O que é poesia?


(Hugo Ball. Sim, ele chegou a ler seus poemas com essa roupa. Créditos.)


(Escrevi esse texto, verdadeiro esboço de esboço, um pouco cansado... Então pode ser que eu o edite no futuro. Muito provavelmente. Não tenho nem de longe a competência necessária para me dar ao luxo de bater o martelo frente uma questão como esta.)

O que é poesia?

Tomemos o poema Karawane de Hugo Ball, poeta dadaísta (imagem acima). Se isso é poesia, então tudo é poesia, não? Pois, afinal, como essa coisa aí em cima pode ser poesia se o soneto XCVIII de Claudio Manoel da Costa também é?

      Destes penhascos fez a natureza
      O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
      Que entre penhas tão duras se criara
      Uma alma terna, um peito sem dureza!

      Amor, que vence os tigre por empresa
      Tomou logo render-me; ele declara
      Contra o meu coração guerra tão rara,
      Que não me foi bastante a fortaleza.

      Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
      A que dava ocasião minha brandura,
      Nunca pude fugir ao cego engano:

      Vós, que ostentais a condição mais dura,
      Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
      Onde há mais resistência, mais se apura.

Vamos com calma.

Foi lendo Antoine Compagnon (aqui) que abordei o fato de que, a meu ver, pensar a literariedade é possível, malgrado o fato de que ela por si só não nos ajuda a chegar a uma definição totalmente precisa de literatura. (E que isso não nos leva à conclusão de que é impossível dizer o que é Literatura...) Citei o pensamento do linguista russo Roman Jakobson como exemplo de critério de literariedade e de como ele nos conduz a fatores extraliterários de análise.

Vamos tentar rebobinar a fita e chegarmos a uma explicação a mais clara possível de onde quero chegar.

O ser humano se manifesta. As manifestações podem ser dos mais vários tipos, e podem ser, digamos, emocionadas ou não emocionadas. Um beijo no rosto, por exemplo, é uma manifestação humana. Pode ser emocionado ou não emocionado. Claro que as fronteiras não são tão facilmente demarcáveis. Uma manifestação emocionada é uma manifestação que transparece a pessoalidade de quem a faz. Só que é muito difícil pensarmos uma manifestação totalmente pessoal, pois implicaríamos alguém que consegue demonstrar sua pessoalidade de maneira plena, quanto uma manifestação totalmente impessoal. Então, as manifestações sempre bailam no campo delimitado pela revelação pessoal e pela instrumentalidade, o mero atender a um propósito ou o simplesmente fazer de maneira mecânica.

Dentro dos vários tipos de manifestações humanas, algumas são culturais. E cultura é, de acordo com a clássica definição de Tylor, um arcabouço de saberes compartilhado pelo homem enquanto membro de uma sociedade (mas, daqui pra frente, preferirei usar o termo "coletividade", mais amplo). A manifestação cultural é toda manifestação que enriquece esse arcabouço, de modo que ele não deve ser entendido nem de longe como algo fechado: pelo contrário, o que a escolha do termo "compartilhado" pode ter incutido, é uma estrutura, um arcabouço permanentemente aberto. Logo, é meio que uma manifestação humana ligada não somente a si próprio, mas ao homem enquanto membro de uma coletividade. Não digo que essa pessoa precise rumar sua ação para a coletividade; mas se ela tiver um impacto no arcabouço de saberes dessa coletividade, então essa manifestação será cultural.

Mas nem toda manifestação cultural é emocionada. Creio ser possível chegarmos num estágio onde a manifestação cultural se aproxima do automatismo. Seja como for, a cisão entre manifestações culturais e não-culturais talvez seja um tanto quanto problemática, uma vez que é difícil pensarmos no quê não seria cultural em nossas manifestações hodiernas: isto é, o que nós, seres inclusos numa coletividade, podemos produzir de não-cultural. Se imaginarmos um aborígene, as coisas ficam mais simples. Mas não acho que precisamos chegar a tanto. É possível que, mesmo dentro de uma coletividade, produzamos manifestações não-culturais, embora, é forçoso dizer, muito provavelmente tudo o que viermos a produzir, ainda que não cultural, possuirá um influxo cultural em sua constituição. Como o caso do beijo no rosto, que, se for usado simplesmente numa situação não-emocionada de polimento, terá forte influxo cultural. Mas não será manifestação cultural, vale dizer, manifestação voltada para o enriquecimento do arcabouço de saberes.

Dentro das manifestações culturais, existem algumas que são artísticas. Aqui eu me refiro a um conceito de arte lato sensu, isto é, concernente às obras artísticas dos mais variados tipos. É diferente de um conceito stricto sensu, que vale apenas para a Pintura, a Escultura e a Arquitetura (Artes Plásticas). Há também um conceito além do lato sensu que envolve a obra de arte e o mercado de arte, a recepção da arte. Neste último nós passamos a falar de muita coisa, e, por conseguinte, muita coisa pode entrar no campo artístico. É quando boa parte da obra de um Duchamp entra. É o que permite a uma Anne Cauquelin desenvolver seu conceito de arte pós-moderna como rede. Mas não chego a tanto, embora qualquer pessoa que pense arte deva sempre estar de olho num conceito além do lato sensu. O conceito de arte lato sensu, dentro das manifestações culturais, implica dizer, não preciso nem dizer, que as manifestações artísticas possuem tudo o que a manifestação cultural já possui. E possuem mais, pois elas estão localizadas mais precisamente naquela área das manifestações culturais emocionadas: isto é, manifestações culturais que além de enriquecer o arcabouço de saberes, revelam a pessoalidade de quem as realiza.

Conforme meu conceito de arte (aqui), arte é um ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem. Na analogia que fiz, é quando o ser humano passa linguagem em si todo. Se lambuza com a linguagem, em suma, e entendendo a linguagem como algo já lambuzado, algo eminentemente cultural graças ao simples fato de que foi utilizada por muitas e muitas pessoas antes. Afinal, linguagem é, como também conceituei (aqui), um conjunto de materiais compositivos que, uma vez formados, geram um liame gerador de significados.

Assim, o enfoque é linguístico para o conceito de arte. Pois, com efeito, existem artes que trabalham uma linguagem já constituída, como seria o caso da literatura em relação à língua, e existem linguagens que se valem de materiais compositivos que ainda não formam uma linguagem mas que, depois de realizada, criam-na com tais instrumentos. O fato é que, no trabalho de embaralhamento linguístico (no caso de artes que partam de uma linguagem já dada) ou no trabalho de criação linguística (no caso das artes que não partem), a expressividade humana deve transparecer.

Daqui nós já podemos pensar a Literatura. Pois Literatura, numa definição bem assente, é a arte da palavra. A expressão diz muito quando conceituamos o que é arte: seria, sendo assim, aquela arte que possui como material compositivo a palavra, a língua, a linguagem verbal. E aí nós podemos realmente ir longe, extrapolando os limites do contar-história geralmente implícito no conceito de Literatura até o ponto de abarcarmos a poesia e até mesmo a palavra na performance. Mas sabemos que o conceito de Literatura, vindo à tona lá pelo século XVII, costuma se referir simplesmente ao livro impresso, e, quando for explicar o conceito de poesia de Roman Jakobson, terei em mente essa visão muito restrita de Literatura. Pra chegar lá, ainda temos serviço pra fazer; citemos mais alguns nomes.

Massaud Moisés:

Literatura é a expressão dos conteúdos da ficção, ou da imaginação, por meio de palavras de sentido múltiplo e pessoal. (A criação literária I: Poesia, editora Cultrix, 14. ed, 1967, p. 38)

Northrop Frye:

Na literatura, questões de fato ou verdade estão subordinadas ao objetivo literário fundamental de produzir uma estrutura de palavras válida por si só, e os valores de signo dos símbolos estão subordinados a sua importância como uma estrutura de motivos interconectados. Onde temos uma estrutura verbal desse tipo, temos literatura. (Anatomia da Crítica, trad. Marcus de Martini, editora É Realizações, 1. ed., 2014, p. 191)

Com a devida ressalva de que:

Nós não temos padrões verdadeiros para distinguir uma estrutura verbal que é literária de uma que não é, e nenhuma ideia do que fazer com a vasta penumbra de livros que podem ser requisitados pela literatura porque são escritos com 'estilo', ou são úteis como 'pano de fundo', ou simplesmente entraram em uma disciplina universitária sobre 'grandes livros'. (idem, p. 123)

(Ao dizer que não temos "padrões verdadeiros para distinguir", Frye se refere a padrões que nos levem ao totalmente objetivo, como se fossem bugigangas de medição de literariedade ou coisa do tipo.)

A definição de Moisés nos concerne mais de perto. O sentido "múltiplo e pessoal" já está implícito no bojo de nossa definição de que, se Literatura é arte da palavra, e se arte é ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem, então... Pois bem. Destaco aqui o adendo da ficcionalidade/imaginação no conceito de Moisés, importante para que caracterizemos determinada parte da produção literária: para o autor, a ficção é "(...) entendida como o universo interior onde estão armazenados e transfigurados os produtos da percepção sensível e emotiva da realidade ambiente (...)" (op. cit., p. 37), de modo que, "(...) se entendemos os conteúdos da ficção como compostos das 'imagens' deformadas e transfundidas do real, é imediato assentar que ficção e imaginação se equivalem, e um termo pode perfeitamente ser tomado pelo outro." (idem, p. 38) Todavia, dentro do que venho desenvolvendo, o adendo a meu ver acaba sendo perigoso pois não se deve confundir o fenômeno literário de maneira mais ampla com a especificidade do discurso ficcional. Para Luiz Costa Lima, por exemplo, a ficção é também um estatuto fundante da literatura; mas em sua obra o termo ficção possui um embasamento mais fundo que o de Moisés. Certo que o raciocínio de Costa Lima mereceria uma citação à parte, pois acaba, pelo menos é o que vejo, se comunicando mais uma vez com o que venho dizendo de expressão humana e expressividade humana da linguagem: daí a correlação que Costa Lima fez, em livro recente, sobre a ficção, a história e a literatura, bem como na construção do que chamou de gênero híbrido, onde o discurso literário pode conviver ao lado de outros (como seria o caso do memorialístico em Graciliano Ramos). Assim, literatura é para mim apenas a arte da palavra, uma definição à priori simplista que, contudo, dentro do que defino como arte, vem a se esclarecer. Pois, com efeito, se linguagem é a criação de um liame de significado entre materiais compositivos, ou seja, de modo que, após criado esse liame, não só significados até então inexistentes surjam, como a manutenção dessa pluralidade maior de significados novos dependa da manutenção/manipulação da linguagem; se a linguagem é isto, tenho que a literatura, em ser arte da palavra, é o uso do material compositivo palavra de maneira a se ressaltar a expressividade humana da linguagem, isto podendo acontecer de variadas formas, seja num texto ficcional, seja num texto poético, seja até mesmo num texto híbrido, pra me valer da expressão de Costa Lima, como a biografia, se o que estiver em jogo aqui for o propósito da expressividade humana da linguagem posta em primeiro plano.

Cito a discussão pois, com efeito, ela ainda não está esgotada. Moisés se referiu à ficção e à imaginação. A imaginação é outra pedra no sapato, pois, discutindo-a, podemos ir longe, evocando, sei lá, o argumento sartriano de que, se os objetos imaginários aparentam ser completos, ao contrário dos objetos advindos da percepção (por exemplo, só podemos ver um lado de uma cadeira de uma vez, ao passo que podemos imaginar a cadeira de maneira completa, total), então os objetos imaginários dependem do que nós concebemos deles, o que, por conseguinte, envolve toda uma carga subjetiva (isto é, de que, em suma, a imaginação é ato intencional da consciência: não existem imagens dentro da consciência, mas a imagem, sendo consciência de alguma coisa, é, por conseguinte, certo tipo de consciência); ou podemos mais uma vez seguir Moisés e nos lembrarmos de Coleridge e Kant, para quem a imaginação é condição essencial do conhecimento, da alma, da sensibilidade humana (em Coleridge pois a imaginação nos permite provar a total vitalidade dos sentidos e, em Kant, em quem Coleridge se baseou, pois a imaginação opera como síntese de nossas experiências perceptíveis); e por aí, repito, podemos ir longe. Não entro em tais discussões pois creio que dentro do que venho dizendo como expressividade humana da linguagem um conceito como o de imaginação possa ser pressuposto. Parece-me que a imaginação trata do antes da literatura, ela é como que uma substância que flui nas veias da atividade artística de maneira geral e forma uma espécie de substrato, entre outros, do que a compõe. É diferente da ficção, uma secção, vasta, é verdade, do terreno literário, mas que não deve a meu ver ser confundida com a imaginação.

Assim sendo, literatura: arte da palavra. Claro que aqui devemos sempre considerar a vasta penumbra aludida por Frye para que possamos nos perguntar: mas o que seria o fenômeno literário? As problematizações de Compagnon e Eagleton, em texto passado analisadas, se movimentam em redor desta fogueira. Podemos simplesmente dizer que, apesar de em verdade existir uma penumbra de textos duvidosamente literários, os gêneros híbridos de Luiz Costa Lima ou simplesmente os "erros de classificação", é possível que consigamos tratar de maneira sólida do que é Literatura, considerando não só o cânone, mas o que as pessoas "ainda persistem" em fazer como Literatura e que está de acordo com a área, digamos, mais clara do fenômeno (de modo que aqueles que trabalham nas penumbras são tidos como exceções certo modo abordáveis dentro de conceitos porventura eleitos). Seria o caso, para exemplificarmos o que Frye quer dizer com penumbra, de um discurso laudatório. Apesar de possuir uma história realmente antiga, deve-se notar que incursões literárias no gênero não foram o suficiente para firmá-lo como literário para nós (ou seja, o que chegou até nós não é suficiente para que venhamos a "abrir uma exceção", "abrir uma nova pasta"), o que não quer dizer que ele possa ter seus influxos literários, vale dizer, artísticos. É o suficiente para que o discurso laudatório seja considerado e analisado enquanto literatura? Não me parece. Critérios como a da expressividade humana da linguagem, que recusa por definição o instrumental, continuam ativos para que pensemos uma pergunta assim, sem querer dizer que são suficientes para que possamos dar uma resposta definitiva. E isto, como venho repetindo, não quer dizer que tais critérios se tornaram inválidos.

Tendo dito, podemos trazer de volta a pergunta do título: o que é poesia? A poesia estaria no âmbito da Literatura?

A resposta para a segunda resposta é não, a não ser, como dissemos, que venhamos a considerar a Literatura como sítio de obras da palavra em suas inúmeras acepções: daí a poesia poderia ser até considerada como Literatura, com a ressalva de que, por exemplo, dentro do contexto de uma canção, ela dividiria um espaço irredutível com a música. Mas, ainda respondendo a pergunta segundo o pressuposto de um conceito restrito de Literatura, aqui eu acoplo as ideias do linguista russo Roman Jakobson. Para explicá-la, irei fazer recorte e enxerto da segunda parte de meu ensaio Poesia e Teatro (aqui).

Roman Jakobson, teórico formalista russo, chegou à impressionante descoberta da função poética da linguagem. Funciona mais ou menos assim: todo mundo já deve ter visto uma vez na vida, lá no quadro negro, entre o “é-pra-apagar?” e o jogo da forca, o professor de Português explicando que, quando proseamos com alguém, existem os tais emissor, receptor, mensagem, canal, contexto etc. Se imaginarmos como seria uma comunicação com ênfase em apenas um desses, vamos desvendando quais são as várias funções que a linguagem pode assumir.

Assim, por exemplo, mensagem voltada para o emissor é a função emotiva; mensagem voltada para a própria língua é função metalinguística etc. (E por mensagem devemos não nos reportar à dicotomia, superada pelos formalistas russos, de "forma" e "conteúdo", mas de "material" e "procedimento", isto é, material como tudo que é passível de ser trabalhado pelo artista, desde os aspectos fônicos e gráficos até as cargas de sentido ou emoções, e procedimento é o como esse artista trabalha tais materiais.) Ou, esquematicamente,


A tal da função poética, segundo Jakobson, é a mensagem voltada para a própria mensagem. Isso tem uma gama de implicações, mas podemos destacar algumas: 1) e isso nem é tanto da descoberta da função poética, mas é o fato de que não existe comunicação com só um tipo de função linguística, uma coisa pura, pois isso vai estar, naturalmente, negando a própria comunicação; logo, não só não existe poesia pura, função poética pura, como poesia não é só um negócio da literatura; e 2) Jakobson, após essa descoberta, chega à conclusão de que poesia é a projeção do eixo das similaridades no eixo das contiguidades.

Muita calma nessa hora, pois temos que dar um pouso lá na Semiótica.

É simples.

A comunicação humana é algo feito por signos. Para Charles Peirce, pai da Semiótica, signo é um algo que representa algo para alguém. Uma espécie de mediador.

Existem três tipos de signos: ícones, símbolos e índices.

O símbolo possui as mesmas características do signo, é claro, com a diferença de ser definido por convenção, por lei. É algo arbitrário. Um estepe. Discutível. A coisa que o símbolo representa está ligada ao símbolo por contiguidade, por proximidade. É diferente do tal do ícone. O ícone também é signo, já disse. Só que ele já guarda afinidades formais, afinidades de fato. São semelhanças. É uma similaridade. Não tem muito de arbitrário.

Assim, para me valer de exemplos de Décio Pignatari, quando explica muito bem essa matéria em seu livro O Que É Comunicação Poética, se eu vejo a cor azul e me lembro dos olhos azuis de uma certa pessoa, isso é associação por semelhança; se me lembro de uma pessoa ao olhar para um isqueiro que ela me deu, aí já é associação por contiguidade.

Por fim, os índices são signos que funcionam para indicar algo. Eles não entram na definição de função poética, mas podem vir a calhar na nossa discussão sobre poesia e teatro. Assim, a fumaça é um ícone, pois posso associá-la a fogo, por exemplo, ou um sobrinho fazendo arte.

Acho que algumas coisas ficaram mais claras. Quando Jakobson diz que a poesia é a projeção do eixo das similaridades no eixo das contiguidades, ele está querendo dizer que é a projeção do ícone no símbolo. Ou, para irmos logo nos finalmentes, é o não-verbal projetado no verbal.

Ou seja: poesia não é apenas uma questão de dicionário, mas de concretude da linguagem. Isso pode parecer ser um pouco abstrato, mas quando você lê um poema e vê aquela linguagem tão exuberante, aquelas rimas, aliterações, assonâncias... tudo isso é o que Jakobson disse, é a linguagem servindo não só pra indicar, não só pra remeter, fazer-imaginar, mas a linguagem por si mesma, ela própria contando e sendo uma fonte de significados e sensações. Daqui nós já podemos voltar ao poema de Hugo Ball e ao soneto de Claudio Manoel da Costa. São poemas pois, segundo Jakobson, neles a função poética predomina. Estamos perto de expandir um pouco o conceito de Jakobson e o acoplarmos ao que venho desenvolvendo. Fique explicitado, por enquanto, que a palavra, matéria prima, tanto em um poema quanto em outro é tratada em todos os seus aspectos, fazendo com que, progressivamente, o trabalho seja aquilo que os poetas concretos chamaram de "verbicovisual" (mais especificamente, a expressão é de Joyce). Ou seja, envolvendo todas as possibilidades da palavra: visuais, sonoras, verbais... Já não temos liames, de maneira que todas as fontes geradoras de significados extraíveis da palavra podem ser usadas para composição de um poema ― como no caso da notória sonoridade no poema de Ball, tida como fonte geradora de significados até mesmo maior que a inteligibilidade discursiva (e, para tal, basta que se escute o poema de Ball, como, por exemplo, nesta performance de Marie Osmond). Nada, é bom que se repita, tão fora assim do cercado, se nos lembrarmos do poema em forma de ovo de Símias de Rodes (ou nos seus poemas em formato de Asas e de Machado) ou se nos lembrarmos da sonoridade das estrofes de Cruz e Sousa, com os ápices de

      Vozes veladas, veludosas vozes,
      Volúpias dos violões, vozes veladas,
      Vagam nos velhos vórtices velozes
      Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Ou

            Questão brocardo.

      – Pife, pufe, pafe, pefe
      Pafe, pefe, pife, pufe –
      A cacholeta no chefe –
      – Pife, pufe, pafe, pefe
      Estoure como um tabefe
      E o ventre de raiva entufe –
      – Pife, pufe, pafe, pefe
      Pafe, pefe, pife, pufe!

Isso naturalmente nos leva a extrapolar a literatura (literatura aqui, repito, entendida em seu conceito restrito). Podemos até chegar ao que não costuma ser considerado como literatura ― e aqui voltamos às problematizações de Compagnon e Eagleton, para quem, observado, por exemplo, um slogan político, chegaríamos à conclusão de que nele há mais poeticidade do que em muitos poemas aparentemente isentos destas. Assim, compare-se o slogan citado por Jakobson, "I like Ike", com a simplicidade de Quintana:

      Sempre que chove
      Tudo faz tanto tempo...
      E qualquer poema que acaso eu escreva
      Vem sempre datado de 1779!

Minha resposta é a mesma: a de que, embora Jakobson provavelmente tinha em mente simplesmente características formais do que entendia como mensagem, devemos considerar mensagem aqui como forma e conteúdo, de maneira que a proximidade sonora e gráfica das palavras no Questão brocardo de Cruz e Sousa é tão mensagem voltada para a própria mensagem quanto a interpretação literal e subjetiva implícita no poema de Quintana (o que não implica dizer que veleidades formais inexistam nele, bastando que se cite a rima entre "chove" e o "nove" de 1779). Claro que o raciocínio de Jakobson expande a possibilidade poética, como disse, para outras áreas da vida cotidiana, como o caso do slogan; poderíamos tentar contra-argumentar, nesse caso, de que num slogan existe muito mais função conativa do que função poética, o que me parece uma boa contra-resposta mas que não resolveria a questão de todo, de modo que, por triste que possa parecer a alguns, a poesia poderia habitar ou no mínimo emprestar alguns de seus poderes para o slogan, a propaganda de sabonete e sei lá mais o quê, à maneira do romance que empresta algumas de suas ferramentas para o noticiário sensacionalista. Naturalmente que podemos retornar ao que disse do que devemos considerar enquanto fenômeno poético: isto é, de que as incursões poéticas de um slogan não seriam suficientes para que o slogan constituísse um gênero à parte, ou uma tradição poética; mas podemos também, caso queiramos pontuar de vez a questão, voltar à posição conceitual da poesia, isto é, de que ela é arte e de que a arte envolve uma atividade emocionada caracterizada pela expressividade humana da linguagem, algo sem dúvidas inexistente no slogan, meramente instrumental ou, pondo em outros termos, usuário das formalidades do discurso poético que, entretanto, não quer com isso dizer que tenha se tornado efetivamente em poesia. Pois, em suma, a função poética é uma coisa, enquanto a poesia é outra; a poesia requer a função poética tanto quanto requer o fato de ser obra artística; se a poesia extrapola a literatura, ela não extrapola a arte. Num slogan nós vemos de forma bem explícita a função poética, mas daí a dizer que ela é predominante são outros quinhentos (estaríamos confundindo presença e evidência com predominância), pois, como venho dizendo, o termo "mensagem" implícito na função poética não deve ser tratado apenas em suas veleidades formais, de modo que, para ser poesia, é preciso que a função poética predomine E que o texto seja artístico (e ouso até mesmo dizer que, considerando "mensagem" enquanto forma e conteúdo, a função poética, de resto, só pode predominar em textos artísticos).

Assim, voltando à vaca fria, se o poema de Ball é tão poema quanto o de Claudio Manoel da Costa, o que acontece é simples: como a poesia é tratar com a concretude da linguagem, pois esse é seu funcionamento, é mais do que comum que o poeta comece a querer enunciar aquilo, comece a querer trabalhar a linguagem no ritmo do corpo, no desenho da página, em tudo que ela pode permitir.

E historicamente foi assim. Essa ideia que temos da poesia como algo comportado no centro da página, cheio de espaços em branco, solene, muda, é algo pós-Gutemberg. Gutemberg, inventor da imprensa, dessas letras caladinhas, quietinhas... friinhas!... Paulo Leminski chamava isso de rapto da poesia pela literatura. Literatura, após Gutemberg, após o Renascimento, passou a ser concebida como matéria literária apenas. Quando, na prática, e aqui podemos citar um Ezra Pound, a boa poesia parece estar muito mais próxima da pintura e da música que de fato da literatura. Ou, pra finalizar, podemos provocar e citar Paulo Prado que dizia que a filosofia e a literatura eram as piores inimigas da poesia.

E quem duvidar, pode verificar a história da bichinha e ver que é isso mesmo.

Assim, em suma, à maneira da brincadeira infantil, o ser humano se manifesta de forma emocionada ou não, e algumas dessas manifestações são culturais, também emocionadas ou não, algumas dessas manifestações culturais emocionadas são artísticas, algumas dessas manifestações artísticas são literárias e as manifestações poéticas, apesar de em grande parte se situarem no plano das manifestações literárias, extrapolam esse campo.

Não se trata, é lógico, de dizermos que poesia é tudo, que tudo é poético ou pode ser poético. Entre o pode ser e o é há longo caminho. Virtualmente, tudo pode ser artístico, de fato. Mas, pra chegar até lá, digamos que tem que "preencher alguns requisitos". Entre aspas pois a expressão possui lá seus ares de ridículo... É importante não cairmos na idiotice de conceituarmos arte com o objetivo de espantar impostores ou coisa do gênero. É importante para termos uma visão mais lúcida do fenômeno artístico, do fenômeno literário, do fenômeno poético.

Quando dizemos que tudo é poético, é fácil falar disso se referindo aos abraços e carinhos. Fica difícil sustentar essa opinião quando a afirmação de que, se tudo é poético, logo o genocídio também é poético, é posta em cima da mesa. Aí os critérios de exclusão pipocam aos montes e logo somos levados à reconstrução da resposta de que tudo o que é belo é poético ou artístico.

Não. Existem manifestações artísticas que são muito ruins. É mais do que óbvio que não se pode incutir um critério de valor numa definição de arte. Do mesmo modo que existem manifestações humanas nem mesmo culturais que são mais importantes que manifestações artísticas, do mesmo modo existe o contrário.

A única forma que vejo para afirmar que tudo é poético seria se mudássemos os critérios do que entendemos por poesia, tornando o termo "poesia" simplesmente num adjetivo. Aí o festival é muito outro, e, na prática, voltamos ao raciocínio que gradualmente aporta ao tudo o que é belo é poético. Ou então voltamos à etimologia da palavra, relativa ao fazer, e seguimos caminho da roça. Ou aplicamos o conceito de poética relativo à empreitada aristotélica. Esta última acepção é a meu ver bastante válida, mas não creio que venha a ser usada de forma consistente por quem defende a poesia e só falta levitar no chão e balançar os pézinhos no éter.

Outra ideia seria a de confundirmos alguns termos jakobsianos e dizermos que, se poesia é mensagem voltada para a própria mensagem, talvez até se possa dizer que, sei lá, lavar louças é poético. Pois, com efeito, os materiais compositivos da arte são os mais variados possíveis, e podem ser louças unidas a gestos de limpeza. Aqui existem dois problemas. O primeiro deles é o de que a função poética não é sinônimo de poesia; ela pode existir e existe em muitos discursos; mas só poderemos dizer que temos um texto poético quando a função poética é predominante, e vou inclusive um pouco além: só podemos falar em poesia em textos calcados no material compositivo palavra. Se estivermos falando, por exemplo, do material compositivo cor, aí não creio ser possível falar de poesia, por mais que se possa chegar a uma análise jakobsiana das funções implícitas na comunicação do quadro ― bem como na constatação de que a função poética, nele, predominaria. Creio que se quisermos chamar uma pintura de poética, só o poderemos nas situações do parágrafo anterior; viesse a ser possível e, reconheço, estaríamos criando um enorme caos conceitual, correndo o risco de chamar quadros de poéticos e, com isso, retirarmos as qualidades inerentes e não redutíveis a critérios literários das artes plásticas. O segundo motivo para não podermos fazê-lo é o de que, embora venhamos a chamar de poética uma obra artística cujo material compositivo são louças e o gesto de lavá-las, há de se observar que o resultado artístico não pode se limitar ao instrumental, posto que, de resto, o instrumental vai contra o critério de "expressividade humana da linguagem": o instrumental não a permite nos níveis tão evidentes que o artístico. Assim, é até possível que se diga que lavar louças venha a ser poético (ou digamos simplesmente artístico, o que, nesse caso, não teria problema nenhum); mas não creio que estejamos falando do mesmo ato de lavar louças... Isto é, aquela coisa que a pessoa viu outra pessoa fazendo com alegria, prazer, sei lá, e de repente pipocou na cabeça de quem via a cena que aquilo é poético, artístico. Oras: e precisa ser? Tolice! É muito mais salutar pararmos de querer dizer que as coisas válidas são artísticas... Saibamos reconhecê-las como elas são.

Onde chego, finalizando, é que a poesia está além do âmbito literário (o literário aqui entendido em seu conceito restritivo ou simplesmente em seu conceito discursivo), e, conforme os resultados de Jakobson nos permitem inferir, ela é contra o instrumental. Ela é contra até mesmo aquilo que chamo de senso-comum dos poetas, parafraseando o senso-comum dos juristas de Luís Alberto Warat. É contra a poesia comportada, sem inovação, sem embate, sem ringir frenético. Não quer dizer que nos encaminhamos para formas enviesadas de inovação ou de não-instrumentalidade; não quer dizer que estamos caindo no balde da poesia vanguardista nos moldes da longa viagem do século XX; não quer dizer que deixamos de falar de amor para falar de bombas; não quer dizer que deixamos a simplicidade da vida em prol da complexidade do avanço do Novo. Nessas horas, é melhor nos lembrarmos do que Alfredo Bosi nos diz sobre poesia e resistência: isto é, de que a poesia resiste à barbárie, e que essas maneiras de resistência são variadas. Mas são resistências, recusas ao instrumental; e, não preciso nem dizer, como estamos falando de poesia, essa recusa ao instrumental deve passar pelo âmago da questão, à espinha dorsal que é precisamente a questão da própria mensagem, da linguagem em que a poesia é veiculada, como se ela se corroesse e mostrasse com uma intensidade diferente aquilo que expusera. É uma linha de resistência que consegue se expressar ainda que falando de banalidades, como o gafanhoto de cummings, até espetáculos da Natureza, como as auroras boreais de Stevens, ou as atrocidades da guerra, como o participativo de Rizzi. É poesia que consegue nos demonstrar o único, o irrepetível, mesmo que seja repetido a todo instante diante de nossos olhos, mesmo que já tenha sido dito de todas as formas. Pois, parafraseando Joseph Brodsky, antes do artista falar seja do que for, do amor materno à perplexidade face ao genocídio, que antes e acima de tudo ele escreva bem: e escrever bem aqui entendido não como correção nos moldes acorrentados da Gramática Normativa, ou como correção métrica, pseudo-respeito tácito aos clássicos e sei lá o quê mais. Escrever bem, isto é, escrever de forma inventiva, escrever como quem busca alcançar uma linguagem que rivalize com a linguagem do mundo e permita anular o Apocalipse, dois minutos depois do Apocalipse. Escrever com uma linguagem palpitante, news that stay news, make it necessary, o que envolve, no mínimo e de alguma forma, uma sabotagem e uma esperança.

Em tempos onde a validade da poesia tem sido questionada a cada minuto, é importante que o poeta consiga provar que a poesia é necessária, que ela funciona, que ela possui impacto. Que ela é capaz de dizer quando tudo supostamente já foi dito. Não digo nem tanto que vivemos em tempos de poemas ruins, pois sempre vivemos. A atividade poética é repressora, já dizia Harold Bloom, e a grande maioria dos poemas é estraçalhado quando o trator da História passa. É importante, naturalmente, que o poeta busque criar uma poesia melhor possível. Que ele escreva bem, em suma. Hoje, todavia, tem estado cada vez mais patente que só isso não basta, e, sem espanto nenhum, os melhores poetas hoje são poetas que possuem um convívio mais amplo com a poesia. Poetas que vivem a poesia de mais formas possíveis, criticando, montando leituras, lendo seus poemas de forma inventiva, traduzindo, editando... Não basta mais o poeta como bom verse-maker. Ou melhor: talvez até baste. O poeta pode continuar sendo um grande nome simplesmente escrevendo bons poemas, e, venha o que vier a ser escrito, esta deverá ser sempre sua estrela d'alva. Mas aqui, no final das contas, não está em jogo apenas a sua poesia, o umbiguismo do "aparecerei nos livros de amanhã". Está em jogo o ser contemporâneo a seus contemporâneos ― e não me refiro simplesmente a uma questão de vendagem. Está em jogo resistir ao quadrado, resistir promovendo a resistência. E a esse respeito, cite-se o poeta modernista americano Wallace Stevens abrindo sua coletânea de ensaios The Necessary Angel:

One function of the poet at any time is to discover by his own thought and feeling what seems to him to be poetry at that time.


ARTE ― ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem;
CULTURA (baseado em Tylor) ― arcabouço de saberes compartilhado pelo homem enquanto membro de uma coletividade;
LINGUAGEM ― conjunto de materiais compositivos que, uma vez formados, geram um liame gerador de significados, uma estrutura: ou seja, os materiais compositivos, uma vez formados, criam um liame capaz de gerar significados entre eles até então inexistentes;
LITERATURA ― arte da palavra;
MENSAGEM ― aqui considerada como resultado do conluio gerador de significados entre os materiais e os procedimentos de determinada obra;
POESIA (baseado em Jakobson) ― obra artística, cujo material compositivo é a palavra em todas as suas acepções, em que a função poética predomina.

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