Banzando IX.


(Yo-yo, DJ Marjorie Perloff in the area! Créditos.)




O Jornal Opção republicou hoje o conto Ninho de Periquitos do escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos: aqui; eles já haviam publicado na edição 1881, aqui. Hugo de Carvalho Ramos é o grande clássico da literatura goiana, ponte compacta e poderosa entre a literatura de um Euclides da Cunha e autores como Guimarães Rosa ou Bernardo Élis. O sentido maior e mais duradouro do conto, uma verdadeira obra-prima, continua sendo o da questão ambiental (hoje em dia, é impossível não enxergar o bate-volta com relação à degradação). Mas talvez existam coisas além...

Quem sabe o que o Northrop Frye chamou de "analogy of experience", quer dizer, "a relation to the demonic world corresponding to the relation of the romantic innocent world to the apocalyptic one." (lembrando que "apocalyptic" pro Frye não é catastrófico, mas sim: "Apocalyptic symbolism presents the infinitely desirable, in which the lusts and ambitions of man are identified with, adapted to, or projected on the gods."); quem sabe isso não possa se aplicar no texto do autor goiano? E, daí, pelo menos pra mim, já podemos fazer uma ponte bem interessante com William Blake (Innocence-Experience), isto é, "The analogies of innocence and experience represent the adaptation of myth to nature: they give us, not the city and the garden at the final goal of human vision, but the process of building and planting."

Ou, tentando colocar em outros termos, Frye diz, sobre a mecânica do Songs of Innocence/Experience, em seu livro The Fearful Symmetry (os trechos que eu havia citado são do Anatomy of Criticism), que "Nature is a kindly old nurse, and a vigilant Providence appoints guardian angels to take care of the children. (...) Here we find the harmonious society which the single organism represents in this world.", enquanto, indo pro Songs of Experience, há a mudança de que "one is then no longer a creature but a creator." Isso explica, por exemplo, a mudança de perspectiva entre observarmos o Cordeirinho de Deus no Innocence e observarmos o Tygre no Experience (e lembrando que a mecânica do poema do Tygre é justamente o questionamento de quem ou o quê foi capaz de criar uma máquina de matar).

Então, considerando que o conto todo se passa num instante crepuscular, e que naquele dia o filho do roceiro, Janjão, "assentava (...) a sua primeira dezena tristonha de anos", defendo que uma leitura comparada entre a mecânica blakeana e o andar do conto do autor goiano consegue se sustentar, bastando que se observe o contraponto entre a experiência do roceiro e a inocência do garoto, imiscuídos graças ao pedido de um para com o outro (onde o garoto, até então inocente, deixa de sê-lo, visto que o pai parece ocupar tal posição quando sente dó dos passarinhos), o final dramático da cabeça da cobra decepada e da mão decepada, o retorno triunfante para casa...

And his dark secret love
Does thy life destroy.

Diz Blake no poema The sick rose. É um bom ponto de partida, não acham?


Por falar em The sick rose, duas traduções minhas:

Rosa estás enferma
O parasita oculto
Que em noite revolta
Voeja seu vulto:

Achou em teu leito
Rubro deleite:
Seu negro amor secreto
A vida desfez-te.

§

Ó Rosa estás enferma
A larva invisa
Que plaina na procela
Irosa e arisca:

Encontrou em teu leito
Deleite escarlate:
Seu negro amor secreto
Tua vida abate.

§



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