Os cantares do sem nome e de partidas de Ricardo Domeneck.





Ricardo Domeneck é, pra dizer o mínimo, um dos poetas mais interessantes e inventivos hoje. Não apenas por sua militância apaixonada e apaixonante em prol da poesia na revista Modo de Usar (aqui), entre outros, mas também pela qualidade de sua poesia e por sua lucidez crítica. Indo não só contra os discursos por si só entendiantes de crise da poesia contemporânea, como também indo contra as concepções questionavelmente universalistas do fazer poético, ou seja, daquelas concepções de poesia que redundem na universalidade sem o indivíduo em todas as suas acepções, marcadamente acepções éticas, não se pode negar a proatividade de sua voz, ouso dizer que sua voz de liderança num tempo em que a poesia navega sob ventos melhores.

Venho por meio desta tentar fazer uma leitura comparada entre Domeneck e a poeta Hilda Hilst. Hilda é dos nomes de preferência de Domeneck, bastando que se cite seu comovido texto Dez anos sem Hilda Hilst (aqui). Como, porém, a leitura de poesia contemporânea é uma leitura que deve ter um método devido para que não caiamos no perigo de naufrágio, ou no perigo de comparações descontextualizadas e pueris (depois eu falo melhor disso), farei mais especificamente uma leitura entre o livro Cantares da autora e o livro Cigarros na Cama de Domeneck. Acho que isso ficará mais claro ao longo do texto. Acho.

Achemos.

Existem muitas coisas na poesia de Hilda que encantam. Certamente uma das principais é o fato dela ser, essencialmente, uma poeta metafísica. Claro que sem a patuscada com que a poesia metafísica foi tratada ao longo de nossa literatura, ou seja, sem aquelas categorias entendiantes e reacionárias de grande parte da geração de 45. Hilda mesmo dizia que falava até de bunda. E ó, ela fala. E é aí que reside o interesse tão poderoso de sua obra.

A corporalidade na hora de abordar esse tipo de coisa é um movimento perigoso e nitidamente necessário. A poesia de Hilda é uma atualização poderosa de um legado poético muitas vezes relegado a segundo plano ou ao automatismo sem reflexão por trás. Não simplesmente coloca a mulher no centro da feitura poética, ao invés de musa ou de detentora do mistério do mundo ou da carne, algo de resto já vislumbrado por uma Christina Rossetti (aqui), como aporta na gênese do problema e proclama uma existência que passa pelas reentrâncias metafísicas para, justamente, validar o físico.

Veja-se, neste sentido, a atualização inteligentíssima que a poeta faz do arcabouço medieval. No livro Cantares de perda e predileção (CPP), por exemplo, Hilda traz à tona a lendária figura do Ódio-Amor, nos dizeres de Alcir Pércora figura paradoxal que vai do amor próprio ao reconhecimento do Outro. Paradoxos que, aliás, sempre permearam a literatura medieval, bastando que se cite os momentos mais inventivos de um Raimbaudt d'Aurenga. E que, nas preocupações de Hilda, une contrários tão díspares como a Vida e a Morte, uma vez que o ato sexual ou a realização do desejo, em ser um momento de êxtase, um momento pleno, é também um momento de despedida. Um momento de perda e predileção, para evocarmos o fabuloso título do livro. (E tal ambiguidade me lembra, de súbito, os momentos mais "tesos", já me usando de um termo da preferência de Domeneck, do poeta barroco John Donne [aqui].)

Perdas e predileções já estão no título do livro publicado em 2011 por Domeneck: Cigarros na Cama (aqui). Ato muito comum, quem já transou sabe (ou quem já pisou num cinema), esse de dar uma pitada depois da pitombada. Claro que se os cigarros estão na cama, é porque tudo já acabou, o que o subtítulo apenas esclarece: "(e outras banalidades da separação)". Logo, Ódio-Amor já estampado na capa?

Pode ser. Uma das principais reivindicações de Domeneck para a poesia contemporânea é o que ele chama de dimensão est-É-tica da obra artística. Uma obra de arte que não cale a voz do indivíduo em todas as suas acepções, isso, óbvio, sem recairmos na polarização barata entre poesia lírica e poesia participativa. Repete-se: como, por exemplo, se pode negar a um poeta gay que sua voz lírica não participe? É lícito que ele apenas absorva um modo de usar caso queira ter seu nome nos imortais e sempre-por-contestar parâmetros da universalidade artística? Universalidade artística?!, quando homossexuais são diariamente oprimidos? É fácil falar em universalidade para quem já está respaldado em parâmetros universais. Para o oprimido, é preciso ser acima de tudo emancipador.

Domeneck sempre diz em entrevistas que seria bom se seus poemas fossem vistos apenas como poemas de amor, de realização carnal (aqui). Mas não podem nem devem ser apenas isso. A condição marginal do coito homossexual não só impede a pura e simples existência no mundo, como impele toda relação a ser, constantemente, cantares do sem nome e de partidas. Relacionamentos sob a égide opressora que não suporta que nem mesmo manifestações de carinho sejam dadas em público.

A busca do livro todo é a busca do êxtase. Êxtase, entenda-se: o próximo. O primeiro depois do último. Como diz o poeta no segundo poema, uma vez que sua língua só tocará as sílabas da palavra ADEUS, há que se buscar por aquele momento pleno da carne, aquele momento de afirmação da existência que, de tão intenso, eterno enquanto dure, marcará a busca por um "você" que na verdade pode ser qualquer um. Citando a epígrafe do livro, do Cantares do sem nome e de partidas (CSNP, aqui), "Que este amor não me cegue nem me siga." Mais pra frente: "Que este amor só me faça descontente / E farta de fadigas. (...)".

É comum que na poesia de Hilda ela identifique a figura do amado com algum Senhor ou Deus. Conforme dito, no CPP ela o identifica ao Ódio-Amor, mas não são poucos os instantes em que, ao longo de sua obra, ela consegue, repito, atualizar todo um arcabouço da poesia medieval e atuar criticamente na sua posição de poeta e mulher: basta que se cite o poderoso poema Mula de Deus (aqui). No poema XXIII de CPP, a poeta diz: "Eu amo Aquele que caminha / Antes do meu passo. / É Deus e resiste. // (...) // Amo-te, meu ódio-amor / Animal-Vida. / És caça e perseguidor / (...)". Não existem tantas reentrâncias de vassalagem mordaz no livro do Domeneck. A deificação do amado é uma deificação à moda grega, calcada num modelo de beleza que vai de encontro à adoração carnal. E tão logo adorada você, adorada carne!, mesmo que esse amor depois se revele como só de partida, ele imprime na memória o pleno (poema 5): "a confissão do fato / de por dias não mais / poder masturbar-me / com a imaginação, / mas tão-somente / com a memória / do que já não pode / nem há-de repetir-se."

Existem, claro, momentos que reinvocam cenas bíblicas ou cenas tradicionais. Seria o caso do poema 4 ou do poema 6. Ao contrário do que se pensa, é muito mais fácil irmos de encontro ao fluxo histórico se aceitarmos a história do corpo humano do que se o negarmos e preferirmos abstrações pudicas. A poesia de Domeneck frequentemente usa um caminho assim, algo que pude vislumbrar também na poesia de Zeytounlian (aqui) e que pode ser traçado no sentido de que as cicatrizes que permeiam o corpo contemporâneo guardam a um só tempo o gozo e o azougue.

Existem também momentos genuinamente satíricos, como mais uma vez o poema 5 ou o poema 10. A perspectiva prosaica que a poesia satírica sempre abriu é ainda hoje uma fonte inesgotável de modernidades. Pude tratar um pouco disso em meu ensaio biográfico sobre a obra de Rimbaud (aqui). O que é interessante de ser observado, contudo, é que, uma vez que a poesia moderna fagocitou o arcabouço da poesia satírica, e o ressignificou nos primeiros momentos modernistas (tanto brasileiro quanto estrangeiro [o Prufrock eliotiano, o Mauberley poundiano etc]), parece-me que depois disso houve uma intolerância à poesia satírica que virou rechaçamento puro e simples, coisa que, se brincar, nem mesmo algumas incursões marginais conseguiram abrandar. E que, hoje, é um trabalho que vem sido trazido à tona por nomes como Angélica Freitas (que Domeneck estudou muitíssimo bem aqui) ou Fabrício Corsaletti, malgrado o fato da crítica vez outra persistir em suas questionáveis categorias de julgamento e, logo, negar essa dimensão da produção contemporânea.

Onde quero chegar é que a poesia satírica, e creio que Domeneck entendeu isso muito bem nos poucos momentos satíricos de Cigarros na Cama, é que a poesia satírica com seus fins primordiais de imersão profunda no prosaico especialmente no que ele implica de escárnio, é uma via de compreensão extremamente poderosa para nosso tempo, onde insultos discriminatórios são revestidos sob a alcunha de "piadas", "sátiras", e onde a poesia satírica fornece uma das maneiras mais inventivas e não tenho nenhum pejo em dizer duradouras de trabalho com a enorme carga prosaica que nos ronda. A poesia de Angélica Freitas ou Corsaletti mostra esse embate de modo mais claro que Domeneck; mas Domeneck com toda certeza está atento a tais implicações satíricas da poesia contemporânea.

Cigarros na Cama parece simular o movimento anunciado logo no primeiro poema, entre um cigarro e outro, entre a superação e a dependência. Incluso entre estas duas categorias, poderíamos pensar na solidão surrealista que a poesia de Hilda comumente apresenta, com imagens de tigres, punhais, cores, nódoas, águas. É uma poesia que possui basicamente o magistério da fecundidade, podendo, diz Hilda no poema XLV de CPP, "Que no poema ao menos / Viscosidade e luz / De nós dois, criaturas, / Recriem seu momento." 

A posição de Domeneck aqui se difere. Se o que une acima de tudo a poesia dos dois é a importância da carnalidade em seus textos, alcançando escopos de análise que vão desde a sátira à metafísica, por outro lado podemos usar como diferenciadores o fato de que Domeneck está imerso no cotidiano, e que esse cotidiano não pode suprir o êxtase, conforme o poema 25, ao passo que Hilda, imersa no julgo medieval, no eterno de suas lembranças e pensamentos, busca a força necessária para encontrar, fecundar seu amado em todas as coisas (poema X de CNSP): "Como se fosse vão te amar e por isso perfeito. / Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se. / E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego / O Seguidor disso sem nome? ISSO... // O amor e sua fome."

Há uma aproximação mais poderosa entre os dois quando Domeneck invoca a figura de Catarina de Aragão nos poemas 21 e 22, especialmente o 22:

     Pobre Bolena,
     que por fim também pagou
     preço tão alto
     pelos apetites
     de Eros, o insaciável.

Outra imagem a meu ver genuinamente hilstiana é a do poema 28, o último do livro:

     Os amigos sugerem passatempos
     e festas, acquaintance com anatomias
     inéditas, corpos novos. Como? Quem
     se compara aos seus côncavos
     e convexos?
     Por ora, moço,
     você ainda defeca
     ouro.

Fora do livro Cigarros na Cama, um dos poemas de Domeneck onde a condição de sua palavra poética mais se aproxima da conceitualidade física da palavra hilstiana é o poema Texto em que o poeta faz uma demonstração pública de afeto a Markus Nikolaus, enquanto relata em numéricos estágios a transição de Eros a filiar-se rumo ao Ágape (aqui). O tamanho do título do poema anda de mãos dadas com a composição clássica dos títulos (isto é, até o século XIX), enormes, auto-explicativos, explícitos para com o remetente (algo que, assim como na estrutura das baladas italianas, Domeneck comumente incorpora), saudosistas de uma época onde o título de um texto conseguia de fato chegar à sua essência. Ao contrário do que leituras mais desatentas podem demonstrar, o tamanho enorme dos títulos de alguns poemas ou textos em prosa contemporâneos (como os de David Foster Wallace) não demonstra crise ou falta de criatividade. Demonstram apenas que vivemos tempos onde nem mesmo o criador consegue chegar à essência da notícia, do texto.

Pois bem. O movimento geral do poema é muito próximo ao movimento geral de Cigarros na Cama, com a diferença de que instrumentos hilstianos mais clássicos como a rima toante inesperada, cadenciada num ritmo que está sempre a um passo de ludibriar o leitor, aparecem de modo bastante premente, para não dizer do aparecimento daquelas estruturas sintáticas que demonstram nitidamente o como a poesia de Hilda percorre uma gama muito ampla de imagens e enumerações para terminar no conceito, na gênese do indivíduo, como

          3.

     Os seus hematomas
     de moleque pipocam,
     roxos, azuis, pelo corpo, tanto
     corpo, como se fosse inchando
     de tônus em músculo, pujança
     de carne tensa, tôrax inflando
     -se expectorante, enquanto
     ouço as tosses e acompanho
     os movimentos, expectante
     a cada ascensão montante,
     como fosse eu dependente
     desses pulmões rangentes,
     desejoso, entre as costelas,
     de ser eu aquela
     que foi de Eva.

Outro exemplo seria a estrutura sintática do finalzinho do poema 4 (& cia), onde a vírgula atua como elipse para com uma comparação, um "como", um "à guisa de", um "tal qual", desaguando no irrompimento de uma característica X pressuposta e impessoal (o que a supressão do artigo definido realça ainda mais). Compare-se com o poema XXIV de CPP:

     Cavalos negros
     Entre lençóis e abetos.
     E machetadas as cartas

     Repulsa e gosma
     Entre as palavras.

Não nomear o objeto, dissimulá-lo, estar em íntimo contato com ele e ainda assim temer encará-lo de frente, sabendo que, uma vez que ele representa o êxtase, e que no êxtase nós dispomos nossas tripas ao contrário, nos vestimos do avesso, ele pode ser perigosamente revelador; essa torrente descritiva que a poesia de Hilda serpenteia é nítida em Domeneck, retrabalhando-a à luz dos momentos drummondianos onde o recurso era também utilizado com fins a demonstrar uma desumanização da linguagem. E isso, não preciso nem dizer, numa poesia onde a carga pessoal é tão poderosa que não se limita apenas à alma, mas também à carne e às navalhas adjacentes, é de um impacto sem comentários.

Voltando a Cigarros na Cama...

...A descrição metaforicamente inventiva dos objetos é uma característica premente não só da poesia de modo geral, como, não podia deixar de ser, da poesia de Hilda e de Domeneck. Se em Domeneck, vimos, é comum que existam objetos cotidianos dentro do poema, característica não só moderna como defendo também que especificamente pós-moderna no que tange a relação entre indivíduo e supérfluo, na poesia de Hilda isso é mais raro, posto que ela possui uma tendência metafísica onde mesmo a bunda que a autora coloca no texto é elevada à condição de conceito fundamental (combine-se com a tendência surrealista da autora e vocês terão uma orgia capaz de suprir a ausência). Dito pela poeta no poema II de CNSP, "Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias", ou, no poema III,

     Isso de mim que anseia despedida
     (Para perpetuar o que está sendo)
     Não tem nome de amor. Nem é celeste
     Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
     E tenro. Dançarino também. Isso de mim
     É novo: Como quem come o que nada contém.
     A impossível oquidão de um ovo.
     Como se um tigre
     Reversivo,
     Veemente de seu avesso
     Cantasse mansamente.

     Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
     Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso
     Dançarino e novo, ter nome de ninguém
     E preferir ausência e desconforto
     Para guardar no eterno o coração do outro.

A poética mais recente de Domeneck, especificamente a contida no livro Ciclo do amante substituível (aqui; e que não chega a ser uma contradição com a temática de Cigarros na Cama, conforme vimos), possui momentos onde o poeta alcança trabalho parecido no trato com as palavras. Um de seus poemas mais recentes, e a meu ver um de seus melhores, Ouro de tolo (aqui), consegue me lembrar os também melhores de Federico García Lorca:

     Açoitem-me com azeitonas, moços,
     nesse antipasto de porcos e potros.
     Pastoreio à espera que se percam
     e me apontem a saída do rebanho.
     Aceitem-me tal como, à acetona,
     o esmalte que a mim não me cabe
     para lacrar essas unhas, que antes
     possuíam a sua pele como glace.

Compare-se (aqui):

trad. Afonso Félix de Sousa.
     Norma que agita igual carne e luzeiro
     traspassa já meu peito dolorido
     e as túrbidas palavras têm mordido
     as asas de teu ânimo severo.

O trabalho vivo e intenso com as palavras, numa sequência de trocadilhos onde cada termo guarda dentro de si a memória do outro, pode tanto evidenciar uma sátira concreta a uma espécie de ouro de aluvião que comumente a poesia ostenta, e que Domeneck já criticava no poema 4 de Cigarros na Cama: "(...) que eu, ora, / entretenha, / feito um mico-leão bege, / a ela e a outros cinco / leitores com malabarismos / de vocabulário qualquer." (a cor bege é importante nessa fase da poesia do autor pois está relacionada à carne, "com açoites do couro / que cobre em vocês todo o corpo", diz o poeta em Ouro de tolo); esse trabalho vivo com a materialidade linguística pode também ostentar a carnalidade do poema contraposta a sua tendência fluida e fugidia, uma vez que é toda calcada em cantares do sem nome e de partidas. Além, é claro, de se aproximar do processo hilstiano no que comentei acerca da busca de palavras com força conceitual, palavras que se elevem a uma condição metafísica não graças à sua condição de vagas ou abstratas, mas por sua carnadura evocativa.

A esse respeito, cumpre citar também o poeta grego moderno Kaváfis, especificamente,

trad. José Paulo Paes.
     Volta outras vezes e domina-me,   
     frêmito amado, volta outras vezes e domina-me -   
     quando a memória do corpo despertar,   
     quando ao sangue retornar o desejo de outrora   
     e os lábios e a pele lembrarem e as mãos   
     sentirem-se como que tocadas de novo.

     Volta outras vezes e domina-me, quando a noite   
     fizer com que os lábios e a pele se lembrem.

Domeneck não é indiferente à poesia do autor, bastando que se cite o poema X+Y: uma Ode (aqui), de novo dos melhores da produção do poeta (que certamente está em seu zênite). Deste, podemos citar também a concentração prosaica e supérflua dos materiais descritivos, onde o poeta não busca apenas uma contemporaneidade forçada, mas um enfrentamento, um desafio, uma sobrevivência frente aos materiais da vida de que fala Drummond (e, sobre este paralelo, recomendo Presença do cotidiano e crítica social em Carlos Drummond de Andrade [aqui], de Carlos Augusto Viana). Mas também devo destacar alguns momentos onde o poeta alcança o êxtase da dicção hilstiana,

     mas desta explosão de cântaros
     plenos de testosterona púbere
     a ir e vir nos espaços públicos.

Comparação com que fecho meu texto citando o percurso geral do livro de Hilda, de encontro com a morte até a aceitação do afazer poético como trabalho de vida, sem morte no sobrenome, o que talvez encontre a jusante ou o baricentro no poema XLIX de CPP,

     Se me viessem à boca
     As palavras foscas
     Para te abrandar.
     (...)
     Tu me dirias rouco
     Que a bem do Desejo
     Desfez-se o Paraíso
     E inventou-se a Paixão.

     Bem porisso preserva
     Quem te sabe inteiro.
     E cala teu instante
     De um ciúme que repete
     Que devo ser repouso
     E contenção.

Como na poesia de Hilda, de Lorca, de Kaváfis, a suposta contenção da poesia de Domeneck é uma contenção à procura, uma contenção antes das "(...) ilhargas juvenis / Machucadas de gozo." (CNSP, poema II). Conforme disse ao falar na reinvenção lírica na poesia de Angélica Freitas (aqui), creio que posso falar também numa reinvenção lírica na poesia de Domeneck em tudo o que ela implica de aceitação carnal e confessionalismo indo de encontro ao tema infelizmente tão atual da aceitação do indivíduo para além da convivência que escarneça o êxtase.




A foto de Domeneck foi stalkeada de seu perfil no facebook e a foto de Hilda foi retirada daqui.

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