O primeiro diálogo entre Petrúquio e Catarina.


(Lawrence Olivier, em 22, aos 15 anos, como Catarina.)


Primeiro publicado no escamandro.

§

Esse aqui é um dos diálogos mais engraçados que já devo ter lido. Acho que não será necessário sequer introduzi-lo. Você já conhece a situação: Catarina é a megera e Petrúquio... Bem. Petrúquio é um Joselito da vida, se é que me entendem. Mais cedo ou mais tardes eles tinham que se topar, e quando se topassem, pensa na cena que não ia dar! Pois é. Deu nessa.

Não tive acesso a muitas traduções desta passagem. Na verdade, tive acesso somente à tradução do Millôr, que é talvez a mais célebre. O Millôr de um modo geral foi um gênio quando o assunto era traduzir trocadilhos. No início de Hamlet, por exemplo, o Cláudio pergunta pro Hamlet porque motivo ele, Hamlet, tava todo emburrado daquele jeito, fazendo cara feia. Pergunta idiota, tolerância zero. Teu pai morreu há pouco tempo (The memory be green). Quer o quê? Que eu fique alegre, solte foguete? Pois é. Hamlet diz, à parte: "A little more than kin, and less than kind". Sacou? kin, kind. Cláudio agora era mais do que um tio, mas era less than kind. kind tem muitos sentidos: Cláudio era parente de Hamlet mas os dois eram personalidades muito distintas, Cláudio não era alguém normal (o cara tava se engraçando pra esposa do irmão) e Cláudio não era alguém que tinha um pingo de consideração. Millôr consegue se sair muito bem com seu "Me perfilha como primo, pois não primo como filho." (Lembre-se que "primo", como no original em inglês, cousin, tinha, à época, um sentido bem mais amplo que também abarcava a figura dos sobrinhos.) Lawrence Flores Pereira, que lançou recentemente sua tão aguardada versão da peça, também se sai com felicidade, traduzindo para "Quase da mesma cepa, mas não do mesmo corpo."

Este é só um exemplo. Literalmente duas linhas depois teremos outro trocadilho, desta vez envolvendo sun e son. Enfim. Estar atento a coisas assim é fundamental na hora de traduzir, muito pra tentar manter a graça do original. O problema é que nem sempre você consegue uma tradução que bata de maneira exata com o letra-por-letra do original. O que fazer? Fugir, justamente, da letra do original para, de modo paradoxal, se aproximar dela. Quer dizer: não dá pra traduzir um trocadilho achando que na base da nota de rodapé tudo vai se resolver. É preciso mostrar agudeza e graça. Eis a questão.

Existem trocadilhos dos mais variados tipos ao longo desse diálogo entre Petrúquio e Catarina, alguns (a maioria) um tanto quanto ridículos. Veja-se quando saímos de should be para a sugestão de uma abelha (bee), para o zumbido da abelha (buzz), para buzzard (um tipo de ave), daí para turtle (outro tipo de ave) e por aí vamos. Tudo meio idiota, mas com um grau de raciocínio rápido, um jogo de farpas frenético que leva a plateia ao delírio. Tentei corresponder a tudo isso, claro que dentro das minhas capacidades e nem sempre correspondendo às áreas semânticas do original. Assim, na parte das abelhas, por exemplo, não consegui fazer a transição para a zona semântica das aves, ficando só na área das abelhas mesmo. Não sei dizer se fui bem sucedido nisto, mas posso dizer, pelo menos, que fiquei muito feliz com a parte do "favo de mel", que faz referência direta à novela da Globo baseada, de resto, em A megera domada.

O texto utilizado e as notas consultadas foram as disponíveis aqui.


             [Entra CATARINA]

PETRÚQUIO
    Bom dia... Cata. Dizem que é seu nome.

CATARINA
    Grande coisa que um surdo escute absurdos.
    Aos que falam comigo, é Catarina.

PETRÚQUIO
    Não, é mentira: você é a pacata,
    A cara Cata às vezes caricata,
    De toda a Cristandade a recatada.
    Cata da Catalunha, que é catálogo
    De encantos em cascata, tem catarse,
    Cata, e aplaca, ó!, minha catástrofe;
    Ouvi de seu carinho em cada canto,
    Sua virtude e graça proclamada;
    Porém, pois que no fundo não são tuas,
    Eu fui movido a pedir tua mão.

CATARINA
    Movido! Estou tão comovida: mova-se
    Daqui então: imaginei que fosse
    Igual um móvel.

PETRÚQUIO
                                Como assim um móvel?

CATARINA 
    Tamborete.

PETRÚQUIO
                          Também. Vem cá sentar.

CATARINA
    Asnos que nem você são pra levar.

PETRÚQUIO
    Seja embaixo ou no bucho, a mulher leva.

CATARINA
    Mas não um pangaré que nem você.

PETRÚQUIO
    Tá bom, Cata, não vou te aporrinhar.
    Você é gente fina e jeitosinha ―

CATARINA
    De um jeito muito fino pra vocês,
    Gente abelhuda, pois que eu não afino.

PETRÚQUIO
    Sou abelha sim, meu favo de mel.

CATARINA
    Faça-me o favor.

PETRÚQUIO
    Ó rainha! E se eu for mero zangão?

CATARINA
    Pra me zangar assim, só se for mesmo.

PETRÚQUIO
    Vamos, minha vespinha... Quanto doce!

CATARINA
    Olha que acaba é enfiando a mão
    Num vespeiro...

PETRÚQUIO
                                 Eu enfio com prazer.

CATARINA
     Vá se ferrar!

PETRÚQUIO
                           Me aferro em ti. Pois veja:
    Onde fica o ferrão? No rabo.

CATARINA
                                                   Não. Na língua.

PETRÚQUIO
    Que língua?

CATARINA
                            A sua, aberração. Adeus.

PETRÚQUIO
    Minha língua no seu rabo? Vem cá,
    Cata; sou cavalheiro ―

CATARINA
                                         Ah é? Vejamos.

             [Ela bate nele]

PETRÚQUIO
    Bate de novo e quebro você toda.

CATARINA
    Não se abrase de raiva:
    Se me bater, não é mais cavalheiro,
    E se já não é mais, não tem brasão.

PETRÚQUIO
    Heráldica? Pois sim. Sou exemplar!

CATARINA
    E seu emblema, qual é? Uma crista?

PETRÚQUIO
    Por quê uma crista? Quer ser minha franga?

CATARINA
    Pra vir cantar de galo... Abaixa a crista!

PETRÚQUIO
    Vamos lá, Cata, não seja nojenta.

CATARINA
    É comum sentir nojo ao ver-se um verme.

PETRÚQUIO
    Não tem verme aqui. Chega de nojeira.

CATARINA
    Tem sim.

PETRÚQUIO
                       Me mostre.

CATARINA
                                               Então me dê um espelho.

PETRÚQUIO
    Oh. Verme. Ver-me. A minha cara.

CATARINA
    Sim. A burrice é sua cara.

PETRÚQUIO
    Mas, por São Jorge, você não me encara...

CATARINA
    Assim, todo acabado.

PETRÚQUIO
    Me acabo por você.

CATARINA
    Sim, acabei de ver.

PETRÚQUIO
    Olha bem, Cata: você não escapa.

CATARINA
    Te irrito tanto, se eu ficar; me solte.

PETRÚQUIO
    Nem um pouquinho; eu te acho tão gentil!...
    Disseram: ela é rude, grossa, arisca,
    Mas vejo que mentiram para mim;
    Você é alegre, jovial, cortês,
    Demora pra falar, mas é uma flor.
    Não faz cara fechada ou olha torto,
    Não morde o beiço, igual as mais nervosas,
    Nem contradiz os outros a contento;
    Com doçura entretém os pretendentes
    Com prosa gentil, meiga e adorável.
    Por quê é que o mundo diz que Cata é manca?
    Mundo infame! Tal como o galho esguio
    Da aveleira é você, Cata, e marrom
    Como as avelãs, doce feito amêndoa.
    Quero te ver andando. Sem mancar.

CATARINA
    Vai dar ordem a teus criados, besta.

PETRÚQUIO
    Diana adornará um bosque tal como
    Cata, em passo fidalgo, este aposento?
    Seja você Diana, e ela, Cata,
    E Cata seja casta e Diana, afável.

CATARINA
    Onde aprendeu esse discurso todo?

PETRÚQUIO
    Vem do saber materno, extemporâneo.

CATARINA
    Sei, sei... Mãe com juízo; o filho, sem.

PETRÚQUIO
    Eu, sem juízo?

CATARINA
                                 Sim, é bom tomar.

PETRÚQUIO
    Posso tomar, sim, mas você, que tome!...
    Enfim; já chega, chega desse papo,
    Vou ser franco: seu pai já consentiu
    Até com o dote: caso com você.
    Cata, eu sou o marido que lhe cabe.
    Pela luz que me mostra o teu encanto,
    O encanto que me faz gostar de ti,
    Juro: você só tem eu pra casar,
    Pois sou quem vai domar você, ó Cata:
    Cato a Cata selvagem, que me acata
    E fica quieta igual Cata doméstica.
    Ali vem seu pai: nada de negar;
    Que eu devo e vou casar com Catarina.

[Reentram BATISTA, GRÊMIO e TRÂNIO (disfarçado de Lucêncio)]


[Enter KATHARINA]

PETRUCHIO
    Good morrow, Kate; for that's your name, I hear.

KATHARINA
    Well have you heard, but something hard of hearing:
    They call me Katharina that do talk of me.

PETRUCHIO
    You lie, in faith; for you are call'd plain Kate,
    And bonny Kate and sometimes Kate the curst;
    But Kate, the prettiest Kate in Christendom
    Kate of Kate Hall, my super-dainty Kate,
    For dainties are all Kates, and therefore, Kate,
    Take this of me, Kate of my consolation;
    Hearing thy mildness praised in every town,
    Thy virtues spoke of, and thy beauty sounded,
    Yet not so deeply as to thee belongs,
    Myself am moved to woo thee for my wife.

KATHARINA
    Moved! in good time: let him that moved you hither
    Remove you hence: I knew you at the first
    You were a moveable.

PETRUCHIO
    Why, what's a moveable?

KATHARINA
    A join'd-stool.

PETRUCHIO
    Thou hast hit it: come, sit on me.

KATHARINA
    Asses are made to bear, and so are you.

PETRUCHIO
    Women are made to bear, and so are you.

KATHARINA
    No such jade as you, if me you mean.

PETRUCHIO
    Alas! good Kate, I will not burden thee;
    For, knowing thee to be but young and light--

KATHARINA
    Too light for such a swain as you to catch;
    And yet as heavy as my weight should be.

PETRUCHIO
    Should be! should--buzz!

KATHARINA
    Well ta'en, and like a buzzard.

PETRUCHIO
    O slow-wing'd turtle! shall a buzzard take thee?

KATHARINA
    Ay, for a turtle, as he takes a buzzard.

PETRUCHIO
    Come, come, you wasp; i' faith, you are too angry.

KATHARINA
    If I be waspish, best beware my sting.

PETRUCHIO
    My remedy is then, to pluck it out.

KATHARINA
    Ay, if the fool could find it where it lies,

PETRUCHIO
    Who knows not where a wasp does
    wear his sting? In his tail.

KATHARINA
    In his tongue.

PETRUCHIO
    Whose tongue?

KATHARINA
    Yours, if you talk of tails: and so farewell.

PETRUCHIO
    What, with my tongue in your tail? nay, come again,
    Good Kate; I am a gentleman.

KATHARINA
    That I'll try.

[She strikes him]

PETRUCHIO
    I swear I'll cuff you, if you strike again.

KATHARINA
    So may you lose your arms:
    If you strike me, you are no gentleman;
    And if no gentleman, why then no arms.

PETRUCHIO
    A herald, Kate? O, put me in thy books!

KATHARINA
    What is your crest? a coxcomb?

PETRUCHIO
    A combless cock, so Kate will be my hen.

KATHARINA
    No cock of mine; you crow too like a craven.

PETRUCHIO
    Nay, come, Kate, come; you must not look so sour.

KATHARINA
    It is my fashion, when I see a crab.

PETRUCHIO
    Why, here's no crab; and therefore look not sour.

KATHARINA
    There is, there is.

PETRUCHIO
    Then show it me.

KATHARINA
    Had I a glass, I would.

PETRUCHIO
    What, you mean my face?

KATHARINA
    Well aim'd of such a young one.

PETRUCHIO
    Now, by Saint George, I am too young for you.

KATHARINA
    Yet you are wither'd.

PETRUCHIO
    'Tis with cares.

KATHARINA
    I care not.

PETRUCHIO
    Nay, hear you, Kate: in sooth you scape not so.

KATHARINA
    I chafe you, if I tarry: let me go.

PETRUCHIO
    No, not a whit: I find you passing gentle.
    'Twas told me you were rough and coy and sullen,
    And now I find report a very liar;
    For thou are pleasant, gamesome, passing courteous,
    But slow in speech, yet sweet as spring-time flowers:
    Thou canst not frown, thou canst not look askance,
    Nor bite the lip, as angry wenches will,
    Nor hast thou pleasure to be cross in talk,
    But thou with mildness entertain'st thy wooers,
    With gentle conference, soft and affable.
    Why does the world report that Kate doth limp?
    O slanderous world! Kate like the hazel-twig
    Is straight and slender and as brown in hue
    As hazel nuts and sweeter than the kernels.
    O, let me see thee walk: thou dost not halt.

KATHARINA
    Go, fool, and whom thou keep'st command.

PETRUCHIO
    Did ever Dian so become a grove
    As Kate this chamber with her princely gait?
    O, be thou Dian, and let her be Kate;
    And then let Kate be chaste and Dian sportful!

KATHARINA
    Where did you study all this goodly speech?

PETRUCHIO
    It is extempore, from my mother-wit.

KATHARINA
    A witty mother! witless else her son.

PETRUCHIO
    Am I not wise?

KATHARINA
    Yes; keep you warm.

PETRUCHIO
    Marry, so I mean, sweet Katharina, in thy bed:
    And therefore, setting all this chat aside,
    Thus in plain terms: your father hath consented
    That you shall be my wife; your dowry 'greed on;
    And, Will you, nill you, I will marry you.
    Now, Kate, I am a husband for your turn;
    For, by this light, whereby I see thy beauty,
    Thy beauty, that doth make me like thee well,
    Thou must be married to no man but me;
    For I am he am born to tame you Kate,
    And bring you from a wild Kate to a Kate
    Conformable as other household Kates.
    Here comes your father: never make denial;
    I must and will have Katharina to my wife.

[Re-enter BAPTISTA, GREMIO, and TRANIO]

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