Dante Alighieri (1265 - 1321).

 


Primeiro publicado no escamandro.

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Célebre soneto que, se há trinta e cinco anos era companheiro de vida de Dámaso Alonso (isso numa passagem belíssima logo no início de seu Poesia espanhola), sem exagero nenhum podemos dizer que há séculos é companheiro de qualquer pessoa que se encante por poemas. E olha, falo sem exagero. A humanidade objetivamente se aprimorou depois que um belo dia alguém sentou e, após apagar "Atualmente a tua mente atua ou mente?", escreveu: "Tanto gentile e tanto onesta pare". A forma mais límpida que encontrei de homenageá-lo, por tudo o que ele representa, é compilando todas as traduções que conheço dele, o que dá uma postagem e tanto, capaz de incluir, em seu bojo, um rol ilustríssimo de tradutores.

É só bater o olho e reverenciar nomes como Henriqueta Lisboa, Ivo Barroso, Jorge Wanderley, Décio Pignatari, Augusto de Campos. Mais do que um número gordo de versões, existe, aqui, uma verdadeira história. E não só a história de um soneto traduzido por muitos nomes: existe, também, a história de épocas que se entrecruzam e deixam seu legado umas pras outras, o que é facilmente comprovável se compararmos, por exemplo "envolta de modéstia nobre e pura" de Henriqueta Lisboa a "afável na humildade que não muda" de Décio Pignatari. Isso é tão interessante que me faz lembrar, até, de uma passagem do grande Augusto Meyer em que ele comentava esse soneto do Dante e dizia que todos os tradutores sempre caíam no falso cognato de labbia, isto é, parece que é "lábio" mas na verdade é "semblante" (a palavra também aparece no Inferno, XIX, 123, e Purgatório, XIII, 47). Burrice nacional? Comunopetismo? Illuminati? Vamos com calma. Caíram nessa armadilha, mas não incorreram no deslize de achar que piacente se refere a "pia"... Sacou? Uma verdadeira história, eu disse. Pois é.

Quanto ao soneto, aqui o que Dante está fazendo é, basicamente, descrever a impressão imortal que seu encontro com Beatriz lhe causara. E, no caso, que causava nos outros. Diz o poeta, na parte 26 de sua Vida Nova (cito a tradução de Décio Pignatari):

A mais que gentil, a que me referi nas palavras precedentes [adivinha quem é?????], granjeou tanto favor junto ao povo que, quando passava na rua, as pessoas acorriam para vê-la e disto me advinha uma grande alegria. Estivesse ela próxima de alguém, tanta honestidade instilava no coração, que a pessoa não ousava erguer os olhos ou sequer retribuir ao seu cumprimento. Muitos deles, tendo já passado pela experiência, poderiam testemunhar até junto a quem não acreditasse: caminhava coroada e vestida de humildade, sem se vangloriar do que via e ouvia. Diziam alguns, assim que ela passava: "Acho que não é mulher, mas um dos mais belos anjos do céu." E outros: "Que maravilha! Rendamos graças ao Senhor, que tão prodigioso se mostra em suas ações!" Mostrava-se tão gentil e tão plena de todas as graças, que aqueles que a olhavam sentiam-se invadidos por uma doçura tão pura que não logravam contar o que sentiam. Não havia quem primeiro a visse que não se visse impelido a suspirar. Essas e outras coisas prodigiosas emanavam dela como virtudes. Foi pensado nisso e para retomar o estilo de sua louvação, que me propus dizer palavras nas quais conseguisse infundir quão milagrosos e superiores eram os seus fluidos, de modo que não apenas aqueles que a pudessem ver com sensibilidade, mas também os demais, conseguissem saber dela o que as palavras podem transmitir. Falei, então, neste soneto: 
[Dante cita o soneto] 
Este soneto é de entendimento tão simples, pelo que foi narrado antes, que não se faz necessária qualquer divisão.

Agora compare isto com aquele papinho moderno de que explicar o poema é estragá-lo. Pois é. Aqui nós notamos bem a vertente biográfica, fantasiosa (sim, fantasiosa, nutrida nas tetas provençais do amor cortês, a não ser que Beatriz fosse realmente uma Margot Robbie da época) e crítica que a Vida Nova de Dante representa (se bem que aqui o Dante tá meio que dizendo: "se depois do que eu disse tu não entendeu, rapaz, vou criar um novo círculo do inferno só pra socar gente burra que nem você"). Eu só tenho a dizer uma coisa: isso de "saber dela o que as palavras podem transmitir"... Sim, Dante. Você conseguiu. Meus parabéns, cara. Tome aqui um biscoito.

Quanto à compilação. Disse que compilei tudo o que consegui. O que consegui. Pois existem traduções as quais não consegui ter acesso. Todas traduções inclusas numa versão integral da Vida Nova. São: a do Padre Vicente Pedroso, da década de 50, publicada pela editora Atena (naquelas edições com a obra completa de Dante, em simpáticos livros em capa dura); a de Carlos Eduardo Soveral, publicada pela Guimarães Editores também na década de 50; e a de Jorge Vaz de Carvalho, publicada pela Relógio d'Água em 2010. (A Dantesca luso-brasileira de Giacinto Manuppella, na página 56, aqui, dá notícia de uma tradução de 1942 feita por Sidónio Miguel também.) A data de algumas traduções arroladas não está lá muito certa, de modo que minha disposição na postagem, que buscou ser cronológica, não é ideal. A versão de Vasco Graça Moura, por exemplo, eu não sei nem em que editora foi publicada (retirei-a de uma antologia online chamada Os dias do amoraqui). A versão de Henriqueta Lisboa, publicada na reunião de sua poesia traduzida pela EdUFMG, não tem indicação de data, de modo que presumo que ela tenha sido realizado na mesma época de suas traduções de alguns Cantos do Purgatório: e por isso década de 60. A versão de Jorge de Sena eu datei como sendo da década de 70 pois foi quando sua coletânea Poesia de 26 séculos começou a ser publicada pela Editorial Inova. A versão de Ivo Barroso, pra ficarmos com um último exemplo, embora tenha sido publicada em sua reunião de traduções esparsas (um simpático livro que deveria ser reeditado!), eu presumo que tenha sido produzida antes, como, de resto, muitas das traduções contidas nesse livro (por exemplo cummings, um dos primeiros que Barroso traduziu, isso nos idos da década de 50, ainda na coluna encabeçada por Mário Faustino).

Minha tradução, espremidinha no meio de tanta gente ilustre, não teve como fito, conforme no geral acontece quando eu faço essas compilações enormes, buscar por soluções distintas, mas, antes, manter as rimas em "-uda" (correspondente perfeito para o "-uta" do original) nos quartetos, à maneira do que Ivo Barroso fizera.

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Incluo a tradução de C. Tavares Bastos, retirada daqui. Presumo que os dados da primeira edição sejam os constantes aqui, motivo pelo qual os reproduzo e neles me baseio.

trad. Paulo M. Oliveira e Blasio Demetrio. [1937]
em: Vida Nova, Biblioteca Clássica, Volume XX, p. 72.

Tão honesta e gentil, ao nos saudar,
Minha amada  aparece em nossa vida,
Que toda bôca treme, emudecida,
E os olhos a não ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
Humildemente, de pudor vestida;
Parece que no céu foi escolhida
Para à terra um milagre revelar.

Tão amável se mostra a quem a mira
Que no peito desperta uma doçura
Que só pode entender quem a conhece;

E dos seus lábios emanar parece
Um espírito cheio de ternura
Que vai dizendo ao coração: "Suspira!"

§

trad. Arduíno Bolívar. [1950]
em: Poesias, W. M. Jackson. Não sei a página. Retirado daqui com informação complementar aqui.

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos nos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

§

trad. C. Tavares Bastos. [1953]
em: Dante e outros poetas italianos na interpretação brasileira. Laemmert, 1953. Não sei a página.

Tão gentil e virtuosa se apresenta
a minha amada, quando a alguém saúda,
que toda língua treme e fica muda,
nem mesmo ousado olhar fixá-la tenta.

Sentindo-se louvada, ela se escuda
na humildade, às lisonjas desatenta;
dom do céu, é um milagre que se ostenta
sobre a face da terra triste e ruda.

Agrada tanto a quem a vê e tanta
doçura infunde o seu olhar de Santa,
que não o crera quem não o sentira;

e dos seus lábios emanar parece
suave fluido de amor que a alma enternece,
qual meiga voz a murmurar: Suspira!

§

trad. José Lourenço de Oliveira. [1956]
em: aqui.

Mostra-se tão gentil e tão honesta
a minha dama, no seu leve andar,
que toda língua cala e em todo olhar
logo se apaga a audácia manifesta.

Benigna e simples, ela segue, a festa
do seu louvor sentindo, ao caminhar.
Parece até milagre que mostrar
acaso o céu quisesse à terra infesta.

Agrada, tanto, vê-la, a quem a mira
e tanto aquece o coração no peito
que só quem prove é quem sabe e entende.

Dos lábios seus macio se desprende,
cheio de amor, um suave alento, um jeito
que, na alma, vai dizendo-nos: suspira!

§

trad. Henriqueta Lisboa. [década de 60?]
em: Poesia traduzida, EdUFMG, 2001, p. 38-39.

Tão discreta e gentil se me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal dulçor,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Jorge de Sena. [1972]
em: aqui.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a lí­ngua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espí­rito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: ― Suspira.

§

trad. Décio Pignatari. [1990]
em: Retrato do amor quando jovem, Cia das Letras, 2006, p. 60-61.

É tão gentil e de vaidade isenta
a minha dama, quando alguém saúda,
que a língua logo trava, tartamuda,
e a vista na visão não se sustenta.

Quando ela passa entre os louvores, lenta,
afável na humildade que não muda,
lembra coisa do céu vinda em ajuda
de todo aquele que um milagre alenta.

Não há graça maior pra quem a mire:
uma doçura, pelo olhar, vai fundo
― e só quem já sentiu pode dizê-lo.

Velando o seu semblante com desvelo,
um espírito de Amor se mostra ao mundo,
dizendo à alma, devagar: Suspire!

§


trad. Ivo Barroso. [1991?]
em: O torso e o gato, Record, 1991, p. 24-25.

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.

Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.

E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"

§

trad. Jorge Wanderley. [1996]
em: Lírica, Topbooks, 1996, p. 286-287.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar.
Ela se vai, sentindo-se louvar,
mas da própria modéstia tão vestida
que parece milagre, concebida
no céu, para na terra se mostrar.
Tão suave se mostra a quem a admira
que do olho ao peito leva uma doçura
só compreendida por quem dela prova.
E talvez no seu rosto já se mova
o espírito de amor e de brandura
que vai dizendo ao coração: Suspira.

§

trad. Vasco Graça Moura. [anos 2000?]
em: aqui.

Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.

Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.

Tal graça ao coração de quem na mira
está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;

e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.
§

trad. Augusto de Campos. [2003]
em: Invenção, Arx, 2003, p. 272-273.

É tão gentil, é tão honesto o olhar
de minha dama quando a alguém saúda
que toda língua treme e fica muda
e os olhos não a ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
benignamente em singelez vestida,
como se fora coisa remetida
do céu para um milagre nos mostrar.

Mostra tanto prazer a quem a mira,
que dá, através dos olhos, um dulçor
que não pode entender quem não o prove,

e de seus lábios como que se move
um espírito suave, todo amor,
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Ferreira Gullar. [2014]
em:  O prazer do poema, Edições de Janeiro, 2014, p. 82.

Tão honesta e gentil, até na fala,
é minha amada, quando a alguém saúda,
que toda e qualquer língua fica muda,
e os olhos não se atrevem a contemplar.

Ela assim vai, sentindo-se louvar,
vestida de humildade: de tão linda
lembra um milagre e até parece vinda
do céu para na terra se mostrar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que olhá-la ao coração leva doçura,
mas não pode entendê-lo quem não prova:

e talvez porque em seus lábios se mpva
um espírito tão cheio de candura
que vai dizendo ao coração: "Suspira".

§

trad. eu. [2016]

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha dama, quando ela saúda,
que toda boca treme e fica muda
e nem o olhar se atreve a contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
trajada de uma singelez que aluda
à coisa que do céu à terra muda
intentando um milagre revelar.

Tão afável se mostra a quem a admira
que pelo olhar faz doce o coração ―
só não entende aquele que não prove.

De seu semblante como que se move
suave sopro pleno de paixão
que vai dizendo à toda alma: Suspira.


Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quand'ella altrui saluta,
ch'ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l'ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d'umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: Sospira.

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