Curtíssimos pitacos.



A maior publicado primeiro na página de facebook do bloguinho. Reproduzo-os aqui apenas para que não se percam.




Os três argumentos mais preguiçosos sobre literatura contemporânea, em ordem:
  1. o de abrir o guarda-chuva da palavra "crise" e colocar o texto inteirinho à sombra daquilo, como se a simples enunciação ritualística de palavras mágicas elucidasse todos os mistérios possíveis;
  2. o de negar o status de literário/poético/artístico ao texto analisado simplesmente porque ele é ruim;
  3. o de apontar para algumas cabeças de gado, reputá-las como podres e, voltando os olhos para as estrelinhas polvilhadas nas resenhas, num silogismo simples concluir que não só a literatura como a crítica também está em crise. Afinal de contas, se o mundo não gosta do que eu gosto, só pode ser crise.



Outros três argumentos preguiçosos sobre literatura contemporânea: 1) tem muita coisa ruim; 2) tem pouca coisa boa; 3) tem muita coisa publicada. Comumente surgindo em forma de carreata, juntos os três conseguem evocar o Capitão Óbvio.




Os dois pitacos acima devem receber a ressalva de que, por óbvio, não quero dizer que todo argumento que afirma a crise da literatura contemporânea seja um argumento preguiçoso. Como já afirmei outras vezes no bloguinho, esta não é minha opinião; entretanto, reconheço que existem formulações sólidas a respeito do assunto.




Pelo pra mim isso é muito evidente e primário, mas vamos lá: defender o cânone literário não é defender tudo o que você estuda no Ensino Médio. É muito mais defender a possibilidade de uma ideia de cânone, e quais seriam os benefícios culturais de se manter viva uma noção dessas. É perfeitamente possível que um crítico tenha uma defesa firme da ideia de cânone e ao mesmo tempo critique com veemência o modelo de cânone que poderíamos chamar de oficial (ou seja, o cânone reproduzido nas escolas). Lido de forma superficial, ele seria ao mesmo tempo a favor e contra o cânone. Rodrigo Gurgel é um bom exemplo. Do mesmo modo, o fato de que você critique a ideia de um cânone não quer dizer que você pugne por sua erradicação total. Propor contra-cânones não redunda na ideia simplista de substituição. Se proponho um cânone de autores negros, isso não quer dizer que eu quero apagar da face da terra todos os brancos. Certamente é isso o que você vai ler na manchete de jornal, mas muito provavelmente não é a proposta de quem pensou esse cânone de autores negros. A ideia é muito mais no sentido de se prestar atenção na produção de autores negros para que nossa percepção do fenômeno literário, como um todo, seja mais ampla, acurada e menos automatizada. É você propor uma nova maneira de leitura que, claro, terá influências profundas na ideia de cânone e nos cânones estabelecidos, mas que não quer dizer, como dito, que você esteja apenas brigando pelo pódio ou, pior ainda, que seja um "ressentido", pra me valer daquela expressão infeliz do Bloom.




A este último pitaco se seguiu uma ótima discussão com meu amigo Raphael Elaphar. Não irei transcrevê-la toda aqui, mas saiba o leitor que ela girou em torno do rótulo do Bloom, "escola do ressentimento", que aqui eu classifico como "infeliz" mas que na postagem original recebia um adjetivo mais pesado (e desnecessário e injusto, reconheço). Para ele, os estudos feministas, por exemplo, nunca trouxeram ninguém para o cânone. O Raphael pontuou que obras de grandes autoras, por um lado, foram redescobertas (isto é, relidas), no que ele citou o Aurora Leight, e por outro não ter trazido não quer dizer que jamais o possa fazer, o que me pareceu uma colocação muito bem feita. De todo modo, elenquei meus problemas com as afirmações do Bloom nos seguintes tópicos:

1) Seria preciso definir o que significa esse "entrar pro cânone"... se falamos do cânone oficial, isso é muito mais complexo e envolve um poder institucional muito mais ativo que a própria relevância estética, mesmo porque estaríamos falando de parâmetros educacionais. Se falarmos, todavia, de entrar no cânone do próprio Bloom, de novo a coisa complica pois as feministas têm, justamente, críticas a conceitos centrais do Bloom como a a angústia da influência, que pra elas não funciona do mesmo modo no caso da literatura feminina. Agora se quisermos falar do cânone pensado pelos críticos de um modo geral, mais uma vez acho a situação meio complexa e envolvendo outros fatores que não apenas estéticos ou valorativos... Se digo que um autor, sei lá, de terceira escala, é um autor com uma qualidade pelo menos maior que a comumente vista (e não necessariamente canônico) pois tratou de temas pertinentes à etnia negra diante de uma sociedade escravocrata, quantos críticos estariam dispostos a sequer considerar um argumento assim? Para muitos o simples fato de tratar temas abolicionistas já seria o bastante pra que sua literatura deixasse de ser universal, ou o simples fato de que entidades do candomblé sejam usadas num poema, e não o rol de estátuas greco-romanas, já basta para que seja literatura exótica....

2) Se for pensar o argumento no caso brasileiro, por exemplo, eu já acho incorreto. Acho seguro dizermos que feministas e estudiosos de literatura negra, por exemplo, trouxeram para a cena a obra duma Carolina Maria de Jesus. No âmbito de língua inglesa acho que poderíamos citar um Langston Hughes. [Ao que Raphael Elaphar respondeu citando que não temos um cânone formado do mesmo modo que o cânone anglófono, e que Hughes, embora pertença a um grupo marginalizado, não é um autor propriamente marginalizado. São apontamentos interessantes, sem dúvida, e que merecem uma reflexão detida.]

3) Acho que o Bloom torna a coisa meio esquemática, como se o objetivo do contra-cânone o de fornecer broches para serem colocados na túnica do cânone universal, digamos. Muitos contra-cânones realmente usam escritores menores como exemplos de autores que trabalharam temas importantes (por exemplo de literatura negra) e que ajudaram a criar uma tradição ou a dar continuidade a uma. É normal que os grandes autores soterrados não sejam tantos. O Ricardo Piglia chegava ao extremo de dizer que no fundo não existiam escritores do passado a ser redescobertos, pois todos os nomes já estavam aí e já receberam uma atenção crítica que teria apenas esmorecido. No caso da literatura de minorias há também que se considerar que a quantidade de pessoas que se tornam escritores é menor, é recente e muitas vezes sofre agruras que impossibilitam a dedicação a obras de maior finura. Então realmente não dá pra esperar uma soma vultuosa de novas descobertas. Mas acho que seria preciso, ainda, considerar que contra-cânones, e todos os modos de leitura que ele implica, possuem um papel muito importante no caso da literatura contemporânea, o que é um modo de reduzir as injustiças futuras, digamos (pois hoje as possibilidades de se seguir uma carreira literária, ou qualquer coisa próxima disso, são bem melhores). [Um dia espero poder retornar ao que escrevi neste ponto aqui, deixando as coisas mais claras.]

4) Como você mesmo pontou, houve obras de grandes nomes que foram redescobertas.




Dúvidas que ainda se impõem quando o assunto é "cânone" seriam aquelas que versassem a respeito de quem nós consideramos como dono de uma opinião relevante para formação do cânone. Não digo nem tanto do cânone oficial, onde até o trabalho burocrático entra em jogo, mas digo no sentido de uma espécie de consenso que aos poucos seria formado. A quem devemos consultar para chegarmos a tal consenso? O leitor comum entra na jogada? Ou são apenas os especialistas? Pois não quer dizer que esse consenso seja algo, por assim dizer, progressivo, sempre se encaminhando rumo ao futuro e com um gosto que mais e mais se apurasse. Autores que um dia foram a coisa mais importante da cultura ocidental hoje não são tudo isso. Penso em Virgílio e Horácio, por exemplo. Não digo que não sejam bons; na verdade, muito pelo contrário: venero-os. Mas quando Drummond, em A Bruxa, pedia por um amigo, desses que leem Horácio, é bem possível que ele já estivesse falando de Horácio como peça de museu. Quem lê Horácio hoje em dia? Quem lê Virgílio? Quantas traduções esses caras receberam no século passado? Quem, ao pensar um cânone, coloca esses caras? Eles não me parecem ser a primeira opção, ou mesmo os nomes que constarão no batalhão de frente quando o assunto for poesia épica e lírica. É bem provável que venham só depois que o verdadeiro batalhão de frente, aliás, do cânone hoje surja: Dante, Shakespeare, Cervantes, Goethe etc. Porque se eu olho para Horácio e Virgílio e digo que devem constar no cânone porque foram importantes, eu também deveria fazer o mesmo com Boileau. Pensar o cânone é uma atividade que requer uma lógica e um cuidado muito maior do que esse pessoal que fica tratando o assunto com a ajuda apenas de maiúsculas (isto é, na maior parte dos casos aquela seborreia sobre o Belo) dá a entender. Harold Bloom não incluiu Lucano nem Guido Cavalcanti em seu cânone (falo da listagem maior, e não aquela que foca nos 26 autores centrais). Incluiu Heródoto e Santo Agostinho mas não Maiakóvski e Brecht. Incluiu Chrétien de Troyes mas não Arnault Daniel. Ford Madox Ford e não Pound. Francis Bacon e não Góngora. Edmund Burke e não Píndaro. Stuart Mill e não Tasso. E isso porque tomam Harold Bloom como palavra de ordem...





Ganhar prêmios literários massageia o ego e alenta o bolso. Mas vamos combinar que tá longe de determinar qualidade literária, em grande medida porque a geografia do reconhecimento literário também afeta a relevância do prêmio e porque prêmios literários comumente se restringem a um espaço amostral limitado (o dos poemas inscritos). Já conheci poetas que são concurseiros sem tirar nem pôr, donos de um currículo à la Bel Pesce. Muita calma nessa hora, campeão. Parabéns por tua conquista, mas abaixa a bola. Sei de poetas excelentes que, mesmo distantes desse show de tapinhas nas costas (que, do ponto de vista estatal, é um modo cômodo de "investir em cultura": arme uma arapuca e dê dinheiro aos poetastros), possuem uma obra muito, muito mais louvável.





Karnal, Pondé, Cortella... São, com exceção de uma ou outra publicação marginal (por exemplo o trabalho do Pondé sobre Dostoiévski), bons autores de gêneros que vão do fuxico à autoajuda. Entretenimento vendido em embalagem com estampas de Aristóteles e Kant. Claro que existe um deboche nisso que digo, mas também existe um tom de sinceridade: seria mais honesto de nossa parte se aceitássemos sua produção como sendo isso mesmo, afinal de contas não há demérito nenhum em sê-lo.




Daria pra dizer também que o fato de ser, sei lá, autoajuda não isenta de uma reflexão, considerem filosófica ou não, bem conduzida. Sim, concordo. Não chego a tirar a alcunha de filósofos desses caras. Muitos opúsculos filosóficos do passado versavam sobre modos de bem conduzir a vida. Mas continuo achando que seria mais honesto se a gente encarasse o que eles produzem pelo que é e não por mistificar a partir de uma cortina de fumaça esclarecida.

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