Quem sou

Suponha um ponto de luz em algum momento de 2008. É uma feira de livros e num cantinho qualquer existe uma pilha de livros de bolso custando dois reais cada. Você compra uns cinco, achando engraçado que livros saiam a esse preço. Você volta pra casa e o primeiro que lê se chama O Tênue Fio da Suspeita (Howard Holden). Numa das cenas, o detetive Roger Blanco descobre uma espécie de entrada secreta por onde o assassino de Richard Bird adentrara. “Escolheu a chave. Introduziu-a e girou-a. Abriu a porta.” Até aqui, a velha tática do suspense. “― Diabos! ― exclamou, recuando.” É isso: pela primeira vez na vida você sente a sensação de descobrir junto, de recuar junto.

Depois, suponha que esse ponto de luz aumenta sua intensidade e, após uma leva de gibis surrados do caubói Tex Willer, você lê uma pretensiosa lista dos melhores livros de todos os tempos e resolve encomendar coisas como o Lolita ou o Ulisses. Claro que passa o resto do ano tentando entender, mas sai de lá sabendo que alguém pode recriar a evolução histórica da língua inglesa no espaço de um único capítulo.

Sai de lá capacitado, também, para ler sobre um eu lírico encurralado por três animais ferozes e sobre o fim da tarde esparramado no céu igual paciente anestesiado sobre a mesa. Depois disso, aquele ponto de luz (suponha) cintila e dissemina, e quando menos se espera você passou a gostar de assonâncias a partir do instante em que te permitem apreciar os sonetos de Cláudio Manuel da Costa.

É isso aí, pessoal. Quem sou? Goiano e protótipo de jurista. Confesso que já foi mais doloroso, mas hoje vejo com naturalidade a ideia de separar as caixinhas de acrílico onde ponho os decassílabos da morte de Lindoia daqueles onde ponho precedentes jurisprudenciais. Gosto do Direito e acho que pelo menos em tese (ênfase nesse “em tese”) ele é um dos poucos solos onde a arte da oratória pode vicejar com todos os ramos ao vento, capaz até mesmo de transformar as sementes murchas de uma tese ultrapassada em honorários de sucumbência. Mas porque existem as alíquotas no Direito Tributário é que limpo as sujeiras da vida adulta na toga, reservando à poesia um alegre sítio onde os pássaros cantam como nas canções de Arnault Daniel.

Meu blog é um modo de fincar umas tábuas no cercadinho. Não espere muita coisa. Gosto da ideia dos blogs quando eles são diários, registros de quem acima de tudo gosta de ler livros. O que eu quero é isso: um registro, o mais duradouro possível, de que “Sim, inverno, estamos vivos.” (Leminski) Por tabela não tenho pretensões profissionais ou financeiras ou qualquer coisa que envolva uma versão da Ilíada em Minecraft. Curiosidade a respeito dessas tais parcerias a gente acaba tendo, mas é só eu imaginar um livro empurrado pela goela a fim de que se saia uma resenha que, sabe?, até que meu esquema na base das moedinhas não é tão mau assim.

Comentários

  1. É tu, né Mavericco? Pula de blog em blog apagando as pegadas, mas o estilo é inconfundível. Antes de se perder pra sempre em juras para juris, jure que vai publicar uma antologia de seus poemas, regidos pelas leis que realmente importam, não essas mortais e corrompidas, mas a da verdade que sai de dentro.

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    1. Isso mesmo, Mavericco na escuta!

      Acho que eu dei uma quietada... Difícil dizer. Nunca se sabe quando o novo nome-milagroso surgirá. Mas fico feliz que tenha me encontrado! Ainda continua no Recanto? De vez em quando eu dou uma fuçada por lá...

      Eu parei com a poesia. Canalizei tudo pra tradução e pra leitura. Normal: a leitura sempre foi a maior das paixões. Escrever um dodecassílabo é divertido (com aquela cesura então, nem se fala), mas ler "Eu vi a luz em um país perdido" é sem comparação.

      Não sei se estou conseguindo conciliar direito essa vida dupla de jurista e dono de um bloguinho; mas no final das contas há que se esforçar, mesmo porque... Se não for isso, o que resta, não é mesmo?

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    2. sim, a leitura e a releitura e enfim a reescrita do que é lido através dessa atividade é inigualável. E não é isso que fazemos no exercício poético? Uma releitura de tudo que deixa uma impressão em nós?

      Eu escrevia mais frequentemente quando pressionado, estrangulado pela vida. No momento, a boa fase também me puxa mais para a leitura.

      Em tempos recentes observei que um bocado de poetas que eu realmente admiravam bateram as botas. Sonetistas como Aquazulis e LordHermilioWerther e ainda Julio Saraiva. Poetas amadores e sem uma visível marca no velho e decadente mercado da mídia impressa e, portanto, largamente de fora da crítica especializada fomentada por venda de livros ao invés de clicks. Perdas bastante fortes para a cultura digital brasileira em minha opinião. Abri um blog em memória desses poetas mortos com quem tive contato. Alguns não estão mortos, mas enterraram seus versos... :/

      acho curioso como a poesia parece se entranhar em pessoas que de alguma forma mexem com códigos. Você e Hermilio, com códigos legais, eu com código de computador, interpretando, fechando ou explorando brechas. No fim, tudo linguagem e linguagem codificada em versos com semântica, a superior.

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