"Para meu filho Carlino", de Walter Savage Landor.



Muitos são os poemas cabíveis na ocasião de dia dos pais. Só nas fronteiras de nosso país, por exemplo, poderíamos começar com os conselhos do velho tupi no I-Juca Pirama de Gonçalves Dias, passando pelo Cântico do Calvário de Fagundes Varela, por Pequenino morto de Vicente de Carvalho, pelos poemas mais tensos de Drummond (em especial Viagem em Família, sem exclusão dos momentos mais tenros como A Luís Maurício, infante, que retrata a situação de ser avô), e, no caso de autores vivos, poderíamos chegar a Adélia Prado (e "a casa toda / de alaranjado brilhante"), Ferreira Gullar (Meu pai), Ricardo Domeneck (Carta ao pai) ou Rodrigo Tadeu Gonçalves (na comovente sequência Dora). E veja que isso é só em nossa literatura; em inglês nós temos outra coisa muito diferente, no que poderíamos partir de Rei Lear e chegar... ah, caramba, viu. Tanta coisa! Das metáforas estarrecedoras em Daddy, de Sylvia Plath, até Danse Russe de William Carlos Williams, Ecce Puer de Joyce (talvez o que melhor equilibra a situação de ser filho e ser pai, sendo, pelo menos pra mim, o poema perfeito para a ocasião) ou esse daqui, de Walter Savage Landor.

Ele costuma ser mais lembrado em antologias de poemas felinos, no que sempre citam a parte do gato Cincirillo. Mas não deixa de ser um poema curioso, ainda mais se notarmos que está incluso no livro Imaginary conversations, numa passagem em que Boccaccio e Petrarca trocam uma ideia. Petrarca diz que aprecia a vivacidade na obra do amigo, e, meio que mudando de assunto, pergunta a respeito de um curto manuscrito (curto, claro, não para os padrões de Landor, de cunho predominantemente epigramático), que ele suspeitava (atenção para o termo) ser poesia. Boccaccio responde:

Well guessed! They are verses written by a gentleman who resided long in this country, and who much regretted the necessity of leaving it. He took great delight in composing both Latin and Italian, but never kept a copy of them latterly, so that these are the only ones I could obtain from him. Read: for your voice will improve them:

E Petrarca arremata:

There have been those anciently who would have been pleased with such poetry, and perhaps there may be again. I am not sorry to see the Muses by the side of childhood, and forming a part of the family.

O poema foi escrito para Charles Savage Landor (1825 - 1917), o mais novo dos filhos de Landor. Como dito, é curioso que Landor tenha posto o poema numa ocasião dessas, ou seja, envolvendo o encontro de dois grandes artistas italianos (especificamente, o poema declamado por um deles). De todo modo, a franqueza, o modo absolutamente carinhoso com que Landor se dirige ao filho ("Swore we not secrecy in such misdeeds?") é algo que me encantou profundamente, motivando, assim sendo, minha versão, creio que certo modo livre em algumas passagens.


PARA MEU FILHO CARLINO

Carlino! Como tem andado, filho?
Te pergunto isso sempre, mas em vão,
Pois estamos distantes, e é por isso
Que te pergunto sempre, não num tom
Igual ao dos pais sábios, você sabe.
Nós não fomos crianças, nós dois juntos?
Não trocamos olhares, um com outro?
Não juramos segredo dos malfeitos?
A nossa confiança é mútua. Diga,
Então, o que tem feito. Tem gravado
Seu nome, ou meu, no banco que eu adoro,
Com a faca que te dei em alto mar?
Ou você a quebrou e pôs o cabo
Em meio aos mirtos, lá de trás das flores?
Ou sob o trono onde cinquenta lírios
(E nardos, densos como gládios, junto)
Erguem-se todos de uma vez... sem medo
Que estivessem te olhando o tempo todo?
       Cincirillo não veio a te seguir?
Girando a pata preta, com suspense,
Mostrando as presas sempre que uma ave
Piava acima dele na oliveira?
Ora! Assuste-o de volta! Ele matou
Nossas pombas, branquinhas, tão rabudas,
Que nem nos assustavam... E nem a ele!
Afaguei suas listras, compreendi
Sua mente sangrenta... e ele me olhou
Com ternura, os olhinhos meio fechados
Ouvindo o que eu, na sombra, lhe ensinava.
Sua memória... É, não sei. Já sua alma...
Quem sabe. Agora, sobre alguns detalhes...
(Devo dizer?) Queria ele mais sábio.
Mas Deus guarda pra ti muita sapiência!
Se na estação de agora ou de amanhã,
Sapiência sempre cai bem. Pois não tenho
O que ensinar; eu tenho o que aprender.
Pois vem, pode mandar! O que te deixa
(Ninguém é jovem para não ficar)
Preocupado? Ainda estão na luta,
Walter e você, junto aos moleques,
Geppo, Giovanni, Ceco e Poeta,
Pra reforçar o açude espedaçado
Junto aos álamos, onde o rouxinol
Inquisitivamente te observava?
Não fui do seu concílio nesse esquema,
Porém podia ter te dado pratas,
E suspiros, sem conta. Você foi
Abaixo da amoreira, lá nas águas
Que pediam por algo próprio e quente
Ao nadador de intrépidas braçadas?
Ou você pinta (sol a pino, estio,
Na escadaria do salão sentado)
Uma gorda fatia de melancia
Tal como o arco do Cupido, os beiços
Lambendo (assim como quem toca a flauta
De Pã) e permitindo que despenquem
As sementes das celas isoladas,
Deixando abruptas rochas e baías
Mais rubras que o coral na gruta de Calipso?

§

TO MY CHILD CARLINO

Carlino! what art thou about, my boy?
Often I ask that question, though in vain;
For we are far apart: ah! therefore 'tis
I often ask it; not in such a tone
As wiser fathers do, who know too well.
Were we not children, you and I together?
Stole we not glances from each other's eyes?
Swore we not secrecy in such misdeeds?
Well could we trust each other. Tell me, then,
What thou art doing. Carving out thy name,
Or haply mine, upon my favourite seat,
With the new knife I sent thee over-sea?
Or hast thou broken it, and hid the hilt
Among the myrtles, starr'd with flowers, behind?
Or under that high throne whence fifty lilies
(With sworded tuberoses dense around)
Lift up their heads at once . . . not without fear
That they were looking at thee all the while?

        Does Cincirillo follow thee about?
Inverting one swart foot suspensively,
And wagging his dread jaw, at every chirp
Of bird above him on the olive-branch?
Frighten him then away! 'twas he who slew
Our pigeons, our white pigeons, peacock-tailed,
That fear'd not you and me . . . alas, nor him!
I flattened his striped sides along my knee,
And reasoned with him on his bloody mind,
Till he looked blandly, and half-closed his eyes
To ponder on my lecture in the shade.
I doubt his memory much, his heart a little,
And in some minor matters (may I say it?)
Could wish him rather sager. But from thee
God hold back wisdom yet for many years!
Whether in early season or in late
It always comes high priced. For thy pure breast
I have no lesson; it for me has many.
Come, throw it open then! What sports, what cares
(Since there are none too young for these) engage
Thy busy thoughts? Are you again at work,
Walter and you, with those sly labourers,
Geppo, Giovanni, Cecco, and Poeta,
To build more solidly your broken dam
Among the poplars, whence the nightingale
Inquisitively watched you all day long?
I was not of your council in the scheme,
Or might have saved you silver without end,
And sighs too without number. Art thou gone
Below the mulberry, where that cold pool
Urged to devise a warmer, and more fit
For mighty swimmers, swimming three abreast?
Or art thou panting in this summer noon
Upon the lowest step before the hall,
Drawing a slice of watermelon, long
As Cupid's bow, athwart thy wetted lips
(Like one who plays Pan's pipe) and letting drop
The sable seeds from all their separate cells,
And leaving bays profound and rocks abrupt,
Redder than coral round Calypso's cave?

Comentários

  1. KKK, fiquei louco tentando encontrar o texto dentro das Imaginary Conversation de Landor. Na terceira série das Conversas há um diálogo entre Petrarca e Bocaccio e uma entre os dois e Chaucer, porém o poema não está incluído no set original. Acabei descobrindo que ele foi publicado em outro livro, The Pentameron and Pentalogia, de 1837. Esse livro é ainda mais sério, porque quando foi editado, foi impresso como se a conversa houvesse realmente acontecido: não era uma Imaginary Conversation, mas uma edição da conversa "real" feita por Pievano D. Grigi (nome hoax usado por Landor). Esse livro pode ser lido aqui: https://books.google.com.br/books?id=10ViAAAAcAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false

    Eu realmente não sei se alguém realmente acreditou que o diálogo era genuíno, e fico realmente curioso de saber como chegaste a esse poema. Eu também já havia tentado organizar poemas sobre gatinhos e nunca ouvi falar dele...

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    1. Descobri na antologia da Norton. Comecei a traduzir e nem sabia direito em que livro se encontrava -- me encantei mais pela linguagem simples do poema mesmo... Já imaginava que ele era um pouco escondido pois comecei a pesquisar sobre ele e não encontrava nada. Mas não imaginava que era tanto!

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