Um parêntesis.



Sobre minha pugna acerca das perguntas O que é arte?, O que é literatura? e O que é poesia?, reunidas sob a TAG "conceitos" (aqui), hei por bem dizer que tenho aos poucos dado o braço a torcer e retornado à posição exposta por Compagnon e Eagleton (discutida em especial aqui). A ideia por enquanto não é nem tanto a de dizer que um conceito de literatura é algo totalmente impossível, mas sim que todo conceito de literatura, por se tratar por conseguinte de um conceito que envolve matéria cultural (matéria em aberto), deve conviver com incertezas ou, em suma, uma inamovível zona penumbrosa, o que por conseguinte não quer dizer que a conceituação quede impossível. Por isso sigo e não sigo a opinião de autores como Compagnon e Eagleton de que literatura é o que uma sociedade chama de literatura e por isso compactuo e não compactuo em especial com Eagleton ao propugnar a dissolução (sublimação quem sabe termo melhor) dos estudos literários em estudos culturais ou, tal como posto de maneira curiosa, rediscussão à luz de fundamentos retóricos.

Tentando expôr de forma um pouco mais detida.

A aporia do texto O que é poesia? (aqui) é a de que o ser humano se manifesta, e de que algumas manifestações são emocionadas e outras não. Não mudo. Digo que uma manifestação emocionada é aquela pela qual transparece a individualidade de quem a faz. O raciocínio segue desenvolvendo o conceito de cultura, e esse conceito de cultura é como que um círculo desenhado entre as manifestações emocionadas ou não, de modo que existem parcelas de manifestações emocionadas  e não emocionadas que não são culturais. Podemos pensar, a esse respeito, que a mãe que chora no enterro de um filho estaria dentro do âmbito das manifestações culturais emocionadas, pois que, chorando, ela transparece sua individualidade, aquele conteúdo humano que é seu. Naturalmente que nesse caso o ato de chorar, isso da tristeza se apossar em nós é algo que é passível de acontecer a qualquer ser humano; mas, dentro daquela situação em específica, e entendendo que a individualidade envolve também toda uma questão afetiva específica, posto que emaranhada na trajetória de vida de cada um de nós. é considerando isso que digo que temos um conteúdo humano seu. Acerca do fato de ser cultural, disse, baseado na clássica definição de Edward B. Taylor, que cultura é um arcabouço de saberes compartilhado pelo indivíduo enquanto membro de uma coletividade. Tive o cuidado aqui de usar o termo "saberes", buscando ampliar o grau de saberes envolvidos e não implicando com isso que apenas aqueles saberes advindos de algumas formas de conhecimento estariam envolvidos, de usar o termo "compartilhado" relativo aos saberes, pois quebra a noção de posse, uma vez que temos um arcabouço que está ao acesso de todos, e de usar o termo "coletividade", afastando com isso a possibilidade de que apenas uma civilização ou uma sociedade possuam cultura: qualquer agrupamento humano, qualquer coletividade pode ter, se estivermos tratando de uma coletividade que forma um arcabouço de saberes que é acessível a seus membros, e não apenas acessível: que pode ser manuseado e modificado pelos mesmos, uma vez que o conceito de cultura é sempre um conceito aberto. (E aqui, claro, o uso do termo coletividade se dá no sentido de que é possível que dentro de um terreno cultural existam outros substratos culturais, compartilhados apenas por aquela coletividade em específico e não pelo restante, o que pode ser visto muito bem no caso de uma "cultura de escol", entre aspas pois o termo sempre terá seus ares de ridículo, em que, malgrado o fato de sempre pertencerem a uma cultura maior, fatalmente engendram a sua, compartilhável apenas entre eles. Isso, claro, em termos absolutos, embora, mesmo em termos absolutos, não implique em pureza da subcultura.)

É o caso da mãe que enterra um filho, uma manifestação intrinsecamente ligada a um saber compartilhado por ela enquanto membra de uma coletividade. Só que aqui chamo a atenção para o fato de que temos uma manifestação diretamente ligada à cultura, e em que o aspecto cultural é determinante para a formação de uma ação assim. Pois, com efeito, a partir do momento em que nos pomos numa coletividade, é muito difícil imaginar o que porventura faremos que não seja cultural. De minha parte julo ser possível, diferenciando o que seria uma manifestação cultural de uma manifestação com influxos culturais. A manifestação cultural se vale diretamente do arcabouço de saberes compartilhado, enquanto a manifestação com influxos culturais é como que trespassada por tais saberes. Seria o caso de diferenciarmos o caso de uma mãe que guarda um objeto de seu falecido filho daquela que de repente encontra algo que seu também falecido filho deixou para trás. Pois acerca deste exemplo o que me parece servir como fator diferenciador do ato ser cultural ou de possuir influxos culturais está no ato de guardar lembranças de outras pessoas, no caso, mortas. Creio que claro está que se trata de um saber compartilhado. Poderíamos imaginar que não na situação de uma família apartada da coletividade, mas aqui presumo que ela está inclusa numa coletividade qualquer, e isso para os dois exemplos. Afinal de contas, se é assim com o primeiro caso, no segundo, considerando que o ato de guardar objetos dos mortos não ocorra ou que venha até mesmo a ser de algum modo proibido, a mãe que encontra um objeto de seu filho pode porventura se emocionar. Só que da emoção que ela sentir não me parece certo que se venha a deduzir que estamos falando de uma manifestação cultural, quando, das possibilidades que listei, seria até o contrário. Foi pensando numa situação assim que circunscrevi a cultura entre as manifestações emocionadas ou não, e tentei ter o cuidado de não a fazer englobar as manifestações todas.

Meu texto segue com a definição de que arte é um ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem. Não creio que possamos falar de arte sem cultura, visto que num caso assim estaremos tratando apenas de uma espécie de atividade feita a bel prazer que estaria, além disso, fora do círculo cultural. É algo a meu ver francamente inconcebível. A arte sempre estará trabalhando com a cultura de alguma forma, por exemplo ao se valer da língua, que é um fenômeno claramente cultural, por exemplo ao retratar algo e, para tal, se valer de esquemas de representação ou mesmo de aceitação social que implicarão um arcabouço de saberes compartilhado. Minha definição de linguagem é a de que temos uma reunião de materiais compositivos, quaisquer que sejam, que, uma vez formados, geram uma estrutura capaz de gerar materiais semânticos até então inexistentes. Para tal, imagine que temos à nossa frente um monte de, sei lá, bolinhas de gude. Não existe um liame entre elas: elas estão apenas espalhadas. Todavia, transformá-las em linguagem é de algum modo uni-las que a união dessas bolinhas de gude criará um liame semântico que não só fará com que uma dependa da outra, como que, da dependência mútua de todas elas, gere-se significados que até então não existiam naquela situação de bolinhas espalhadas pelo chão.

Já sobre poesia, fui claramente influenciado por Jakobson. Pois a poesia, segundo a concebo, situa-se dentro da arte mas não necessariamente só dentro da literatura. Aqui a ideia é a da palavra em todas as suas acepções como material compositivo, o que envolve portanto forma e conteúdo, e num texto onde a função poética predomina, isto é, a mensagem voltada para a própria mensagem, de modo que temos um espectro julgo até grande de possibilidades, abarcando tanto o experimentalismo linguístico a que as concepções jakobsianas costumam se associar, quanto a preponderância metafórica, o imbricamento lírico, a simplicidade que parece partir de uma pequena dobra comparativa, à maneira do haicai, ou a simplicidade que advém de pequenos condensamentos em forma de dobra, à maneira do epigrama, etc. Pois a função poética pode surgir num texto e esse texto mesmo assim não ser poético. Para ser poético, é preciso também ser artístico e, portanto, conter a tal da expressividade humana da linguagem (é só assim, aliás, que a meu ver a função poética pode predominar) E se é poético, tal texto por conseguinte possui dentro de si outras funções num nível que jamais deve ser visto como insignificante e que jamais deve ser posto de lado em prol de uma análise somente da função poética, uma vez que o trabalho com as outras funções pode também ser de suma importância e, não raro, potencializa e algumas vezes ouso dizer possibilita a própria função poética, uma vez que a teoria de Jakobson é calcada na ideia de uma comunicação humana efetiva (o que, por si só, exclui a cogitação de qualquer uma das funções em estado puro). E digo o texto possuir dentro de si outras funções isso de tal maneira que, conforme apontei em textos passados, a noção de dominância da função poética recorre mesmo, e problema algum em fazê-lo, a critérios extraliterários que nos permitam compreender a expectativa do público que lê aquele texto. Assim o caso de um slogan que com frequência se vale da função poética. A função persuasiva dominar será também, porque não?, em decorrência da consideração da expectativa do leitor do slogan, ou seja, de encontrar ou não poesia naquele slogan (dependendo da marca é possível que ele espere encontrar), e desse slogan se caracterizar pela expressividade humana da linguagem ou não.

Os questionamentos que levantei e que a meu ver minam o que fiz até então seriam o de perguntar se outras formas de expressão humana não poderiam se caracterizar pela expressividade humana e perguntar até que ponto toda arte requer a expressividade humana da linguagem.Afinal de contas, a universalidade do conceito de humano não foi feita de maneira menos problemática ao longo dos séculos, e a possibilidade de que tenhamos uma coletividade em que o indivíduo é menor que o coletivo não é nem um pouco implausível.

E agora?

Meu questionamento reside na correlação entre ser humano e indivíduo. Mas é bem possível que tenhamos uma coletividade que, mesmo fortemente atada, preze pelo ser humano, ela toda formando um único e coeso ser humano. Contudo, a possibilidade de que tenhamos uma coletividade, por mais impensável que possa parecer, em que o critério humano não seja valorizado, em prol de valores, suponhamos, religiosos ou naturais (mas um e outro de tal modo que o ser humano se oblitere), anímicos ou postos a serviço de um bem-maior (onde, neste último caso, a criação de um corpo humano seria tratada de forma meramente fisionômica); tal possibilidade segue válida. E não só isso: ela mina de perto o que havia definido por arte, pois aqui seria o caso de se perguntar se numa sociedade assim a arte não existiria. Na verdade não creio que "minar" seja o termo correto, pois, em apresentar uma espécie de antípoda à definição, o salto de raciocínio que parte desse questionamento para o fato de que toda a teoria ruiria é um salto mal feito. A teoria, pelo menos é o que quero acreditar, pois até então, novamente creio, ela não possui incoerências internas, foi confrontada com um aspecto externo que ela não abarca, e a conclusão é a de que tal aspecto externo não foi abarcado: apenas isso. Podemos dizer que, dentro dos critérios que minha teoria suscita, em sociedades assim não teremos arte, e isso, é claro, não será dito como uma espécie de demérito ou juízo de valor embutido.

É um ponto importante. Se disse que pretendo voltar a Compagnon e a Eagleton, não será no sentido de aceitar tout court o que disseram, pois continuo julgando que pensar um conceito para literatura e para arte é possível (ou satisfatório, caso queira). Sei que é uma regra do conceito a de que ele se pretenda universal, mas repito: daí não se segue que o conceito que não o seja seja, por isso mesmo e a partir deste instante, inválido. Há que se considerar também o conceito que consegue esmiuçar o funcionamento do que pensa a respeito e há o fato de que, uma vez que estamos falando de uma atividade cultural, aberta por natureza e dependente de compartilhamentos intra-humanos, pra não dizer nos influxos externos que podem afetar diretamente a constituição da cultura, um conceito que se queira universal é sempre uma impossibilidade, não deixando de ser por isso uma meta, claro. Pra me valer de Northrop Frye, é a concepção de que a definição terá de conviver com uma penumbra, quem sabe até mesmo de um verdadeiro pretume.

Para continuarmos em Frye, no final de Anatomia da Crítica (trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos, Cultrix, 1973, p. 336-337):

Quase toda obra de arte do passado teve uma função social em seu tempo, uma função que amiúde não foi absolutamente uma função estética. A concepção cabal de "obras de arte", como classificação para todas as pinturas, estátuas, poemas e composições musicais, é relativamente moderna. Podemos ver um impulso estético agindo nos tecidos peruanos, nos desenhos paleolíticos, nos ornamentos eqüinos dos citas ou nas máscaras kwakiutl, mas, com isso, fazemos uma refinada abstração que bem pode ter estado fora dos hábitos mentais da gente que os produziu. Assim, a questão de saber se um objeto "é" ou não uma obra de arte é das que não podem ser decididas apelando-se para algo na natureza do próprio objeto. A convenção, o acordo social e a obra da crítica no sentido mais lato é que determinam o seu caráter. Pode ter sido feito originalmente para utilização e não para deleite, e assim se exclui da concepção geral aristotélica de arte, mas, se existe agora para nosso deleite, é o que nós chamamos arte.

Novamente, a tal da penumbra que Frye indicava páginas atrás. Com a diferença de que o ato de se retirar a obra de sua função social pode indicar como que uma violência que uma definição de arte não pode furtar de se remeter. E não só isso: a fim de que o problema não seja mais grave, ela deve possuir dentro de seu escopo como que pontos cegos para que possamos preencher com dados relativos dentro de cada contexto social, o que, em minha tentativa, seriam pontos como o de que o que é e como se dá a expressividade humana, como seria a organização ou manutenção do arcabouço de saberes compartilhado etc.

O texto de Frye é interessante pois se comunica, como também notei em textos passados, com o que fora exposto por Compagnon e Eagleton. Se voltarmos à questão da certa violência com que uma obra seria retirada de sua função social, é de observar que, se não aceitarmos a convivência de regiões penumbrosas dentro de um conceito que envolva tão diretamente quesitos culturais, então podemos estar correndo o perigo de de fato violentarmos as origens da obra em questão, lançando uma luz e um critério interpretativo totalmente alheio à sua configuração originária. Assim, enquanto a noção das regiões penumbrosas nos permite entender os limites implícitos na atividade da conceituação, sua negação incorre na imposição pura e simples. Fugir desta via é somente por um estudo contextual e efetivo da cultura de que estamos tratando. Não digo nem tanto no sentido de que o conceito de arte é historicamente um conceito europeu, pois, este sendo seu nascedouro, a essa altura do campeonato ele já se expandiu o suficiente (pelo menos eu gosto de acreditar nisso). E se se expandiu, foi a partir de um contato mútuo e de uma espécie de conscientização de culturas, ou, pra caracterizar de maneira a meu ver ainda mais precisa, foi de um compartilhamento de saberes entre culturas. A noção de arte que foi trazida para outras culturas, muitas vezes graças aos corsários da barbárie, é verdade, mas que, com o passar dos anos, foi como que sendo adotada e cultivada, visto que um dos corolários da cultura ser algo sempre em aberto é o fato de que, uma vez que um algo de outra cultura entra, ele é a todo instante incorporado, mantido, modificado, aprendido e apreendido para nunca mais ser largado. Pois às vezes é isto o que deve ser feito, muito mais do que a simples ânsia de lançar a luz do conceito, a qualquer custo, sobre a penumbra: um contato cuidadoso que saiba reconhecer e cultive seus limites.

Uma forma de, partindo da noção de que literatura é o que uma sociedade preza como literatura, chegarmos a uma noção certa forma imanentista do fenômeno literário seria a de, com Jonathan Culler (trad. Sandra G. T. Vasconcelos, Teoria Literária, Beca, 1999 [1997]), dizer que a literatura "é um ato de fala ou evento textual que suscita certos tipos de atenção." Se pode a priori parecer que Culler não muda muito a ordem dos fatores (e de fato será nas páginas seguintes que ele o fará de forma explícita), devemos, contudo, observar a forma habilidosa como Culler inverte os dados da questão: ao invés de partirmos da sociedade que chama um texto como literário ou não, é o texto que suscita certos tipos de atenção e, assim sendo, dá-se como literário. Pois, acerca do que foi exposto especialmente por Compagnon e Eagleton, será importante trazermos à baila novamente o vídeo de Paulo Henriques Britto expondo sua concepção sobre o que seria poesia, calcada em Wittgenstein (linkado aqui; aos 1:05:00, por aí).

O argumento de Britto é como que a gênese da ideia de Compagnon e Eagleton, com a diferença de se mostrar muito mais instigante. Pois o trabalho de reconhecimento e de comparação não é uniforme nem muito menos quantitativo. Ele envolve uma questão de expectativa. Podemos considerar os sermões de Donne e de Vieira como textos literários, podemos considerar o sermão na metade do Retrato de Joyce como um texto literário, mas não esperamos que qualquer sermão seja literário. A história de determinados tipos de texto se prova mais literário do que outros, e, existida a penumbra a que me referi antes, ela na maior parte das vezes se refere a casos isolados. E não só isso: ela é retrospectiva e não segue necessariamente uma linha reta. Não é bem a ideia de que a cada ano que passa nossa tolerância pro que é literatura passa a ser cada vez mais tudo.

Não pois ganhamos instrumentos mais capazes e entendemos de forma cada vez mais lúcida a constituição de outras culturas que se afastaram ou se afastam da nossa. Culturas em que o processo de compartilhamento parece perder aquela característica de naturalidade que vemos nos contatos historicamente repetidos. Assim, é possível que venhamos a redescobrir a real função de, vamos supôr, um texto X numa cultura Y. Se antes o considerávamos como sendo certamente literário, depois de uma descoberta qualquer poderemos estar aptos a entender que ele não era literário no fim das contas, o que poderá mudar de maneira sensível a ordem dos fatores. Para não dizer em nossa reconsideração retrospectiva de certos textos. Por exemplo, Aristóteles afirmava que nem todo texto escrito em metro poderia ser chamado de poético. Um livro de farmácia, por exemplo. Mas, após as investigações de Jakobson, é possível que venhamos a considerar um livro de farmácia em versos como poesia, ou trechos dele. A dinâmica, portanto, dos critérios de comparação para que possamos determinar se algo é ou não literatura é dinâmica e multifacetada. Multifacetada dado que não existe nunca um consenso do que é literatura em determinado tempo. A noção da penumbra é e sempre será também uma noção crítica.

A noção da penumbra, sendo assim, pode ser vista como uma espécie de margem de manobra. Mais até do que margem de manobra, a penumbra fazendo parte desde sempre de todo e qualquer conceito que, como dito, envolva cultura. Pois do fato de que a cultura é aberta não decorre que todo conceito queda impossível, mas sim que todo conceito deve trazer consigo suas zonas de incerteza, e que, tão importante quanto buscar entendê-las é o simples fato de saber lidá-las. Descobertas e redescobertas e argumentos podem mudar nossa concepção de certas culturas, o que pode nos fazer incluir ou excluir um texto dentro da circunscrição literária, ou nos dar a ideia de que hoje ele é tido como literário, quando ontem não o fora. O que é perfeitamente possível, visto que a maciça utilização literária e mesmo a intensa discussão sob critérios literários de um texto pode trazê-lo para dentro de uma definição de literatura. No meu caso, a ideia de que, se muitos enxergaram nesse algo uma expressividade humana da linguagem, o que não se liga necessariamente a um autor específico (meu enfoque é muito mais textual do que emocional; é a expressividade humana suscitada pelo texto), então claro está que temos um texto literário. Ideia que, a bem da verdade, não se diferencia em nada do que Compagnon e Eagleton disseram, com a diferença já apontada de que não é o fato de existir uma penumbra que todo esforço de conceituação se torna por conseguinte vão. Por dentro da visão panorâmica e, verdade seja dita, simplista de Compagnon e Eagleton, existe o estabelecimento de um parâmetro crítico que se quer amplo e em constante reconstrução, o que só pode ser feito graças ao cuidado que for prestado tanto às estruturas intrínsecas do conceito como às raias nebulosas que lhe adejam.

Já sobre a primeira questão levantada, de saber se outras formas de texto também poderiam se caracterizar pela expressividade humana, creio tratar-se de uma objeção ainda mais séria, visto que, por exemplo, uma carta recebida por uma mãe pode conter dentro de si uma enorme expressividade humana e ainda assim não ser arte. É o caso de questionarmos se essa expressividade humana advém da linguagem da obra ou se de um quesito contextual, e os passos devem ser dados com muita cautela. Segundo o conceito que propus, a arte é um ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem. Há, portanto, uma questão de caracterização daquela linguagem como possuidora de uma expressividade humana. Daqui podemos retornar à questão de que literatura é apenas o que se considera como sendo literatura, tendo em vista o que o termo "caracterizado" dá a entender. Podemos tentar abrandar isso se dermos um enfoque à linguagem da obra em questão, e, como disse, se ela se caracterizar pela expressividade humana da linguagem, então será arte, de modo que a questão aqui é como que indagar ou enxergar a tal da expressividade humana em tal obra.

E esta é a grande questão, a meu ver o ponto mais frágil de minha definição. Disse que a resposta pode advir de um ponto de vista contextual, seguindo a noção de que a carta de um filho para sua mãe conteria uma forte expressividade humana graças a seu contexto e não a características internas. Aquela coisa de que tal carta revelaria a expressividade humana apenas à mãe e não a qualquer um de nós. Afinal de contas, se a cultura envolve um arcabouço de saberes compartilhado, a arte, tomada numa perspectiva de produção ou incremento de saberes, é sempre coletiva, de tal modo que a carta do filho para a mãe, embora se valha de um arcabouço cultural (a língua ou o simples ato de escrever cartas), ignora tal dimensão, digamos assim, ativa da cultura. Portanto, por mais que possa considerar enquanto expressividade humana a linguagem da carta, a definição que propus de arte ainda deve considerar a arte como ramo da cultura. Mas claro que se isto explica o exemplo da carta, não explica o exemplo de uma piada, evidentementemum artefato cultural ativo. E não me parece que negar a expressividade humana do humor, da ironia ou mesmo do escárnio seja justo...

A expressividade humana da linguagem faz parte do que entendo como cerne duro de um conceito de literatura: mudem os parâmetros literários, uma zona segue razoavelmente fixa. Aquilo que de algum modo rompe este conceito e mantém, também de algum modo, o estatuto de literário, rompe, por conseguinte, com o que conceituo. Assim, conceber uma forma artística advinda de uma sociedade em que a expressividade humana não seja a pauta principal da obra ou simplesmente conceber que outras formas de expressão humana podem se caracterizar precisamente por sua linguagem expressadamente humana, e ainda assim não serem literárias; tais casos são casos limite aos quais não tenho como responder. São a penumbra. Prostro-me.

Comentários

  1. Matheus,

    É uma boa discussão. Não sei se está aberta a contribuições, mas como leitor, me intrometo.

    Confesso que não entendi algumas das tuas conceituações, como as de manifestações emocionadas e não-emocionadas, o "transparecimento" (existe isso?) da individualidade, a diferença entre uma manifestação cultural e uma manifestação com influxos culturais e de que pode haver manifestações humanas não culturais.

    Acho, desde um texto anterior, o teu conceito de linguagem ainda muito influenciado pelos formalistas (e por Chomsky?). Diria que linguagem é mais que a soma de estruturas com a finalidade de gerar sentido. Bakhtin/Voloshinov já dizia que só quem pensa na linguagem assim são os linguistas (o termo que ele usa é filólogos), não os usuários da língua que a veem sempre contextualizada e em referência a um destinatário "concreto" (apesar de ser sim um sistema). Além disso, dessa vertente discursiva bakhtiniana, tem também a pragmática para a qual a linguagem faz o mundo ao descrevê-lo. Como diz o título do livro de Austin "dizer é fazer" (aquela coisa dos performativos e constativos que depois foi contestada e reduzida aos performativos).

    Quanto a mim, me parece sim que os campos culturais da "arte" e da "literatura" surgiram na Modernidade e na Europa ligados ao surgimento dos Estados, ao ensino (transformação dessas coisas em objetos de ensino) e a Ciência (objeto de estudo). Mas como diz Bakhtin sobre os campos também, a partir do momento em que um deles se estabelece, ele passa retrospectivamente a reivindicar para si outras coisas, numa forma de legitimação. O que também não quer dizer que só o que foi produzido a partir dos últimos 200 anos ou 500 seja literatura ou arte, porque a partir do momento em que há essa reivindicação tudo muda retrospectivamente e irrevogavelmente (acho que não me faço entender, mas...). Os pontos de vistas dos vários campos sobre um texto ou objeto cultural se "acumulam", se cruzam, não se anulam. Quando um objeto é movido para um museu ele saiu do contexto que o ligava a vida e a certos usos e ganha outro contexto. Deixa de se relacionar a certas práticas e se relaciona a outras o que é uma forma de estar vivo ainda. Quanto à poesia não sei bem (os textos me fizeram pensar e me deixaram com dúvida, mas a busca de uma literariedade não já tinha sido abandonada?)

    Um outro ponto seria o da "expectativa" criada por um texto sobre o leitor, em outras palavras a recepção. E, mais uma vez recorrendo ao Círculo, isso se dá porque o autor já tinha uma ideia do receptor que ele inclui na obra. E aí entram os gêneros discursivos que também não podem ser definidos de maneira formal (baseada em uma forma) e que se relacionam entre si de maneiras fluidas. (Não sei porque esse meu tom pedagógico...)

    Teria mais a dizer, mas fico por aqui desejando que você continue sua busca. (E poxa, como eu acho que uma releitura, ou uma leitura mais ampla, do Círculo de Bakhtin ajudaria aí).


    [Essa ferramenta não me parece muito boa para troca de ideias... =/]

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    1. Grande Jorge! O espaço está sempre aberto pro chumbo grosso, sinta-se à vontade.

      Se quiser, pode me mandar um e-mail. Ou então abrimos um tópico na Valinor, não sei...

      Confesso que tenho deixado de lado essa coisa da conceituação um pouco, em grande parte por um projeto de estudar Teoria da Literatura de forma auto-didata e extensiva. Esse texto foi uma espécie de problematização do que afirmei antes, e sua resposta só veio somar!

      A ideia da manifestação emocionada ou não-emocionada está nisso mesmo do transparecimento da individualidade. Ou seja, emocionada é a manifestação que faz com que o indivíduo se transpareça, se mostre. Preferi usar o "transparecimento" tendo em vista que "transparecer" pode remeter não só a fazer com que apareça de modo parcial ou total, mas também no sentido de atravessar e transluzir. Não sei como te falar disso de uma forma que não seja vaga, mas a ideia é a de que, o indivíduo se manifestando desse jeito, de forma emocionada, nós, que observamos essa manifestação, possamos como que ter acesso ao íntimo, às paixões, emoções etc daquele indivíduo. Mas transparecer a individualidade não no sentido de transparecer coisas que só sirvam para ele (pode ser também, mas não pode ser só isso); transparecer a individualidade no sentido de transparecer aquilo que faz dele e, de certo modo, de todos nós, indivíduos, seres humanos.

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    2. Já a ideia da diferença entre manifestação cultural, manifestação com influxos culturais e manifestações humanas não culturais, vou organizar melhor as ideias pra tentar explicar de outro modo, embora esse tenha sido um ponto que sempre me pegou. A manifestação cultural, como disse, é a que se vale diretamente do arcabouço de saberes, alterando, ampliando... Já a manifestação com influxos culturais seria aquela que adotaria uma espécie de posição passiva e, ao invés de, falando de forma figurada, meter a mão no arcabouço, compartilhá-lo, é somente afetada por tal arcabouço. Assim, enquanto a manifestação cultural seria aquela manifestação que visa ou de algum modo acaba atingindo um público mais amplo, visto que ela atua diretamente no que é compartilhado por todos, a manifestação com influxos culturais pode ser a manifestação privada que é influenciada pelo que o coletivo, vamos dizer assim, estipulou. Já as manifestações humanas não-culturais seriam manifestações em que esse arcabouço não estaria presente. Manifestações naturais.

      De certo modo, respondendo pra você agora, vejo que as três categorias seriam categorias ideais. Nasceram de uma desconfiança minha de que tudo em nossa vida poderia ser diretamente cultural. Não vou mentir que ainda nutro essa desconfiança, mas antes foi e continua sendo algo que merece uma reflexão e uma cautela constantes.

      A ideia da linguagem, não posso esconder meu débito formalista. Tive em mente as ideias do Bakhtin/Voloshinov sim, mas creio que elas se apliquem mais à língua do que ao conceito de linguagem de maneira geral. Então me ative mais no sentido de, ao formular um conceito de linguagem, me preocupar com o momento em que ela seria formada. Por exemplo me lembrando do caso de um artista que queira fazer arte com bolinhas de gude. Não creio que as reflexões bakhtinianas consigam se sair bem nesse caso (ou então no caso de um artista que transforma seis potes de tinta num quadro)... No âmbito de uma linguagem já existente e formada, a ideia seria nem tanto a de formar uma outra linguagem ou coisa do tipo, mas de usar essa linguagem de modo que a expressividade humana seja um dado característico.

      Quanto a seu quarto parágrafo, sim, foi muito claro. Muito interessante o que você disse. E, pra ser sincero, veio em boa hora.

      (Sim, a busca da literariedade já havia sido abandonada... Um certo revivalismo de minha parte, embora um revivalismo mitigado: a ideia não é nem tanto a de fornecer um conceito total que sirva em todos os casos para o que é Literatura, Poesia etc etc, mas que consiga iluminar pelo menos um cerne duro do conceito.)

      Confesso que não tenho planos de reler Bakhtin por hora, mas com certeza o farei esse ano. Vou dar uma olhada também nessa coisa dos gêneros.

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  2. Obrigado pela resposta e pelo interesse em conversar, Matheus. (Em muito do que vou dizer aí tem influência do Círculo de Bakhtin)

    Acho que entendi agora a diferença entre uma manifestação emocionada e uma não. Mas será que em todas as nossas manifestações não expressamos ou deixamos transparecer nossa individualidade/subjetividade? que ao mesmo tempo não é tão individual já que os "conteúdos" dela são também compartilhados/sociais? Estava pensando no exemplo que você deu da mãe no enterro. A maneira como os sentimentos dela vão se manifestar é social, assim como a própria ideia de enterro etc. Enfim, todas as nossas ações ou comportamentos (há uma filosofia do "agir humano") são mediados pelo sócio-histórico cultural em maior ou menor medida. Será que não vai aí nos teus conceitos uma ideia Romântica do "indivíduo criador" isolado ( oualgo assim)?


    Já sobre as diferenças entre manifestação cultural e manifestação com influxos culturais, acho que entendi quando você falou da atividade/passividade. Uma "reverberaria" para outras pessoas e a outra não, né? Talvez dê para dizer também que seriam manifestações culturais privadas e públicas ou algo assim? Sobre a não-cultural, entendo que você não queira tornar a cultura um absoluto e dizer "Tudo é cultural". Bakhtin e Voloshinov (mais uma vez, desculpe) dizem que é uma questão de ponto de vista sobre uma mesma manifestação/comportamento/atividade: do ponto de vista das ciências naturais (e aqui eles falam da psicologia behaviorista) um comportamento e a consciência podem ser descritos de maneira quimico-física, mas isso exclui o social, histórico e cultural, enquanto as ciências humanas incluem esses aspectos. As primeiras tentam explicar e descrever (não são dialógicas, há uma só voz), as segundas interpretam (são dialógicas, incluem mais de uma voz). Tratar os seres humanos em termos biológicos é possível, mas é mais limitado.

    E quanto a linguagens, não tinha entendido que você falava no sentido de "conjunto de signos" (é porque em linguística hoje em dia a gente já usa linguagem no sentido de língua quando inclui sujeitos, contextos, quando é discurso, enfim), mas o pensamento do Círculo também é valido porque eles eram semioticistas. Eu estava pensando nos exemplos que você deu, e diria que as bolas de gude ou os potes de tinta como signos podem ser interpretados a partir do social também, como algo retirado de um contexto e levado para outro, que se relaciona com o que foi feito no passado no campo da arte, voltado para certo tipo de recepção ativa esperada etc. ou seja, como partes de um todo que só fazem sentido em relação a esse todo.

    Não sei se vim para confundir. E aliás, sobre um assunto que você disse que nem está mais tão interessado. Mas reitero a sugestão da leitura de Bakhtin e do Círculo como mais do que críticos literários porque eles foram filósofos e servem para pensar o humano em geral (arte, psicologia, linguística etc).

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    1. Eu tava pretendendo aproveitar os 5 livros semanais que posso pegar da biblioteca da UFG pra ler nessa semana e na outra sobre lógica formal e teoria dos atos da fala, mas essa prosa nossa me convenceu a reler o Círculo!

      Pois é, esse questionamento que você fez sobre se em todas as nossas manifestações nós não transparecemos é algo que atravanca o conceito. Sem dúvidas, um ponto fraco. Aqui creio que podemos voltar à ideia de tanto a manifestação individual quanto a social seriam categorias ideais no sentido de que não dá pra falar de só um ou de só outro, embora mesmo assim não creio que mude muito. É uma ideia que acaba sendo da mesma raiz da ideia da existência das manifestações culturais e não-culturais: a ideia de que existe uma zona, por menorzinha que seja, em que a influência social e/ou cultural se reduza a um mínimo.

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    2. Sim, de fato, a ideia da mãe chorando no enterro do seu filho envolve questões sociais na forma como ela manifestará sua emoção, no enterro etc. Mesmo considerando um caso em que, sei lá, ela enterra o filho no quintal de casa, o que iria contra as convenções sociais, concordo que ainda assim estaria se relacionando com as convenções sociais de enterro -- embora me pergunte também se esse lado reverso do âmbito cultural, ou seja, aquilo que fere as convenções sociais ainda assim estando "incluso", só que do lado de fora, dentro do farol dessas mesmas convenções sociais; embora me pergunte se esse lado reverso não possuiria um limite, isto é, uma zona de negatividade tão extrema que terminasse por praticamente romper o vínculo com as convenções sociais (não de forma literal, mas no sentido de ter tornado esse vínculo num algo mínimo).

      Voltando, a ideia é a de que a manifestação da mãe transpareceria sua individualidade de forma acentuada (pois se for pra transparecer pouco é possível que no final das contas nem transpareça) e não que necessariamente o conteúdo social estivesse ausente. O reverso da moeda também: manifestações sociais em que a convenção social se faria mais presente do que a individualidade propriamente dita.

      Esquematicamente, é como se tivéssemos um quadrado representando todas as manifestações humanas. Dividindo em dois, uma parte seria a das manifestações não-emocionadas e outra das manifestações emocionadas. Aí seria feito uma espécie de círculo que abrangeria uma parte de um e uma parte de outro. Esse círculo seria a cultura, pressupondo, portanto, manifestações culturais não-emocionadas e manifestações culturais emocionadas. A arte entraria como um segundo círculo dentro da banda das manifestações culturais emocionadas.

      Mas tudo isso dito não em termos absolutos.

      Essa parte que você citou sobre as ciências humanas e ciências naturais é algo que realmente não me recordo. Você sabe dizer em que livro está? Fiquei interessado.

      Sobre a ideia da linguagem, de fato. Aliás, muito bom o que você disse. E não se preocupe que confundir é o objetivo. Disse que não estava tanto interessado mas era mais num sentido iconoclasta: menos interessado em construir do que em desconstruir.

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  3. Mas você não está limitando a cultura a convenções sociais? Ou foi só um exemplo? Eu tenho mais a cultura como conjunto aberto de signos (e a língua é feita de signos e está sempre presente nos nossos atos sociais). Quando você fala em "saberes compartilhados", eles são compartilhados através dos signos. Daí a cultura é individual e coletiva ao mesmo tempo, porque cada indivíduo não tem acesso a todos os signos ao mesmo tempo, apenas a parte deles. Não sei se é isso que você está dizendo também (parece), mas foi o que eu quis dizer aqui: "Mas será que em todas as nossas manifestações não expressamos ou deixamos transparecer nossa individualidade/subjetividade? que ao mesmo tempo não é tão individual já que os "conteúdos" dela são também compartilhados/sociais?" Mesmo que fosse contra as convenções sociais seria cultural. Não consigo pensar em um "Robinson Crusoe", um indivíduo isolado, porque como notaram ele levou consigo a língua inglesa, uma Bíblia, a criação de cabras, a escravidão etc.

    Acho que se podem considerar as artes como um campo da cultura mais propício à expressão dessa individualidade/subjetividade mesmo (acho que foi isso que você quis dizer né?). Tratando dos gêneros discursivos, Bakhtin faz um breve comentário (breve mesmo) sobre o "estilo individual" e como cada gênero é ou não propicio a expressão dele e como os artísticos são os mais propícios. Daí no caso da sua dúvida da carta expressar a individualidade e poder ser classificada como arte, diria que entra também a recepção. Ela foi feita para ser lida por quem? Pela mãe? Por uma coletividade? Algumas cartas podem ser consideradas artísticas a partir da mudança na recepção, talvez, por que não? No caso da arte, 'deve' haver uma expressão maior da subjetividade em uma vertente afetiva/emocional (no caso de algumas, ou racional/não-emocionais, de outras, enfim). Isso já é esperado.

    A ideia do gráfico ajudou bastante a visualizar também, mas uma dúvida seria: as manifestações que são não-emocionadas, são o quê? racionais?

    Sobre as ciências humanas e naturais, fui dar outra olhada e na verdade ele usa o termo de "compreensão" x explicação, não interpretação como falei de memória. Sobre a compreensão responsiva ativa contra uma "identificação", Voloshinov já tinha falado em algumas partes de Marxismo e Filosofia da Linguagem, para falar sobre a diferença entre enunciado e palavra/frase, o que mostra que a ideia era antiga entre eles. Mas Bakhtin retoma isso ampliando para as ciências naqueles textos finais de Estética da Criação Verbal: "O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciência humanas", "Apontamentos de 1970-1971" e "Metodologia das ciências humanas" (acho que um pouco no "Os gêneros do discurso" também, mas não consegui identificar onde). Notar também quando ele fala da "compreensão responsiva" como importante para o enunciado. Sempre que há compreensão (que é sempre ativa também, inclui a subjetividade do "receptor") há dialogismo.

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  4. Ah, sim! Fico muito feliz de fazer você ter vontade de (re)ler Bakhtin e o Círculo. Eles são um contraponto importante aos formalistas/estruturalistas que você já leu ao incluírem a importância dos sujeitos e dos contextos na linguagem, mas, como disse antes, são mais do que estudiosos da língua/linguagem, são filósofos mesmo.

    Eu pretendo ler tudo do Círculo e dos "comentadores" a partir de março e também o que temos dos formalistas, por aí (e alguns estruturalistas?, provavelmente o Jakobson). Espero que a gente possa conversar sobre eles, então.

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    1. Jorge, fiquei um tempo sem responder pois havia parado pra reler o Círculo e pois acabei me esquecendo também.

      De fato, os exemplos que dei focaram convenções sociais, mas também penso como você na cultura como um arcabouço aberto -- sempre aberto. Mas você argumentou bem. Essa ideia que dei de uma parte das manifestações humanas não-culturais acaba sendo um tanto quanto impraticável. Seriam partes ligadas a conjuntos fisiológicos, à humanidade enquanto corpo mesmo. Mas aí acho que coloco coisas no argumento que não estavam no texto, e que a distinção entre ser uma manifestação cultural e uma manifestação com influxos culturais não se sustenta tanto assim: as duas, podemos dizer, são culturais, com a diferença que enquanto uma manifestação cultural atuaria direto no arcabouço, a outra, com influxos, como se fosse "apenas" traspassada por esse arcabouço, pelo menos a priori tende a não contribuir (ou, pra ser um pouco mais exato, a contribuir pouco).

      E é nesse sentido mais próximo da fisiologia que coloquei as manifestações não-emocionadas. Embora também creia que possa existir alguma área de manifestações emocionadas que, dentro do que disse da ideia de emoção como ligada à exposição de uma subjetividade, possa ser incluir manifestações racionais (não acho que totalmente, mas enfim).

      Bem apontado o que você colocou sobre Bakhtin. Foi bem relembrar essas coisas.

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