No tempo em que eu virava pra mim mesmo e dizia

"quero ser poeta", decidi que precisava me dedicar bastante pra me tornar pelo menos um poeta apreciável. A porca torceu o rabo foi justamente aí. Me enveredei no âmbito da crítica literária e no da tradução a tal ponto que, de tanto me dedicar ao que deveria ser oficina, parei de escrever poesia, visto que a leitura e a tradução se demonstraram como sendo muito mais prazerosas.

Claro que quem se dedica à poesia com um pouco de seriedade que seja, não pode simplesmente abandonar o prazer da escrita. E a tradução consegue supri-lo de forma admirável, não sendo à toa que muitos poetas contemporâneos prolongam o ato criativo durante a tradução (o que não implica em traduções ruins; existem formas de traduzir que unem ambos os polos de forma uníssona, à guisa das propostas transcriativas de Haroldo de Campos).

De 2012, que foi quando fiz minhas primeiras incursões (Elizabeth Barrett Browning, Christina Rossetti, trechos de Shakespeare que incluíam uma versão, hoje abandonada, de Júlio César), pra cá, consegui construir um amontoado de mais de 500 versões, partindo de poemas pequenos como haikais de Yone Noguchi até textos maiores, como Booz Endormi de Victor Hugo. Muitos, claro, inéditos, alguns em fragmentos e outros em estado de paráfrase ― entretanto, mesmo que os excluamos, ainda assim o número gira em torno de 500. A maior parte do inglês, mas existem também versões de línguas que desconheço quase que totalmente, por exemplo alemão (Goethe, Rilke, Brecht) ou polonês (um treny de Kochanowski). Existem também aquelas traduções hoje, na medida do possível (a internet não nos deixa renegar algo inteiramente), renegadas, por exemplo versões de Eliot que cometiam erros grotescos de interpretação, merecedoras, até (o que é uma espécie de desonra honrosa), de uma indireta elegante e incisiva de Denise Bottman.

Passando o mais longe possível do mérito da qualidade ou não desse saldo geral, trata-se de algo que eu, no ápice de meu amadorismo e diletantismo, me orgulho. Com todos os defeitos que possuem, é um montículo que eu mesmo cisquei. Fazem parte de mim, e reconheço cada uma delas pelas batidas do coração. E nem tanto por ter feito tais traduções, ou seja, colocado meu nomão ali em algum canto; antes, é porque, em não poucos casos (por exemplo ao traduzir Andrew Marvell), pude entrar em contato com inúmeros outros trabalhos, sentindo, assim, aquela miríade de nomes preenchendo as quatro margens da folha. Isso sim é maravilhoso. Porque, a bem da verdade, de duas uma: ou essa cifra é qualquer coisa de bom, ou ela é, no mínimo, um crime contra a humanidade.

Comentários

  1. Matheus, faz uma lista de livros que foram importantes para ti, tenho interesse em saber e ir atrás do que você indicar. Você podia citar uns livros e comentar por que foram importantes para ti, como te influenciaram, etc. Tenho curiosidade em saber da sua formação como leitor em geral, mas gostaria de saber principalmente os críticos e teóricos que te instigam.

    Abraços e continue o ótimo trabalho!

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    1. Obrigado pela visita! Seguirei sua sugestão. Farei uma postagem do tipo!

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