"A fala e a folha", de Marcus Fabiano Gonçalves.

Minha segunda pedra de tropeço abordou um pouco a poesia de Marcus Fabiano Gonçalves. Na ocasião, disse que poucos têm trabalhado com tanta felicidade o tema do ser humano e seu meio quanto o autor. Podemos observar com uma profundidade até boa o que quis dizer se lançarmos um olhar no poema A fala e a folha.

O que até as anteninhas mais desatentas podem captar é um panorama e uma análise sobre as disparidades entre a poesia escrita e a poesia falada. Mas olhe, leitor, veja bem: não tenho como objetivo nem de longe reencetar a discussão, de modo que, caso você queira realmente se embrenhar no campo, você pode ir de encontro a estudos como os de Paul Zumthor bem como às pesquisas, em solo nacional, de autores como Augusto de Campos, José Paulo Paes ou Antonio Cicero. De Augusto, por exemplo, há que se dar um passo além daquela pergunta tantas vezes repetida, com uma insistência digna de questionamento, sobre o se letra de música é poesia ― dar um passo além e chegar àquela investigação do material verbal em sua dimensão "verbivocovisual" (neologismo de Joyce pegado de empréstimo pelos concretistas).

Ou ainda, caso o leitor queira uma exposição mais sucinta e nem por isso menos válida, O poeta verbivocovisual & multimedievalaqui. Destaco, por exemplo,

Se o desenvolvimento tecnológico ofereceu por séculos apenas a escrita e o papel como métodos de registro do poema, levando-nos a confundir esta forma de registro com a essência do poético (ainda que isto tenha dado ao mundo trabalhos maravilhosos), a era digital oferece hoje novas alternativas. Que o poeta encontre sua voz, mas não como se fala sobre "o poeta que encontrou sua voz", como estilo de escritura, ou seja, como forma particular de obliterar a própria voz. Não se trata, tampouco, de defender o relapso e mal-escrito, que se tenta compensar em "performances“ que são meras leituras tacanhas e declamativas de textos romanticóides, mal escritos, como acontece muito no Brasil, muito distante do que Zumthor chamava de poeta-intérprete, por exemplo, que tem um exemplo tão poderoso na interpretação de Billie Holiday para um poema literariamente limitado como "Strange fruit", que não funciona como Literatura, no papel, mas que em seu corpo se transforma em poesia, através da voz e da performance.

A análise de Domeneck da poesia de Björk merece atenção, especialmente se tomarmos como base uma obra como All is full of love, que virá muito a calhar para que falemos do poema de Marcus Fabiano. O clima futurista e esse digladiar-se frente ao robótico não estão aqui para que se concretize uma espécie de ficção científica à maneira dos cupons dourados, mas sim, pelo contrário, que se consiga enxergar seu próprio tempo com uma profundidade quase que microscópica, desintegradora, até a medula onde o que é presente fornece as bases para o que é futuro. Trata-se, sem dúvidas, do que a melhor literatura de ficção científica é capaz de fazer: por exemplo Asimov e sua preocupação com o desenvolvimento da inteligência artificial, quem sabe aquele ponto em que, para dizer com Harold Bloom, a robótica invente o ser humano, ou seja, robôs que, assim como as personagens shakespearianas, aprendam com seus erros, aprendam consigo próprios.

Mas deixemos Björk na geladeira um pouco. O poema de Marcus Fabiano é, como se pode observar, não só uma investigação a princípio teórica da fenda existente entre a folha e a fala, entre o texto escrito e o texto falado, mas é também uma investigação histórica em tudo o que esse mesmo histórico possui de material. Aqui podemos perfeitamente aportar na tese marxiana do materialismo histórico, ou, caso o leitor possua algum arrepio quanto a isto, pode-se simplesmente enxergar o processo histórico de uma maneira mais realista e não exclusivamente dependente de uma espécie de fantasmagoria d'ampulhetas. É quando o autor diz, por exemplo:

       o branco olvida, o pergaminho eterniza
       o dialeto meteco, a tradução peregrina

       o depoente alega, o escrivão certifica
       o tribuno improvisa, o assessor requinta

Formalmente, a divisão em dois versos, cada qual com uma divisão interna, favorece a binaridade e assinala com maior força a fenda existente entre uma banda e outra. Todavia, como notei também na segunda pedra de tropeço, essa fenda existente no cerne do texto é trabalhada num âmbito dialético ou simplesmente insolvível, posto que pode representar tanto uma descontinuidade como uma continuidade que, em determinado momento, deve passar por um buraco. Um salto sináptico à maneira da recorrência dentro do código computacional binário. Ou, ainda dentro da ideia de recorrência, pode retratar um recomeço, se nos lembrarmos que entre as estrofes existe um fio histórico que lhes perpassa, ou se constatarmos simplesmente o caso de cavalgamentos dentro do poema, dentre os quais o caso da estrofe

       a testemunha jura, o falsário assina
       quem se degola, o que vira cinza

me parece ser o mais ilustrativo. Afinal de contas, é Marcus Fabiano quem, recentemente, faz um dos textos mais consistentes acerca do ritmo poético, incluso em seu blog pessoal: Ritmo: Tempo e Movimentoaqui. Destaco:

Todavia, a verdade é que a alta consciência do ritmo poético trará sempre consigo a vitalidade de um reenvio temporal na sua definição mesma de linha escrita, ainda hoje chamada verso, palavra que se origina do latim versare: voltar, retornar. Esse tornar é o giro que somente ocorre na circularidade, isto é, na curva que reconduz o outro ao mesmo até que, na longa reiteração desse movimento, perceba-se a força (re)vigorante do de novo, algo capaz de alimentar a noção de espera como expectativa de um vir a ser ao qual não somos mais indiferentes e para o qual já ousamos direcionar a percepção intencional de um dever ser. Logo, não constitui nenhum exagero dizer que a consciência do ritmo colaborou intensamente com a construção de nossa própria ideia de futuro.

O retornar é sem dúvidas favorecido pela rima parcial que percorre o poema, bem como na semelhança fônica fundada nas aliterações e assonâncias entre as palavras, em especial a vogal I. Se se pode pensar numa espécie de simbologia para tal recorrência fônica, confesso que me é difícil imaginar. Tomo como base o que Olavo Bilac e Guimaraens Passos abordam em seu Tratado de Versificação: a de que a vogal I dá a ideia de afinamento, de diminutivo. Como se o cerco fosse se fechando, o que a inclusão do poema num livro denominado Arame Falado tem o que dizer.

Mas, voltando, estava dizendo sobre os movimentos existentes entre as duas bandas que percorrem o poema. Pois bem. Tal dualidade é tão poderosa que só pode ser resolvida ou convivida (o que julgo mais acertado) se nos inscrevermos no espaço que o poema promove. É basicamente o mesmo caso de Transcaatinga, posto que o instituir uma fenda, ou o constatá-la, anda rente ao caminho que nossos pés inventarão. Talvez como se o objetivo final do poema fosse o de dizer que o que realmente separa a fala da folha seja um ser humano, uma espécie de divisor de águas natural num poema que consegue se fazer tão antropológico. Claro que uma afirmação assim parece um truísmo, pois que poesia não é antropológica? Todavia, nem toda poesia se propõe a uma análise tão sutil e tão bem realizada acerca da construção do humano quanto a do poema de Marcus Fabiano. E essa ênfase acaba adquirindo um aspecto peculiar, posto que não existem tantos seres humanos na superfície do poema, e os que existem são comumente postos ao lado de objetos inanimados ou numa construção geral que, repetida, mecanizada, tende a pôr tudo num mesmo saco de farinha, o que sem dúvidas é um efeito muito interessante por parte do autor: veja a estrutura geral do poema, mais uma vez com raras exceções, como sendo a de um artigo definido seguido de um substantivo e um verbo. Trocando em miúdos, uma estrutura frásica elementar que, encadeada de maneira vasta, conforme dito, nos fornece um belo dum panorama histórico onde, sem ressaltar subjetividades, o autor esmiúça, como disse, a construção disso que se pode chamar de perpetuar as experiências humanas graças à voz e ao texto que, juntos e cada qual nos seus balaios, transmitem aos outros e aos pósteros o que em tese deveria se encerrar em nós.

Aqui podemos chegar ao que julgo sendo o pulo do gato do poema. O fato de Marcus Fabiano tê-lo posto pra ser lido por uma voz robótica. Não estamos diante do caso de um cavaloDADA que, com poderosa habilidade, consegue resultados sonoros maravilhosos apenas com base na sua própria voz (a não ser que estejamos falando do cavaloDADA de Z de Zero). O que existe no poema de Marcus Fabiano, e isso a nota inicial nos diz com clareza, é uma busca por uma voz artificial que se aproxime da voz humana. Que não seja tão excessiva.

Logo, um engano que convença.

Claro que isso só é conseguido até determinado ponto. O fato de ser uma voz de GPS possui lá seus significados, e eu realmente duvido que o autor não tenha no mínimo parado pra pensar nisso ― por exemplo, o fato de ser um poema basicamente substantivado e, por isso mesmo, basicamente caótico. O fato do avatar ser o de um robô na postagem do poema pelo site do SoundCloud também possui seus significados. Mas, principalmente, o fato de ser uma voz robótica num poema que acaba andando mais uma vez numa fenda: a fenda entre o robô e o ser humano, entre o artificial e o humano (ou, quem sabe, pra formular de maneira nietzschiana, entre um humano e um demasiado humano).

Seria uma paródia daqueles que ficam macaqueando que poesia oral não é poesia ― ou, quando até aceitam que é, passam vistas largas na mesma? É possível. Pode ser também uma forma de demonstrar a necessidade da poesia oral, um "veja só a caca que pode dar se substituíssemos por um robô". Pode ser uma espécie de leitura coerente com a mecanização formal que o poema apresenta, visto que um robô vai ler de maneira impassível e matematicamente guiada aquele determinado poema, e, de fato, se o leitor observar o espectro de som do poema pelo SoundCloud, vai ver que temos algo quase que uniforme.

Mas pode também ressaltar a necessidade, pode ressaltar aquele ser humano no meio da fenda e certamente causador da fenda que me referi. Aquela relação entre ser humano e seu meio. Pode, à guisa da pesquisa profunda de Björk das possibilidades mecânicas da arte, subverter um instrumento tido como frio num texto poético, isto é, num texto que se vale do instrumental para ir de encontro ao espetacular. É algo que acaba me lembrando da recente produção japonesa de A Metamorfose de Kafka, tendo como protagonista um simpático robô: aqui. Essa face humanizada num fundo mecânico é com certeza um desenvolvimento do visual robótico de um filme como I, Robot (2004) ou Robocop (1987), mesmo porque sabemos bem que a face humana é uma fonte de empatia inesgotável, e que um corpo sem face perde em grande parte aquilo que identificamos como humano.

Afinal, dentre as várias cisões identificáveis no poema A fala e a folha, podemos ir além das possibilidades do surgimento da escrita (a esse respeito, fiquemos com o autor: "A tecnologia da escrita inventa a longa transmissão e a virtualidade da memória, potencializa o recurso ao passado e desencadeia uma nova e extraordinária aventura interpretativa que influirá sobre as maneiras de se imaginar o próprio futuro a partir das ideias de acúmulo e de experiência") frente à efemeridade da fala ― podemos ir além disso e passar a enxergar aquele convite até hoje perene na poesia do autor, isto é, o que disse do meio a meio entre o ser humano e seu meio. O leitor pode ver isso num exemplo que é, superficialmente, o negativo de A fala e a folha: O bisonte de Altamiraaqui. Pôr-se a interpretar o bisonte de Altamira, como pôr-se a investigar a fenda de inscrição da fala e da folha ao longo dos séculos, não é simplesmente chegar a um resultado como que científico, embora tanto um poema quanto outro comuniquem-se com tais propostas; é essencialmente a busca de um olhar humano frente a um ambiente acima de tudo humano. Pois, acerca disso, podemos inscrever o poema de Marcus Fabiano dentro de uma linha de força paralática na poesia contemporânea, onde, conforme estudado por Slavoj Žižek, a mínima distância de um objeto é entre ele e sua inscrição no mundo; as perspectivas advindas de nossa contemplação não podem ser resumidas numa só; e o ato de se observar algo é fundamentalmente o ato de que eu inscreva minha pessoalidade naquele mesmo objeto, como se passasse a existir um ponto cego ou uma mancha (leia-se: o meu olhar mancha) sobre aquele objeto incômodo.

E esta porta aberta, que se espraia na produção de autores como Adriano Scandolara, Eduardo Lacerda ou Dirceu Villa (e com Dirceu, especialmente o Dirceu de O Cutelo combinado ao Drummond de Um Boi vê os Homens, podemos criar um forte paralelo com O bisonte de Altamira), eu deixo aberta pra depois.

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