"A uma cotovia", de P. B. Shelley.



Não vou ficar comentando muito sobre o poema nem sobre o tal do Xéli por motivos de: já existe muito material bom disponível na internet, por exemplo no escamandro, que é substancialmente mais competente do que qualquer coisa que eu me metesse a falar. Com alguns minutinhos abrandando o ímpeto de abrir quarenta abas novas no navegador, você vai descobrir quem foi o poeta, que tipo de fofoca nós podemos extrair de sua vida, que tipo de poesia ele criou, essas coisas. É bem provável que caia num mar insondável de clichês, e chegue, até mesmo, naquele tipo de dificuldade mórbida em entender que o poeta é uma coisa e a obra que ele escreveu é outra, e que, entre ambos, existe uma lacuna fundamental que constitui precisamente a vida própria da obra de arte enquanto objeto estético. É, é normal. Até mesmo alguém como Otto Maria Carpeaux, que começa criticando esse biografismo desabrido quando o assunto é Shelley, algumas frases depois estará chamando o pobre do poeta de um "psicopata social". Mas eu falo não é nem tanto disso. Material bom dá pra achar. Ponto. Mas tem mais: como esta já é uma postagem enorme, enorme, ficar tagarelando demais é sempre um aborrecimento. Então...

O básico do básico é o seguinte. O poema fala de uma coisa que o poeta não vê. Ou seja: ele escuta a cotovia, mas não vê a cotovia propriamente falando. A historinha por trás do poema é essa mesmo: "on a beautiful summer evening while wandering among the lanes whose myrtle hedges were the bowers of the fire-flies" (SHELLEY, Mary), Xéli-macho parou Xéli-fêmea e disse: "Maria, Maria! Ora pois: escute! Que coisa már linda!..." E isso, caro leitor, isso explica porque a sequência de "Like a" envolve imagens de coisas escondidas, por exemplo o Poet hidden ou a glow-worm. Ao mesmo tempo, entretanto, o fato de que o poeta não veja a cotovia não quer dizer que ele não se deixe inundar de toda a alegria que aquele pássaro representa. A ode à cotovia é muito mais do que uma ode ao pássaro; é, em grande medida, uma ode à alegria, uma ode àquilo que representa um gozo puro, praticamente incorpóreo, alheio a qualquer contingência humana. Daí, ligando os pauzinhos, as constantes imagens de algo que ultrapassa qualquer barreira, por exemplo a da cotovia que, já na primeira estrofe, é considerada como não tendo sido ave jamais: ela é algo muito além disso. Daí, também, a tristeza que acerta o eu lírico diante de algo que se liga a uma forma imperecível de comunicar o êxtase. A lição daquele canto da cotovia, que simplesmente chega até o poeta e o enche de alegria, é uma lição cara ao poeta, o que explica seu desejo de que um dia a cotovia venha a ensiná-lo nem que seja um pouquinho daquilo tudo. Oras: canto puro e com capacidade tal de extasiar quem o escuta, e ainda por cima superior a nosso cubículo sublunar!... Tem coisa melhor?

O fluxo de sentimentos que o canto da cotovia representa é de certo modo mimetizado na estrutura rítmica do poema. Pois ele possui, como você pode notar, versos curtos e grandes. Os pequenos, que compõem os quatro primeiros versos de cada estrofe, são trímetros trocaicos, ou seja, eles possuem três pés, sendo que cada pé, que possui duas sílabas, é um troqueu: uma sílaba tônica e uma átona. Portanto, o verso pequeno possui uma batucada assim:

        [BA-dum] + [BA-dum] + [BA-dum]

Já os versos maiores, os últimos de cada estrofe, são hexâmetros jâmbicos. Isto é: eles possuem seis pés, sendo que cada pé, que possui duas sílabas, é um jambo: uma sílaba átona e uma tônica. Portanto, o verso maior possui uma batucada assim:

        [dum-BA] + [dum-BA] + [dum-BA] + [dum-BA] + [dum-BA] + [dum-BA]

Como dá pra perceber, a estrofe, nos quatro primeiros versos, possui um ritmo decrescente e, no verso maior, um ritmo crescente. É um choque, portanto, tipo aquele entre as correntes de ar. Vou desenhar pra você, amigo leitor:

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Manter esse tipo de coisa é dificílimo. O recente projeto tradutório de Adriano Scandolara (comentado alhures cá no bloguinho) envolve esse tipo de missão, o que implica dizer, no mínimo, que isso cria um precedente, de modo que qualquer tradutor de qualquer poema de Shelley se verá diante, pelo menos, da possibilidade de manter a muito bem cuidada estrutura rítmica de muitos de seus versos. É dizer: você olha pro poema e pensa "legal, quero traduzir". Mas aí vê a estrutura rítmica. Você, claro, sempre pode passar por cima ou, como se diz, erigir encanto em outras sendas. Sim, pode. Mas aí você olha pro gramado do vizinho. E vê que ele deu um jeito de manter aquilo ali também, ó. Certo que não com o poema que você quer traduzir. Mas e daí? Ele conseguiu. Portanto, como fica?

Fica assim: melancolia. Aquela melancolia típica do trabalho da tradução, como nos lembra Susana Kampff Lages. Então, já sabem: isso de manter a estrutura rítmica, alas!, alas!... Não foi o meu caso. Uma ideia que me ocorreu seria a de traduzir usando os mesmos pés de Shelley. Outra ideia seria a de me valer de dátilos nos versos menores, isto é, uma tônica seguida de duas átonas, e de anapestos nos versos maiores, isto é, duas átonas seguidas de uma tônica. Se fosse assim, nós teríamos um ritmo ternário. Mas não deu. Minha tradução tem um ritmo mais ou menos jâmbico. Em alguns casos esse jambo está até bem demarcado, mas sacomé: às vezes. Quando a tradução parecia ter um ritmo trocaico, esse troqueu, no último pé do verso (geralmente no caso dos trímetros), cede lugar para um jambo a fim de que a métrica se feche.

Então fica aí esse testemunho por parte do tradutor. Caso você queira ter uma real dimensão de qual é, tintim por tintim, o metro usado por Shelley, e de como ele varia aqui e acolá, você pode ler o segundo capítulo da dissertação de mestrado de Juliana Cunha Menezes, Fernando Pessoa como tradutor (disponível aqui, mas ver também os dados completos aqui e os outros capítulos aqui). Nele a autora também levanta outros pontos interessantes, como o uso até intensivo que Shelley faz de rimas parciais e o fato de que, no poema inteiro, ele não repete uma só rima. No caso de minha tradução, creio que fui mais castiço do que o próprio original quanto à parcialidade das rimas, o que é sopesado, todavia, pelo fato de que repeti alguns ecos rímicos ao longo de minha versão (rimas em "-ante", por exemplo, aparecem em três estrofes).

Divirtam-se. Caso não tenha gostado do que fiz, acho que pelo menos do serviço de algum dos tradutores arrolados você vai gostar. Minha tradução está no finalzinho, pois, desse modo, você passa a ter uma ideia propriamente cronológica do surgimento das versões, além do fato de que, é claro, eu a situo exatamente onde ela deve estar: humildemente depois de todas as outras.

Pois quanto a isso, tradução-dos-outros, abro um pequeno parêntesis quanto à primeira. Dá uma manjada. Você bate o olho e fala: "Santa tartaruga! Fernando FUCKING Pessoa!" Pois é. Até então o corpus tradutório pessoano era reduzido, do qual você certamente já tinha ouvido falar das célebres traduções de Poe: The Raven, Ulalume, Annabel Lee. Acontece que na década de 90 um erudito chamado José Luiz Garaldi encontrou traduções esparsas de Pessoa para poetas como Wordsworth ou Tennyson, todas inclusas numa tal de Biblioteca Internacional de Obras Célebres, uma enciclopédia que era famosona na época: Drummond, por exemplo, sempre manifestou deslumbre com essa tal Biblioteca, e tanto que, na infância, seu pai, cansado do filho encher o saco, comprou por telefone os 24 volumes da coleção. O pequeno Drummond só faltou ter um ataque de felicidade quando viu aqueles volumes mágicos sendo transportados no lombo do animal... Você encontra uma boa resenha dessas traduções de Pessoa descobertas por Garaldi aqui. Sim: resenha de autoria de Augusto FUCKING de Campos. O fato é que, ainda na década de 90, o estudioso da obra pessoana Arnaldo Saraiva publicou uma análise estilística em que, ainda tomando como base as traduções inclusas nessa tal Biblioteca, só que não explicitamente creditadas a Pessoa, ampliou o corpus ainda mais, e um dos poemas que entraram de lambuja nesse ínterim foi justamente To a skylark, de Shelley. Há quem diga que os argumentos de Arnaldo Saraiva não são dos melhores, como por exemplo Nelson Ascher numa palestra, Minha poesia alheia, que você consegue assistir no YouTube mesmo. Segundo Ascher, em última instância o argumento de Arnaldo Saraiva foi: são traduções bem realizadas; quem, além de Pessoa, tinha capacidade de chegar a resultados tão bons assim? Ninguém. Logo, são de Pessoa. Claro que, como não cheguei a ler com mais tardar os argumentos realmente trazidos à baila por Arnaldo Saraiva, eu me furto de comentar esta questão e apenas incluo a tradução do poema de Shelley como sendo mesmo de Pessoa.

§

Agradeço a Adriano Scandolara por gentilmente ter me enviado a tradução de John Milton e Alberto Marsicano.


A UMA COTOVIA.

§
trad. Fernando Pessoa.
em: Fernando Pessoa tradutor de poetas, Nova Fronteira, 1999. Não sei a página.

    Ave, ‘sprito! – certo
        tu nunca foste ave –
    que do céu, ou perto,
        teu coração suava
derramas sem pensar, em arte sem entrave.

    Alto, e inda mais logo,
        vai teu vôo aéreo;
    qual nuvem de fogo
        pelo azul sidéreo,
voas cantando, e voando alças teu vôo etéreo.

    No acabar louro
        do sol que fenece
    enublado de ouro,
        teu ser sobe e desce
como alegria ideal cujo curso comece.

    A púrpura cálida
        em torno a ti esfria;
    como estrela pálida
        no já pleno dia
não te vejo, mas ouço essa tua alegria.

    Fina como a seta
        que essa esfera dá
    cuja luz se estreita
        na alva clara já,
até mal vermos, só sabemos que ali está.

    Toda a terra estava
        pelo teu cantar,
    como, em noite nua,
        de nuvem sem par
a tua luz, e o céu transborda de luar.

    O que és não sabemos;
        quem te igualaria?
    Das nuvens não vemos
        chover, alegria
qual chove sobre nós de ti a melodia.

    Como poeta oculto
        na luz do penar,
    cantando o seu culto
        ‘té o mundo adorar
receios e ilusões que não sabia arriar.

    Qual nobre donzela
        numa torre antiga,
    colmando a alma, bela
        de amar, com amiga
música como o amor, que ache a torre que a abriga.

    Como pirilampo
        oculto a brilhar
    ‘spalhando no campo
        sua luz lunar
entre as ervas e as flores que o escondem do olhar.

    Qual rosa que mora
        no cálice verde,
    e o vento desflora,
        e o aroma que cede
embriaga o alado roubador que a perde.

    Som do v’rão chovendo
        sobre a erva rica,
    flores renascendo,
        tudo quanto fica.
À alma alegre e boa teu canto multiplica.

    Diz-nos, ‘spirito ou ave,
        teu doce pensar:
    nunca louvor suave
        do vinho ou do amar
ouvi como o teu ser tal gozo transbordar.

    Coro de himeneu,
        alto hino que exulta,
    comparado ao teu,
        sensabor resulta,
coisas em que a alma sente uma carência oculta.

    Que coisas são fontes
        do teu canto em flor?
    Que ondas, campos, montes?
        Que céu, de que cor?
Que imenso amor dos teus, que ignorância da dor?

    Ao teu claro gozo
        languidez não vem;
    tédio doloroso
        não te ensombre o bem,
amas, sem ter sabido o tédio que o amar tem.

    Dormindo ou desperta,
        deves ter da morte
    uma luz mais certa
        que é da nossa sorte.
Senão teu canto não seria claro e forte.

    Da saudade ao sonho
        aspiramos tanto!
    Nosso ar mais risonho
        é da dor o manto,
nossas canções mais suas são as de mais pranto.

    Mas se não tivéssemos
        medo, e orgulho, e odiar,
    se todos nascêssemos
        pra nunca chorar,
nunca ao gozo poderíamos chegar.

    Mais que todo o ouro
        que um canto descerra
    que todo o tesouro
        que em livros se encerra,
teu canto ao poeta val’, desdenhador da terra!

    Soubesse eu o que goza
        tua alma, e tal fora
    minha harmoniosa
        lírica loucura
que o mundo escutaria como escuto agora.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
em: Ode ao vento oeste e outros poemas, Hedra, 2009, p. 94-103.

    Salve, espírito contente!
        Pássaro nunca foste, certamente;
    Do Paraíso, ou a tocá-lo de raspão
        Derramas o teu pleno coração
Em melodias de arte não premeditada.

    Voando mais alto e cada vez mais acima,
        Deixas da terra o clima
    Como nuvem de fogo;
        O mar azul percorres logo;
Cantando voas alto, e voando sempre cantas.

    No relâmpago dourado
        Do sol tombado,
    Sobre o qual as nuvens brilham nuas,
        Vagas e flutuas
Alegria incorpórea a principiar corrida.

    A tarde púrpura e palente
        Funde-se em torno de teu voo ardente;
    Como estrela noturna
        Na vasta luz diurna,
És invisível, mas eu te ouço a voz aguda.

    Penetrante como é a muita seta
        Da esfera de prata seleta
    Cuja lâmpada se reduz
        Na claridade da alvorada que reluz,
Até mal vermos ― nós sentimo-la, está lá!

        Sonoros ficam terra e ar
        Com tua voz a soar,
Como, quando a noite está sozinha,
        De uma solitária nuvenzinha
Chove a lua seus raios e se inunda o céu.

    Quem és que não sabemos?
        Mas igual a ti o que acharemos?
    Das nuvens com arco-íris não podem chover
        Gotas tão brilhantes para ver
Quanto de ti uma chuva cai de melodia.

    Como um poeta se oculta e ganha alento
        Na luz do pensamento,
    E hinos espontâneos cantando
        O mundo à simpatia vai levando
Com medo e esperanças de que não cuidava;

    Como uma virgem muito bem nascida
        Em torre de palácio protegida
    Conforta a alma de amor repleta,
        Numa hora secreta,
Com música tão doce como o amor, a qual se espraia;

    Como um vaga-lume dourado
        Num valezinho orvalhado
    Despercebido espalha o ardor
        De sua etérea cor
Entre as flores e a grama, que da vista o escondem;

    Como uma rosa que se acama
        Em sua verde rama
    Por ventos quentes esfolhada,
        Até que esses ladrões de asa pesada
Enlanguesçam com o aroma que ela exala;

    O som dos aguaceiros de verão
        Na relva cheia de faiscação,
    As flores despertadas pela chuva fria,
        Tudo o que alegre e fresco foi um dia,
E luminoso, tua música o ultrapassa:

    Ensina-nos, Espírito ou Ave de luz,
        Que doces pensamentos são os que possuis;
    Eu nunca ouvi nenhum louvor
        Ou do vinho ou do amor
Que um dilúvio de enlevo tão divino derramasse.

    Canto triunfal ou coro de himeneu
        Comparados ao canto teu
    Seriam simples fanfarrice,
        Algo no qual bem se sentisse
Que uma oculta falha existe.

    Que coisas fontes são
        De tua feliz canção?
    Que campos, ondas, ou que montes?
        Que formas de céu ou de horizontes?
Que amor da própria espécie? que esquecer a dor?

    Teu regojizo agudo e luminoso
        Não pode ser nada de langoroso:
    Sombra de aborrecimento
        Nunca tiveste um só momento:
Amas ― sem conhecer do amor a saciedade.

    Vígil ou dormindo
         Da morte podes bem estar intuindo
    Coisas mais profundas e reais
        Do que sonhamos nós, mortais;
Ou como cantarias com esse fluxo de cristal?

    Antes e depois olhamos
        E pelo que não é ansiamos:
    Nossa risada mais sincera
        Enche-a alguma dor vera:
Nosso mais doce canto é o de mais triste pensamento.

    Pudéssemos escarnecer
        O ódio, o orgulho, e temor não ter;
    Criaturas fôssemos nascidas
        Para não termos lágrimas vertidas,
Tua alegria ainda assim não roçaríamos.

    Melhor que todas as medidas
        Das cadências com prazer sentidas,
    Melhor do que toda a riqueza
        Que os livros nos fornecem com certeza,
Para o poeta seria a tua arte, tu que ris do chão!

    Ensina-me tão só metade do prazer
        Que o teu cérebro deve conhecer;
    De meus lábios sairia
        Tal loucura tão cheia de harmonia
Que o mundo me ouviria, como te ouço agora.

§

trad. Alberto Marsicano e John Milton.
em: Sementes aladas, Ateliê, 2010, p. 26-35.

    Salve, Espírito da alegria!
        Pássaro nunca foste,
Que do Céu ou cercania.
        Teu pleno coração abriste
No prodigioso improviso que cantaste.

    Mais alto e incessante
        Da terra saltas
    Qual nuvem flamejante;
        No azul profundo voas,
Ainda cantando sobes, ainda subindo cantas.

    No dourado esplendor
        Do sol poente,
    Sobre a nuvem multicor,
        Flutuas veloz e contente;
No incorpóreo júbilo da jornada iniciante.

    A tarde púrpura se vela
        E se esvai em torno teu voar
    Como no Céu uma estrela
        Na luz do dia a cintilar
Oculta, ainda escuto teu agudo deleitar.

    Afilada qual seta
        Da esfera prateada,
    Cuja luz forte se projeta
        Na aurora clareada
Até sumir ― sentimos sua revoada.

    Toda terra e o céu
        Fazem tua voz soar imensa,
    Como quando, na noite qual breu,
        Atrás de uma nuvem de solitária nuança
A transbordante chuva de luar do Céu se lança.

    Não sabemos a imagem;
        Que de ti se assemelha?
    Das nuvens de arco-íris não fluem
        Gotas tão brilhantes onde se olha
Como em tua presença, chuva de melodias que se espalha.

    Como um Poeta velado
        Na luz do intelecto,
    Cantando um hino não clamado,
        Até o mundo se forjar decerto
Em simpatia com esperança e temor inaudito.

    Como donzela elegante
        Na torre da cidadela,
    Suavizando sua mente
        Na hora secreta e singela
Com a doce melodia que irradia e revela.

    Como o vaga-lume dourado
        Espargindo invisível
    No vale orvalhado,
        Sua luz aérea e indizível
Entre as flores e a relva aprazível!

    Como a rosa oculta
        Por sua verde folhagem,
    Que o vento ardente as pétalas solta,
        Mas sem demora os perfumes letargem
Com doçura o ladrão de fortes asas na pilhagem:

    O som da chuva de verão
        Na grama cintilante,
    Os botões em plena floração
        E tudo mais neste instante
Alegre e claro se esvai ante tua música vibrante:

    Ensina-nos, Espírito ou Ave,
        Qual é teu doce pensamento
    Nunca houve
        Vinho ou do amor, o canto
Que ofegasse em êxtase e tal divino encanto.

    Coral de Himeneu,
        Ou canção triunfal,
    Comparados ao canto teu
        Não passam de alarde banal,
Certa coisa em que sentimos faltar algo real.

    Quais são as fontes
        De tua alegre toada?
    Quais campos, ondas ou montes?
        Quais formas no céu ou esplanada?
Amor da tua estirpe? Dor jamais sofrida?

    Com teu regozijo claro e lapidar
        O langor não tem sentido:
    A sombra do pesar
        Nunca esteve a teu lado:
Amas ― mas o sofrer do amor jamais te foste outorgado.

    Dormente ou acordada,
        Sobre a morte cogitas
    Algo mais verdadeira e profunda
        Que a sonhamos nós mortais,
Senão, como fluiriam tuas notas qual claros mananciais?

    Olhamos para trás e para frente,
        Saudosos do que não existe:
    Em nosso riso mais contundente
        Alguma dor persiste;
Nossas mais doces canções são as que evocam a alma triste.

    Se pudéssemos esquecer
        O orgulho, o medo e a cizânia;
    Se viéssemos a nascer
        Para não chorar em demasia,
Nem saberia como poderíamos alçar tua alegria.

    Maior que as métricas de ouro
        Com cadência sonora,
    Maior que todo tesouro
        Que o livro encerra,
Seria teu dom poético, tu que desprezas a terra!

    Ensina-me metade da alegria
        Que conhece tua mente,
    Então a louca harmonia
        De meus lábios sairia fluente
E o mundo me ouviria ― como te escuto neste instante.

§

trad. eu.

    Salve, esp'rito contente!
         Ave não foi jamais ―
    Pra no céu, ou à frente,
        Verter tu' alma em tais
Notas profusas de artes não-intencionais.

    Alto e mais e mais alto,
        Qual nuvem chamejando
    Era o teu sobressalto;
        E o amplo azul voando,
Tu te alçaste e se alçando ias sempre cantando.

    No trovão estupendo
         Do sol dissolvido,
    Co'o céu resplandecendo
        Planando tens corrido
 Como incorpóreo gozo há pouco propelido.

    Púrpura a tarde pálida
        Se mescla a teu rasante;
    Igual à estrela cálida
         De dia, semelhante
És tu, que não contemplo e ouço, não obstante,

    Aguda como a flecha
        Daquela esfera prata
    Cujo fulgor se fecha
        Na aurora branca e exata,
A qual, mesmo não vista, o nosso ser constata.

    A terra inteira e o ar
        Avultam com tua voz
    Tal quando em vago luar
        A nuvenzinha a sós
Recebe os raios e preenche os céus, após.

    Tu foste um algo ignoto;
        O que é igual a ti?
    Do arco-íris não noto
        O límpido fluir
Da procela melíflua que ao te ver, ouvi.

    Como oculto Poeta
        À luz do pensamento
     Entoa um hino e enceta
        O Mundo a um ligamento
Com medos e ilusões aos quais não 'stava atento:

    Como ilustre donzela
        Na torre de um castelo,
      Que a dor de amar desvela
        Em hora oblíqua pelo
Dom do canto, inundando o vestuário belo:

    Como áureo vaga-lume
        Entre orvalhos do vale
    Que absorto ponha a lume
        Sua cor e a propale
Em meio à flor e à grama, e da vista a solape:

    Como rosa entrançada
         Em pétalas carmim,
    P'lo vento deflorada
        'Té que o aroma assim
Doce esmaeça insetos ladrões de jardim:

    Som de chuvas vernais
        No mato cintilante,
    Flores que a chuva faz
        Despertar, tudo, diante
De teu cântico, é menos repleto e radiante.

     Mostre que ideias são
         As tuas, Ave ou 'Sp'rito:
     Do vinho e da paixão
         Não sei quem tenha dito
Com arroubo assim tão sublime e infinito.

     Seja coro himeneu
        Ou canto triunfal,
    Se comparado ao teu
         É um nada no total,
É um algo a esconder uma falta fatal.

    Que objetos são a fonte
        De tuas canções plenas?
    Que prado, onda ou monte?
         Que atmosferas serenas?
Que amor pra com iguais? Que ignorância das penas?

    Rútilo gáudio agudo
        Isento de torpor
    É o teu, que afasta tudo
        Que é tédio e sensabor:
Tu amas, de um amor que jamais se fartou.

    Se dormindo ou desperto,
        Da morte conjeturas
    Algo maior, decerto,
        Do que o sonho afigura:
Só assim teu puro canto alcança tais alturas.

    Olho antes e depois
        E busco o que inexiste:
    Minha risada pôs-se
         Inconsolada e triste;
Doce é o canto que em dizer a dor consiste.

    Pudéssemos, porém,
        Rir do orgulho, horror e ira;
    Fôssemos algo além,
         Que jamais se afligira!...
Sem que houvéssemos o êxtase que em ti se admira.

    Além de qualquer tanto
        De um canto que nos encante,
    Além de qualquer tanto
        Que um verso qualquer cante
Tu, zombando o chão, dá-nos, poeta brilhante!

    Ah!, ensina-me um pouco
        Do enlevo que em ti mora,
    E um ritmo harmônico e louco
        Minha voz põe pra fora
Para que o mundo escute igual escuto agora!



TO A SKYLARK.

         Hail to thee, blithe Spirit!
                Bird thou never wert,
         That from Heaven, or near it,
                Pourest thy full heart
In profuse strains of unpremeditated art.

         Higher still and higher
                From the earth thou springest
         Like a cloud of fire;
                The blue deep thou wingest,
And singing still dost soar, and soaring ever singest.

         In the golden lightning
                Of the sunken sun,
         O'er which clouds are bright'ning,
                Thou dost float and run;
Like an unbodied joy whose race is just begun.

         The pale purple even
                Melts around thy flight;
         Like a star of Heaven,
                In the broad day-light
Thou art unseen, but yet I hear thy shrill delight,

         Keen as are the arrows
                Of that silver sphere,
         Whose intense lamp narrows
                In the white dawn clear
Until we hardly see, we feel that it is there.

         All the earth and air
                With thy voice is loud,
         As, when night is bare,
                From one lonely cloud
The moon rains out her beams, and Heaven is overflow'd.

         What thou art we know not;
                What is most like thee?
         From rainbow clouds there flow not
                Drops so bright to see
As from thy presence showers a rain of melody.

         Like a Poet hidden
                In the light of thought,
         Singing hymns unbidden,
                Till the world is wrought
To sympathy with hopes and fears it heeded not:

         Like a high-born maiden
                In a palace-tower,
         Soothing her love-laden
                Soul in secret hour
With music sweet as love, which overflows her bower:

         Like a glow-worm golden
                In a dell of dew,
         Scattering unbeholden
                Its a{:e}real hue
Among the flowers and grass, which screen it from the view:

         Like a rose embower'd
                In its own green leaves,
         By warm winds deflower'd,
                Till the scent it gives
Makes faint with too much sweet those heavy-winged thieves:

         Sound of vernal showers
                On the twinkling grass,
         Rain-awaken'd flowers,
                All that ever was
Joyous, and clear, and fresh, thy music doth surpass.

         Teach us, Sprite or Bird,
                What sweet thoughts are thine:
         I have never heard
                Praise of love or wine
That panted forth a flood of rapture so divine.

         Chorus Hymeneal,
                Or triumphal chant,
         Match'd with thine would be all
                But an empty vaunt,
A thing wherein we feel there is some hidden want.

         What objects are the fountains
                Of thy happy strain?
         What fields, or waves, or mountains?
                What shapes of sky or plain?
What love of thine own kind? what ignorance of pain?

         With thy clear keen joyance
                Languor cannot be:
         Shadow of annoyance
                Never came near thee:
Thou lovest: but ne'er knew love's sad satiety.

         Waking or asleep,
                Thou of death must deem
         Things more true and deep
                Than we mortals dream,
Or how could thy notes flow in such a crystal stream?

         We look before and after,
                And pine for what is not:
         Our sincerest laughter
                With some pain is fraught;
Our sweetest songs are those that tell of saddest thought.

         Yet if we could scorn
                Hate, and pride, and fear;
         If we were things born
                Not to shed a tear,
I know not how thy joy we ever should come near.

         Better than all measures
                Of delightful sound,
         Better than all treasures
                That in books are found,
Thy skill to poet were, thou scorner of the ground!

         Teach me half the gladness
                That thy brain must know,
         Such harmonious madness
                From my lips would flow
The world should listen then, as I am listening now.

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