Poemas, Seamus Heaney, trad. José Antonio Arantes.


(Postcard de Heaney disponível no site do Nobel)


A
poesia possui um poder de compactação imenso. Se, entre as tantas definições que usamos para explicá-la, podemos usar a de que ela é a linguagem ligada à sua máxima voltagem, ou seja, tudo possui a máxima significação, não se torna muito difícil imaginar a razão de um pequeno punhado de versos "chegar ao mesmo resultado" de páginas de prosa. Entre aspas pois a coisa é um pouco mais complexa. As barreiras limítrofes entre poesia e prosa são tênues. Mas isso não vem ao caso.

Falei disso só à guisa de introdução. O lance aqui é falar sobre Seamus Heaney, poeta irlandês prêmio Nobel de literatura em 1995 e morto esse ano mesmo [2013], dia 30 de agosto. Uma notícia triste, é claro, ainda mais para aquele que é considerado o maior poeta irlandês desde Yeats.

A justificativa do Nobel é, como sempre, exata: "trabalhos de lírica beleza e profundidade ética que exaltam os milagres cotidianos e o passado vivo." E é a partir dessa contraposição entre passado e presente, e especialmente no trabalho singular que Heaney faz dessa binomia, que sua poesia pode ser apreciada em tudo o que ela é: magnífica.

Falo assim: a sensação que tenho ao ler Seamus Heaney é a de que estou realizando um processo arqueológico. Aquela coisa de cuidadosamente espanar a poeira de um deserto para se regojizar com um fêmur gigante de dinossauro ou com um pedacinho de flecha da dinastia longe-pra-dedéu-né?. Especificamente nessa coisa de irmos com cuidado, com paciência, revelando aos poucos algo que pode parecer banal, mas que é capaz de trazer de volta o que passou. Ainda mais especificamente, trazer de volta para o presente, sem espanto nenhum fazer com que aquelas descobertas povoem os noticiários e, de modo muito estranho, se de fato pararmos pra pensar, fazer com que, por um instante que na verdade nunca é só um instante, aquelas relíquias façam parte de nossa rotina. É um golpe que abala nossa empatia, pois nos faz parar por um instante e pensarmos: algo esteve aqui antes de mim, e é bem por isso que agora estou.

E a poesia de Heaney faz isso tudo muito, muito bem. Sim, você vai encontrar o bom e velho prosaísmo que o século XX “adorou descobrir” (entre aspas pois não foi só ele). Mas vai também encontrar o outro lado da moeda: enquanto o artista moderno descobre a bela sordidez da vida cotidiana, ele também descobre os abismos do remoto, o caos da mente humana, o absurdo da guerra. O já citado Yeats tratou disso bem pra caramba em sua poesia, mesclando seu passado pessoal com o passado irlandês e com a mitologia de modo geral, o que explica a construção espetacular de um poema como The Tower.

Heaney também faz isso, mas com algumas preocupações pós-modernas: ou seja, esse trato objetivo da coisa-em-si que, na verdade, realça o quão desindividualizada é nossa individualidade, e o quanto, ao nos individualizarmos mais e mais, esquecemos nossas raízes, esquecemos de entender o presente com toda a profundidade de estratos que Heaney tão bem nos põe à prova.

Basicamente onde quero chegar é de volta àquele ler Seamus Heaney e se sentir escavando algo. Em grande parte isso se dá ao fato de que alguns poemas trazem, literalmente, o ato de escavar, para além de toneladas, melhor dizendo, de acres de metáforas que falam da terra.

No começo de sua carreira poética, o tema era basicamente o da vida pessoal. Vida no campo, essas coisas. Aos poucos vai se desencantando e, lá no livro Norte, de 1975, podemos encontrar passagens que tratam literalmente de múmias e de rituais fúnebres. É talvez o melhor livro do autor, com poemas clássicos tais quais Rituais Fúnebres, O homem de Tollund, Rainha da turfeira ("Meu diadema cariou-se, / pedras de gema tombaram / na banquisa de turfa / como os rumos da história."), Norte ("Retornei a uma longa praia, / a curva batida de uma baía, / e só encontrei os seculares / poderes do trovão atlântico."). Para citarmos apenas um, veja-se o caso de Fruto estranho, competentemente traduzido por José Antonio Arantes:

                                        FRUTO ESTRANHO.

                    Eis a cabeça da moça, uma exumada cabaça.
                    Rosto oval, pele passa, pedras passas como dentes.
                    Desenfaixaram a úmida avenca do cabelo
                    E colocaram em exposição um caracol,
                    Deixaram o ar entrar na beleza coriácea.
                    Cabeça de sebo, perecível preciosidade:
                    O nariz partido é negro como torrão de turfa,
                    As órbitas vazias poços de antigos fermentos.
                    Diodorus Siculus confessou
                    Um gradual conforto entre pessoas semelhantes.
                    Assassinada, desprezada, anônima, terrível
                    Decapitada moça, a olhar de frente machado
                    E beatificação, a olhar de frente
                    O que começara a dar a impressão de reverência.

Depois disso Heaney já pode trabalhar no âmago do mito. Heaney é famoso, por exemplo, por sua tradução do Beowulf. Aqui ele encontra um modo de trato do mito que não é bem o processo de atualização-prosaica que artistas como James Joyce aplicaram em suas obras, ou seja, trazer à tona o mito de Ulisses à luz de um marido gente-fina e corno. Pelo contrário, é um processo de exumação, e Heaney não precisa atualizar o mito, mas, quando muito, incluí-lo num ambiente moderno, mais ou menos como um museu numa metrópole.

Claro que em livros posteriores ele trabalhará também o olho do furacão, ou seja, um contexto não-rural, um contexto urbano até as tripas, o que pode ser visto numa estrofe como "Em minhas mãos / como troféu arrebatado, / a esfera vazia / do volante.", do poema Na estrada. Ou o último poema da coletânea, o magnífico A visão da lama, cujos versos iniciais já bastam pra se ter uma ideia:

                    Estátuas com coração exposto e coroas de arame
                    Farpado ainda em nichos, lebres correndo sob
                    Inertes bojos de jatos, escritores de menu
                    E punks com sprays de aerossol bem-sucedidos
                    Com o melhor de si. (…)

O que com certeza vai evoluindo até chegar ao nível de Station Island, certamente seu melhor poema, onde o poeta, à guisa do percurso dantesco, se põe a acompanhar uma procissão que alegoricamente pode representar tudo. Da ancestralidade à remissão, do mito à carnalidade putrescente, dos fantasmas familiares ao fantasma de James Joyce.

O saldo da leitura é um: Arqueologia. Se essa não é a melhor definição para a poesia de Heaney, é, no mínimo, o que melhor define o impacto causado no leitor. Aquele exato instante em que a coisa perece e, perecendo, se eterniza e, eternizando, se presentifica, rompe o passado e se projeta no futuro – esse exato instante é o instante que permeia cada um dos poemas de Heaney, desde o instante em que ele descobre a correlação entre a caneta e a pá, até o instante em que, retratando a relíquia, o cadáver, o feto, furta-se de atualizá-lo entendendo que retratá-lo basta, colhendo da terra os frutos que nos permitem estar e um dia ter estado.

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