Antoine Compagnon (1950 - ).


O demônio da teoria. Antoine Compagnon.
Trad. Cleonice P. B. Mourão e Consuelo F. Santiago.
2. ed. UFMG, 2010.
Créditos da imagem.


Não é meu objetivo desenvolver uma resenha sobre o trabalho de Compagnon. Quero logo de cara ressaltar o impacto positivo que resultou em mim um texto que consegue ponderar muito bem e, logo, trilhar um caminho com certeza mais sensato. Tanto no sentido de não se bandear para um extremismo ou outro, quanto no sentido de partir de um campo de análise que sai das mais antigas concepções teóricas até as mais recentes.

Compagnon analisa seis pontos fulcrais da teoria literária: a Literatura, o Autor, o Leitor, o Estilo, a História e o Valor. O estudo de todos é realmente impressionante, repito. Todavia, o primeiro ponto (a Literatura, "O que é Literatura?") recebeu de Compagnon uma análise, melhor dizendo, uma conclusão julgo insuficiente.

Vamos refazer sucintamente o caminho de Compagnon.

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Compagnon quer afastar os extremismos de um Barthes que afirma que literatura é o que se ensina e ponto final (p. 30). Para tal, começa analisando as várias formas possíveis de se entender literatura. Literatura como absolutamente tudo o que é impresso (p. 31), vale dizer, conceito mais próximo da ideia clássica de belas-letras, ou literatura como fronteira entre o literário e o não-literário, dissociação que remonta a Aristóteles mas que conheceu um período em branco até o século XIX e as concepções modernas. Movimento este que, do Romantismo em diante, para Compagnon, tendeu a restringir a literatura com "a afirmação da relatividade histórica e geográfica do bom gosto, em oposição à doutrina clássica da eternidade e da universalidade do cânone estético." (p. 32) Com o tempo, literatura seria algo ainda mais restrito: os grandes escritores (p. 33). "Passa-se, assim, de uma definição de literatura do ponto de vista dos escritores (as obras a imitar) a uma definição de literatura do ponto de vista dos professores (os homens dignos de admiração)." (idem) E, daí, para a tautologia de que literatura é tudo o que os escritores escrevem, "inclusive a correspondência e as anotações irrisórias pelas quais os professores se interessam." (ibidem)

Compagnon prossegue dizendo que não se pode identificar a literatura com o valor literário, confusão que borraria as fronteiras de dois conceitos que devem ser bem delimitados para que não incorramos em confusões (Compagnon fala disto também no começo do sexto capítulo, sobre o Valor). Prossegue dizendo que o cânone não é estável (também retomará no sexto capítulo) mas que, na verdade, a cada obra inclusa, sua reconfiguração é totalmente outra e, logo, existem novas possibilidades de que o interpretemos (p. 34). Tanto que, analisando o século XIX, veremos que muitas figurinhas novas passaram a surgir dentro do cânone, aumentando consideravelmente o espectro de cores em seu bojo (por exemplo, poemas em prosa e literatura infantil).

Na sub-seção Compreensão da literatura: a função, Compagnon repensa os critérios para se definir literatura de maneira não extra-literária, ou seja, definir literariamente a literatura. Tem em mente a função da literatura, no pra-quê ela serve, e vai da catarse aristotélica ao individualismo romântico e à subserviência marxista. Mas, muito bem sopesa Compagnon, se por um lado podemos até afirmar que a literatura é conforme a uma ideologia (de modo que uma crítica literária, Compagnon já assinalava na Introdução, deve sempre se fazer acompanhar de uma crítica ideológica), nunca podemos nos esquecer que ela subverte, ela resiste.

Na próxima sub-seção, fala acerca do conteúdo, mais uma vez partindo de Aristóteles e chegando a Genette e comparações com as categorias de Hjemlsev. O caráter ficcional, esclarece Compagnon, é fraco para que classifiquemos a literatura, mas talvez sirva como "estatuto ontológico, ou pragmático, constitutivo dos textos literários", "a ficção como conceito ou modelo, não como tema" (p. 38). Se assim é, pergunta Compagnon, a ficção seria uma definição ou uma propriedade da literatura (p. 39)? Tomando como base a centralidade da poesia lírica na literatura ocidental, a ficção como base estrutural da literatura se fragiliza...

Na próxima sub-seção, fala da forma da expressão que, do século XVIII em diante, passou a ser base para a definição da literatura, isto é, de que ela seria o uso estético da língua (p. 39). Com o tempo, a literatura chegou até a se separar da vida. Com o aprofundamento dado pelos formalistas russos, a linguagem literária passou a ser posta em análise junto da linguagem comum (p. 39-40). O uso propriamente literário da linguagem era o que caracterizava a linguagem literária. Para os formalistas, o objeto científico não é a literatura, mas o que faz de uma mensagem verbal uma obra de arte. É quando Victor Chklovsky desenvolve o conceito de desfamiliarização, resultante, segundo Jakobson, de alguns procedimentos específicos, em especial o que tange a função poética da linguagem (vale dizer, a linguagem voltada para a própria mensagem). Esta, segundo Jakobson, é predominante no texto artístico, embora não exclua as outras (também retomado na p. 122). Logo, a literariedade não constitui num uso de instrumentos exclusivos, mas no uso de instrumentos corriqueiros de forma mais densa. Seria uma questão de dosagem.

Tal raciocínio, diz Compagnon, não está totalmente correto. É refutável (p. 43). Podemos citar textos que "não se afastam da linguagem cotidiana (como a escritura branca, ou behaviorista, a de Hemingway, a de Camus)" (idem), como podemos citar o caso de outros materiais textuais onde a questão da densidade, da dosagem, seria ainda mais vista: pegue-se, por exemplo, um slogan, e veja-se como sua utilização linguística é muito mais densa que a de muitos poemas.

"Uma definição de literatura é sempre uma preferência (um preconceito) erigido em universal (por exemplo, a desfamiliarização)." (p. 44) Assim, a literariedade conforme estudada pelos formalistas, diz Compagnon citando Genette, cobria apenas parte do fenômeno literário, dizia respeito mais à poesia que à ficção (idem). Daí a conclusão de que é necessário que se atribua, aparente e provisoriamente (mas, complementa Compagnon, um provisório que tem tudo pra durar), parcelas de verdade às várias afirmações feitas sobre o que é literatura, visto que a literatura "é uma realidade complexa, heterogênea, mutável" (ibidem).

Termina dizendo que "É uma sociedade que, pelo uso que faz dos textos, decide se certos textos são literários fora de seus contextos originais." (p. 45) Logo,

Tudo o que se pode dizer de um texto literário não pertence, pois, ao estudo literário. O contexto pertinente para o estudo literário de um texto literário não é o contexto de origem desse texto, mas a sociedade que faz dele um uso literário, separando-o de seu contexto de origem. Assim, a crítica biográfica ou sociológica, ou a que explica a obra pela tradição literária (Saint-Beuve, Taine, Brunetière), todas elas variantes da crítica histórica, podem ser consideradas exteriores à literatura. (idem)
Conclui:

Retenhamos disso tudo o seguinte: a literatura é uma inevitável petição de princípio. Literatura é literatura, aquilo que as autoridades (os professores, os editores) incluem na literatura. Seus limites, às vezes se alteram, lentamente, moderadamente (ver Capítulo VII sobre o valor), mas é impossível passar de sua extensão à sua compreensão, do cânone à essência. Não digamos, entretanto, que não progredimos, porque o prazer da caça, como lembrava Montaigne, não é a captura, como vimos, é o caçador. (p. 46)

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A argumentação de Compagnon muito me lembra a de Terry Eagleton na introdução do Teoria da Literatura: uma Introdução (trad. Waltensir Dutra, ed. Martins Fontes, 2003). O espaço maior dado aos formalistas também se repete e a conclusão chegada idem: "Não existe uma 'essência' da literatura." (p. 12) Eagleton também cola na ideia da estranheza, argumentando que ela não pode ser trazida à baila pois a estranheza é comum na nossa realidade corriqueira. O objetivo de Eagleton, sendo assim, é nos convencer a deixarmos de querer isolar uma característica que bata com todos os tipos de jogo, e passarmos a observar "as várias maneiras pelas quais as pessoas se relacionam com a escrita." (idem) Quando muito, podemos dizer que "'literatura' é um tipo de escrita altamente valorizada" (p. 14), o que nos leva ao afastamento total de qualquer critério objetivo e nos leva, logo, a retar as pontas com Compagnon.

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Agora vamos lá. Com calma. Quero me concentrar especificamente no que tange a problematização de Compagnon acerca da literariedade. Muito do que ele disse eu estou de acordo, o mesmo podendo ser dito de Eagleton. Na verdade, onde quero chegar não é nem que o lance de que "literatura é o que uma sociedade diz que é literatura" esteja errado; quero, antes, chegar ao apontamento de uma dialética entre este raciocínio sem sombra de dúvidas extraliterário (e o argumento central de Compagnon é que uma definição de literatura só pode ser extraliterária) e um argumento literário, ou seja, de que a literariedade é possível.

Primeiro que não deixa de ser triste você parar pra pensar que literatura é só o que chamamos de literatura. Cadê aquele degrau que a separa do resto da papelada, minha gente? Não é fácil, vocês podem ver, especialmente vocês, especialmente pra nós que gostamos de ler. Compagnon não está totalmente errado em sua asserção. É mais do que óbvio que ele não quer com isso tornar a literatura numa coisa qualquer ou descartável simplesmente porque ela é tudo o que qualquer época chama de literatura. Você pare pra pensar e verá que a conclusão não é bem assim. A literatura está par a par com qualquer papelada? Compagnon não diz bem isso. Ele, creio, ou não levou seu próprio raciocínio às últimas consequências, ou não teve o cuidado na hora de se expressar.

Se uma época diz que algo é literário, a afirmação, posta desse jeito, dá a entender que podemos chamar qualquer coisa de literária (ou que qualquer coisa pode ser imposta como literária, no que voltaríamos a Barthes). Virtualmente é claro que é assim, mas na prática nunca é assim pois existe uma tradição de textos que são reconhecidamente literários e qualquer tentativa de, digamos, "forçar a barra", seria mal vista se não possuísse do seu lado bons argumentos bem como uma certa lógica, ainda que parcial, para com tudo o que já foi feito e é reconhecidamente literário.

Daí que, quando Eagleton e Compagnon olham para os sermões de Donne e se perguntam porquê isso é considerado literatura ao lado de poemas, é provável que nem mesmo eles estejam parando pra pensar bem o peso de tais afirmações. Senão vejamos: até que ponto os sermões de Donne, ou, substituindo por um correlato nacional, os sermões de Vieira são considerados literatura por serem de fato (ou impositivamente) literatura ou por serem simplesmente textos de alguém que se envolveu com a literatura num âmbito maior? Seria o caso, por exemplo, das cartas de um poeta como Mário de Andrade. Elas possuem um interesse para a pesquisa literária, mas até que ponto eu posso dizer que elas são literatura apenas por isto?

Tal problematização foi abarcada pelo próprio Compagnon quando citou a exacerbação da expansividade romântica, ou seja, quando literatura deixou de ser matéria de autores para ser matéria de professores.

Onde quero chegar, contudo, não é nem aí. Onde quero chegar é: tudo bem, sabemos que os sermões possuem Donne, Vieira e o padre em Portrait of the artist em suas costas. Mas isso não é nem de longe o suficiente para que o sermão seja tratado como gênero literário, ou, no mínimo, para que possua características especificamente literárias, ou para que tenha em sua maioria textos literários ou esperadamente literários. Os casos citados são exceções. E se são exceções, é de se supor que elas possuam algo que as torne literárias e não simplesmente o que todos os outros são. E tais características é que seriam a literariedade do texto. Aqui nós poderíamos apenas retornar à tese de que literatura é realmente o que uma sociedade diz que é literatura, mas tal asserção continua valendo apenas para obras do passado, visto que os sermões continuam não sendo um gênero caracterizadamente literário.

Existem, naturalmente, várias maneiras de se tentar chegar a uma definição do que seria essa literariedade. Compagnon destaca bem em seu livro que extremismos são sempre extremismos. Mas não podemos simplesmente querer "descartá-los" (entre aspas pois posso estar querendo colocar intensidades na boca de Compagnon) como é o que ele faz no capítulo que estamos debatendo.

No âmbito, por exemplo, das formulações de Jakobson, por mais que Compagnon reconheça que o linguista russo falava de função poética não em termos de reinado absoluto, mas de predomínio, ele problematiza as afirmações de Jakobson de maneira parecida com Eagleton. Existem, porém, leituras desatenciosas do texto de Jakobson. Podemos realmente pensar que as proposições de Jakobson tendem a privilegiar a poesia e a vanguarda, e me parecem que são problematizações adequadas; contudo, o que deve ser notado é que são afirmações que conseguem chegar a critérios a meu ver consistentes de determinação da literariedade de um texto.

Assim, o exemplo de Compagnon de que existem textos onde marcas explícitas de literariedade não são vistos, certamente não vai ao X da questão. Contextualizando no Brasil, podemos trazer à tona Adélia Prado:

IMPRESSIONISTA.

         Uma ocasião,
         meu pai pintou a casa toda
         de alaranjado brilhante.
         Por muito tempo moramos numa casa,
         como ele mesmo dizia,
         constantemente amanhecendo.

Em entrevista ao Roda Viva (aqui), Haroldo de Campos (1:11:20), perguntado o que achava da poesia de Adélia, respondeu com desdém. Quem não se interessava radicalmente na questão linguística que envolve a feitura poética não interessava a ele, Haroldo. Contudo, vejamos. Não basta tratarmos a comunicação humana, no esqueleto de Jakobson,


se deixarmos de ver isso tudo como um amplo maior: e a partir daqui é possível que eu esteja me distanciando de Jakobson; olhando de forma atenta, não, não estou; Compagnon, na p. 100, falando sobre literatura e mundo, literatura e mímesis, cita a esse respeito as palavras de Nicolas Ruwet, tradutor de Jakobson, para quem a designação "mensagem" era ambígua, ou seja, se a mensagem voltada para a própria mensagem estaria tratando da forma ou do conteúdo. Compagnon presume que seja uma ênfase na forma, dado o contexto de Jakobson e sua produção de maneira geral. Se dentro da obra de Jakobson tal presunção não é falsa, e talvez de maneira geral no contexto do formalismo russo, é preciso, todavia, que se observe que a separação "forma" e "conteúdo" era tida como datada pelos formalistas, senso substituída pelas expressões "material" e "procedimento", onde por material não se deve entender só os aspectos sonoros ou gráficos da palavra, mas também suas conotações de significado entre outros (como sentimentos e eventos). Claro que para os formalistas, entre eles Jakobson, o que se entendia por "material", no caso da poesia, era apenas a palavra: e o que proponho, noutros termos, para que repensemos a possibilidade da poeticidade sem ferir o que foi exposto por Jakobson e pelos formalistas, é que tenhamos em vista o material palavra em suas acepções mais vastas.

Assim sendo, nos exemplos de Camus e Hemingway dados por Compagnon, não podemos só olhar a questão da estrutura linguística num sentido, digamos, literal, calcado na letra. É hora de olharmos para os materiais compositivos de um ramo da arte e pensarmos de que maneira inventiva e inovadora, criativa, humana, o texto em análise se vale destes materiais. No âmbito da literatura, os materiais seriam no mínimo o da imaginação e o das palavras; olhando de maneira ainda mais detida, estaríamos apenas no reino das palavras em tudo o que elas implicam de conteúdo também (ou seja, não só forma). Aí é quando começamos a perceber que a função poética como caracterizadora da literariedade continua sendo um critério sólido, pois já não podemos dizer que Camus, Hemingway ou Adélia Prado são escritores não "engajados com a linguagem", ou que possuam uma escrita tão simples assim. É nítido que a mensagem, nestes autores, se volta sobre si mesma, e podemos exemplificar no alaranjado brilhante que de repente é tomado como o dia amanhecendo no poema de Adélia ou nos significados do mar em Hemingway, tanto um quanto outro para além do instrumental graças ao fato de que conseguem criar novos significados como que in vitro (a expressão é perigosa), isto é, apoiados nas palavras daquele texto voltado sobre si mesmo ― o que não quer dizer, óbvio, em arte pela arte, embora, como disse em meu conceito de arte, a arte pela arte seja sempre um perigo da atividade artística; na verdade, é justamente no uso mais amplo e inteligente possível da moeda de troca da palavra em suas acepções mais profundas que o poeta consegue seus resultados melhores e, por conseguinte, "anula" a alienação artística.

Numa analogia, tenhamos que as mensagens voltadas para a própria mensagem, na obra de um grande artista, consideram também como que o solo em que aquela mensagem se deu, sendo, na verdade, o movimento de um mundo voltado para outro mundo e não simplesmente o caso de palavras em estado de dicionário, neutras, apartadas, cabíveis na tabela fonográfica, voltadas umas para as outras.

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E contudo, a problematização voltada para o slogan que possuiria mais poesia que o poema de Adélia Prado (por exemplo) não deixa de ser desconcertante. Ou, no mínimo, que possuísse tanta poesia quanto (o que acho até mais acertado pois deixamos de olhar o termo "mensagem" só a partir da forma).

Seria tão desconcertante assim?

Jakobson não nega a possibilidade de que exista poesia num slogan. Perfeitamente possível. Mas ali a função conativa predominaria. E aqui podemos observar como o esquema comunicativo de Jakobson não pode nunca ser tomado como solução simplesmente literária para a questão, posto que demanda toda uma análise extraliterária (tudo está acontecendo ao mesmo tempo). O contexto em que um texto é veiculado, e os valores eu arrisco a dizer até mesmo de expectativa para com tal contexto são essenciais para que a definição de literariedade seria posta.

Assim, numa sociedade onde a expectativa de que o slogan veiculasse poesia e não simplesmente persuasão (o que implicaria que muitos slogans teriam como fim não a função conativa, mas a poética ― e sim, é preciso que se considere a intenção, até onde der ou se puder comparar, na análise das funções comunicativas; Paul Fry também aborda a necessidade aqui), é possível que a atividade de criação de slogans fosse posta ao lado dos poemas-poema: e sem problemas nenhum com algo assim, desde que, para chegarmos a tal conclusão, saibamos ver até que ponto uma saturação da função poética não se faz acompanhar também de uma saturação ainda maior da função conativa. Na verdade, mais uma vez é bom repetir que para Jakobson a função poética não só pode estar, como está e está em dose considerável num slogan como I like Ike; todavia, a função conativa aqui é mais poderosa que a função poética, de modo que, para chegarmos a tal conclusão, devemos obviamente lançar mão de análises extraliterárias. Seria, em suma, a união da literariedade à extraliterariedade, crucial para que possamos traçar com maior eficiência a realidade das outras funções comunicativas ao longo de uma mensagem, e poder mensurar suas dosagens (mas mensurar, é claro, no sentido de criar uma noção e não uma tabelinha percentual). Além, é claro, do fato de que, a partir do instante em que passamos a considerar a "mensagem" referida por Jakobson não só em termos formais, vamos observando que a "dosagem" da função poética presente numa mensagem como I like Ike não é assim tão grande, suplantada que é pela função conativa.

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Sinto, certa maneira, uma afinidade da argumentação de Compagnon com a ideia muito bem posta por Paulo Henriques Britto acerca do que seria poesia, evocando Wittgenstein e rebatendo Stanley Fish. Aos 1:05:00, por aí.


A partir do conceito de semelhança, podemos ir expandindo, podemos ir entendendo o como-funciona da expressão "é tudo o que uma sociedade diz ser literatura". Não é, afirmo, algo arbitrário, e isso é mais do que necessário para que não leiamos Compagnon de forma tendenciosa. Contudo, ainda creio que a tese da literariedade continua de pé, uma vez que, óbvio, ela depende da comparação com uma linguagem comum, com mensagens comuns (e, vale lembrar, mensagem = forma e conteúdo). Assim, existe em sua constituição uma dependência de fatores extraliterários e da presença de outras funções dentro da mensagem que servem para manusearmos fronteiras.

Literatura é o que uma sociedade diz ser literatura? Sim, naturalmente. Não temos como escapar ou dar uma resposta negativa para isso. Contudo, essa sociedade não vai simplesmente dizer que qualquer coisa é literária, ainda que virtualmente ela possa, visto que uma afirmação assim estaria indo contra textos que são confirmadamente literários e que somente na hipótese da hipótese (pós-apocalipse, pós-amnésia-geral, sei lá) deixariam de ser. Podemos chegar a critérios até sólidos da literariedade de um texto, mas eles naturalmente não se fazem predominantes nem suficientes por si só para que cheguemos a uma equação de reconhecimento. Dependem de fatores extraliterários. Mas o fato de dependerem não quer dizer que não existam ou que se tornaram por conseguinte irrelevantes.

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Não se interprete minha defesa da literariedade ou meu lamento do "mas ela não existe?!" como o desconsolo do habitante da torre de marfim. Como fiz ao esboçar um conceito de arte (aqui), deixo aqui bem claro que literatura pra mim é uma coisa bem restrita (e não quero com isso, digo pela enésima vez, implicar que Compagnon pense o contrário: que literatura é tudo). Assim, se, em minha defesa da literariedade, pressuponho que alguns textos fatalmente vão ficar do lado de fora, pois que fiquem. Isso não quer dizer muita coisa dum ponto de vista qualitativo ou de importância. Pois existem textos absolutamente ruins que vão ser consideradores literatura enquanto outras manifestações culturais ou simplesmente humanas estarão de fora do âmbito literário ou artístico, certo, mas que continuarão a nos encantar e a possuir sua importância ouso dizer inalterada. Se brincar, enaltecida, pois deixarão de depender de um alçamento à esfera literária para que ganhem alguma importância (e aqui eu digo e redigo: é mesquinho partir do princípio que só o que é arte é bonito ou, num raciocínio que entra pela porta dos fundos, que tudo o que é bonito é artístico).

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Resumindo, não rebato inteiramente as afirmações de Compagnon e Eagleton. Reafirmo, em especial quanto à Compagnon, minha admiração genuína em relação a seu trabalho. É um livro que certamente pipocará em minha mente por um bom tempo, e Compagnon é um autor que também certamente buscarei conhecer mais. Apenas creio que suas conclusões não chegaram à, digamos, cereja do bolo, que é a meu ver a consideração da possibilidade factível de que a literariedade exista, nos termos, nas expansões acima desenvolvidas.