"99 Novels", Anthony Burgess.

 


Burgess é um cara legal. E nem tanto por ter escrito aquele romance que nos descabela de paixão ― desses que pagamos uma nota preta por uma edição de luxo, às vezes sem nem entender direito a responsabilidade financeira que comprar uma edição de luxo representa ―: Laranja Mecânica. Ele tem um livro muito bom sobre literatura inglesa, desses que, a depender de como as aulas são ministradas, podem salvar seu semestre (não que eu já tenha tido alguma, mas, ligando os pontos Pós-Doutores e Didática, já dá pra imaginar bem). Tem também uma tradução deliciosa da minha peça preferida, Cyrano de Bergerac. E tem isso. 99 resenhas que escreveu para alguns dos seus livros favoritos.

O que impressiona não é o fato de serem 99 ou o fato dos romances escolhidos irem de 39 a 83. Acreditem: Burgess era um leitor ainda mais nervoso do que isso. Durante o tempo em que trabalhou para o Yorkshire Post, ele resenhou cerca de 350 livros em dois anos. Um a cada dois dias. Nossa cabeça quase explode quando cogita algo assim. Quando estou em meus dias mais inspirados, já consegui um recorde de três livros num dia, mas essa conta só fechou porque envolvia pelo menos um livro de poemas, porque excluía refeições diárias e porque, evidentemente, é o tipo de coisa que não dava pra fazer todo dia. Mas veja bem que o que a meu ver realmente impressiona não é nem tanto essa cifra numérica: Burgess recebeu o convite de um editor nigeriano e escreveu essas 99 resenhas em apenas duas semanas. Isso sim é impressionante. Nem tanto insinuando, é óbvio, que Burgess tenha lido ou relido esses 99 romances em duas semanas. Na prática o que ele deve ter feito foi apenas reler por alto ou relembrar do que leu. E aqui já entramos num detalhe importante: esses 99 livros resenhados são livros da preferência de Burgess. São livros que de algum modo o marcaram, e o simples fato de que tenham sido resenhados em duas semanas já o atesta: se esses livros não tivessem marcado o crítico de algum modo, o trabalho teria se tornado impossível. Do mesmo modo, resenhar livros ruins seria bola fora, visto que ou esse livro seria ruim no sentido de ser uma bela duma decepção (ele prometia tanto!), ou no sentido de ser ruim num sentido traumático (deixar sequelas e tudo mais), ou então Burgess teria realmente que relê-lo na velocidade da luz para que pudesse resenhá-lo. Fora de cogitação.

O ano é 1984. Qualquer caixa de leite punha uma frase de Orwell abaixo da foto da criança desaparecida. As comemorações certamente chegaram a um nível insuportável. Se hoje qualquer songamonga balbucia nos comentários uma comparação pseudo-elucidativa entre a novilíngua e o que der na telha, imagine só naquele ano fatídico, quando o tal do 1984 chegou mesmo. Há uma resenha do livro de Orwell no meio das 99, e até mesmo a inocente introdução começa dizendo: "1984 has arrived, but Orwell's glum prophecy has not been fulfilled." A única razão de se olhar para um lustro de 44 anos e não para um de 50 é que "it is more poetic to begin with the beginning of a world war and to end with the non-fulfilment of a nightmare." Muito bom, escolha sábia. Mas que mal me pergunte: se esse livro é sobre bons livros, que tipo de critério foi adotado? Quero dizer: seria maravilhoso e delicioso que o crítico dissesse "nenhum" ou "nenhum que mereça ser explicitado" ou mesmo um "ótima pergunta, vou deixá-la como dever de casa". Falo sério: eu me divertiria se houvesse uma resposta dessas, o que não implicaria um rigor crítico ou mesmo qualidade menor por parte do livro que temos em mãos. (Saber traduzir essas coisas num texto mecânico e enfadonho de metacrítica não é sinal de qualidade, caso não saiba: muita gente, aliás, só sabe fazer metacrítica.) Mas Burgess consegue ensaiar algumas. O romance ― essa coisa de definição problemática, pedaço de ficção que, na prática, ganha a resposta definitiva a respeito do que é e do que não é com base no trabalho dos "publishers, printers and binders who process a manuscript into printed copy dressed in an overcoat" ― envolve por parte do crítico uma consideração de que tipo de romance estamos tratando, de modo que "even a bestseller like Princess Daisy demands consideration so that one may discover what makes it a bestseller", ou, tentando colocar de forma ainda mais prática:

We have to judge The Day of the Jackal or The Crash of 79' by standards which neglect the Jamesian desiderata and make judgements in terms of the author's capacity for fulfilling the known expectations of the reader. Is this climax managed well? Is this technical information given with clarity? Are these characters sufficiently uninteresting not to interfere with the movement of the plot? Is this a good read for an invalid with a short attention-span whose head is muzzy with medicine?

"A novel is primarily a presentation of human beings in action." (Preste atenção a presentation e não representation.) Um pouco depois, sobre as personagens: "No novelist who has created a credible personage can ever be quite sure wha the personage will do. Create your characters, give them a time and place to exist in, and leave the plot to them". Mais adiante: "The characters of an art novel resist the structure which their creators try to impose on them; they want to go their own way." Sobre tempo e espaço (um comentário interessantíssimo, aliás):

It often happens that a created background, like Graham Greene's West Africa in The Heart of the Matter, is more magical than the real thing. It is the spatio-temporal extension of character that is more important than public time and location

E assim poderíamos seguir catando as preciosas migalhinhas deste prefácio, coisas como: "A novel ought to leave in the reader's mind a sort of philosophical residue." Ou: "The implication here is that the personality of the novelist is important to us ― the personality as revealed in his work and not in his private life". Naturalmente, todavia, que "As you start on my list, you will discover that few of these attributes seem to apply." Por quê? "Judging a novel is a rule-of-thumb matter; we cannot appeal to any aesthetic tribunal which will lay down universal laws."

Sim, claro. O que importa à crítica é o debate etc etc. Não precisamos desfiar todo aquele rosário que até a mim mesmo ― que já o fiz incontáveis vezes ― estafou por inteiro. A grande lição que este livro de Burgess pode nos ensinar, onde os discursos a respeito da morte da crítica seguem a vento e popa (e permutações e tédio), insistentes que são em olhar apenas para os veículos tradicionais (leia-se: suplementos culturais) ao invés de observar o fertilíssimo terreno que encontramos no âmbito virtual; a grande lição que ele nos dá, empurrados que somos, caso venhamos a insistir nos jazigo impresso do papel-jornal, à silenciosa militância do rodapé e dos quadradinhos exíguos de mil e quinhentos caracteres, é de que nós podemos nos divertir um bocado escrevendo críticas do mais alto nível de competência ainda que nesse pequenino terreiro.

Burgess é um mestre consumado. Ele consegue escrever deliciosas resenhas de alguns dos romances mais casca-grossa do século passado, por exemplo Gravity's Rainbow ou (abram alas) o Finnegans Wake. Mas mesmo quando ele fala do mais inocente dos romances (por exemplo Goldfinger, de Ian Fleming), ele ainda assim consegue sacadas divertidíssimas, ele consegue insuflar em você uma vontade doida de ler aquele livro que faz com que aquela lista, singela, de 99 romances de algum modo se torne a mais nova lista dos 99 livros pra se ler antes de morrer. Só que, claro, sem todo aquele tom de imposição e aquele espírito de porco que no geral guiam esse tipinho infeliz de livro. Não é uma coisa de "consuma isso daqui ou pereça nos acidentados arquipélagos da ignorância". Burgess te deixa encantado usando-se, para tanto, da ferramenta simples e única de um coração de leitor absolutamente jovial. Sobre Portnoy's Complex, por exemplo, a primeira frase é essa pérola aqui, ó:

This is the novel which is said to do for masturbation what Melville did for the whale.

A resenha podia acabar aí que pronto: eu mesmo já estaria abrindo uma nova aba no navegador pra parcelar em duas vezes sem juros esse livro. Ou então, resenhando o magnífico Pale Fire de Nabokov, Burgess abre seu texto com uma frase que muito me inveja, tamanha é sua argúcia e precisão:

This looks like the work of a man who has seen the world and despises it: only the most ingrown scholarship seems to remain.

O duplo movimento que parece permear a estrutura de Pale Fire, entre a (suposta, porque eu mesmo não vejo nada disso) beleza do poema de John Shade e a obtusidade dos longos e insinuantes comentários de Kinbote está toda resumida nesta única frase de Burgess, um sinal de dois pontos demarcando terreno com imponência.

Para tentar ser um pouco mais claro a respeito do que estou dizendo, vamos pincelar um exemplo. A meu ver, a obra-prima de todo o livro: a resenha de At Swim-Two-Birds de Flann O'Brien, publicado em 1939. Não, eu nunca li o livro, o que faz de meu testemunho (e digo isso antes mesmo que você abra a boca) algo muito mais confiável, quer dizer, eu vou simplesmente tentar explicar por que cargas d'água acho que a resenha consegue cumprir com galhardia a função milenar da crítica com tanto sucesso: convencer pessoas a comprar livros.

Flann O'Brien was an Irish journalist, Gaelic scholar and dedicated drinker whose real name was Brian O'Nolan.

As coisas vão indo bem. Jornalista irlandês e acadêmico galês é muito formal. Ou isso é o obituário de alguém ou é o início de algum artigo acadêmico. Mas então: dedicated drinker. Não só a informação de que o autor curtia umas bebidas aqui e acolá logo após duas informações mais sérias, por assim dizer (o nome do dito cujo, o verdadeiro nome no final e, no meio, o bom e velho was an). O adjetivo, por favor: dedicated. As coisas vão indo bem.

Of his very few books, The Hard Life and The Darlkey Archive are slight but funny, and The Third Policeman is a vision of hell which does not quite come off, but At Swim-Two-Birds is probably a master piece. Philip Toynbee, the novelist and critic, once said: "If I were cultural dictator ... I would make At Swim-Two-Birds compulsory reading in all our universities." Joyce said of Flann O'Brien: "There's a real writer with the true comic spirit." This book owes something to Joyce, but this may mean merely that both Joyce and O'Brien were Irish.

Um olhar para a produção geral do autor mostra que estamos diante de um crítico que tem cacife pra dizer: "is probably a master piece." Esse tipo de coisa convence, assim como as próximas citações também o fazem. Argumentos de autoridade não caem bem no debate político ou no jogo do amor, mas quando o assunto é escrever resenhas, você pode usá-los sem dó nem piedade, às vezes fazendo uma inteirinha só naquele tipo de retaguarda covarde de se escudar atrás do que a Grande Crítica (lembre-se das maiúsculas, lembre-se das maiúsculas) já disse sobre o assunto. E, claro, sem se esquecer da palavra "aclamado" semeada em seu texto como se aquilo ali fosse uma plantação caseira de hortaliças. Mas note: de Philip Toynbee foi necessário dizer "the novelist and critic". De Joyce, nada. Pelo contrário: depois de citar Joyce (uma citação que, convenhamos, é muito menos divertida que a de Toynbee), Burgess se viu na necessidade até de dizer se o livro deve alguma coisa a Joyce. É o peso do nome. Joyce não só como um escritor consolidado, como, também (e qualquer pessoa que já leu Joyce saberá te dizer isso com todas as letras), um mestre do humor. Se Joyce disse que aquele cara é engraçado, pode ler sem culpa: ele vai te fazer trabalhar o abdômen de tanto rir.

The book is sometimes difficult, but it is no literary heavyweight. It is even, which Joyce's work is not, whimsical.

Whimsical: caprichoso. Ainda continuamos com Joyce, mas este já é um novo parágrafo e estamos, agora, de olho no livro em si: is sometimes; but it is no.

The narrator is an Irish student who, when not lying in bed or pub-crawling, is writing a novel about a man named Trellis who is writing a book about his enemies who, in revenge, are writing a book about him. The book is a book about writing a book about writing a book.

Esse eu classifico como o ápice. Resumir o enredo é, via de regra, a única coisa que os resenhistas de hoje em dia conseguem. Resumir o enredo é tudo. O que é normal, pois os leitores comuns querem saber é disso mesmo ― a produção é tão massificada que a única coisa que muda, se brincar, são os trejeitos e os litros de silicone da modelo que escolheram pra botar na capa. Mas Burgess capta o espírito cômico do livro. Ele resume o imbróglio todo e o expõe de maneira hilária. Ele está brincando, ele está te convencendo. Se você riu do livro só com base no resumo, imagine só o que o livro em si não guarda.

This is a very modern (compare the Argentine Borges) in that it does not pretend that literature is reality.

Você riu, mas agora está sendo contextualizado. Paralelos bem montados: com a literatura moderna e com Borges, capitaneados pela explicação de que isso de ser moderno é não pretender que literatura seja realidade. A resenha chega até mesmo a nos ensinar alguma coisa. Ficamos aliviados.

The student-narrator is interested not merely in literature but in Irish mythology, which enables him to bring in Finn MacCool (Joyce's Finnegan) and indulge in comic-heroic language which sounds as though it is translated from the Erse: "The knees and calves to him, swealed and swathed with soogawns and Thomond weed-ropes, were smutted with dungs and dirt-daubs..."

Erse: irlandês gaélico. O paralelo com Joyce se avoluma. Não sabemos direito como é o romance, mas é o tipo de trecho que consegue comprovar bem o ponto. Quase como uma dança, isso daí, todas essas aliterações, esse ritmo, essa sonoridade... O livro é mais do que engraçado. Estamos no final do parágrafo, e antes o resenhista advertira: The book is sometimes difficult. Isso seria o quê, então? Uma prova? Quem sabe. Uma maneira de ampliar o paralelo com Joyce, um escritor espirituoso e ao mesmo tempo um virtuose nos efeitos linguísticos? Quem sabe. Burgess deu três passos nesse parágrafo todo: primeiro o enredo; depois a linguagem e, junto com a linguagem, o substrato mítico. E veja só quanta coisa ele conseguiu.

Flann O'Brien discovered a new way of counterpointing myth, fiction and actuality through the device of a sort of writer's commonplace-book. There is no sense of recession, of one order of reality ― myth or novel or narration ― lying behind another: all are on the same level of importance, and this is what gives the contrapuntual effect. The scope of fiction is both extended and limited ― limited as to action (not much happens, though plenty is heard about) but extended as to technique.

Um parágrafo desses já é um ensaio de interpretação da obra diante de nós. Isso do efeito de contra-ponto, isso do escopo da ficção estendido e limitado... Nós nem sequer conhecemos a obra e já somos apresentados a seu mecanismo interno. Parece existir aqui um tipo de confiança por parte do resenhista em apresentar uma obra que vale a pena ser lida ao mesmo tempo em que abre seu capô e nos dá algumas noções avançadas de como aquilo ali funciona.

It is a very Irish book and very funny. But it still awaits the popularity it deserves.

O típico desfecho de resenha. Como todos sabemos, a maneira mais prática de você ir direto ao assunto e saber se o livro resenhado é bom ou ruim, é pular direto pro final e contar as estrelas ou ler as frases finais. Aqui primeira é um tanto quanto infantil: a very Irish book and very funny (em especial graças à repetição desse very). Embora o livro se encontre hoje publicado pela Penguin, na coleção de clássicos, estamos há 32 anos de distância desta obra e até hoje nem sinal de uma popularidade ou de uma importância que seja. O que não vem exatamente a ser o caso. Pode ser que passemos outros 32 anos sem darmos a tal da atenção pedida por Burgess. Isso não quer dizer que o crítico estava errado, certo. Certeza, aliás, só pode provir disso: ele se divertiu com aquele livro, aquele é um livro de sua preferência. E ele plantou um pouco desse entusiasmo em nós. Isso, passe o tempo que for, não mudará.

Comentários