"A coroa de João", de Leonardo Antunes.

A coroa de João acaba de ser publicado no escamandro. É um poema hábil e inteligente. Senão vejamos.

Um dos modelos da coroa de sonetos foi o praticado durante a poesia barroca, especificamente com o poeta inglês John Donne na sequência La Coronna. Possuía uma construção distinta do modelo que veio a se fixar posteriormente. Era feita de 7 sonetos internamente ligados , isto é, o último verso de um dos sonetos era o primeiro verso do soneto seguinte ― e o último verso do último soneto é o primeiro verso do primeiro soneto, fazendo do todo, portanto, uma estrutura cíclica, algo sem sombra de dúvidas significativos se tomarmos como base que o tom geral do poema, incluso na faceta sacra da poesia do autor, é de penitenciamento e louvor. Assim, uma estrutura cíclica como esta nos leva, ao mesmo tempo que serve para aprofundar o martírio implícito nos versos de Donne, a uma ideia de ressurreição e de recompensa no fim da tormenta.

Este modelo de Donne, apesar de ter 7 sonetos, na prática poderia ter qualquer número. Um segundo modelo da coroa, com 15 sonetos, foi inventado na Itália durante o Renascimento e praticado aqui e acolá a partir do século XVIII. É o modelo que Geir Campos pratica. O esquema, em relação aos 14 primeiros, é o mesmo da coroa de sonetos de Donne, com a diferença de que os últimos versos de todos os sonetos formam, se unidos, um único soneto: no caso, o 15º (ou o 1º, tanto faz), chamado de soneto base ou soneto mestre. Os dois exemplos mais funcionais que temos deste segundo modelo advêm tanto de Geir Campos quanto do poeta goiano Afonso Félix de Sousa em As engrenagens do belo. Um e outro tratam do tema da beleza, nem um pouco espantoso se nos lembrarmos que se inserem no que se chama de Geração de 45 (periodização pouco precisa mas que possui lá sua operacionalidade). Uma certa tonalidade sacra aqui e ali pode ser vista nas duas sequências: a de Geir Campos, por exemplo, abre com referência a um "verbo divino", ao passo que a sequência de Afonso Félix, apesar de se referir a Adão no soneto XII, trata a beleza, relacionada ao que um dia vimos (o último verso é "o belo está no belo que já vimos"), de uma maneira dúplice e certo modo dispendiosa, árdua, difícil, para com algo que é tão iluminador. A este respeito, cumpre lembrar que o soneto mestre de Afonso começa dizendo que "O belo vem do sol do que já vimos", para depois, num andamento lírico que privilegia as antíteses (por exemplo a perfeição e um templo gasto), chegar à conclusão acima citada.

Afora estes exemplos, nenhum outro me vem à mente. Ou, no caso, não vinha. Pois Leonardo Antunes entra na jogada.

E entra bem, se querem saber. Disse que se trata de um poema hábil e inteligente. Digo-o nem tanto considerando a composição interna do texto, ou seja: enquanto nos sonetos de Geir e Afonso tínhamos uma construção poética que podia se valer de instrumentos poéticos com um certo requinte, em especial a sonoridade, o ritmo e a construção das metáforas, embebidas de um senso barroco latente (digo tendo em mente o jogo de fortes contraposições que as sequências apresentam), no poema de Leonardo não temos algo do gênero. É um poema simples, certo modo prosaico e sem nada que seja muito espantoso. O máximo que consegui detectar foi aqui e ali uma construção frásica de certo interesse rítmico e o termo "mêmore" no soneto XIII. O objetivo de Leonardo parece ter sido bem esse de chegar o mais próximo de uma linguagem que se queira compassada de forma natural, e não quero exatamente dizer que um despojamento assim possa ser tão prontamente identificado como inabilidade.

Não pois tal simplicidade contribui com a própria narração, ou seja, ela cede espaço ao relevo investigativo do poema e à latência rítmica da métrica decassilábico no formato soneto. Ou seja: o poeta desautomatiza recursos, digamos assim, secundários, adornos poéticos como aliterações, assonâncias, rimas internas, construções frásicas inusuais, arcaísmos etc etc, e deixa à tona, palpitante, nu e cru, o funcionamento básico da coroa de sonetos. Isso cria, a um só tempo, tanto uma linguagem mais direta quanto uma linguagem que também satisfaz a ouvidos mais calibrados em frequências poéticas. Mesmo porque, este é um princípio construtivo muito usado por cantadores populares, permitindo-lhes apoiar-se narrativamente e ao mesmo tempo valer-se dos benefícios do ritmo, para além do fato de que, assim, ou seja, valendo-se de uma estrutura fixa, com uma batida demarcada e que se instaura no leitor com facilidade (visto que, como disse, o leitor não encontra nenhum desvio, nenhum aspecto secundário que porventura possa retirar-lhe, nem que por instantes, a primazia), eles conseguem improvisar com mais facilidade, pois ganham como que uma muleta.

É isso o que se percebe em alguns momentos do texto de Leonardo, onde, caso o leitor seja um pouco mais experimentado com poesia, ele pode sentir um certo tédio e quem sabe até uma certa previsibilidade: lê o verso, chega à rima, tem uma noção do contexto e pimba: adivinha qual a próxima rima será usada antes mesmo de chegar lá, ou, chegando lá, fica com aquele sabor de texto arrastado. Trata-se sem dúvidas de um perigo, e não estou certo que Leonardo o tenha contornado lá muito bem, pois, mesmo que pudéssemos pensar em casos onde o poeta realmente queira que o leitor consiga prever seus passos (por exemplo pra que, lá na frente, ele dê uma rasteira), não acho que seja o caso do poema em questão. Trocando em miúdos, em alguns momentos a narrativa, e mesmo o andamento lírico, de Leonardo padeceu do mal de ser óbvia.

Pois o tema não chega a ser algo tão espantoso. Suicídios são comuns em nossa sociedade, a violência é comum. Convivemos com ela, e, mesmo que não convivêssemos, a literatura é dona de um estoque de violência suficientemente capaz de tanto dar náuseas quanto de nos acostumar. Narrar de maneira poética, ou, pra ser ainda mais preciso, de maneira parcamente poética um caso como o de João, não é algo propriamente novo. Mas aqui é preciso toda uma cautela. Leonardo não queria exatamente a novidade, o que seu despojamento poético, conforme apontei, indica, e a simples escolha do nome "João" também. A construção de seu poema se assemelha à construção daquele poema de Drummond sobre o leiteiro, com toda a ênfase no comum que existe no meio daquela tragédia. Sim, sei que o poema de Drummond possui uma considerável camada simbólica por trás, mas o poema de Leonardo também.

Para deixar mais claro as razões desse meu "também", nós podemos começar com o fundo sacro que existe no poema de Leonardo e que, portanto, o liga intimamente aos primórdios da coroa de sonetos. Afinal de contas, esse modelo com 15 sonetos, ao invés do modelo com 7, de Donne, que nada mais era que um soneto partido ao meio, possui seus significados dignos de nota. Ele não só forma um macro-soneto como forma um macro-soneto regido por um soneto maior que mais ou menos se estilhaça e semeia os outros quatorze. É, portanto, um soneto-mestre que serve como estrela guia e instância superior em relação aos outros quatorze, o que convém ao tratamento metafísico que as coroas de Geir e Afonso apresentavam e, no soneto de Leonardo, adquire uma dupla função.

Dupla função de realçar a tonalidade sacra e de realçar a tonalidade secular, digamos assim, a tonalidade explicativa que o soneto busca entender. A tonalidade sacra se liga à ideia da penitência, à ideia, literalmente, de uma via crúcis: literalmente pois aqui é importante nos lembrarmos que a via crúcis possui 14 pontos. Um 15º ponto seria ou a morte de fato ou então a ressurreição, como queira. Tendo em vista o martírio implícito no poema de Leonardo, em especial se nos lembrarmos que ele é descrito como um cristão e trabalhador (soneto XIII), a congruência entre a estrutura da coroa de sonetos e a via crúcis é significativa. Pode também ser irônica, claro, e aqui devemos lançar um olhar sobre a recusa da Igreja em conceder-lhe a salvação, conforme o soneto VIII diz. A coroa de João é tanto a coroa de um mal que ele padece e que fica difícil nós entendermos direito qual é, e toda a coroa de sonetos é uma maneira de buscar entendê-lo, mas também, ironicamente, a coroa de uma salvação negada pela própria Igreja, que, simbolicamente, institucionalmente, sei lá, está muito próxima dessa coroa, da salvação, de Deus. Se tomarmos a coroa como uma metonímia da religião, a coroa de João é uma coroa ao quadrado. Claro que aqui tenho falado da coroa no sentido da coroa de espinhos, que me parece ser o significado que mais se encaixa no poema, mas também poderíamos falar da coroa como símbolo de uma espécie de pompa, quem sabe, o que, pelo menos é o que eu acho, só se validaria mais uma vez numa leitura irônica ― só que ainda mais aprofundada, pois teríamos de considerar uma espécie de pompa para a vida de um sujeitinho chafurdado numa vida qualquer.

Pois a tal apoteose de João, conforme descrita no soneto IV, é nada mais nada menos que um meter a cara nas drogas. Fica mais uma vez incerto dizer o que levou um rapaz tão direito ao caminho das drogas, embora, dado o fato de que essa via direita, como vimos, é também uma via crúcis, é também uma coroa, não seja tão absurdo pensar que justamente por ser tão certinho e tão direito é que ele tenha decidido enveredar pelo outro lado (o soneto IV, mais uma vez, diz muito a respeito: tudo o que João sentiu naquela apoteose, como "Viver, amar, gritar como um demente, / Não era o que esperassem de João."). Ele já estava no fim da vida, e foi nessa boca de fumo que ele conseguiu sua apoteose e conseguiu o trinta-e-oito. Não sei se existe exatamente uma simbologia acerca do 38, mas não custa lembrar que 38 está no quadrante dos 30, e 33 é a idade de Cristo. 33+5 é 38 ― esses 5 eu tirei dos dedos da mão. Mas enfim. Uma leitura assim por certo força a barra... O que há de mais substancial para ser notado acerca do revólver é que, no último verso do soneto mestre, há uma ambiguidade sintática que nos permite ler que o revólver era suicida. Isso ajuda a exacerbar a ideia de que João perdeu o controle da situação, o que, de resto, sua incursão no mundo das drogas apenas o atesta (afinal de contas, ninguém se droga pra tomar controle de si mesmo...). Dá a entender, noutras palavras, que nem sua decisão de suicídio foi tão motivada assim, pois quem era suicida era o revólver. Todavia, faço notar que esta é uma ponta interpretativa, e ainda podemos ler, dentro dessa vertente de aplicar o adjetivo "suicida" ao revólver, o simples fato de que o revólver era suicida mas ainda assim era de João e João, no final das contas, foi atrás dele.

Estes os significados sacros que enxergo no texto.

O que me referi acerca de uma tonalidade explicativa se refere à morte de João, enigmática como enigmático é todo suicídio. Um encaminhamento religioso se faz muito mais evidente dentro do soneto pois, afinal de contas, enquanto uma descrição à maneira de um laudo é dada no soneto II, os sonetos VIII ao XIV tratam da investigação papal acerca do que de fato houve com João, a fim de decidir se a salvação será ou não concedida. Mas o eixo narrativo de tentarmos entender o que levou João ao suicídio continua, embora, se lançarmos de novo uma leitura atenta sobre o eixo irônico pelo qual o soneto se movimenta e em especial pelo que o soneto IV nos diz, podemos notar que essa perplexidade advém muito mais da cegueira das pessoas ao redor de João do que de fato de uma falta de informações sobre o caso. Não é que ele seja propriamente difícil de ser solucionado; prestando atenção, vemos que ele é solucionável sem grandes dificuldades...

É aqui que entra a construção da coroa de sonetos. Cada soneto vai dando a deixa para o outro, criando elos que fazem do todo uma sequência de capítulos, por assim dizer, ou então fios da meada que devem ser esmiuçados pelo leitor numa postura análoga à de um detetive. O soneto-mestre, nesta perspectiva de análise, funciona como uma espécie de lembrete ou de perícia realizada na cena do crime que norteia nossas investigações. Só que o poema fecha dizendo que ninguém soube a razão, e, embora tenha dito que com um olhar mais atento nós possamos compreender o que houve, esta é uma suposição e nada impede que realmente haja muito mais pano pra manga no caso de João. Só que tudo isso Leonardo trabalha de forma habilidosa, fazendo da fôrma da coroa de sonetos um construto narrativo peculiar. Para além, é claro, da correlação antes apontada existente entre a estrutura da coroa de sonetos com 14 sonetos e a ideia de um soneto-mestre que guie, fundamente e semeie os restantes: ou seja, estamos tratando de um acontecimento de ordem maior que muda todos os restantes. Num plano narrativo mais pormenorizado, seria o caso de dizermos que o suicídio de João mudou a vida de todos os que o conheciam, ou, para ser ainda mais pormenorizado e, a meu ver, ainda mais acertado, pois o xis da questão no poema não está nem tanto no suicídio e sim nas motivações, no que houve por trás, seria o caso de considerarmos essa motivação maior, essa coroa de João, como algo que se espalhou e modificou profundamente a vida de todos os envolvidos, quem sabe até d"O augusto inquiridor beneditino".

E é nestes termos que afirmo que o poema de Leonardo é um poema hábil e inteligente. Consegue fazer da fôrma da coroa de sonetos uma fonte semântica, algo que mal e mal era possível ser antevisto na coroa de Geir e, com uma construção distinta da de Leonardo, na de Afonso.

Comentários

  1. Bem lega... putz, é um tema sobre suicídio, anta. hehehe

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  2. Agradeço a crítica arguta e a distinção. :)

    Eu descobri essa forma de composição há uns 10 anos, com um poeta chamado Paulo Camelo. Ele fez uma coroa de coroas de sonetos: 14 coroas criadas a partir de uma coroa-mestre. É um trabalho de fôlego, bem hercúleo. Além dessas "Coroas de uma coroa", ele escreveu algumas outras. Não o acho grande poeta, para ser sincero, mas sinto que lhe devo a menção, por ter vindo a conhecer a forma a partir da obra dele.

    Ademais, devo dizer que a numerologia do 38 foi uma surpresa até para mim. rs

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    1. Concordo totalmente no que concerne ao Paulo.

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