Millôr.



Com a experiência que tenho, hoje, em vários ramos de atividade cultural, considero a tradução a mais difícil das empreitadas intelectuais. É mais difícil mesmo do que criar originais, embora, claro, não tão importante. E tanto isso é verdade que, no que me diz respeito, continuo a achar aceitáveis alguns contos e outros trabalhos meus de vinte anos atrás; mas não teria coragem de assinar nenhuma das minhas traduções da mesma época. Só hoje sou, do ponto de vista cultural e profissional, suficientemente amadurecido para traduzir. As traduções quase sem exceção (e não falo só do Brasil), têm tanto a ver com o original quanto uma filha tem a ver com o pai ou um filho a ver com a mãe. Lembram, no todo, de onde saíram, mas, pra começo de conversa, adquirem como que um outro sexo. No Brasil, especialmente (o problema econômico é básico), entre o ir e o vir da tradução perde-se o humor, a graça, o talento, a poesia, o pensamento, e, mais que tudo, o estilo do autor. 
Fica dito – não se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. Não se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito. Não se pode traduzir sem o mais amplo conhecimento da língua traduzida mas, acima de tudo, sem o fácil domínio da língua para a qual se traduz. Não se pode traduzir sem cultura e, também, contraditoriamente, não se pode traduzir quando se é um erudito, profissional utilíssimo pelas informações que nos presta – o que seria de nós sem os eruditos em Shakespeare? – mas cuja tendência fatal é empalhar a borboleta. Não se pode traduzir sem intuição. Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade.

(Millôr Fernandes – De uma entrevista para a Revista Senhor – 1962)

Retirado do blog da LPM: aqui.

Do que conheço de Millôr-tradutôr e posso avaliar (isto é, tradutor de língua inglesa), sei que Millôr sempre se destacou. Seu nome é um paradigma teatral sempre-por-descobrir. Esclareço: tradução teatral é tradução teatral, minha gente. Tem que subir no palco e ribombar no ouvido do leitor. Ser fluente. Cair na boca do povo. E tal.

Millôr conseguiu isso na maior parte dos casos. Foi um tradutor perito. Sua definição da atividade de tradução, especialmente o segundo parágrafo, é das mais exatas e honestas que se tem a respeito. Claro que Millôr errou a mão aqui e ali... Veja-se Shakespeare. Não manteve a forma. Shakespeare é prosa e verso... Millôr só se esforçou um pouquinho mais no caso do Hamlet, pois aí seria errar feio demais (se bem que foram versos livres), e nas falas rimadas, onde Millôr costumeiramente parava a prosa e inseria o dístico, ou o que vier a ser o caso. Todo modo, foi implacável no quesito do linguajar, conseguindo acertar na exata medida a dimensão prosaica e culta, no quesito dos trocadilhos (Millôr é imbatível) e no quesito das canções, onde seu ouvido musical sempre foi maior que o ouvido "forma(o)lizável" (entre aspas pois canção shakespeariana é tudo menos fôrma, formol).

Altos e baixos. Mais altos do que baixos. Millôr era uma espécime rara de tradutor que arregaça as mangas. 2 anos sem Millôr são 2 anos sem Millôr.


Fique citado também meu apreço por seus hai-kais. Se possuem pouco do haicai, apesar da animosidade zen de Leminski (que amplia pra depois reduzir), são ainda assim tercetos inesquecíveis:

      Eu vim com pão, azeite e aço;
      Me deram vinho, apreço, abraço;
      O sal eu faço.

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