Banzando XV.




Machado de Assis não foi um bom poeta, mas conhecia os rudimentos da coisa muito bem ― e tanto que foi o mentor do Parnasianismo ― e tanto que no seu último livro, Ocidentais (1880), ele produziu coisas até bem feitas, como o Uma criatura, o Mosca azul, o Suave mari magno ou a tradução do célebre monólogo de Hamlet em 3.1. Sobre este último, foi o Machado quem traduziu pra "Ser ou não ser, eis a questão. (...)" ― solução esplêndida por ter caído na boca do povo e por ter traduzido o pentâmetro num octossílabo. A título de exemplo, a tradução de o rei Luís I de Portugal estampa "Ser ou não ser, eis o problema."

Contudo, se não era bom poeta, bom prosador, qualquer pessoa alfabetizada sabe, ele era. Não só grande romancista; foi também um grande contista e um cronista de mão cheia. Cronista de mão cheia. Muitos dos chamados reis do gênero são plebeus perto de Machado. Machado fez o que quis da crônica. Comentava diretamente acontecimentos políticos da época, comentava de forma alegórica (como quando conta do Encilhamento a partir de Adão e Eva), de forma dialogada, com filosofia barata à maneira daquela do Medalhão (por exemplo quando cria regras para se andar de bonde)...

Ou então manter uma coluna de crônicas versificada. Isso foi durante 1886 e 1888. A coluna era chamada Gazeta de Hollanda. Tem muita coisa ruim ― ruim tanto pro padrão Machado quanto pro padrão crônica de forma geral ― mas tem coisa interessante também... Em 18 de outubro de 1887, por exemplo, ele fala de uma onça que fugiu. Da cidade. Pra não citar, claro, algumas estrofes que são boas pra danar: por exemplo esta, de 30 de agosto de 1887 (1887 deve ter sido o melhor ano da coluna), "Uma lengalenga longa, / Uma longa lengalenga, / Áspera, como a araponga, / E tarda como um capenga."

A crônica que seleciono pra vocês, de 13 de setembro de 1887, é mordaz. A situação de alguma instância superior oferecer tudo de bandeja pro eu lírico nós conhecemos muito bem depois de Drummond; mas a versão de Machado também é digna de nota.

§

N.° 27
13 DE SETEMBRO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi
Dans la “Gazette de Hollande”.

Se Deus me dissesse um dia:
— Que desejas tu, Malvólio?
Castelos na Normandia?
Uma biblioteca in-fólio?

“Um punhado de brilhantes,
Grandes como ovos de pomba?
Um batalhão de elefantes,
Marfim puro e extensa tromba?

“Moças, com as quais cantasses
A vida, e pelo estio,
Cantigas velhas que achasses,
Como esta, no peito frio:

“Cajueiro pequenino,
“Carregadinho de flores
“Eu também sou pequenino,
“Carregadinho de amores.

“Ou tendo espíritos altos,
Ir correr desejarias
Perigos e sobressaltos
De Rússias e de Turquias,

“Pegando, com alma icária
E braços impacientes
A coroa da Bulgária,
E defendê-la das gentes?”

Responder-lhe-ia eu, contrito:
— Não desejo, ó verdadeiro
Deus grande, Deus infinito,
Ser castelão nem livreiro,

Nem ter pedras preciosas,
Nem legiões de tamanhas
Alimárias pavorosas,
Vindas de terras estranhas,

Nem bonitas raparigas
Com quem eu cantar pudera
Algumas velhas cantigas,
Cantigas de primavera,

Menos inda, muito menos,
Correr sem mais nada, à toa,
Pequeno entre os mais pequenos,
A apanhar uma coroa.

Não, o que eu quisera, ó divo
Senhor, que mandais a tudo,
O meu desejo mais vivo,
Que me corrói, longo e mudo,

Era entrar pela janela
Do senado... Olhai, não digo
Pela porta. A porta é bela,
Porém já não vai comigo.

A porta, traz como agora,
Obrigações superfinas;
Li-as em prosa canora,
Sobre as eleições de Minas.

A primeira é que resida
O candidato na terra,
Pois se acaso a própria vida
A outra terra o desterra,

Perca as tristes esperanças
De conservar eleitores.
Se há exemplos, são carranças,
Outra quadra, outros amores.

Olindas, Celsos, Correias,
Nabucos e Zacharias,
São estragadas candeias,
De outros homens e outros dias.

Agora, quanto à segunda
Obrigação do diabo,
É igualmente profunda...
Não se quer nenhum nababo,

Que ande assim, como um tesouro,
Em carruagens de prata,
Cavalos ferrados de ouro,
Um jantar em cada pata;

Mas se o candidato é pobre
E passa a vida lidada,
Não entra em funduras. Dobre,
Amigo, dobre a parada.

Ora, eu que há muito suspiro
Pelo senado, e aqui moro,
Lidando, que mal respiro,
Sem o vil metal que adoro,

Uma noite adormecia
Lendo alguma velha história
De Veneza ou da Turquia,
E acordava em plena glória,

Diante do presidente
Aparecia sentado.
Ai, Deus justo, ai, Deus clemente...
Janela... curul... senado...


A primeira Contenção é um dos poemas com temática jurídica mais inteligentes que já li! Claro que não existem muitos: a maioria cai naquele tipo de crítica esperada em que até mesmo a raiva e o descontentamento parece que se padronizaram... Pois, sem uma efetividade estética, por mais que o que você critique seja legítimo e tudo lindo, você vai estar como que criticando uma convenção opressora com um discurso convencional oprimido.

Pra tentar formular um pouco melhor porque achei a primeira Contenção tão boa, cito em especial a dinâmica dos colchetes. Observe como o texto em prosa possui espaços que são intercalados com várias opções. O Direito não funciona assim ― várias categorias que, por mais amplas que sejam e por mais que exista um arbítrio de escolher entre muitas, são ainda assim excludentes? A escolha de qualquer delas não é uma forma de deliberar? Pois se estão entre colchetes, então é de se pressupôr que não se comunicam. Estão em contenção.

Contudo, a crítica da autora não me parece residir exatamente nesse aspecto ― ou seja, do funcionamento do Direito ―, e é também por isso que digo que é um poema inteligente de temática jurídica ― ela critica não bem o funcionamento do Direito, mas a forma como esse funcionamento é usado como joguete legitimador de uma lógica de poder. Você poderia observar isso se analisar algumas opções que são listadas, como por exemplo a primeira: aos indivíduos é concedido que escolham entre sexo, raça, gênero, classe, afiliação política ou horário de máxima ovulação. Mas só isso? Por quê, por exemplo, às mulheres só é permitido escolher entre o horário de máxima ovulação?

Outro exemplo em que você pode notar a crítica que ela faz é no último parágrafo, quando pede que preenchamos quem seriam os "melhores, "mais verdadeiros" e "mais legítimos". Preenchermos pois não existem opções ou porque seria inútil querer listá-las? E se seria inútil listá-las, é porque são muitas ou porque são poucas?

E a propósito, o título é ]Contenção[, ]Exclosure[. Os parênteses estão abertos, como se as contenções tivessem sido rompidas. E o título meio que dá a entender isso, pois pode ser lido como Ex-closure. Na tradução de Scandolara foi algo que acabou se perdendo, embora tenha ganho com a ideia da Contenção como uma espécie de Com+tensão. Cada categoria tensiona a outra.

E ainda há, é claro, a segunda parte de cada Contenção que funciona como uma espécie de comentário ― notadamente mais lírico ― às Contenções. No caso desse primeiro comentário, na expressão "[restantes]" os colchetes possuem um funcionamento diferente, de reiteração, de implosão da citação ― algo que na Contenção propriamente dita não existe, pois os colchetes assumem um papel normalizador. É bom citar também o "ali" no final do texto, cortado e colocado de forma apartada, indicando com mais intensidade aonde a lógica oficial falha. Caso o leitor não tenha percebido, ali: no que ele acabou de ler, naqueles colchetes em negrito. Ou quem sabe em qualquer lugar.


Pra quem acha que a Gramática nos ensina a "escrever bem", o velho Edgar Allan Poe ― importante contista, importante poeta, importante crítico e importante teórico ― (importante fanfarrão também) ― dá a senha de guerra:

De The Rationale of Verse (1850), aqui.

(...) I allude to the definitions of English Grammar itself. “English Grammar,” it is said, “is the art of speaking and writing the English language correctly.” This phraseology, or something essentially similar, is employed, I believe, by Bacon, Miller, Fisk, Greenleaf, Ingersoll, Kirkland, Cooper, Flint, Pue, Comly, and many others. These gentlemen, it is presumed, adopted it without examination from Murray, who derived it from Lily, (whose work was “quam solam Regia Majestas in omnibus scholis docendam præcipit,”) and who appropriated it without acknowledgment, but with some unimportant modification, from the Latin Grammar of Leonicenus. It may be shown, however, that this definition, so complacently received, is not, and cannot be, a proper definition of English Grammar. A definition is that which so describes its object as to distinguish it from all others: — it is no definition of any one thing if its terms are applicable to any one other. But if it be asked — “What is the design — the end — the aim of English Grammar?” our obvious answer is, “The art of speaking and writing the English language correctly:” — that is to say, we must use the precise words employed as the definition of English Grammar itself. But the object to be obtained by any means is, assuredly, not the means. English Grammar and the end contemplated by English Grammar, are two matters sufficiently distinct; nor can the one be more reasonably regarded as the other than a fishing-hook as a fish. The definition, therefore, which is applicable in the latter instance, cannot, in the former, be true. Grammar in general is the analysis of language; English Grammar of the English.






30 ensaios e contos do DFW. Todos gratuitos ― foram publicados antes em revistas e agora estão flutuando na internets.

Confesso que, depois de reler Montaigne, não acho os ensaios do DFW ― ou do Jeremiah Sullivan (aqui), que é outro que andei lendo muito esses meses ― inconvencionais. O problema é que o paradigma do ensaio do Montaigne É revolucionário, É inconvencional e inconveniente até hoje (e, é claro, situo tanto o DFW quando o Sullivan sob a égide de Montaigne). Nós só fingimos que incorporamos o ensaio para nossa matriz de pensamento depois que o adequamos a padrões racionalistas e academicistas ― e daí aquelas corruptelas de ensaios apadroados pela ABNT ou com um temor caricato frente a qualquer quebra de formalidades...

Mas o fundamental do paradigma do Montaigne, isto é, um texto fora dos padrões científicos, com um forte foco no indivíduo (e a tal ponto que o Montaigne afirmava na Introdução que queria, com aqueles ensaios, mais revelar a si próprio e seu amor ao conhecimento que de fato iluminar a matéria de que tratava) e da perspectiva de um leigo falando de forma leiga ― além de outros aspectos que faz com que Montaigne se aproxime ainda mais de DFW e Sullivan, como o pendor para as histórias contadas a tal ponto que o texto se fragmenta e às vezes até foge do assunto principal (cf. no caso de Montaigne o ensaio sobre os versos de Virgílio) ― é claro que isso não tem como ser muito bem aceito, ainda mais hoje, em tempos de hiperespecialização e hipertrofia de currículos acadêmicos...

Vejamos o que James Wood diz na introdução à coletânea de ensaios de Sullivan, Pulphead (Cia das Letras, 2013, p. 20-21):

Assim,muitas vezes vemos o ensaio contemporâneo empenhado em atos de clara antinovelização: em lugar do enredo há uma deriva a esmo, ou a fratura de parágrafos numerados; em lugar de uma congelada verossimilhança, pode haver um movimento dissimulado e consciente entre a realidade e a ficcionalidade; em lugar do autor impessoal do realismo convencional na terceira pessoa, o eu autoral entra e sai do quadro, com uma liberdade difícil de dar certo na ficção. O fato de todos esses truques antinovelísticos serem, na realidade, truques novelísticos, com frequência tirados da história do romance, não prejudica o prazer de observar essa liberdade literária em ação.

Que porventura tenham sido tirados do romance não me parece incorreto: é bem possível que tenha sido por aí mesmo. Onde quero chegar, todavia, é que não chegam a ser procedimentos alienígenas para com o ensaio. Relembremos Montaigne e veremos que, com exceção do quesito dos parágrafos, posto que em Montaigne os ensaios são todos num só, são aspectos já presentes em seus textos.

Relembremos o que Erich Auerbach tinha a dizer sobre Montaigne (Ensaios, trad. Rosa Freire D'Aguiar, Penguin-Cia das Letras, 2010):

O leigo Montaigne foi o primeiro a escrever de modo leigo sobre temas importantes; muito embora na verdade não escrevesse para ninguém a não ser para si mesmo, formou uma comunidade de leigos, e seu livro tornou-se um livro para leigos. Ele escreveu o primeiro livro da autoconsciência leiga.

No prólogo do livro, Ao leitor, vemos Montaigne dizer:

Dediquei-o ao uso particular de meus parentes e amigos, a fim de que, endo-me perdido (o que breve terão de fazer), possam aqui encontrar alguns traços de minhas atitudes e humores, e que por esse meio nutram, mais completo e mais vivo, o conhecimento que têm de mim.

O modelo de pensamento de Montaigne, repito, é revolucionário. Podemos enxergá-lo muito bem quando Montaigne aborda a educação das crianças. Para citarmos alguns trechos:

Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar.

Que ele [o preceptor] não lhe peça [ao aluno] contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância. E que julgue o proveito que a criança terá tirado, não pelo testemunho de sua memória mas pelo de sua vida. (...) Regurgitar a comida tal como a engolimos é sinal de sua crueza e de indigestão: o estômago não fez seu trabalho se não mudou o estado e a forma do que lhe foi dado digerir.

Saber não é saber de cor: é manter o que se entregou à guarda da memória. Quem sabe corretamente dispõe do que sabe, sem olhar para o modelo, sem voltar os olhos para seu livro. Incômoda competência, a competência puramente livresca!

Que sua consciência e sua virtude reluzam em suas palavras, e tenham apenas a razão como guia. Que o façam compreender que confessar o erro que descobrir em seu próprio argumento, ainda que só seja notado por ele mesmo, é consequência de um julgamento e de uma sinceridade que são as principais qualidades; a teimosia e o gosto da contestação são qualidades vulgares, mais aparentes nas almas mais baixas.

Etc. (E é por essas e outras que meu modelo de pensamento, minha meta, é Montaigne. Montaigne, Montaigne.)

Que Sullivan tem consciência de que seu arsenal não é tão novo assim, embora permaneça revolucionário, basta ler o que ele diz em entrevista à Folha de São Pauloaqui.


Más condições das prisões nacionais. Algo pelo menos tão antigo quanto as Cartas Chilenas (séc. XVIII). Dou destaque aos versos "A pálida doença aqui bafeja, / Batendo brandamente as negras asas." Notem como o uso de termos como "bafeja" e "brandamente", por serem em tese um alívio, ajudam, pelo contrário, a dar uma ideia mais exata da intensidade do suplício (isto é, de que ele se demora), o que a aliteração contribui. E se alguém achar que é bem feito o que foi retratado, coloquei uma coda com outras duas citações, da carta 3ª.

§

CARTA 4ª.

(...)
Passam, prezado amigo, de quinhentos
Os presos que se ajuntam na cadeia.
Uns dormem encolhidos sobre a terra,
Mal cobertos dos trapos, que molharam
De dia, no trabalho. Os outros ficam,
Ainda, mal sentados e descansam
As pesadas cabeças sobre os braços,
Em cima dos joelhos encruzados.
O calor da estação e os maus vapores
Que tantos corpos lançam, mui bem podem
Empestar, Doroteu, extensos ares.
A pálida doença aqui bafeja,
Batendo brandamente as negras asas.
Aquele Doroteu, a quem penetra
Este hálito mortal, as forças perde,
Tem dores de cabeça e, num instante.
Abrasa-se em calor, de frio treme.
Fazem os seus deveres os afetos
Do nosso grão tenente: amor e ódio.
Aquele que, risonho, lhe trabalha
Nas suas próprias obras, é mandado
Curar-se à Santa Casa, como pobre.
– Os outros são tratados como servos,
Que fogem ao trabalho dos senhores,
Para as correntes vão, arrancam pedra
E, quando algum fraqueia, o mau soldado
Dá-lhe um berro que atroa, a mão levanta
E, nas costas, o relho descarrega.
Ah! tu, piedade santa, agora, agora,
Os teus ouvidos tapa e fecha os olhos?
Ou foge desta terra, aonde um Nero,
Aonde os seus sequazes, cada dia
Para o pranto te dão motivos novos.
O fogo, Doroteu, que vai moendo
Depois de bem moer, a chama ateia
E a matéria consome, em breve instante.
Assim a podre febre que roía
Aos míseros enfermos, pouco a pouco
Erguendo, qual o fogo, a lavareda,
À força do cansaço que resulta
Do trabalho e do sol, consome e mata.
Uns caem, com os pesos, que carregam
E das obras os tiram pios braços
Dos tristes companheiros; outros ficam
Ali mesmo, nas obras, estirados.
Acodem mãos piedosas: qual trabalha
Por ver se pode abrir as grossas pegas
E qual o copo d’água lhes ministra,
Que, fechados os dentes, já não bebem.
Uns as caras borrifam, outros tomam
Os débeis pulsos que, parando, fogem.
Ah! não mais compaixão! Não mais desvelo!
O socorro chegou, mas foi mui tarde:
Cobrem-se os membros de um suor já frio,
Os cheios peitos, arquejando, roncam
E vertem umas lágrimas sentidas,
Que só lhes descem dos esquerdos olhos:
Amarela-se a cor, baceia a vista,
O semblante se afila, o queixo afrouxa,
Os gestos e os arrancos se suspendem;
Nenhum mais bole, nenhum mais respira
Assim, meu Doroteu, sem um remédio,
Sem fazerem despesas em um só caldo,
Sem sábio diretor, sem sacramentos,
Sem a vela na mão, na dura terra
Estes pobres acabam seus trabalhos.
(...)

§

CARTA 3ª.

(...)
Não pede, Doroteu, a pobre aldeia
Os soberbos palácios, nem a corte
Pode, também, sofrer as toscas choças.
Para haver de suprir o nosso chefe
Das obras meditadas as despesas,
Consome do senado os rendimentos
E passa a maltratar ao triste povo,
Com estas nunca usadas violências:
Quer cópia de forçados que trabalhem
Sem outro algum jornal, mais que o sustento
E manda a um bom cabo que lhe traga
A quantos quilombotas se apanharem
Em duras gargalheiras. Voa o cabo,
Agarra a um e outro e num instante
Enche a cadeia de alentados negros.
(...)
Não há, meu Doroteu, quem não se molde
Aos gestos e aos costumes dos maiores.
Brincando, os inocentes os imitam,
Se as tropas se exercitam, eles fingem
As hórridas batalhas. Se fazem
Devotas procissões, também carregam
Aos ombros os andores e as charolas.
Os mesmos magistrados se revestem
Do gênio e das paixões de quem governa.
(...)


William Zeytounlian e Castro Alves. Estrelando: o ódio antes e depois.


§

De O Navio Negreiro, V.

(...)

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!

(...)

§

De Confissão (1964-1985).

(...)

eu sou
o gozo.

eu sou
o gozo
atroz.

eu sou
o gozo
atroz e
inquieto.

eu sou
o gozo
atroz e
inquieto
do algoz;

do algoz
inquieto.

(...)


Meu reencontro com o poema épico Goyania (1896), de Manuel Lopes de Carvalho Ramos (1864-1911), talvez tenha sido pior que da primeira vez ― e olhem que dá primeira vez eu era um leitor amendobobo com poesia épica. Um poema cacetíssimo, pra usar a expressão antiga. Indianismo ralo, clichês a cada estrofe, ritmo pobre, descrições banais, efeitos camonianos de quinta, enredo previsível... Até o Prólogo é ruim: o cara começa se perguntando se o que ele imprime é um livro ou é um poema, pois, segundo ele, enquanto "poema" "é o coração e não a lei, é a alma e não a lógica", o "livro" seria bem o contrário ― e aqui ele inclui uma passagem meio irônica:

(...) alli [no poema] conversa-se com a natureza e como que apalpando-se-lhe as leis ― aqui [no livro] desenrola-se a cidade, que é o homem, sob um regimen social positivo.

Enfim: quem for um pouquinho mais experimentado com poesia épica e tiver um pouco de bom-senso poético fará bem em desistir bem do poema logo na primeira estrofe. Ele não serve nem como curiosidade histórica, pois, se o Pedro Ludovico tivesse seguido uma votação feita dois anos antes, o nome nem era pra ser Goiânia, mas Petrônia (aqui).

O máximo dos máximos que posso apontar no poema é que, por vezes, a variação da oitava rima pode ter ajudado, visto que o Manuel L. de Carvalho Ramos usa um esquema rímico ABBABACC e não o ABABABCC. Por exemplo (num pedaço de estrofe favorecido pela sorte e pelo cavalgamento),

Além d'aquelles negros, altos montes,
Sombras eu vejo de inimigos varios,
Que aos precipicios volvem mortuarios
Negrores, como em tristes horisontes.
(...)

Além, claro, do verso "Aquella vida á margem do impossivel" (na última estrofe do poema ― na última estrofe!), um bom verso que faz jus à estrutura camoniana (ou seja, isso de terminar de maneira melancólica ― embora, se fosse posto na boca do gigante Yêdra, que é uma cópia escarrada do Adamastor, quem sabe não desse dignidade a pelo menos umas 4 estrofes do poema...).





CIGARRA
Guilherme de Almeida
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

Lembro que Guilherme Gontijo Flores respondeu que esse terceto era o poema mais importante da língua portuguesa. Claro que a pergunta é 100% subjetiva e blábláblá (hoje eu tô com preguiça até de respirar). A justificativa está aqui.

Hoje, relendo, vi que esse terceto está próximo dum soneto do Alberto de Oliveira que, também pra mim, é um dos melhores poemas da língua. Pena que o parnasianismo seja lido de forma tão porca no Brasil e, de novo, blábláblá.

IRONIA.
Alberto de Oliveira.
De cima abaixo a lâmina brilhante
Da vidraça estalou. E o vidro, agora
Fendido ao meio, espia o céu cá fora,
Com o olhar partido em dois, pisco, hesitante...

Não sei o que secreto e lancinante
Ali se esconde, — alma talvez que chora
E num esgar se estorce aflita, embora
A serena aparência do semblante.

Brinca-lhe o sol à face, a aura lhe adeja,
E o vidro, sem que alguém lhe ouça um gemido
Ou o sofrer recôndito lhe veja,

Mudo, irônico, frio e incompreendido,
Cortando anavalhado a luz que o beija,
Parece estar-se a rir de estar ferido.

Tentando resumir o porquê achei que um poema está próximo do outro, além da imagem da vidraça rebrilhando e as aliterações combinadas de T e R (por exemplo "E num esgar se estorce aflita" ou "Parece estar-se a rir de estar ferido") que dão a ideia de algo trincando e quebrando, há (talvez) a alegoria do habitante da torre de marfim, melhor vista no poema do Alberto de Oliveira mas próxima da condição a que o Guilherme algumas vezes pareceu expressar (por exemplo com aquela lógica baudelairiana dele da mansarda no final do dia, ou alguns poemas dO Livro de Sal) ― só que revelando um ser humano por trás disso tudo quando, digamos, a torre vai ao chão ― quando a Tela Contemplada (pra me valer do título com que o Drummond fala do assunto da torre de marfim) é rasgada à maneira de Dorian Gray.

Afinal de contas, o parnasianismo brasileiro está entre aquilo que o Luís Augusto Fischer chamou de ressonância e dissonância. Que um poema como o Ironia desponte na obra de um poeta de quem selecionamos apenas aqueles dois sonetinhos dos vasos é significativo — é significativo pois o Ironia trata justamente do espatifar-se, do coração como ânfora quebrada que o Álvaro de Campos vai se referir décadas depois. Aí você observe, por exemplo, como o tema e o desejo da contenção era um verdadeiro embate e não necessariamente um dado apriorístico seguido à risca — pois sabemos, lendo de maneira minimamente séria (isto é, deixando de lado as sub-antologias que no geral só reforçam estereótipos), que o Mal Secreto do Raimundo Correia não funciona cem porcento na obra dele, em que ele deixa o pau comer e de forma visível, ou mesmo nos momentos mais atormentados do Olavo Bilac — e me refiro ao Bilac seja do Via Láctea, seja do Tarde, pois, a rigor, o Bilac que se encaixa na imagem redutora com que tratamos o parnasianismo é só o Bilac dos primeiros livros e olhe lá!...


O ano ainda não acabou, é correto, mas como não terei tempo pra ler muita coisa a mais, talvez no máximo uns 10 livros, minha lista de leituras em 2014 ficou:

  1. Ezra Pound -- Peter Ackroyd, trad. Eduardo Francisco Alves.
  2. Ernest Hemingway -- Anthony Burgess, trad. Sergio Flaksman.
  3. Linguística e poética -- Daniel Delas e Jacques Filliolet, trad. Carlos Felipe Moisés.
  4. Os Peãs -- Gerardo Mello Mourão.
  5. Formalistas Russos -- Vários, trad. Vários.
  6. A Beleza Difícil -- Gerard Manley Hopkins, trad. Augusto de Campos.
  7. Poética -- Ana Cristina César.
  8. Who's afraid of Virginia Woolf? -- Edward Albee.
  9. Poemas -- Konstantinos Kaváfis, trad. José Paulo Paes.
  10. La lirica esta muerta -- Ezequiel Zaidenwerg.
  11. Elegias de Duíno -- Rainer Maria Rilke, trad. Dora Ferreira da Silva.
  12. Ariel -- Sylvia Plath, trad. Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo.
  13. Five Modern No Plays -- Yukio Mishima, trad. Donald Keene.
  14. Invenção de Orfeu -- Jorge de Lima.
  15. Poemas -- W. H. Auden, trad. José Paulo Paes e João Moura Júnior.
  16. New selected poems and translations -- Ezra Pound, org. Richard Sieburth.
  17. Cartas de aniversário -- Ted Hughes, trad. Paulo Henriques Britto.
  18. Teoria da poesia concreta -- Irmãos Campos e Décio Pignatari.
  19. Invenção -- Arnault Daniel, Raimbaudt, Dante, Cavalcanti, trad. Augusto de Campos.
  20. Ulysses -- James Joyce, trad. Caetano Galindo.
  21. O Anticrítico -- Vários, trad. Augusto de Campos.
  22. A tradução literária -- Paulo Henriques Britto.
  23. Selected poems -- John Donne, org. John Hayward.
  24. Beppo: uma história veneziana -- Lord Byron, trad. Paulo Henriques Britto.
  25. As pequenas mortes -- Wesley Peres.
  26. Verso, reverso, controverso -- Vários, trad. Augusto de Campos.
  27. Vida -- Paulo Leminski.
  28. Byron e Keats: Entreversos -- Byron e Keats, trad. Augusto de Campos.
  29. Pagu: vida-obra -- Augusto de Campos.
  30. Da morte. Odes mínimas -- Hilda Hilst.
  31. Linguaviagem -- Mallarmé, Valéry, Keats, Yeats, Blok, trad. Augusto de Campos.
  32. The Complete Poems of Emily Dickinson -- Emily Dickinson, org. Rachel Wetzsteon.
  33. Os versos da morte -- Hélinand de Froidmont, trad. Heitor Megale.
  34. Poesia / Pois é / Poesia -- Décio Pignatari.
  35. Análise estrutural da narrativa -- vários, trad. Maria Zélia Barbosa Pinto.
  36. Uma superfície de gelo ancorada no riso -- Hilda Hilst, org. Luisa Destri.
  37. O poeta da vida moderna: história e literatura em Baudelaire -- Marcos Antonio de Menezes.
  38. Vanguarda e subdesenvolvimento -- Ferreira Gullar.
  39. Inimigo Rumor, n. 20 -- Vários.
  40. Poems -- Vladimir Maiakóvski, trad. Dorian Rottenberg.
  41. T. S. Eliot -- Northrop Frye, trad. Elide-Lela Valarini.
  42. Purgatório -- Dante Alighieri, trad. Italo Eugenio Mauro.
  43. Inimigo Rumor, n. 18 -- Vários.
  44. Uma questão de princípios -- Ronald Dworkin, trad. Luís Carlos Borges.
  45. Obra aberta -- Umberto Eco, trad. Giovanni Cutolo.
  46. Interpretação e superinterpretação -- Umberto Eco, trad. MF.
  47. Lector in fabula -- Umberto Eco, trad. Ricardo Pochtar.
  48. O que é comunicação poética -- Décio Pignatari.
  49. Os limites da interpretação -- Umberto Eco, trad. Pérola de Carvalho.
  50. Literatura: mundo e forma -- Massaud Moisés.
  51. História da história em quadrinhos -- Álvaro Moya.
  52. Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses -- Sonia Bibe Lyuben.
  53. Delícias do crime: história social do romance policial -- Ernest Mandel, trad. Nilton Goldmann.
  54. Quadrinhos e arte sequencial -- Will Eisner, trad. Luis Carlos Borges.
  55. Bakhtin: conceitos-chave -- Vários, org. Beth Brait.
  56. Infância e linguagem -- Solange Jobim e Souza.
  57. Paródia, paráfrase & cia -- Afonso Romano de Sant'Anna.
  58. Um retrato do artista quando jovem -- James Joyce, trad. Elton Mesquita.
  59. A angústia da influência -- Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita.
  60. Conto da ilha desconhecida -- José Saramago;
  61. Los fundamentos de los derechos fundamentales -- Luigi Ferrajoli.
  62. O fim dos direitos humanos -- Costas Douzinas, trad. Luíza Araújo.
  63. Os direitos humanos como tema global -- Jose Augusto Lindgren Alves.
  64. A era dos direitos -- Norberto Bobbio, trad. Carlos Nelson Coutinho.
  65. O demônio da teoria -- Antoine Compagnon, trad. Cleonice Paes e Consuelo Santiago.
  66. Introdução à linguística, v. 3 -- Vários.
  67. Arte contemporânea: uma introdução -- Anne Cauquelin, trad. Rejane Janowitzer.
  68. Ferreira Gullar: a busca da poesia -- Maria Zaira Turchi.
  69. Estética relacional -- Nicolas Bourriaud, trad. Denise Bottman.
  70. Pós-produção -- Nicolas Bourriaud, trad. Denise Bottman.
  71. Everyday Aesthetics -- Katya Mandoki.
  72. Gramática pedagógica do português brasileiro -- Marcos Bagno.
  73. Anatomia da Crítica -- Northrop Frye, trad. Marcus de Martini.
  74. Crítica literária -- Wimsatt, Cleanth Brooks, trad. Ivette Centeno e Armando de Morais.
  75. Vida e morte da imagem -- Régis Debray, trad. Guilherme Teixeira.
  76. A visão em paralaxe -- Slavoj Zizek, trad. Beatriz Medina.
  77. Em defesa das causas perdidas -- Slavoj Zizek, trad. Maria Beatriz de Medina.
  78. Modernidade líquida -- Zygmunt Bauman, trad. Plínio Dentzien.
  79. Modernidade e ambivalência -- Zygmunt Bauman, trad. Marcus Penchel.
  80. 20 poemas para seu walkman -- Marília Garcia.
  81. Engano geográfico -- Marília Garcia.
  82. tambores para n'zinga -- Nina Rizzi.
  83. O que é o virtual? -- Pierre Lévy, trad.Paulo Neves.
  84. Cultura de interface -- Steven Johnson, trad. Maria Luiza Borges.
  85. Poemas -- Wallace Stevens, trad. Paulo Henriques Britto.
  86. The necessary angel and other essays -- Wallace Stevens.
  87. Things merely are: philosophy in the poetry of Wallace Stevens -- Simon Critchley.
  88. História da literatura brasileira, vol. I -- Massaud Moisés.
  89. História da literatura brasileira, vol. II -- Massaud Moisés.
  90. Collected sonnets -- Edna St. Vincent Millay.
  91. O Arco e a Lira -- Octavio Paz, trad. Ari Roitman e Paulina Wacht.
  92. História concisa da literatura brasileira -- Alfredo Bosi.
  93. Mímesis e modernidade -- Luiz Costa Lima.
  94. História. Ficção. Literatura. -- Luiz Costa Lima.
  95. A verdade da poesia -- Michael Hamburger, trad. Alípio Correia de Neto.
  96. Brasa enganosa -- Guilherme Gontijo Flores.
  97. Maldoror and Poems -- Comte de Lautréamont, trad. Paul Knight.
  98. Formação da literatura brasileira -- Antonio Candido.
  99. Vários escritos -- Antonio Candido.
  100. O discurso e a cidade -- Antonio Candido.
  101. Brigada ligeira e outros escritos -- Antonio Candido.
  102. Na sala de aula -- Antonio Candido.
  103. Humildade, paixão e morte -- Davi Arrigucci Jr.
  104. O redemunho do horror -- Luiz Costa Lima.
  105. A poesia em Goiás -- Gilberto Mendonça Telles.
  106. Metalinguagem e outras metas -- Haroldo de Campos.
  107. A arte no horizonte do provável e outros ensaios -- Haroldo de Campos.
  108. O arco-íris branco -- Haroldo de Campos.
  109.  Xadrez de estrelas -- Haroldo de Campos.
  110. Hermenêutica jurídica e(m) crise -- Lenio Streck.
  111. Os hinos à noite -- Novalis, trad. Fiama Hasse Pais Brandão.
  112. Macunaíma -- Mário de Andrade.
  113. Morfologia do Macunaíma -- Haroldo de Campos.
  114. Um mestre na periferia do capitalismo -- Roberto Schwarz.
  115. O tupi e o alaúde -- Gilda Mello e Souza.
  116. Verdade e consenso -- Lenio Streck.
  117. O cosmopolitismo do pobre -- Silviano Santiago.
  118. Introdução à poética clássica -- Segismundo Spina.
  119. A lírica trovadoresca -- Segismundo Spina.
  120. História da literatura polonesa -- Henryk Siewierski.
  121. Aspectos da literatura brasileira -- Mário de Andrade.
  122. Informação. Linguagem. Comunicação -- Décio Pignatari.
  123. História das teorias da comunicação -- Armand e Michèle Mattelart.
  124. Nominata Morfina -- Fabiano Calixto.
  125. Um teste de resistores -- Marília Garcia.
  126. Lira do Lixo -- Adriano Scandolara.
  127. O gênio não-original -- Marjorie Perloff, trad. Adriano Scandolara.
  128. Poética em ação -- Roman Jakobson, org. João Alexandre Barbosa.
  129. Lira e antilira -- Luiz Costa Lima.
  130. Da poesia à prosa -- Alfonso Berardinelli, org. Maria Betânia Amoroso.
  131. Crítica da razão pura -- Immanuel Kant, trad. Valério Rohden e Uldo Baldur Moosburger.
  132. Diante da dor dos outros -- Susan Sontag, trad. Rubens Figueiredo.
  133. Agaisnt Theory -- Susan Sontag.
  134. Introdução à semanálise -- Julia Kristeva, trad. Lucia Helena França Ferraz, ed. antiga.
  135. O pacto autobiográfico -- Philippe Lejeune, trad. e org. Jovita Maria Gerheim Noronha.
  136. Magia e técnica, arte e política -- Walter Benjamin, trad. Sergio Paulo Rouanet.
  137. Literatura e sociedade -- Antonio Candido.
  138. The wheel of fire -- Wilson Knight.
  139. Differentials: poetry, poetics, pedagogics -- Marjorie Perloff.
  140. A passagem do três ao um -- Leopoldo Waizbort.
  141. As cidades invisíveis -- Italo Calvino, trad. Diogo Mainardi.
  142. A handbook of critical approaches to literature -- Vários.
  143. Pierce-Arrow -- Susan Howe, trad. Antonio Sergio Bessa.
  144. O mundo codificado -- Vilém Flusser, org. Rafael Cardoso, trad. Raquel Abi-Sâmara.
  145. GEN: Um Sopro de Renovação em Goiás -- Moema de Castro.
  146. A casa -- Heleno Godoy.
  147. A ti, Áthis -- Yêda Schmaltz.
  148. Peixe-Nauta -- Yêda Schmaltz.
  149. Os poetas -- José Paulo Paes.
  150. Gregos & baianos -- José Paulo Paes.
  151. Prosas seguidas de odes mínimas -- José Paulo Paes.
  152. A luta pelo Direito -- Rudolf von Ihering, trad. João Vasconcelos.
  153. Estética da criação verbal -- Mikhail Bakhtin, trad. Paulo Bezerra.
  154. Writings: 1923-1946 -- Gertrude Stein.
  155. Complete poetry and prose -- Wallace Stevens.
  156. Ensaios reunidos, v.1 -- Otto Maria Carpeaux, org. Olavo de Carvalho.
  157. Pulphead -- John Jeremiah Sullivan, trad. Daniel Pellizzari e Chico Mattoso.
  158. Antologia de poesia portuguesa: século XVI -- org. Sheila Moura Hue.
  159. Filosofia da caixa preta -- Vilém Flusser.
  160. Elevador -- Gabriel Resende dos Santos.
  161. Lero-Lero -- Cacaso.
  162. Essays and Reviews -- Edgar Allan Poe.
  163. Teorias da Cultura de Massa -- Vários, org. Luiz Costa Lima.
  164. Antropologia da Comunicação Visual -- Massimo Canevacci, trad. Alba Olmi.
  165. O cacto e as ruínas -- Davi Arrigucci Jr.
  166. Evocações -- Cruz e Sousa.
  167. Goyania -- Manuel Lopes de Carvalho Ramos.
  168. Florilégio da poesia brasileira, vol. I -- F. A. Varnhagen.
  169. A elegia erótica romana -- Paul Veyne, Milton Meira e Maria das Graças Souza.
  170. Crítica da faculdade do juízo -- Immanuel Kant, trad. Valério Rohden e António Marques.
  171. Walter Benjamin: aviso de incêndio -- Michael Lowy, trad. Vanda Nogueira Caldeira Brant.
  172. O trabalho da citação -- Antoine Compagnon, trad. Cleonice P. B. Mourão.
  173. Seleta de prosa -- Manuel Bandeira.
  174. Geografia íntima do deserto -- Michelinny Verunschk.
  175. Monodrama -- Carlito Azevedo.
  176. On photography -- Susan Sontag.
  177. A Semana (1892-1893) -- Machado de Assis.
  178. Chronicas, 4º volume (1878-1888) -- Machado de Assis.
  179. O menino experimental -- Murilo Mendes, org. Affonso Romano de Sant'Anna.
  180. Comédias da Vida Pública -- Luis Fernando Verissimo.


Os cinco melhores do ano:

  1. Pulphead, John Jeremiah Sullivan.
  2. Nominata Morfina, Fabiano Calixto.
  3. Literatura e sociedade, Antonio Candido.
  4. O mundo codificado, Vilém Flusser.
  5. O tupi e o alaúde, Gilda Mello e Souza.

1 especialmente pelo custo-benefício e pela surpresa. Já estava em minha lista de leituras, só que era daquele tipo de livro que apodreceria por lá sem problema algum. Até que o descubro por 12 dilmas na FNAC e me encanto. A perícia técnica e a profundidade do pensamento, este último especialmente advindo da forma como Sullivan arma as situações (por exemplo, contar a história de seu irmão que foi eletrocutado num show com sua banda, ficando em coma por um tempo e depois apresentando um comportamento esquisitíssimo — isso é realizar uma reflexão esplêndida sobre a tenuidade da vida e da própria morte): não tenho dúvidas em dizer que foi o melhor livro do ano.

2 por termos um poeta, um livro que, prometo pra vocês, será comentado com mais tardar e da forma como merece. Posso dizer, por hora, que temos uma experiência estética completa e vasta. Se você quer delicadeza lírica, vai encontrar, mas se quer o lado mais escatológico da coisa, também vai encontrar. O livro pode te fornecer momentos pés no chão, ou pés fincados, bem fincados na merda, até momentos de surrealismo puro. Isso tudo explorando a forma do poema em prosa, que praticamente não grassou em nossa literatura (e certo modo em literatura alguma), e que é usado de forma inteligente, isto é, a forma poema em prosa é trabalhada e elevada ao nível de fonte semântica.

3 talvez sendo a obra central de Antonio Candido. A visão extremamente lúcida do nosso maior crítico é exposta com elegância e clareza. Uma literatura como sistema, união funcional de escritores, meios de reprodução, leitores, críticos... Candido dificilmente poderia ser mais claro. E contudo, ainda hoje existe um ranço de incompreensão para o que Candido disse que, olha, vou te contar, viu!... É um tal de querer reduzir seu método a um método puramente sociológico que só vendo. Além disso, Candido consegue expôr uma espécie de micropanorama da literatura nacional, cobrindo períodos como o Colonial e períodos como o de 1900 a 1945. Ao lado do Formação, um livro imprescindível, não tenham dúvidas ― e com custo-benefício melhor.

4 pois Flusser mal entrou e já se tornou meu filósofo preferido. Nem tanto por suas ideias, que a mim, leitor um tanto quanto raso de filosofia, me parecem muito bem postas e sólidas, mas pela forma como as expõe. Claro. Didático. Límpido. O mundo seria um lugar melhor se todos tivessem a consciência estilística de Flusser, capaz de gerar, no mínimo, um genuíno prazer na leitura, vejam só vocês, de Filosofia!

5. 5, destacando dele mais uma vez a solidez e a elegância com que a tese é defendida. O estilo de escrita é maravilhoso. A forma como Gilda analisa o argumento de Haroldo de Campos é exemplar, ou seja, ela consegue imergir muito bem nas ideias expostas e justamente por isso finca seus próprios argumentos de maneira honesta e aberta ao diálogo.

Você pôde perceber que um dos critérios norteadores na minha escolha foi justamente isso de escrever como gente. Não de sair por aí com um hermetismo de meia-tigela que afunda livros realmente bons. A meta do estilo é um ponto nevrálgico para a persistência crítica. E não falo isso só hoje em dia não. Talvez tenha uma urgência maior hoje, em que a crítica se vê aprisionada na gruta universitária. Digo muito mais no sentido de que a comunicabilidade, isto é, a possibilidade de que quem leia consiga entender, nice and easy, o que você disse e ouso até dizer que se anime a comentar, a se expressar também — uma espécie de base cronística para a crítica, naquilo da crônica ser um gênero tão gostoso de ler que dá até vontade de escrever — este é o Santo Graal. Este, meus amigos, é o Santo Graal.

Contemplemos.

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