Palestra sobre o objetivismo de Ayn Rand.

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Obrigado a todos por comparecerem ao evento. Minha fala será curta e terá caráter puramente introdutório. Hoje nosso objetivo é discutir o livro A revolta de Atlas, clássico de Ayn Rand publicado em 1957. Até chegarmos lá, pretendo fazer um rápido traçado de algumas das ideias centrais na filosofia da autora, tentando ser o mais fiel possível.

Vejamos. "A menor minoria do mundo é o indivíduo." Isso está num texto de 66, e o sentido de "minoria" ainda é o mesmo de hoje. Quer dizer: não necessariamente observado do ponto de vista numérico, mas da forma como um grupo de indivíduos se vê à mercê de jogos de poder em maior ou menor grau. Costuma pressupor um processo gestaltiano: o todo da sociedade é mais do que a soma de suas partes. Naturalmente que, dentro da frase de Ayn Rand, uma ideia dessas é rechaçada e o que temos são parcelas irredutíveis: indivíduos. Sociedade, coletivo? Não. Só existem indivíduos. "Quem nega direitos individuais", Ayn Rand continua, "não pode se dizer defensor de minorias."

O indivíduo é a base da filosofia da autora. O chamado Objetivismo.Com a cautela de erigir um edifício filosófico que suprima lacunas e demonstre a pujança de determinados princípios, o Objetivismo finca suas premissas no fato de que a realidade existe, que o irreal não existe e que o ser humano é dotado de razão para que consiga perceber a realidade. Não é meu objetivo entrar de modo mais profundo na metafísica ou na epistemologia objetivista, o que evidentemente demandaria uma recapitulação da filosofia aristotélica e, se possível, da filosofia kantiana (servindo aqui de antípoda). Estou um tanto quanto enferrujado na obra desses caras; a única coisa que releio de forma periódica dos dois é a Poética e a Crítica da faculdade de julgar, então não tenho condições de tecer um comentário mais detido a respeito.

Digamos, por ora, que a constatação de que a realidade existe e de que deve ser tratada como algo concreto e fora de qualquer maneira de abstração (abstração entendida, para Rand, como uma espécie de ramo da filosofia platônica), envolve, entre outros, que a noção de coletividade deve ser desmistificada e qualquer modo de se atribuir uma espécie de existência para o que não passa de uma coletividade de indivíduos não pode prosperar. Uma das bandeiras centrais do objetivismo é a bandeira do egoísmo, é dizer, o homem não pode pautar sua existência em busca de um ideal que não diz respeito à realidade que ele experimenta com a ponta dos dedos. Ele não pode querer o bem da sociedade, como se a sociedade fosse uma coisa que existisse da mesma maneira concreta com que ele, indivíduo, existe.

Egoísmo, Ayn Rand diz de modo bem simples, é correr atrás de seu próprio interesse. O homem não pode ser visto como um dínamo que movimenta as enormes engrenagens da sociedade, por mais que essa ideia de sociedade possa implicar num prometido benefício para todos. O único benefício que o homem pode buscar é o benefício que de algum modo for de seu interesse, que lhe concirna. Buscar pelo interesse coletivo é um modo de sacrificar-se em prol de uma promessa abstrata.

A ética altruísta não prospera no pensamento de Rand. O altruísmo cria uma sociedade alicerçada em duas figurinhas péssimas para o cômputo geral: de um lado, um indivíduo que se vê eticamente obrigado a imolar-se constantemente em prol de alguém, e, do outro, pessoas que se veem reduzidas ao advento da bondade alheia. Nada aí se fecha. É algo que não tem fim. Ayn Rand não está dizendo que você não deve, se julgar pertinente, dar ajuda para quem lhe peça. É apenas que você não pode fazer disso o objetivo último de sua existência. É preciso que você guie suas escolhas e decida que desígnio seguir. Quando, na posição de editor, invisto meu dinheiro nessa editora aqui pra que ela publique coisas como este livro, por acaso meu objetivo é civilizacional — fornecer conhecimento para todos? (Nas páginas introdutórias dos livros da Martin Claret é algo por aí o que eles falam.) Claro que eu posso acreditar nisso. Sei lá. Mas na prática o objetivo é: lucrar, ganhar dinheiro, fazer daquilo ali uma coisa rentável. Entendem? Manter a folha de pagamentos em dia. Os fornecedores. O salário do cara que carrega as caixas abarrotadas de livros. Porque o serviço dele, que, aliás, está pensando é na viagem que ele vai poder fazer com a família no final do ano, é que me ajuda com o meu serviço, que é pensar na parcela do carro que eu tenho que pagar. Logo mais eu volto nisso, mas a ideia é por aí.

Não há nada de mal em ser egoísta. Como poderia haver? O conceito de egoísmo, como dito, não é um conceito do qual se possa deduzir um juízo de maldade implícita. Ser egoísta não é ser uma espécie de bruxa da Disney. Os limites éticos do egoísmo para a filosofia objetivista são aqueles que não apelam para a força física. Pois não é que Rand seja uma anarquista. Na verdade, ela trata o anarquismo ou mesmo a configuração anarquista liberal como sendo uma abstração. Ela reconhece a necessidade de leis e de mecanismos que punam atos de violência física por parte dos indivíduos que persigam seus desígnios. Mas é só. O aparato governamental não deve existir para beneficiar qualquer mentalidade coletivista que seja (por exemplo perseguir o "bem público" quando, na verdade, ele deveria fugir dessa veleidade para assegurar que os indivíduos possam perseguir seus projetos de vida), sob o risco de se metamorfosear numa configuração socialista ou comunista — o que seria uma verdadeira catástrofe, uma vez que Ayn Rand, nascida na Rússia pré-revolucionária, sentiu na pele as agruras de 1917.

Do mesmo modo, se quisermos continuar o quadro, não se pode dizer que Ayn Rand, por pregar um individualismo tão acerbado, fosse conservadora. A bem da verdade, este é um raciocínio um tanto quanto esdrúxulo, mas a má vontade no debate político contemporâneo é comumente esdrúxula também. O adepto do objetivismo não tem como ser um conservador. Pois embora Ayn Rand trate de maneira um tanto quanto questionável a filosofia conservadora, tratando-a como se se reduzisse tão somente à configuração tradicionalista — quando, na verdade, o conservador é alguém que está na constante tensão entre a tradição e a mudança, conforme dito por João Camilo de Oliveira Torres, é alguém que entende, simplesmente, que você não precisa queimar todos os navios que te levaram até a praia porque fez uma travessia, ou que precisa destruir os degraus da escada que te fez subir —; apesar da leitura de Ayn Rand do conservadorismo ser um tanto quanto canhestra, não se pode dizer que ela fosse uma conservadora, uma vez que, seguindo o cuidado lógico de erigir a filosofia objetivista de maneira coerente, ela defendia que o objetivismo é em essência ateu e que o direito ao aborto, se quisermos ficar num exemplo muito caro para a postura conservadora (pois afinal, que valor maior a ser defendido do que o da vida?), é um direito moral. Ou seja: o feto não possui direito algum, por ser simplesmente uma potencialidade e não uma atualidade, e também pois, citando in verbis:

[o aborto] should be left to the sole discretion of the woman involved; morally, nothing other than her wish in the matter is to be considered. Who can conceivably have the right to dictate to her what disposition she is to make of the functions of her own body?

Cito em inglês mesmo pra ninguém achar que estou mentindo (se bem que eu ainda assim poderia estar mentindo mas depois traduzindo pro inglês...). Está num ensaio chamado Of Living Death, de 68, incluso no The Objectivist. O bom e velho "Meu corpo, minhas regras". Enfim. A questão que se impõe, todavia, é: como chegarmos a uma estrutura social que consiga unir a urgência de que cada indivíduo corra atrás de seus desígnios, com uma espécie de benefício geral ou, no mínimo, uma sociedade que não redunde numa sangrenta balbúrdia?

A resposta de Ayn Rand é simples: capitalismo de livre mercado. Mão invisível, entende? Nenhum outro modelo econômico se demonstrou, no plano da realidade fática, isto é, sem apelos a utopias abstratas e calcadas em instâncias coletivistas, tão eficiente quanto o modelo capitalista. Nele eu posso correr atrás do que melhor me apetecer e ainda assim contribuir, de modo indireto, para a qualidade de vida de todos. Não preciso ficar contribuindo para um Leviatã que nunca vai oferecer direito o que promete e que, na prática, vai servir pra atravancar um avanço que poderia ser espontâneo, célere e prático. A colaboração aqui não é um imperativo categórico. Corro atrás de meu sucesso pessoal dentro da carreira profissional que elegi para mim próprio mas, ao mesmo tempo, esse meu sucesso pessoal pode significar o sucesso e a prosperidade de outras pessoas, e isso pelo simples motivo que gero riqueza e valor para os outros. Pois o capitalismo é isso: gerar valor. Não repartir valor com base nos espólios que arrecada de todos nós, nem, muito menos, ficar dependendo de estímulos altruístas (incutidos de forma coercitiva ou não) por parte da sociedade para, só então, deslizar tudo o que foi produzido numa enorme geringonça de distribuição. O capitalismo cria valor. É o sistema que se amolda de forma perfeita às necessidades da filosofia objetivista.

Até aqui, tudo certo. Isso em relação ao mundo das relações monetárias. Mas e quanto às torres de marfim da arte? Bem. No âmbito artístico, a filosofia de Rand enxerga a arte como um modo de recriar o mundo com base nas concepções e valorações metafísicas de um homem. O homem necessita de conceitos, de abstrações para que consiga formular seu conhecimento a respeito do mundo. Naturalmente que aqui falo de abstrações não no sentido de abstrações que substituam a realidade (por exemplo quando a já citada abstração do "bem público" se sobrepõe aos interesses individuais), mas sim de abstrações que consigam permitir com que entendamos a realidade: pois, de fato, conceitos nos permitem lidar com vários fenômenos, conceitos nos permitem organizar o pensamento bem como nossas faculdades do entendimento. Transcrevo:

A concept is a mental integration of two or more units which are isolated by a process of abstraction and united by a specific definition. By organizing his perceptual material into concepts, and his concepts into wider and still wider concepts, man is able to grasp and retain, to identify and integrate an unlimited amount of knowledge, a knowledge extending beyond the immediate concretes of any given, immediate moment.

Ora: ocorre que essa necessidade de lidarmos com conceitos acaba nos trazendo à necessidade de também darmos concreção, de tornarmos essas amplas abstrações metafísicas em algo mais palpável e direto a nós. Sabe a arte? Pois é, ela consegue fazer isso. Ela, se quisermos pensar o conceito da mímesis aristotélica, não é simplesmente uma cópia da realidade, mas, antes, reordena os materiais da realidade de modo a criar algo que seja pelo menos verossímil. A verossimilhança, em Aristóteles, é muito mais importante do que a própria semelhança, e, uma vez que a arte envolve essa reordenação dos materiais da realidade, ela implica, dentre outras coisas, a ideia de criação. A mímesis é um ato criador em Aristóteles. Ele não possui a acusação de embuste e de estilização fantasiosa que se via na filosofia platônica.

E é isso o que Ayn Rand nos diz aqui. Os conceitos e valores de um homem ganham corpo no terreno da arte, e esse é o resumo de suas ideias estéticas. Por isso que a filosofia e a literatura andaram tão juntas na obra da autora — de se lembrar, dentre outros, que foi só após a publicação de A Revolta de Atlas, seu segundo romance de sucesso (precedido de A Nascente, em 43), que Rand começou a desenvolver e publicar seus livros específicos sobre filosofia objetivista. Aqui entra o elogio de Rand ao Romantismo artístico:

Romanticism is a category of art based on the recognition of the principle that man possesses the faculty of volition.

"Volição", ou seja, é quando eu pauto uma decisão apenas na vontade. A célebre atenção no Eu, no Ego, no indivíduo enquanto centro criador. O poeta não precisava mais se dirigir às Tágides para que elas lhe inspirem engenho e arte. Não há mais aquele ditame de uma arte que encontre ressonância coletiva e universal, à guisa do que ocorrera no período artístico imediatamente anterior, do Classicismo.

Em solo nacional há uma ótima discussão a respeito do assunto nos capítulos teóricos dedicados ao Arcadismo e Romantismo no Formação da literatura brasileira, do Cândido, mas é de se notar que a defesa de Rand do Romantismo, que já se encontrava em A Nascente e depois se desenvolveria em The Romantic Manifesto, ia na contramão do que a modernidade literária em língua inglesa apresentava quanto ao período romântico. Isto é: se tomarmos como base as opiniões de poetas como T. S. Eliot ou Ezra Pound, importantes arautos do modernismo (e o modernismo, para Rand, era algo execrável, uma vez que a arte, sendo necessariamente re-criação da realidade, como visto, deveria ser também inteligível — e ela traduzia modernismo em arte ininteligível), notaremos um acentuado desprezo para com a literatura romântica, algo que até hoje persiste se tomarmos como base as noções comuns que temos do poeta romântico como um desmiolado sentimentaloide necessariamente incauto. A defesa de Rand a princípio diverge e, se nos lembrarmos que livros como os de Northrop Frye sobre Blake ou de Harold Bloom primeiro sobre Shelley e depois sobre os cinco grandes são mais ou menos da mesma época que o manifesto romântico de Rand, poderemos notar como sua defesa se inscreve numa ordem de coisas maior.

Mas acho que já disse muito. Não me estenderei mais. Fiquemos com a palestra do professor João da Cruz.

Comentários

  1. Como assim? Você nunca contou pra gente um mínimo interesse pela Rand, seu safadenho! E a gente imaginando você mó esquerdinha curte-dreads da porra. Conta como foi isso daí.

    Tanta gente mais legal na direita e logo Rand? Grr, nem tudo é perfeito, mas já é algo. diovnsdoib, zuerinha, mavs lindo.

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