Tipos de blogs de poesia.

De maneira geral, não existem muitos blogs de poesia no país. A feição do blog sempre esteve muito próxima do diário. Philippe Lejeune, aliás, estuda o blog dentro da ordem de inscrição do que ele chama de pacto autobiográfico. Fragmentários e sem um fim preliminarmente estabelecido tal como na autobiografia propriamente dita ― isto é, a ideia de que, quando escrevo uma autobiografia, eu já tenho um fim estabelecido ―, Lejeune diz que o diário se inscreve na duração ― sua razão de ser é ser em progresso. Aquela história de que o que realmente importa não é o fim da estrada ― muitas vezes não se sabe qual é o fim da estrada ― mas o próprio caminhar. Esta, aliás, a lição mais bonita de qualquer diário: a de nos ensinar não um passo a passo, mas um passo-por-amor-do-outro-passo, visto que uma das coisas mais belas que existem no mundo é e sempre será um diário escrito há muitos anos.

A constituição dos blogs é análoga. Sai do mesmo tronco. Blog ― diário virtual. Claro que as coisas costumam mudar pois alguns blogs foram se especializando ― profissionalizando ― esmerando. Pois o blog possui uma construção em aberto que o diário ignora: aberto ao público. Ao mesmo tempo que se inscreve na duração, ele se escancara. Então, assim como é perfeitamente possível existirem aqueles blogs com estruturação íntima, é perfeitamente comum que existam aqueles de feições mais externas, malgrado o fato de continuarem girando ao redor de uma só pessoa ― e esta é, a meu ver, a característica primordial dos blogs.

Mas dizia existirem poucos blogs de poesia. Blogs relacionados a literatura, de forma geral, graças a Deus estão num bom momento. Pelo menos um bom momento quantitativo ― o que já é uma conquista, o famigerado e dificílimo primeiro passo. Da perspectiva qualitativa, a coisa é preocupante, pois o que temos é misto de busca por uma profissionalização efêmera com fetichização às avessas. Explico: não são poucos os blogs que trazem uma visão deslumbrada e pouco crítica do fenômeno literário, sucumbindo com frequência nos tremeliques consumistas e na abertura pouco propensa ao diálogo. Normal que os blogs girem em torno das opiniões e impressões de leitura; mas o que ocorre é que, devido ao fato de que grande parte desses blogueiros possuem uma carga de leitura pobre ― e não se esforçam em mudar tal realidade ―, o que temos são textos literários rasteiros, muitas vezes com um tom de resumo ou de paráfrase pobre. O diálogo que porventura exista é feito na forma padronizante das TAGs, e as impressões propriamente ditas são relegadas a segundo plano, posto que tais blogueiros possuem sérias dificuldades em formular e estruturar um argumento, batendo, por conseguinte, na muralha do gosto (escondida atrás do esquema das estrelinhas) e por lá perecendo, com um temor risível da simples menção à discussão.

A metamorfose mais recente é a dos vlogs literários, que seguem a mesma premissa e até escancaram outras ― em especial a ideia do fetichismo literário, isso de tratar o livro como um bem de consumo absoluto e porta de acesso simples para que se "adquira conhecimento". O resultado é claro como um saco plástico numa tarde de Domingo: muitos desses vlogs se preocupam mais em mostrar a lista de livros comprados do que em articular uma opinião sobre o que foi lido. Leitores que se contentam com pouco, em suma, e que, ao invés de demonstrarem que realmente gostam de Literatura, parecem afirmar cada vez mais que apenas estão gostando.

Com a poesia, ó Deus!, nem isso. Pelo menos desde a Nova Crítica sabemos que com poesia não rola muito aquilo que se chamou de heresia da paráfrase: a ideia de que um contar com outras palavras o fio da meada bastará. Se com livros em prosa isso supostamente dá certo ― e que fique bem claro que não dá ―, com livros de poesia fica muito mais evidente que tal articulação parafrásica é apenas um preâmbulo para coisa alguma. Assim, o leitor de poesia contemporânea se vê diante da necessidade de articular sua leitura, dificilmente podendo se valer da heresia da paráfrase ― embora, é claro, ela apareça disfarçada daquilo que Luís Dolhnikoff chama de "hetero-auto-crítica-em-verso" (aqui): "desmembrar um poema qualquer, e cercar alguns de seus versos de afirmações sobre tais versos cuja demonstração se limita aos próprios versos."

Blogs de poesia, se entendermos por isso um blog que, girando em torno da figura de um leitor, busque articular notas de leitura sobre poesia ― é como procurar uma palha num depósito de agulhas. E não chego nem a exigir muito desses blogs. Mesmo blogs com textos ruins são difíceis de encontrar. O panorama ainda rescende àquele sabor primevo de articulação ― uma gaveta aberta ― só que aqui tomada do ponto de vista do autor. Isto é: os blogs de poesia que existem são, em sua maior parte, blogs de poetas. É comum que aqui e ali, nesses blogs, pipoquem opiniões, textos de outras origens, traduções ― e muitas vezes você mensura a qualidade do blog pelas traduções, aliás. Tudo sempre girando em torno da individualidade total, tudo sempre muito próximo das suas origens enquanto diário. Não existe aquele passo de semi-profissionalização que muitos blogs literários de forma geral possuem, buscando articular resenhas, modelos de postagens, promoções, sei lá.

Este seria um primeiro modelo. Um segundo seria o caso dos modelos de blogs de críticos literários, ainda mais raro ― e cuja raridade de certa maneira aponta para alguns aspectos interessantes do panorama poético contemporâneo. Pois não são poucas as suspeitas de que existem hoje mais poetas do que leitores de poesia. Pondo a língua na correnteza dos blogs, é isso pelo menos o que o paladar nos conta. Só que tais águas tendem a ser, digamos assim, sectaristas. Se o blog do poeta é uma espécie de gaveta aberta ao público, temos, por conseguinte, uma intimidade exposta. O poeta entra em contato com outras intimidades ― pois, a crítica distanciada do poeta e vice-e-versa, ambos se estranham e não entram em contato ― e, certa maneira, a acusação, também de Dolhnikoff, de que a poesia se tornou um social club não é de todo infundada. Claro que não concordo nem de longe com a virulência de Dolhnikoff ― mas, observada a forma como esses blocos de blogs pessoais de poetas se aglomeram, é difícil pensar em outra coisa.

Já a respeito do como funciona os raros blogs desses críticos, a resposta é que podem se dividir tanto num teor acadêmico quanto num teor jornalístico. Contudo, com frequência voltam-se para republicações: o crítico que coloca ali o que publicou num jornal X, o crítico que coloca ali a conferência que deu em Y. Ou seja: poucos estão de fato preocupados em fazer uma crítica que pense as especificidades do ambiente virtual, e, portanto, por mais que via de regra possuam qualidade e fundamentação no que expõem, não empreendem aquela espécie de acomodação e exploração que os blogs literários de amadores realizam de forma bem mais satisfatória. Perdemos aquela sensação de conforto que o blog literário tende a apresentar e ficamos muito mais com a ideia de estar olhando pela janela.

Um terceiro modelo está ligado às revistas literárias ― rompendo com a binariedade e o social club que os dois modelos, juntos, tendem a esboçar. Pois o panorama poético visto a partir das revistas literários está de vento em popa. Temos excelentes revistas literárias em funcionamento, com projetos seriíssimos como há muito não víamos em nosso país. O terceiro modelo de blog é o modelo que, girando a partir de uma individualidade fortemente posta, tente se articular à maneira do que tais revistas expõem ― isto é, em especial a divulgação de poetas a partir da montagem de antologias e da tradução. Notas críticas apenas um pouco ― embora, é claro, toda antologia e toda tradução seja  um ato crítico.

São os casos mais raros. Híbridos por natureza, exploram o ambiente virtual com preponderância e buscam contribuir para a poesia contemporânea de forma efetiva. A diferença é que, girando em torno de apenas uma pessoa, não são blogs que ostentam tal faceta sempre, pois um trabalho assim empreendido por apenas uma pessoa é, naturalmente, hercúleo. A ideia de equipe que permite à revista literária uma objetividade maior e uma produção ritmada quase que desparece para que ceda lugar aos rompantes pessoais do dono do blog.

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