor veria que não há muito mais o que ser feito seriamente a respeito e então resolvesse avacalhar. É possível. Não acho que desdouraria em absolutamente nada a qualidade da coisa... Mas é possível.

O poeminha de Catulo é admirável por sua concisão, naturalmente, mas também pelo embate antitético que ele expõe e o qual, eu suponho, todo mundo que tem coração já deve ter sentido: o amor e o ódio como sentimentos unidos de uma maneira misteriosa que, ainda assim, nos excrucia. Faria notar para o leitor, no primeiro verso, a forma como Catulo expõe algo que parece absurdo, e de fato ele faz com que nós perguntemos pra ele "Mas porquê", quando, na verdade, nós também já sentimos ou estamos propensos a sentir o mesmo; e, no segundo verso, a forma como Catulo explica que não sabe, dizendo, depois, que sente e depois se crucifica, ou seja, de repente o negócio esquisito vem e a pessoa se desespera. É uma gradação tão poderosa quanto o "Odi et amo" do começo da ode.

Se fôssemos dispôr a ideia em termos lusófonos clássicos, poderíamos nos valer de Camões:

      Mas como causar pode seu favor
      Nos corações humanos amizade,
      Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

No soneto em que ele diz, entre outros, que amor é um fogo que arde sem se ver ou que ele é uma ferida que dói e não se sente. A forma brutal com que Catulo termina sua ode, é claro, vai no extremo oposto. Outro exemplo seria o caso do primeiro Romeu na peça Romeu e Julieta de Shakespeare, que, ainda apaixonado por Rosalinda e se valendo de um arcabouço retórico afeito às antíteses-simplistas de seu tempo, dizia:

      Why, then, O brawling love! O loving hate!
      O any thing, of nothing first create!

Lembrando, claro, que o tema do amor e ódio em Romeu e Julieta é mais fecundo, alicerçado numa dimensão política sólida. Na cena em que Romeu e Julieta se conhecem pela primeira vez, Julieta diz: "My only love sprung from my only hate!" E, na famosa cena do balcão, ela dirá para sua Ama: "Not proud, you have; but thankful, that you have: / Proud can I never be of what I hate; / But thankful even for hate, that is meant love."

Fiquemos, todavia, com as traduções. Quem quiser ler mais sobre Catulo na internet poderá conferir a espetacular sequência de postagens feita pela Modo de Usaraqui. Destaco em especial a quarta postagem, aqui, que inclui uma leitura de Danilo Bueno sobre o poema. Outra leitura interessante é a de Martinho Tomé Martins Soares, sobre o amor e o ódio na poesia latina, aqui. Uma compilação plurilíngue de traduções para o poema pode ser lida aqui.

A compilação que faço aqui buscou privilegiar as versões que mais brincaram com o original de Catulo. Creio que a maior parte delas remonta a Décio Pignatari, que, até onde me consta, foi pioneiro no assunto (a inspiração da versão de Guilherme, pelo menos, foi Décio) ― e foi tendo como base esta precedência que resolvi fechar a postagem com a versão de Ezra Pound para o poema. Duas são as exceções: uma versão de João Ângelo Oliva Neto, que me parece ser a versão standart, ou pelo menos o resultado mais fiel, e uma versão minha que buscou ser mais séria, embora tenha corrido atrás da rima. É complicado dizer porque fui correr atrás da rima... Bem. As versões de Ascher, todas, da ode 85 são rimadas. Sabemos que a rima inexistia na poesia romana. Mas essa ode 85 possui uma concisão propriamente epigramática, e os epigramas modernos são rimados: na verdade, via de regra os poemas curtos em nossa língua são rimados. Então...


Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
nescio, sed fieri sentio et excrucior.

§

trad. João Ângelo Oliva Neto.
in: O livro de Catulo, Edusp, p. 150.
Odeio e amo. Talvez queiras saber "como?"
Não sei. Só sei que sinto e crucifico-me.

§

trad. eu.
Amodeio. Só não sei casdiquê:
O trem dói e não para de doer...

*

Odeio e amo. Mas por quê? Fico
Sem saber. Sinto e me crucifico.

§

trad. Pedro Mohallem.
Amodeio. Da causa não me valho:
Só sei que dói ― e, ai, dói pra c******.

§

trad. Décio Pignatari.
in: 31 poetas, 314 poemas, Cia das Letras, p. 35
Odeio e amo. Como assim?
Não sei: só sinto e me-torturo-me

§

trad. Guilherme Gontijo Flores,
in: Revista Germina, Catulicesaqui.
odeio
    e
amo
          por quê?
                        você pergunta
não sei ― só sinto acontecer
                        e crucifico-me

§

intradução de Augusto de Campos.
Dos 2:00 aos 2:42.


*

in: Outro, editora Perspectiva, 2015. Retirado daqui.


§

trad. Ezra Pound.
in: Confucius to cummings, New Directions, p. 35.
I hate and love. Why? You may ask but
It beats me. I feel it done to me, and ache.


Traduções
encontradas
depois...

§

trad. António Feliciano de Castilho.
in: O livro de Catulo, cit., p. 177.
Amo e odeio ao mesmo tempo.
Como pode ser? (perguntas)
Duas coisas tão opostas
Ao mesmo tempo tão juntas?

Como pode ser ignoro;
Sei o que sinto, a causa és tu,
E sei que é tão cru o tormento,
Que o não pode haver mais cru.

§

trad. José Paulo Paes.
in: Gaveta de tradutor, Letras Contemporâneas, 1996, p. 21.
Odeio e amo. Quiçá queiras saber por quê:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.

§

trad. Louis Zukofsky.
in: aqui.
O th’hate I move love. Quarry it fact I am, for that’s so re queries.
Nescience, say th’ fiery scent I owe whets crookeder.


§

trad. Anne Carson
in: Men in the off hours, Vintage, 2000, p. 42.
Hate hate hate hate hate hate hate hate hate.
Hate hate hate hate hate hate hate hate hate.
Love love love love love love love love love.
Love hate love love love love love love love.
Why why why why why why why why why why.
Why why why why why I why why why why why.
I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I.
I I I I I I I I I I I I I I I why I I I I I I I I I I I I I I I.

§

E esta imagem em Word Art que encontrei zanzando no facebook (aqui). Evidentemente, é zoeira em seu estado mais puro; mas isso não a impede de traduzir bem o espírito catuliano.

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