Um conceito de arte.


(Alfredo Bosi enfrentou bravamente o problema. Créditos)


Jamais a TAG "pitacos" será tão bem usada. Sabendo que costuma ser mais fácil vivenciarmos a arte que conceituá-la, sabendo que é mais fácil criarmos um parâmetro para que consigamos determinar o que é arte sem definirmos totalmente o que ela vem a ser (seria algo como comparar o objeto em questão com tudo o que se reconhece unanimemente como sendo arte), eu sei, ah, eu sei que a tentativa de conceito continua sempre válida. Óbvio que sem a pretensão de ser absoluta, uma tentativa assim, por imprecisa que seja, possui sempre a virtude de suscitar um debate e de, no mínimo, lançar olhares desconfiados para a animosidade desonesta com que alguns "artistas" batizam suas crias. Quem se propõe a definir o que é arte, no fundo, quer ver o circo pegar fogo. Quer levar esporro. Quer ser fuzilado e ver os estilhaços germinarem falas.

Para Alfredo Bosi, há três aproximações para o conceito de arte, conforme ressaltemos o fazer, o conhecer e o exprimir. Mas ó, acaba por aqui. Se começar a citar nomes, eu não só não paro como piso na casca de banana e me embanano todo. Terei as categorias apontadas por Bosi como referência. Repito que isso vai me levar fatalmente à imprecisão, ao deixei alguém de fora. Mas este é um fantasma que sonda um conceito tão debatido quanto o de arte. É preciso ter uma certa cara de pau tanto pra se passar por nomes que você sabe ou presume que existam, quanto no sentido de você chegar a um resultado ultrapassado ou que já foi contemplado por outro autor, como se você, no final, apenas renomeasse o já existente. Sejamos corajosos, contudo. Enfrentemos o problema, mesmo que brevemente. Tenho a convicção de que uma definição muito mais competente que a que estou prestes a fornecer só seria possível numa análise histórica da evolução do conceito. E porém, muitos textos que se propõem a fazê-lo terminam seu trabalho só apontando as ideias dos autores, sem que o autor do texto se meta ele mesmo a fornecer um. Se é por receio ou se é por seriedade, não sei. (E também não critico quem o faz; pelo contrário.) Mas aqui eu vou me arriscar.

Arte é um ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem. Mas não sejamos babacas. Vamos falar de maneira clara, vamos chutar um pouco a excessividade de conceitos e, num exemplo, abramos as portas da imagem, sempre mais convidativa. Arte é quando o ser humano se lambuza com a linguagem. Passa no cabelo, na cara, na mão, no peito, no cu, no pé. Obviamente que ao nos comunicarmos, e daqui a pouquinho falo melhor disso, estamos não só utilizando a linguagem como embrulho, mas nos lambuzando com ela. Somos desastrados, sabem como é. Desastrados à beira do desastre de que a existência passe batida. Só que, claro, com a arte é diferente. Existe algo de lúdico. Existe o perigo para-sempre-presente de que a arte seja arte pela arte, e de que, nessa lambança, gostemos e queiramos ficar por ali mesmo. Mas linguagem não é só isso, pois quem se lambuza com a linguagem não ignora (se esconde, é outra conversa) o suor e as carícias de quem nela também se lambuzou e se lambuza.

Quando falo em linguagem, falo num sistema de signos. Não se trata, sendo assim, apenas de língua (portuguesa, latina, italiana, hindu etc). E mesmo que se tratasse apenas de língua, não seria o caso da língua sob a roupagem alienígena da gramática normativa. Aqui cumpre citar Marcos Bagno, em sua monumental Gramática pedagógica do português brasileiro, que afirma (pp. 75-76):

A língua é muito mais do que um simples instrumento de comunicação. Ela é palco de conflitos sociais, de disputas políticas, de propaganda ideológica, de manipulação de consciências, entre muitas e muitas outras coisas. A manipulação social da língua nos leva a votar nessa ou naquela pessoa, a comprar tal ou qual produto, a admitir que determinado evento ocorreu de determinada maneira e não de outra, a aderir a uma ideia, a acreditar nessa ou naquela religião, e por aí vai, e vai longe... // (...) // A língua é nossa faculdade mais poderosa, é nosso principal modo de apreensão da realidade e de intervenção nessa mesma realidade. Vivemos mergulhados na linguagem, não conseguimos nos imaginar fora dela - estamos mais imersos na língua que os peixes na água. // Além disso, a língua é um fator importantíssimo na construção da identidade de cada indivíduo e de cada coletividade. Ela tem um valor simbólico inegável, é moeda de troca, é arame farpado capaz de incluir alguns e excluir muitos outros. É pretexto para exploração, espoliação, discriminação e até mesmo massacres e genocídios, como já vem expresso num conhecido episódio bíblico. // (...) // Portanto, não se pode admitir essa falácia de que "o importante é comunicar". Abrir a boca para falar é se expor, inevitavelmente, aos julgamentos sociais, positivos e negativos, que configuram nossa cultura. Falar é comunicar, sim, mas não "transmitir uma mensagem" como ingenuamente se pensa: é comunicar quem somos, de onde viemos, a que comunidade pertencemos, o quanto estamos (ou não) inseridos nos modos de ver, pensar e agir do nosso interlocutor.

Essa ampliação considerável do que o autor entende por língua pode muito bem ser usada em meu conceito de arte. Logo, por mais que eu até guarde um certo formalismo em meu coração, espero que possa me redimir se trouxer à tona essa ampliação conceitual da linguagem, se trouxer essa ideia do se lambuzar COM A linguagem. Isto é, não DE linguagem, posto que o COM A pressupõe que a linguagem pode ser lambuzada conosco.

Vamos por partes.

A arte é um ramo da cultura. A ideia de ramo talvez não seja lá muito boa pois remete a um conceito arbóreo do saber humano que, na pós-modernidade, tende a ser substituído por um rizoma. Ou seja, não existe um tronco, um cerne, e todo o resto seria secundário. O rizoma cresce em qualquer lugar. Ele apenas se expande, ela se alastra. Daí que minha utilização de "ramo" seja problemática. Contudo, irei mantê-la na falta de um termo melhor. Pois, de resto, se é verdade que estou sendo mais ou menos reducionista, não o estou sendo tanto pois creio que ter a consciência de que a arte é um pedaço da cultura, e não sinônimo dela, é muito mais salutar do que confundir os termos.

Ramo da cultura caracterizado pela expressividade humana da linguagem... Hum! Se a linguagem possui um conteúdo a todo instante humano, isso seria um pleonasmo. Mas um pleonasmo talvez inofensivo, se brincar até mansinho. Mas vamos, vamos lá, vamos por partes. Se quando eu uso a linguagem eu estou me demonstrando, ou seja, existe sempre algo de mim, uma revelação minha na mensagem comunicada, nem sempre isso se dá de maneira satisfatória. Não é preciso irmos longe para chegarmos a mensagens que tenham como fim apenas comunicar algo, se valer da linguagem apenas simulacro. Se  Bagno diz que na prática isso não existe, ele também não quer dizer que toda mensagem, sendo assim, possuiria um conteúdo caracterizadamente humano. Expressividade humana da linguagem é toda utilização linguística que se paute no sentido de deixar bem notório que um ser humano existe por trás. Não redunda necessariamente em quesitos quantitativos, de predomínio.

O conceito pode dar também a entender que falo só de linguagem e excluo ou o humano que se expressa ou dou a possibilidade de que ele seja excluído. Aqui, dois argumentos. O primeiro é o de que se arte é ramo da cultura, e cultura é atividade humana, não se pode excluir o ser humano pois ele já está implícito no conceito. E segundo que não posso também depender muito de um ser humano determinado ou determinável, uma vez que o fenômeno da arte anônima está aí: onde está o ser humano que criou aquela obra de arte? Presumo quem ele é a partir de uma análise histórico-social; porém, sua existência é linguística. Sei que ele existiu pois sua arte, sua linguagem, expressividade humana, evidencia que ele existiu. O mesmo podendo ser dito dos heterônimos de Pessoa, por exemplo.

Um caso intrigante dentro dessa questão da expressividade humana da linguagem é a própria expressividade humana da linguagem. Se recebo um bilhete de alguém que gosto muito, existe uma expressividade humana nele. Não dá pra dizer que não. Logo, qual a diferença? Tenho até minhas dúvidas se um critério diferenciador como um "capaz de gerar muitas leituras" seria o caso, uma vez que esse mesmo bilhete pode suscitar em mim diferentes interpretações, nada de errado (seria, é certo, o caso de falarmos em intensidade...). O foco deve ser voltado para a linguagem caso queiramos reconhecer o objeto em questão como artístico ou não, ou seja, uma comunicação mais ampla possível, uma comunicação que implique, a qualquer momento, o surgimento de um estranho ali no meio (pois linguagem implica em comunicação que implica em indivíduos, e qualquer forma de negar esse raciocínio estaria retornando à clausura). Assim, não é tanto um enfoque ao indivíduo, sozinho, sem a problematização do Outro. É mais um enfoque à linguagem mesmo, o que dá de certo modo na mesma: posso citar novamente Bagno ou posso citar o fato de que um objeto inteiramente artístico é impossível.

O conceito de arte que aqui desenvolvo é o de uma especificidade, um ramo num todo maior. O ser humano pode se expressar de maneira não cultural, por exemplo. Mas ele pode se manifestar de maneira cultural e ainda assim não artística. O que nos permitirá dizer que uma manifestação sua é artística é a questão linguística. É a forma como ele se utilizar de uma linguagem determinada: no caso, uma forma caracterizada pela expressividade humana. Não se trata, desse modo e repetindo, de querer definir arte a partir de conceitos calcados no indivíduo, pois não há nenhuma razão para que a arte monopolize a manifestação humana subjetiva! A arte é simplesmente uma maneira específica deste manifestar-se.




Retornando à questão do não existir forma artística pura, peguemos o esqueleto de uma comunicação básica (imagem acima) e convoquemos o bom e velho Roman Jakóbson. Chegaremos a conclusões interessantes. Jakóbson deixa bem claro que não se pode efetuar uma comunicação com ênfase em apenas um dos lados. Daí que, por mais que o perigo da arte pela arte espreite, ronde, ele nunca chegará sequer a habitar a superfície. O bom artista entende que um esqueminha desses é só um esqueminha. A realidade é tudo isso aí acontecendo ao mesmo tempo e de maneira indissociável. Falarmos em linguagem é já falarmos no emissor, no receptor, no referente, no código, no canal... Um acerta a todos. O artista que se limita só ao prazer bom de se lambuzar com a linguagem é artista de portas fechadas.

Dentro do que Alfredo Bosi caracterizou como modos de arte, vejamos se meu conceito dá fé. Se a arte é fazer, é transformar os signos e a natureza, o conceito de linguagem que desenvolvo abarca essa possibilidade, combinado com a tal "expressividade humana", ou seja, a linguagem trabalhada com uma preponderância humana, pra satisfazer caprichos, apaziguar fantasmas, sei lá. Enquanto conhecer, modo de representação da realidade, mais uma vez a linguagem, com todas as conotações de Bagno, e ligada à sua expressividade humana, entram em cena, unindo uma visão humana ao pôr em relevo o único, o particular, o irrepetível que a obra artística tão bem demonstra. E enquanto exprimir, projeção da vida interior do artista, mais uma vez tudo certo.

Pensar questões desta ordem é pôr entre parêntesis a afirmação de que um pôr-do-sol, por exemplo, é artístico. Aqui é ainda mais fácil de refutar pois o pôr-do-sol nem cultural é. Dizer que ele é artístico é um absurdo, a não ser que estejamos falando de arte apenas como adjetivo. Aí, muita coisa pode vir a ser arte, até mesmo uma lata de picles.

Pensamentos assim costumam fazer um desserviço. Enchem demais a bola da arte, como se só a arte fosse importante, e como se todas as coisas importantes da vida precisassem ser artísticas. É muita pobreza de espírito. Um pôr-do-sol é belo, é lindo. Só a arte pode ser bela, linda? Por isso também bato o martelo e digo que toda expressão humana não precisa ser necessariamente artística. Na verdade, ela pode ser até muito emocionada e não artística, como um beijo de despedida entre um pai e uma filha (que também nem cultural é). Retorno o que disse ao enfoque linguístico, ou seja, dos componentes fundamentais de construção daquela expressão. Para ser arte, eles precisam da linguagem com expressividade humana característica. O que implica retirá-los de sua utilização corriqueira, banal, de todos os dias, como o idioma que uso só pra pedir um café e dois pães, e lhes insuflar uma exuberância capaz de evidenciar um ser humano em específico, uma situação em particular dentro do universal atropelador da linguagem corriqueira.

Por isso Arnault Daniel, ao celebrar seu amor, dizia que iria celebrá-lo de modo invulgar, o que, óbvio, não implica em rechaçamento da arte popular ou mais simples, pois, de resto, de simples muitas vezes a arte popular não têm nada: ou vai dizer que é simples escrever um cordel quando tudo a seu redor te impele a chorar? Refinamento e exuberância linguística não implicam em modelos tais e quais. Julgo como sendo critérios sim, em tudo o que possuem de humanidade e inovação, e não preciso nem dizer que podem aparecer perfeitamente mesmo na arte popular. Entendo que eleger um padrão excludente é errado, principalmente quando esse padrão é uma linha reta rumo ao ponto de parada que ele, o crítico, aponta. Mas quem busca refutar essa concepção não pode meter os pés pelas mãos e começar a chamar a arte popular do que ela não é: rude, simplista, contentada com pouco. Do mesmo modo que existem muitos artistas populares ruins, que não evidenciam de maneira plena a expressividade humana de sua linguagem, do mesmíssimo modo (mas com mais estardalhaço), existem artistas de "alto escalão" que fazem a mesmíssima coisa! Reconheçamos aqueles que enfrentam o problema em seus pilares mais básicos e consistentes: ser humano, linguagem. Tanto um como outro, e a tal ponto que um não vive sem o outro. Separá-los ou querer anulá-los é pros detratores.

Em ser tão inesquecível o momento que gera o objeto artístico, a linguagem deve ser também inesquecível, única. A expressividade humana característica implica dizer que você se exprimiu humanamente de forma tão intensa que aquilo se tornou característico. É o seu banho, o seu lambuzamento com a linguagem. Homenagem à vida, ao que realmente é capaz de nos fazer sorrir e seguir em frente, vamos lá, gente boa, se lambuzar, que compensa.

Comentários

  1. Certamente que meu texto demanda um conceito do que é cultura, mas, por hora, eu o deixo pra depois. Adianto que não considero tudo como cultura, malgrado o fato de que praticamente tudo o que fazemos possui um influxo cultural, nem que seja um influxo no sentido de escolhas: entre cagar no mato e cagar no banheiro, cago no banheiro.

    Assim, tentando mais uma vez deixar claro o ponto onde quero chegar, é que o ser humano se manifesta. E algumas dessas manifestações são caracterizadas pelo fato de serem emocionadas. Outras, pelo fato de serem manifestações culturais. Não acho que a cultura requeira uma manifestação emocionada, de modo que existiria uma zona de intersecção entre a manifestação cultural e a emocionada. Nesta, há uma determinada área caracterizada pela expressividade humana da linguagem. E isto, para mim, é arte.

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  2. Mas nada disso ainda exclui a problematização principal a meu conceito que seria a "o que é linguagem?". Pois, com efeito, a música, a pintura, a arquitetura não apresentam linguagem. Posso, desse modo, querer implicar com linguagem apenas um conjunto de materiais constitutivos? É possível. Mas faltaria um liame que lhes validasse a alcunha "linguagem". Aqui eu poderia dizer que esse liame é um liame posterior, vale dizer, é o que a arte, em sua semelhança com o jogo proposta por Gadamer, chega logo que produzida. Assim, imaginando os materiais constitutivos de uma pintura, que, como disse, não formam uma linguagem, temos que, depois de feita a arte, uma linguagem é constituída pois tais materiais que até então não guardavam nenhum liame entre si passam a guardar o liame de estarem todos numa estrutura de jogo. O que, desde já, permite a suposição de que existem aquelas artes cujos materiais constitutivos já se encontram num conjunto linguístico estabelecido, enquanto outras não os possuem.

    Bem se pode ver que o tema é amplo e que eu não o formulei adequadamente. Fiquem aqui, todavia, estes esboços.

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