Banzando VII.



Nos 70 anos de Leminski,

(...) A mundividência sofre melhoramentos de natureza burocrática e administrativa. Fision, inflecte: mané, chique, xeque-mote! O jogo do monjolo é tiro e queda em Fulanoscronstropa! Trato assíduo com vernáculos envilece o ânimo, o vilipendio dos postulados da prosódia duz direito à postergação dos ditames da recta ratio! Erro de mestre, engano magistroso! Favor fazer de conta corrente que posso proporcionar quantos quiseres que cometa para agires de modo muito mais simplesmente só! Eis o que é isso: cada eu tem jeito particular de se arranjar para não dizer nada. (...)

Paulo Leminski, Catatau, mais ou menos página 58 (li o livro num pdf não muito confiável...). Não dá pra explicar o contexto em que a citação foi tirada. O Catatau é basicamente um monólogo de Descartes (ou Cartésio) vindo pro Brasil a convite do Nassau com apenas uma luneta e um cachimbo de maconha ― é ele todo o Cartésio esperando o oficial da Companhia das Índias Ocidentais chamado Artyczewski para que o Artyczewski consiga explicar o que diabos é o Brasil. Além deles dois, há também uma versão ao avesso do Occam (aquele, da navalha de Occam, da Lei da Parcimônia, isto é, as explicações mais simples sempre são preferíveis) que aparece em determinados momentos na narrativa e, à maneira das thunderwords no Finnegans Wake, embaralha o pensamento do Cartésio (visto que a navalha de Occam, no livro do Leminski, funciona no reverse).

E "só".

Entre aspas pois, do ponto de vista da macroestrutura, o Catatau funciona basicamente como o contraponto entre a lógica de dominação europeia e a realidade das terras brasileiras, revelando aquele descompasso que o Sérgio Buarque de Holanda abre o Raízes do Brasil afirmando: sempre fomos desterrados em própria terra. Particularmente, gosto muito de ver Beckett no livro, em especial se nos lembrarmos da situação de espera postergada e resultante em inútil (spoiler?) e se nos lembrarmos do poema Whoroscope ("Caralho te torô", numa tradução criativa), em que o Beckett cria um monólogo de Descartes frente a um ovo que lhe fora servido. Em termos gerais, creio que podemos dizer que o poema do Beckett expõe o cansaço da lógica: "What's that? / How long? / Sit on it." Daí, entre outros, o paralelo que gosto de fazer.

Sobre o trecho que selecionei, como disse, não tem como explicar contexto. Há algumas páginas atrás o nome do Occam aparece: "Occam é lamentável." O Cartésio está pensando em muitas pessoas e, por conseguinte, pensando na questão dos nomes ("Identifiquei tantos que sei por nome (...)"). Mas chega à conclusão:
A quanto mais derradeiras tanto tão nunca ouvidas as palavras quão impossivelmente iguais! O extremo dos extremos é arrevesso do lado externo, aí começa o espírito.
E, linhas depois, a passagem transcrita acima. A razão de escolha? A razão de escolha: ela é o mais próximo que pude encontrar de uma alfinetada ao senso comum jurídico que, embora não especificamente ao pensamento jurídico (o raciocínio geral seria: pessoas → nomes → espírito → Ordem [religiosa] → burocracia → etc), acaba abordando pelo menos um dos aspectos mais nojentos dele: a falsa erudição, esse "Dilatado corpo por distenso tempo [que] alastra a duração que promove, e ora explui [versão arcaica de explodir]."

Não sei quanto a vocês, mas, pelo menos pra mim, Leminski foi preciso como um golpe preciso de judô.




Nos 125 anos de Cora Coralina,

Não tenho nenhum livro dela ao alcance das mãos. Estou me valendo do Google, basicamente, o que é uma pena, pois o que geralmente avulta na poesia da Cora é uma metamorfose barata de uma espécie de auto-ajuda sofisticada. Nenhum problema quanto a isso, uma vez que, considerando uma tradição relativamente bem assentada de literatura memorialística em nosso país, que vai do kitsch de Casimiro de Abreu a Lima Barreto, Visconde de Taunay, Joaquim Nabuco, Raul Pompéia e passando, no século passado (marcado a ferro e fogo por Proust/Bergson), pelos momentos mais áureos do Bandeira, o ciclo autobiográfico do Drummond, a dialética indivíduo-sociedade no Poema Sujo do Gullar, a revolução copernicana do Pedro Nava, os momentos específicos de romancistas como Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, a estrutura solida do Memória e Sociedade da Ecléa Bosi, a metamorfose épica do Jorge de Lima bem como seu primo-poundiano injustamente esquecido Gerardo Mello Mourão, as reentrâncias ainda-por-explorar da Ana Cristina César, a exclusão literária sem justificativa alguma da narrativa pungente da Carolina Maria de Jesus etc ― considerando tudo isso, e considerando ainda o contexto em que a Cora se formou, pois, a rigor, ela não começou literalmente a escrever com 70 e tantos anos; na verdade, alguns críticos, quando a Cora tinha 20 e poucos, já a apontavam como a maior voz lírica da época, o que, diz Gilberto Mendonça Telles (e eu concordo), era um exagero ― considerando o contexto em que ela se formou escritora, vale dizer, considerando a poesia de contemporâneos, especialmente a da Leodegária de Jesus, amiga pessoal da Cora, é evidente que a poesia da Cora só pode ser posta ao lado da produção do Hugo de Carvalho Ramos, pra não expandir ainda mais o círculo de inscrição e dizermos que, na época em que esteve ativa (década de 70 e 80), ela era sem dúvidas uma das vozes mais consistentes da poesia nacional.

Certo. Não devemos esquecer, contudo, que a Cora não se resume a isso, visto que, como intitula Clovis Carvalho Brito, sua poesia é marcada por um protagonismo das margens (aqui), por uma estética dos becos (aqui). Assim, transcendendo o lírico-memorialista, não espanta que a Cora alcance o gênero épico (no sentido poundiano de que o épico é aquele que inclui a História) e, por conseguinte, não só dê uma fotografia fidedigna e pronta-pro-álbum do que passou, mas dê, de modo ainda mais amplo, um retrato das vicissitudes de seu tempo, o que implica uma mulher incomodada e não acomodada ― a imagem dócil da doceira pacata, é exato, mas da dócil doceira pacata que dá voz à vida mera das obscuras. E não por isso a poesia da Cora possui uma vitalidade um tanto quanto inusitada no panorama de nossa poesia, que vai do fato pequeno de se valer dum eu lírico idoso (algo via de regra tão raro de acontecer quanto um eu lírico infantil: geralmente o que ocorre é um eu lírico adulto que se lança sobre ambas as épocas) até o fato dela conseguir chegar às raias do universalismo próprio da grande poesia (à guisa dum projeto whitmaniano).

Portanto, peço desde já desculpas por estar postando um pedaço de poema. São alguns trechos do Cântico de Dorva, onde uma faceta sexual da Cora desponta com grande vitalidade. Existem outras passagens análogas na obra da poeta, como no caso de Evém boiada, que retrata uma castração, ou um poema como Rio Vermelho, onde a menstruação se imiscui no aborto, e até aqueles poemas tidos como inofensivos ou lidos para se ressaltar a mulher de bons costumes, estátua de cera, que a Cora teria sido: me refiro aos momentos eróticos do famoso Oração do Milho (vide a passagem da boneca de milho) ou a eroticidade latente no O cântico da terra.

Fiquem, sendo assim, com o trecho. Retirado do texto O erotismo na obra de Cora Coralina (aqui), de Iêda Villas-Bôas.

§

                (...)

            V.

     Geme o sarilho no poço. 
     Tibum... a lata vem cheia d’água. 
     Vai ensaboando, 
     Vai cantando: 
     laranja da china 
     limão bravo, cana doce 
     se encontra aqui 
     se encontra acolá. 
     Pra dá, pra vendê 
     pra quem quisé 
     pra quem passá. 
     Se dá fogo, se dá água 
     Não pode negá. 
     A cantiga de Dorva 
     alta, gritada 
     Bramido de fêmea – 
     apelo enfeitado. 

            VI.

     É meio-dia; a sombra está marcando. 
     O sol num desafio de luz 
     fustiga a poeira da estrada. 
     Silêncio no sítio. 
     Um galo canta longe. 
     Distante, um corno de ponteiro. 
     Boiadeiro vem vindo devagar... 
     Os homens lá no eito 
     relanceiam enxadas. 
     O milharal chama Dorva. 
     O cheiro da terra chama. 
     O arrozal tem seus ninhos 
     Chamando Dorva. 
     Um assovio fino, espraiado 
     fere Dorva. 
     Larga a roupa, deixa a tina. 
     Torce o vestido mesmo no corpo, 
     molhado na barriga. 
     Olha pra os lados. 
     Gritam as angolas. Grita um bem-te-vi. 
     Dorva afunda no milharal. 

            VII.

     O ninho de Dorva. 
     A cama de Dorva 
     de palha e folha 
     na terra. 
     Deixa-se cair 
     sentada, deitada. 
     Sobre seu ventre liso, redondo 
     desnudo, 
     salta o macho. 
     Um ofego de posse 
     tácito. 
     Sexo contra sexo. 
     Aquele cântico de Dorva, 
     Aquele chamado – piado de fêmea: 
     obscuro 
     aflitivo 
     genésico 
     instintivo 
     veio vindo...veio vindo... 
     Rugindo 
     chorando 
     gritando 
     apelando 
     do fundo do tempo 
     do fundo das idades.


(...) Frente à pretensão monológica da palavra única e da última palavra, frente ao absolutismo de um "interpretante final" que estanque a "semiose infinita" dos processos sígnicos e se hipostasie no porvir messiânico, o presente não conhece senão sínteses provisórias e o único resíduo utópico que nele pode e deve permanecer é a dimensão crítica e dialógica que inere à utopia. Esta poesia da presentidade, no meu modo de ver, não deve todavia ensejar uma poética da abdicação não deve servir de álibi ao ecletismo ou à facilidade. Ao invés, a admissão de uma "história plural" nos incita à apropriação crítica de uma "pluralidade de passados", sem uma prévia determinação exclusivista do futuro. (...)

Haroldo de Campos, Poesia e modernidade: da morte da utopia à constelação. O poema pós-utópico, in: O arco-íris branco, Imago, 1997, p. 269.


XII. O intérprete, desse modo, perceberá o "objeto" (jurídico) como (enquanto) algo, que somente é apropriável linguisticamente. Já a compreensão deste "objeto" somente pode ser feita mediante condições proporcionadas lelo seu horizonte de sentido, ou seja, esse algo somente pode ser comprendido como linguagem a qual ele já tem e nela está mergulhado. A linguagem não é, pois, um objeto, um instrumento, enfim, uma terceira coisa que se interpõe entre o sujeito e o objeto. 
XIII. Quando o jurista interpreta, ele não se coloca diante do objeto, separado por esta "terceira coisa" que é a linguagem; na verdade, ele está desde sempre jogado na linguisticidade deste mundo do qual ao mesmo tempo fazem parte ele (sujeito) e o objeto (o Direito, os textos jurídicos, as normas etc.). A atitude de pensar que ele, intérprete, está fora e/ou separado do objeto pela linguagem, é alienante. Dito de outro modo: com isto ele não se considera coprodutor da realidade (da sociedade). A sociedade (o Direito) é (será) sempre o Outro (do latim alienus que significa "o outro").

Lênio Streck, Hermenêutica jurídica e(m) crise, 11. ed., Livraria do advogado, 2014, p. 362-363.


Nos 27 anos sem Drummond,

Quebre-se o protocolo e, ao invés de postar Drummond, poste-se poesia contemporânea: mais vivos, menos mortos.

É difícil dizer exatamente qual o tema de Drummond do título; talvez esteja relacionado à questão da visão barrada, o que o leitor pode conferir observando o movimento, no poema abaixo, que vai de "tornando-se janela na cidade", segunda estrofe, a "sem janelar-se inteira na cidade", quarta, e "a janela é maior do que a cidade", penúltima, pois, de resto, o poema funciona basicamente nestes eixos: da prece que salva à prece que aprisiona; (voltando à vaca fria) talvez esteja relacionado à questão da visão barrada que vai de poemas como No meio do caminho até poemas como Opaco (em Alguma Poesia e Claro Enigma, respectivamente); talvez esteja simplesmente relacionado ao tema da prece, da cidade de inúmeras cidades à maneira do que Gullar depois desenvolveria como ninguém, e aí é possível que o tema de Drummond no título seja o da Prece de Mineiro no Rio no A Vida Passada a Limpo. Creio que a segunda hipótese esteja mais próxima do poema em questão; dela nós até podemos partir para a primeira, se nos lembrarmos de poemas como Ciência, do mesmo livro...

Vejam aí.

§

                metafísica sobre um tema de drummond
Guilherme Gontijo Flores.
     eu vejo no feitio de uma prece –
     despetalando-se como um crisântemo
     abandonado à beira do passeio –
     sem encontrar nenhum pertencimento
     na fúria intermitente da cidade
     o breve desvelar da calmaria

     contanto que no olhar da calmaria
     no ritmo pausado dessa prece
     na tímida brancura do crisântemo
     a alma encontre em parte seu passeio
     cuja carne contrai pertencimento
     tornando-se janela na cidade

     & cada ponto faça-se cidade
     na improvisada paz da calmaria
     ameaçada pelo fim da prece
     que abala a primavera do crisântemo
     & se arremessa ao olho do passeio –
     a fúria enfim se faz pertencimento

     porém se a flor forçar pertencimento
     sem janelar-se inteira na cidade
     se aquela improvisada calmaria
     não tiver o sorriso de uma prece
     acaba-se a ternura do crisântemo
     que então se aquieta à sombra do passeio

     carece a alma ter mais que um passeio
     roubando ao corpo o seu pertencimento
     embriagado nas luzes da cidade
     para que a embriaguez & a calmaria
     se encontrem contrastando numa prece
     como o passeio encontra co’o crisântemo

     no fim se a prece é pétala – crisântemo
     unido em dissonância num passeio –
     & o corpo é n’alma o seu pertencimento
     a janela é maior do que a cidade
     & o mar em fúria é plena calmaria
     como a palavra proferida em prece

     no breve desvelar da calmaria
     na fúria intermitente da cidade
     que vejo no feitio de uma prece


Ainda sobre o poema acima, é de Ivan Justen Santana a observação de um possível paralelo entre as flores que aparecem no poema do Guilherme e a mecânica das flores na obra drummondiana. E de fato: a impressão é que cada palavra da sextina ancora em poemas do Drummond. Por exemplo, "passeio" que quem sabe vá direto no ombro do Passeios na Ilha ou, abrindo meio que "a esmo" (entre aspas pois eu geralmente só abro nos mesmos lugares), em poemas como o do Elefante ou o chão que, de tanto ser pisado, algum dia talvez se humanize de Contemplação no Banco.

Em suma, ótima sextina. Principalmente pelo fato dela não ser gratuita. O poema consegue utilizar a forma da sextina de maneira inteligente, de modo que o simples fato de ser uma sextina é por si só uma fonte semântica (pra não dizer na exploração dos vários sentidos das palavras, como no caso de "passeio": pelo menos do que foi exposto no dicio.com, o autor usou as três acepções).


Ainda sobre Guilherme Gontijo Flores,


Que bela resposta!...



Retirado de Bibliografia de Antonio Candido, Vinicius Dantas, editora 34 / editora Duas Cidades, 1. ed., 2002, p. 83.

Comentários