Agora sim:

quem quiser se conspurcar no lodaçal político, está permitido. Não vou me ressentir ― pelo menos não tanto quanto ao ver a capa da Gazeta do Povo, aqui, reduzindo as comemorações em homenagem a nossos melhores amigos (amigos retangulares, amarelados, com línguas roxas saindo das folhas roídas de traças) a um trocadilhozinho (mais um!) que ressoa nas catacumbas de reuniões de pauta e a um rodapé condescendente. (Minha fúria quase chegou a ponto de ir à luta e criar um abaixo-assinado no Avaaz criminalizando a conduta do jornal.) Apenas entendam: 21 de abril foi aniversário da Hilda Hilst, 22 do Nabokov e 23 do Shxpr, Cervantes e Jorge de Lima. Ninguém realmente espera que esses lábios de declamar Soneto de Fidelidade vão ficar cuspindo em pessoas no meio do restaurante, né? Mas hoje eu deixo. É aniversário do Sarney. Pode se esbaldar. Se quiser falar da literatura dele também, vou ficar emocionado com sua sensibilidade literária. Posso até mesmo anuir com a cabeça a cada quinze segundos enquanto ouço a ladainha de sempre ― de que quando corcundas montados em carros de som badalam os sinos políticos em praça pública, é dever cívico de todos tomar partido e cunhar cartazes, inaceitáveis sendo, portanto, as horas desperdiçadas com a fragata dos livros literários, mesmo sabendo que essas horas somente surgem no áspero silêncio das madrugadas e desconfiando, até, que política não se faz sem um instante de serenidade, que política não se faz abarrotando-se de editoriais e que a política, meus amigos, não se cala: ela às vezes transborda, simplesmente.

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